Segundo a Cabalá, existem diferentes ciclos de renovação espiritual do mundo. Há uma renovação diária, associada ao ciclo do nascer e do pôr do sol; uma renovação mensal, marcada pelo surgimento da lua nova em Rosh Chodesh; e uma renovação anual, em Rosh Hashaná.
Mas a renovação de Rosh Hashaná é considerada diferente das demais. Os ciclos dos dias e dos meses podem ser comparados a batimentos cardíacos: cada um é distinto, mas todos fazem parte de um movimento contínuo. Em Rosh Hashaná, porém, a renovação ocorre em um nível mais profundo, como se um ciclo inteiro chegasse ao fim para que uma realidade nova pudesse começar.
Essa concepção ajuda a explicar por que Rosh Hashaná significa literalmente “cabeça do ano”, e não simplesmente “primeiro dia do ano”. Assim como a cabeça orienta o restante do corpo, Rosh Hashaná estabelece espiritualmente a direção do período que está começando.
No Judaísmo, a oração é chamada de “serviço do coração”. Após a destruição do Templo Sagrado de Jerusalém, as preces passaram a ocupar o lugar central que antes cabia ao serviço realizado no Templo, especialmente às oferendas.
Por isso, a sinagoga é chamada pelos Sábios de Mikdash Me’at — um “pequeno Santuário”. Ao rezar, não recitamos apenas palavras: realizamos uma forma de Avodá, o serviço Divino que, em outros tempos, era desempenhado pelos Cohanim no Templo. Essa ideia atribui uma dimensão especial às orações diárias. Mesmo sem o Templo Sagrado, cada pessoa pode transformar a própria oração em um ato de serviço a D’us e fazer de sua ligação com Ele uma parte concreta da vida cotidiana.
Ao término de Yom Kipur, fazemos Havdalá, como ocorre na saída do Shabat. Há, porém, uma diferença interessante: não recitamos a bênção sobre os aromas, os bessamim.
A Havdalá marca o encerramento de Yom Kipur e a passagem do período sagrado para os dias comuns. A ausência da bênção dos bessamim é uma das particularidades que distinguem essa Havdalá daquela que normalmente realizamos ao término do Shabat.
Assim, até mesmo os últimos momentos de Yom Kipur possuem leis próprias. Depois de um dia dedicado ao jejum, à oração e à Teshuvá, a Havdalá assinala formalmente seu encerramento e nosso retorno à rotina cotidiana.
Os sons do Shofar em Rosh Hashaná não são todos iguais. A Tekiá é um toque longo e contínuo, enquanto a Teruá é formada por uma sequência de sons breves e interrompidos. O Talmud associa a Teruá ao som do choro.
Esse som fragmentado pode representar o coração de uma pessoa que olha para o ano que passou e percebe oportunidades desperdiçadas, erros cometidos e tudo aquilo que ainda precisa transformar. Segundo os ensinamentos cabalísticos, os sons semelhantes a um pranto expressam também o anseio da alma por se aproximar de D’us, crescer e realizar seu potencial.
Mas as lágrimas simbolizadas pelo Shofar não representam desespero. Seu propósito é provocar mudança. Como ensina o versículo dos Salmos, aqueles que “semeiam em lágrimas” colherão com alegria. O desafio de Rosh Hashaná é, portanto, transformar o despertar e a emoção provocados pelo Shofar em ações positivas no ano que se inicia.
O dia 18 de Elul, conhecido como Chai Elul, possui significado especial na história do Chassidismo. Foi nessa data, no ano de 1698, que nasceu o Baal Shem Tov.
Exatamente 36 anos depois, também em 18 de Elul, ele saiu da reclusão em que vivia e começou a divulgar publicamente seus ensinamentos. A partir de então, passou a viajar entre comunidades, aproximando-se de pessoas de todas as condições sociais e levando-lhes sua mensagem de fé, esperança e alegria.
Assim, a mesma data passou a marcar dois momentos decisivos de sua trajetória: seu nascimento e o início de sua missão pública. Chai significa “vida” em hebraico — associação que tornou Chai Elul especialmente simbólico para um movimento que procurou insuflar nova vitalidade espiritual no Povo Judeu.
A primeira estrofe após o refrão do Lechá Dodi começa com as palavras Shamor veZachor — “Guarda e Recorda”. Elas se referem às duas formas pelas quais a Torá apresenta o mandamento do Shabat nos Dez Mandamentos.
Shamor — “Guarda” — refere-se à obrigação de preservar a santidade do Shabat, abstendo-se das atividades proibidas. Zachor — “Recorda” — refere-se aos mandamentos positivos do dia, como o Kidush, a oração, o estudo da Torá, o descanso e as refeições festivas.
O Talmud ensina algo extraordinário: embora Shamor e Zachor apareçam separadamente na Torá, D’us pronunciou as duas palavras simultaneamente no Monte Sinai, de uma maneira que o ser humano seria incapaz de reproduzir. A mensagem é que os dois aspectos do Shabat são inseparáveis: guardar o dia e santificá-lo por meio de ações positivas fazem parte de uma única experiência.
Assim, logo no início do Lechá Dodi, somos lembrados de que viver plenamente o Shabat significa tanto nos afastarmos do cotidiano quanto preenchermos o dia com santidade, alegria e aproximação com D’us.
Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, em Rosh Hashaná não se confessam pecados. A ênfase principal das orações do dia não está em enumerar nossas transgressões, mas em reconhecer D’us como Rei, recordar Sua Providência e pedir que o novo ano seja marcado por vida, bênção e paz.
O arrependimento e a confissão tornam-se mais explícitos ao longo dos Dez Dias de Teshuvá, culminando em Yom Kipur. Em Rosh Hashaná, porém, o foco central é estabelecer a direção espiritual do ano que começa: reconhecer o governo de D’us e refletir sobre a missão que desejamos cumprir.
Por isso, mesmo sendo o Dia do Julgamento, Rosh Hashaná é celebrado com júbilo e esperança. A reverência diante de D’us não é incompatível com a alegria — ela nasce justamente da confiança em Sua bondade e da possibilidade de iniciar um novo ano mais próximos d’Ele.
Nossos Sábios ensinam que, durante os Dez Dias de Teshuvá, cada boa ação pode assumir um significado ainda mais especial. Maimônides ensina que a pessoa deve imaginar a si própria e o mundo inteiro como se estivessem perfeitamente equilibrados em uma balança: uma única boa ação poderia inclinar essa balança para o lado do mérito, trazendo redenção e salvação para si e para o mundo.
Essa perspectiva ensina que ninguém deve considerar suas ações pequenas ou insignificantes. Uma mitsvá, um ato de Tzedacá, uma oração ou um gesto de bondade pode ter consequências muito maiores do que conseguimos perceber.
Por isso, nos dias entre Rosh Hashaná e Yom Kipur, existe uma ênfase especial em aumentar a prática de boas ações, a Tzedacá e o cumprimento das mitsvot. A mensagem é poderosa: cada pessoa deve agir como se suas escolhas pudessem fazer a diferença não apenas em sua própria vida, mas também no destino do mundo.
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