Nos séculos 20 e 21, nenhuma cidade da Diáspora judaica expressou, com tanta FORÇA, a vitalidade, a criatividade e as contradições da experiência judaica moderna quanto Nova York. Ainda hoje, a cidade permanece como um dos mais importantes centros da vida judaica no mundo, abrigando uma das comunidades mais influentes, diversas e institucionalmente sólidas da Diáspora.
A cidade que, no século 17, recebera um pequeno grupo de judeus sefaraditas transformou-se, no século 20, na maior concentração judaica fora da Terra de Israel. Em Nova York, assim como no restante dos Estados Unidos, os judeus encontraram oportunidades que lhes haviam sido negadas em grande parte da Europa. Mais do que integrar-se à sociedade americana, eles contribuíram decisivamente para moldá-la, enquanto desenvolviam uma cultura judaico-americana singular – profundamente americana, mas também intensamente judaica.
No entanto, apesar das conquistas alcançadas pelos judeus norte-americanos em todos os campos, o antissemitismo jamais desapareceu. Ao longo do século 20, alternou-se entre formas mais veladas e manifestações mais abertas, ressurgindo com particular virulência em momentos de tensão social e política. No século 21 – especialmente após o ataque terrorista perpetrado pelo Hamas em 7 de outubro de 2023 – passou a assumir novas formas, recorrendo a novos discursos e justificativas para se tornar socialmente aceitável. Em muitos casos, encontrou no antissionismo uma linguagem de legitimação.
Para a comunidade judaica nova-iorquina, a eleição de Zohran Mamdani para a prefeitura de Nova York, em 2025, representou um sinal preocupante do deslocamento do debate político local em relação a Israel, ao Sionismo e à própria identidade judaica.
O maior centro judaico urbano do mundo
A partir das últimas décadas do século 19, Nova York consolidou-se como o maior centro judaico urbano do mundo. Ondas sucessivas de judeus vindos da Alemanha, do Império Austro-Húngaro e do Leste Europeu estabeleceram-se na cidade. A maioria fugia de pogroms, pobreza, restrições legais e exclusão social. Para esses imigrantes, os Estados Unidos – e Nova York, em especial – representavam a possibilidade de realizar o sonho americano sem abrir mão da identidade judaica, desfrutando de uma liberdade e de oportunidades inexistentes na maior parte da Europa.
Essa liberdade, porém, tinha um preço: apartamentos superlotados, longas jornadas de trabalho e baixos salários. Ainda assim, para aqueles imigrantes, a vida em Nova York oferecia perspectivas muito mais promissoras do que a realidade que haviam deixado para trás.
Em 1920, cerca de 1,6 milhão de judeus viviam em Nova York. Eles trouxeram consigo diferentes tradições religiosas, novas ideias e a esperança de um futuro melhor. Na cidade conviviam judeus assimilados, ortodoxos, chassídicos e integrantes do movimento Conservador e Reformista, ao lado de intelectuais, artistas, cientistas, operários, militantes trabalhistas e pequenos comerciantes.
Entretanto, nessa mesma década, as portas dos Estados Unidos começaram a se fechar. Alarmado com o crescimento da imigração e influenciado pelo nativismo – corrente que favorecia os habitantes nativos em detrimento dos imigrantes – e pelas teorias raciais então em voga, o Congresso aprovou as leis de imigração de 1921 e 1924. A Lei Johnson-Reed, de 1924, reduziu drasticamente a entrada de imigrantes provenientes do Sul e do Leste europeu, entre eles um grande contingente de judeus. À medida que a Europa caminhava para a Shoá, as possibilidades de judeus encontrarem refúgio nos Estados Unidos tornavam-se cada vez menores.
Com o fim da era da imigração em massa, os judeus nascidos em Nova York passaram a ocupar o centro da vida judaica da cidade. Falavam inglês, embora muitos preservassem o iídiche, frequentavam escolas públicas e universidades, participavam da vida política e cultural do país e viam seu futuro como parte integrante da sociedade americana.
A educação tornou-se um dos principais instrumentos de mobilidade social. Para muitas famílias, formar um médico ou um advogado simbolizava a realização do sonho americano. Instituições como o City College of New York, o Brooklyn College, a Columbia University e a New York University formaram gerações de profissionais e intelectuais. Em poucas décadas, os judeus passaram a integrar a identidade multicultural da cidade. Em Nova York, era possível viver de forma inteiramente secular sem romper com a própria identidade judaica, participando ativamente da vida cultural, das instituições comunitárias e de suas iniciativas filantrópicas.
Embora o antissemitismo nunca tivesse desaparecido, no início do século 20 se tornou mais “organizado” entre setores da elite anglo-americana. Aos antigos estereótipos religiosos somaram-se acusações ligadas ao suposto poder econômico judaico e à crescente presença dos judeus nas universidades, nas profissões liberais e no comércio.
A discriminação se manifestava de diversas formas. Os judeus eram excluídos de clubes privados, hotéis, bairros residenciais, hospitais, escritórios de advocacia e outros espaços de prestígio. Muitos estabelecimentos deixavam claro que judeus não eram bem-vindos, enquanto universidades de elite adotavam sistemas de cotas destinados a limitar sua admissão.
Essas barreiras também estimularam o fortalecimento de uma ampla rede de instituições comunitárias, educacionais, filantrópicas e culturais. Sinagogas, escolas, hospitais, centros comunitários, organizações beneficentes e associações profissionais passaram a constituir os pilares da vida judaica em Nova York.
A cultura iídiche
Apesar da crescente “americanização” dos judeus nova-iorquinos, a cultura iídiche continuava ocupando lugar central na vida comunitária. Seu principal núcleo permanecia no Lower East Side, mas também florescia em Brownsville, Williamsburg, no Bronx e no chamado Harlem judaico. Nesses bairros falava-se iídiche e frequentavam-se cafés, clubes e associações onde se discutia política, religião, Sionismo, sindicalismo e os desafios da integração à sociedade americana.
O teatro iídiche tornou-se uma das expressões mais vibrantes dessa cultura. A Segunda Avenida, conhecida como a “Yiddish Broadway”, reunia teatros como o Thalia Theatre, o People’s Theatre, o National Theatre e, posteriormente, o Yiddish Art Theatre. Mais do que espaços de entretenimento, esses palcos funcionavam como centros de convivência e integração cultural, onde a língua, a memória e a identidade judaicas eram preservadas e renovadas.
Entre seus principais nomes destacaram-se Jacob P. Adler, Boris Thomashefsky, Bessie Thomashefsky, Maurice Schwartz e Molly Picon. Comédias, melodramas e musicais exploravam os dilemas da imigração: o conflito entre pais tradicionais e filhos americanizados, os casamentos arranjados, a pobreza, a ascensão social e o choque entre o Velho e o Novo Mundo. Espetáculos como Dos Pintele Yid e, mais tarde, Yoshe Kalb tornaram-se marcos do teatro iídiche.
A cultura judaica popular também conquistou o rádio. Em 1929, estreou na NBC The Goldbergs, criada por Gertrude Berg, uma das primeiras séries a retratar o cotidiano de uma família judaica americana para o grande público. Ambientada no Bronx, tornou-se um marco da presença judaica na cultura de massa dos Estados Unidos e contribuiu para aproximar a experiência judaica do público americano.
A literatura, a imprensa, o teatro e o rádio ajudaram imigrantes e seus descendentes a preservar sua identidade enquanto se integravam à sociedade americana, contribuindo decisivamente para a formação da identidade cultural da cidade.
A Grande Depressão
A situação econômica da comunidade judaica de Nova York deteriorou-se rapidamente após o crash de Wall Street, em 1929. A crise atingiu duramente pequenos comerciantes, operários e imigrantes recém-chegados. Milhares de judeus perderam seus empregos. Em uma economia marcada pelo desemprego e pela retração dos investimentos, encontrar trabalho tornou-se cada vez mais difícil.
A situação se agravou com a falência do Bank of United States, em dezembro de 1930. Apesar do nome, tratava-se de um banco privado de Nova York, amplamente utilizado por imigrantes e pequenos comerciantes, entre eles muitos judeus. Seu colapso destruiu as economias de milhares de famílias e privou inúmeros pequenos negócios do acesso ao crédito, tornando-se um dos episódios financeiros mais traumáticos da Grande Depressão para a comunidade judaica nova-iorquina.
Diante das dificuldades, a comunidade organizou uma ampla rede de solidariedade. Associações de auxílio mútuo, cooperativas, sindicatos, organizações filantrópicas e instituições comunitárias ampliaram a assistência aos mais atingidos pela crise. Muitos judeus atuaram no movimento trabalhista, defendendo melhores condições de trabalho e contribuindo para a integração econômica e política de milhares de imigrantes.
A década de 1930
A comunidade judaica americana atravessou a Grande Depressão em meio à insegurança econômica e ao recrudescimento do antissemitismo. Em um período marcado pelo desemprego e pela escassez de recursos, os imigrantes e seus descendentes – entre eles muitos judeus – passaram a ser vistos como concorrentes por empregos, crédito e assistência pública.
Mitos, estereótipos e teorias conspiratórias antissemitas ganharam força na imprensa, na política e em parte da sociedade. Os judeus eram responsabilizados, de forma contraditória, tanto pelos males do capitalismo quanto pelo comunismo, tornando-se bodes expiatórios para as dificuldades provocadas pela crise econômica.
Em Nova York, onde vivia a maior comunidade judaica do mundo, o antissemitismo manifestava-se tanto nas ruas quanto nas instituições. Houve confrontos entre jovens judeus e grupos de jovens católicos em bairros como o Bronx e o Brooklyn, enquanto organizações pró-nazistas promoviam reuniões e distribuíam material de propaganda.
A discriminação também assumia formas mais sutis. Universidades impunham cotas informais para limitar a admissão de estudantes judeus, enquanto hotéis, clubes sociais, resorts e bairros residenciais restringiam o acesso aos judeus.
Entre os principais propagadores do antissemitismo destacou-se o padre católico Charles Coughlin. Uma das figuras públicas mais influentes da década de 1930, seu programa de rádio alcançava milhões de ouvintes. Em seus discursos, acusava os judeus de controlar Wall Street e de serem responsáveis pela Revolução Bolchevique. Em seu jornal, Social Justice (Justiça Social), publicou trechos de Os Protocolos dos Sábios de Sião, uma falsificação que alegava revelar um suposto plano judaico de dominação mundial. Também minimizava a perseguição aos judeus promovida pelo regime nazista. Organizações judaicas denunciavam repetidamente suas declarações.
Ao mesmo tempo, grupos como a German-American Bund ampliaram suas atividades, promovendo manifestações e propaganda favorável ao Nazismo. Embora não tenham conquistado apoio significativo, provocaram grande preocupação entre os judeus. A resposta da comunidade judaica foi a mobilização política e o fortalecimento de organizações dedicadas a combater o Nazismo e a prestar assistência aos judeus da Europa.
A chegada de Adolf Hitler ao poder, em 1933, mobilizou os judeus americanos, especialmente em Nova York. Multiplicaram-se os protestos, as campanhas de boicote a produtos alemães e as iniciativas de conscientização sobre a perseguição aos judeus na Alemanha. O rabino Stephen S. Wise destacou-se como uma das principais lideranças dessa mobilização, denunciando o Nazismo e procurando sensibilizar a opinião pública americana para a gravidade da perseguição aos judeus.
Em 1938, a crise dos refugiados judeus tornara-se dramática. Apesar da perseguição nazista aos judeus alemães e austríacos, os Estados Unidos mantiveram rígidas cotas migratórias. Entre 1933 e 1941, apenas cerca de 110 mil judeus conseguiram entrar nos EUA vindos de territórios dominados pelos nazistas. A resistência americana à entrada de refugiados judeus não resultou apenas da Lei de Cotas; foi agravada por uma cultura institucional, em setores do Departamento de Estado, marcada por nativismo, desconfiança contra estrangeiros e antissemitismo. A Divisão de Vistos transformou exigências administrativas em obstáculos quase intransponíveis, retardando ou impedindo a chegada de milhares de judeus que tentavam escapar da Europa nazista.
Em 1938 e 1939, Nova York assistiu à intensificação das atividades de grupos pró-nazistas. Em 20 de fevereiro de 1939, um episódio chocou a comunidade judaica nova-iorquina: a German-American Bund realizou um grande comício no Madison Square Garden, reunindo mais de 20 mil simpatizantes diante de bandeiras americanas e símbolos nazistas.
A 2a Guerra Mundial e a Shoá
Durante a 2ª Guerra Mundial, Nova York tornou-se o principal centro de mobilização política e humanitária em defesa dos judeus europeus. À medida que chegavam aos Estados Unidos notícias sobre perseguições, guetos e deportações – e, a partir de 1942, sobre fuzilamentos em massa e campos de extermínio –, eram recebidas com incredulidade e sensação de impotência. Para os judeus nova-iorquinos, a tragédia atingia familiares, amigos e as comunidades de onde muitos haviam emigrado poucas décadas antes.
Em 1940, o YIVO Institute for Jewish Research, fundado em Vilna em 1925, transferiu sua sede para Nova York, preservando assim parte de seus arquivos, bibliotecas e pesquisas, que, de outra forma, provavelmente teriam sido destruídos durante a Shoá. A mudança simbolizou a transferência do principal centro da vida intelectual judaica da Europa Oriental para os Estados Unidos.
Após o ataque japonês a Pearl Harbor, em dezembro de 1941, os Estados Unidos entraram na 2ª Guerra. Cerca de 550 mil judeus americanos serviram nas Forças Armadas, entre eles milhares de nova-iorquinos. Enquanto combatiam no exterior, suas famílias acompanhavam com angústia as notícias vindas da Europa, ainda sem conhecer a verdadeira dimensão da Solução Final engendrada pela Alemanha nazista.
Em Nova York, instituições como o American Jewish Committee, o American Jewish Congress, o American Jewish Joint Distribution Committee (JDC), o Jewish Labor Committee, organizações sionistas, sindicatos, jornais em inglês e em iídiche, além de rabinos, intelectuais e artistas, mobilizaram-se para socorrer refugiados e denunciar os crimes nazistas.
No verão de 1942, chegaram aos Estados Unidos as primeiras informações confiáveis sobre o extermínio sistemático dos judeus europeus. O rabino Stephen S. Wise recebeu essas informações por meio de canais diplomáticos e se tornou uma das principais vozes na tentativa de convencer o governo de Franklin D. Roosevelt e a opinião pública americana da dimensão da catástrofe.
A frustração diante da limitada reação do governo levou intelectuais e ativistas a organizar campanhas de grande repercussão. Em fevereiro de 1943, Ben Hecht, um dos maiores roteiristas cinematográficos da “era de ouro” de Hollywood, publicou no The New York Times o célebre anúncio “For Sale to Humanity: 70,000 Jews” (Em tradução livre, À venda para a humanidade: 70 mil judeus), denunciando a passividade das potências aliadas diante da possibilidade de salvar milhares de judeus da Romênia. Poucas semanas depois, em 9 de março, seu espetáculo We Will Never Die (Jamais Morreremos), organizado em colaboração com o Grupo Bergson, reuniu cerca de 40 mil pessoas no Madison Square Garden e percorreu outras cidades americanas, tornando-se uma das mais importantes manifestações em favor do resgate dos judeus durante a guerra.
Em outubro de 1943, cerca de 400 rabinos ortodoxos participaram da Marcha dos Rabinos, em Washington D.C., pedindo ao presidente Roosevelt medidas imediatas para salvar os judeus europeus. Embora seus participantes não tenham sido recebidos na Casa Branca, a manifestação contribuiu para ampliar a pressão sobre o governo americano.
Apenas em janeiro de 1944, após forte pressão do Departamento do Tesouro, liderado por Henry Morgenthau Jr., foi criado o War Refugee Board. O órgão passou a financiar operações de resgate, prestar assistência humanitária e apoiar redes de proteção em diversos países europeus, contribuindo para salvar dezenas de milhares de vidas.
Quando a guerra terminou, em 1945, cerca de seis milhões de judeus haviam sido exterminados. Para os judeus de Nova York, a vitória sobre o Nazismo foi acompanhada pelo luto diante da destruição das comunidades que haviam dado origem a grande parte da imigração judaica para os Estados Unidos. A partir de então, Nova York consolidou-se como o principal centro da vida judaica da Diáspora, desempenhando papel decisivo na reconstrução das instituições judaicas do pós-guerra e no acolhimento dos sobreviventes.
Pós-guerra
No pós-guerra, a luta pela criação de um lar nacional judaico na Palestina sob Mandato Britânico mobilizou a comunidade judaica de Nova York. Para muitos sobreviventes e seus familiares, a Shoá reforçou a convicção de que somente um Estado Judeu soberano poderia garantir a segurança e a continuidade do Povo Judeu. O sentimento de impotência diante do Holocausto transformou-se em um vigoroso movimento de apoio ao Sionismo. Recursos financeiros, esforços políticos e iniciativas comunitárias que, por inúmeros motivos, não haviam conseguido salvar os judeus da Europa, passaram a se concentrar na construção de um Estado judeu em Eretz Israel.
Em 29 de novembro de 1947, quando a Assembleia Geral das Nações Unidas, reunida em Nova York, aprovou a Partilha da Palestina em dois Estados (um judeu e outro árabe), milhares de judeus saíram às ruas da cidade para celebrar aquele momento histórico.
A Proclamação da Independência de Israel, em 14 de maio de 1948, foi recebida com enorme entusiasmo. Sinagogas realizaram cerimônias especiais, organizações comunitárias promoveram manifestações públicas, multiplicando-se as campanhas de arrecadação de recursos e de apoio político ao novo Estado.
Criado em 1939, o United Jewish Appeal (UJA) tornou-se o principal instrumento dessa mobilização. Inicialmente dedicado ao auxílio aos refugiados judeus e aos sobreviventes da guerra, o UJA passou a apoiar a imigração para Israel, o reassentamento dos sobreviventes da Shoá e o fortalecimento das instituições do novo Estado. Em 1948, sua campanha nacional arrecadou cerca de 150 milhões de dólares – um recorde para a época – graças à contribuição de mais de um milhão de doadores em todo o país. No centro desse extraordinário esforço filantrópico e político estava Nova York.
Polo cultural, intelectual e artístico
Após a 2ª Guerra Mundial, Nova York era o maior centro demográfico judaico do mundo, e o principal polo cultural, intelectual e artístico da Diáspora judaica.
A geografia judaica de Nova York, porém, havia mudado. O Lower East Side, símbolo da imigração iídiche, perdeu centralidade. Muitos judeus mudaram-se para Queens, Long Island, Westchester, Nova Jersey e outros subúrbios, enquanto o Brooklyn manteve sua importância judaica. Manhattan, por sua vez, permaneceu como centro institucional, financeiro, cultural e filantrópico. Essas mudanças produziram uma comunidade mais dispersa, mas também mais diversificada.
A destruição das grandes comunidades judaicas da Europa Oriental deslocou para Nova York o principal centro da vida intelectual da Diáspora, reunindo escritores, artistas, acadêmicos, músicos e instituições que moldariam a cultura judaica contemporânea.
Em 1947, o The Jewish Museum foi aberto ao público em sua nova sede, a mansão Warburg. A instituição tornou-se uma referência na preservação e na exposição da arte e da cultura judaicas. Ao mesmo tempo, centros de pesquisa como o YIVO Institute for Jewish Research e o Jewish Theological Seminary consolidaram Nova York como referência internacional para os estudos judaicos e a preservação da memória da Shoá.
A cidade também se tornou o maior centro editorial judaico do mundo. Editoras, jornais e revistas em inglês e em iídiche difundiam literatura, estudos judaicos, bíblicos e talmúdicos, além de notícias da vida judaica internacional, enquanto intelectuais refugiados da Europa encontravam em Nova York um ambiente propício para dar continuidade à produção cultural interrompida pela guerra.
A Broadway viveu um período de extraordinário florescimento, impulsionado por compositores, letristas, coreógrafos e produtores judeus como Richard Rodgers, Leonard Bernstein, Stephen Sondheim, Jerome Robbins e Harold Prince, responsáveis por alguns dos musicais mais influentes da história do teatro americano.
A literatura judaico-americana também alcançou projeção internacional. Nova York reuniu escritores como Saul Bellow, Bernard Malamud, Philip Roth, Cynthia Ozick e Isaac Bashevis Singer; artistas plásticos como Mark Rothko, Barnett Newman, Lee Krasner e Adolph Gottlieb; além de humoristas e cineastas como Mel Brooks, Sid Caesar, Carl Reiner, Joan Rivers e, a partir da década de 1960, Woody Allen, cuja obra exerceu profunda influência sobre a cultura americana.
A vida social da comunidade também encontrou expressão no chamado Borscht Belt, conjunto de hotéis e resorts nas Montanhas Catskill frequentados por milhares de famílias judias de Nova York desde a década de 1920. Criado inicialmente como alternativa aos estabelecimentos que recusavam judeus, o Borscht Belt tornou-se, nas décadas seguintes, um importante espaço de lazer, convivência e afirmação da identidade judaico-americana. Em seus palcos destacaram-se artistas como Mel Brooks, Jerry Lewis, Sid Caesar, Joan Rivers, Rodney Dangerfield e Don Rickles, que contribuíram decisivamente para o desenvolvimento do humor e do entretenimento americanos.
A diversificação de origens
A partir da década de 1970, a comunidade judaica de Nova York, embora ainda majoritariamente asquenazita, passou a refletir uma crescente diversidade de origens, idiomas e tradições.
Essa diversificação foi precedida por uma importante mudança na postura da comunidade judaica americana durante a década de 1960. Naquele período, Nova York tornou-se o principal centro, nos Estados Unidos, da campanha em defesa dos judeus soviéticos. A luta pelos refuseniks – judeus impedidos de deixar a União Soviética – mobilizou estudantes, rabinos, intelectuais, políticos e organizações comunitárias. A partir da década de 1970 e, sobretudo, após o colapso da União Soviética, milhares de judeus provenientes da Rússia, da Ucrânia e de outras repúblicas soviéticas reconstruíram sua vida em Nova York.
No mesmo período, judeus sefaraditas e mizrachim consolidaram sua presença, sobretudo no Brooklyn e em partes do Queens. Sírios, persas, marroquinos, egípcios, israelenses e outros grupos enriqueceram a vida judaica da cidade com novas tradições religiosas, culinárias, linguísticas e culturais. Após a Revolução Iraniana, milhares de judeus deixaram o Irã. Novamente foi a cidade de Nova York que abriu seus braços para receber uma parcela significativa desses imigrantes, fortalecendo a já estabelecida comunidade judaica persa.
Nas décadas de 1980 e 1990, os judeus estavam amplamente integrados à vida política, econômica, acadêmica e cultural da cidade. Sua influência era visível nas finanças, na imprensa, nas universidades, no direito, na medicina, nas artes e no entretenimento, tornando a cultura judaica parte inseparável da identidade nova-iorquina.
No século 21
No século 21, o Estado de Nova York continua abrigando a maior comunidade judaica dos Estados Unidos e uma das maiores do mundo. Segundo o estudo da UJA-Federation of New York, divulgado em 2024 com dados referentes a 2023, a região metropolitana reunia cerca de 1,37 milhão de judeus, dos quais aproximadamente 960 mil viviam na cidade de Nova York.
Atualmente, a cidade de Nova York abriga cerca de 500 sinagogas em funcionamento, a maior concentração de casas de culto judaicas do mundo, fora de Israel. Distribuídas pelos cinco distritos – com destaque para o Brooklyn, onde se concentram numerosas comunidades ortodoxas e chassídicas – elas refletem a extraordinária diversidade religiosa, cultural e étnica da população judaica nova-iorquina.
A comunidade judaica de Nova York caracteriza-se, ao mesmo tempo, pela expansão das comunidades ortodoxas e pela diminuição da identificação denominacional entre muitos judeus não ortodoxos. Aumentou o número de judeus que se definem principalmente por sua identidade cultural, sem vínculo formal com sinagogas ou movimentos religiosos.
A relação com Israel permanece um elemento central da identidade judaica nova-iorquina. Em 2023, antes dos ataques de 7 de outubro, 64% dos judeus declaravam ter uma ligação com Israel. Pesquisas realizadas após os ataques mostraram que esse vínculo se fortaleceu para grande parte da comunidade.
O antissemitismo na forma atual
O antissemitismo voltou a ocupar um lugar central nas preocupações da comunidade judaica de Nova York. Embora jamais tenha desaparecido, tornou-se mais frequente, mais visível e mais violento após os massacres cometidos pelo Hamas
em 7 de outubro de 2023. Em diversos episódios, a hostilidade dirigida a Israel também passou a atingir judeus, independentemente de suas posições políticas: sinagogas foram vandalizadas, estudantes sofreram intimidação, cartazes com fotografias dos reféns israelenses foram arrancados das ruas, judeus ortodoxos foram agredidos e manifestações passaram a incluir palavras de ordem negando a legitimidade do Estado de Israel. Também aumentaram os ataques físicos e outras formas de violência contra judeus.
Hoje, o antissemitismo manifesta-se sob diferentes formas, nas ruas, na mídia e nas redes sociais. Persiste o antissemitismo “tradicional”, associado à extrema direita e baseado em teorias conspiratórias, no negacionismo da Shoá e em mitos sobre o suposto poder judaico. Ao mesmo tempo, setores da extrema esquerda passaram a equiparar o Sionismo ao racismo e a negar ao Povo Judeu o direito à existência do Estado Judeu. Há ainda o antissemitismo promovido por extremistas islâmicos, que saem às ruas para glorificar organizações terroristas, difundir o ódio contra israelenses e judeus e pregar a destruição do Estado de Israel.
Após os massacres de 7 de outubro, as universidades transformaram-se em um dos principais focos de hostilidade contra Israel e o Sionismo. Essa hostilidade atingiu estudantes judeus. A Anti-Defamation League (ADL) registrou 289 incidentes antissemitas em universidades de Nova York em 2024, um aumento de 163% em relação ao ano anterior.
A preocupação com o crescimento do antissemitismo levou muitos judeus nova-iorquinos a evitar determinados locais e eventos por razões de segurança. Entre os judeus ultraortodoxos, facilmente identificáveis por suas vestimentas tradicionais, o receio de agressões nos transportes públicos e nas ruas tornou-se parte da rotina. De acordo com dados da polícia de Nova York, no primeiro trimestre de 2026, aproximadamente 55% dos crimes de ódio registrados na cidade tiveram os judeus como alvo, embora eles representem cerca de 10% da população municipal.
Para a maioria dos judeus nova-iorquinos, a eleição de Zohran Mamdani como prefeito de Nova York, em 2025, representou um sinal preocupante de mudança no clima político da cidade em relação a Israel, ao Sionismo e à identidade judaica. Mamdani jamais procurou ocultar suas posições veementemente hostis ao Estado de Israel e ao Sionismo; ao contrário, fez delas uma das marcas de sua trajetória pública. Sua ascensão à Prefeitura da cidade que abriga a maior comunidade judaica da Diáspora foi recebida por muitos judeus como um sintoma de uma nova e preocupante realidade: a crescente normalização de discursos que, sob a linguagem do antissionismo ou da crítica a Israel, frequentemente ultrapassam o campo político e atingem também os judeus, sua memória histórica e sua ligação nacional, religiosa e afetiva com Israel.
Contudo, apesar dos acontecimentos recentes, Nova York permanece uma das grandes capitais do Povo Judeu. Em 2026, continua sendo uma das comunidades judaicas mais influentes, diversas e institucionalmente robustas do mundo.
1 Os US$ 150 milhões arrecadados em 1948 correspondem a aproximadamente US$ 2 bilhões em valores atuais, considerando a inflação americana.
2 Em tradução livre, “Borscht Belt” significa “Cinturão do Borscht”, referência à tradicional sopa de beterraba dos judeus da Europa Oriental.