Filho de uma linhagem rabínica de Frankfurt, Jacob Schiff esteve à frente da casa bancária Kuhn, Loeb & Co., Transformando-a em uma das mais poderosas instituições do setor, nos EUA. Além disso, fez de sua fortuna um instrumento a serviço do Povo Judeu. financiou, também, ferrovias e, ao proibir a concessão de empréstimos de sua firma ao Império Russo, desafiou o czar e ajudou o Japão durante a guerra contra essa gigantesca potência.
O ensinamento judaico segundo o qual a doação anônima, em sigilo, é uma forma superior de tzedacá explica, em boa medida, a biografia de Jacob Schiff. Embora fosse uma das figuras reconhecidamente de maior influência na comunidade judaica dos EUA nas primeiras décadas do século 20 e dono de uma instituição que rivalizava em importância com a de J. P. Morgan, o banqueiro era conhecido por evitar que seu nome fosse associado às organizações que sustentava. Em décadas de filantropia, financiou a construção de diversos edifícios e apoiou projetos, sobretudo nas áreas de educação e saúde. Entre essas iniciativas, destaca-se o Hospital Montefiore, que Schiff ajudou a fundar, em 1884, e cujo conselho foi presidido por Schiff durante 35 anos. Posteriormente, esse grande benemérito foi homenageado pela instituição, que deu seu nome a um de seus pavilhões.
A trajetória de Jacob Schiff é uma das expressões mais completas de um fenômeno característico da história de nossos correligionários nos EUA: o do imigrante judeu que enriqueceu durante a industrialização do país e se converteu em uma liderança comunitária. O banqueiro não foi apenas um financista de extraordinário talento, mas, na expressão consagrada pelos historiadores, a principal figura do nosso povo nos EUA durante a chamada “era Schiff”, entre aproximadamente 1880 e 1920, ano de falecimento do filantropo.
Frankfurt: o peso de um sobrenome
Jacob Heinrich Schiff nasceu em 10 de janeiro de 1847 em Frankfurt am Main, no seio de uma família que, além de descender de uma antiga e respeitada linhagem rabínica, reunia duas tradições que o acompanhariam por toda a vida: a das finanças e a da Torá. Entre seus antepassados estava o rabino Meir ben Jacob Schiff, o Maharam Schiff, célebre comentarista do Talmud no século 17. Durante gerações, a família viveu na Judengasse, a rua do antigo gueto judaico de Frankfurt. Lá também residiam os Rothschild, em cuja casa bancária Moses Schiff, pai de Jacob, atuava como corretor.
Educado tanto na tradição secular quanto na religiosa, o futuro financista e filantropo estudou na escola da Israelitische Religionsgesellschaft, congregação de Ortodoxia Moderna cujo rabino era Samson Raphael Hirsch. Ali recebeu uma formação que jamais abandonaria. Ao longo de toda a vida, foi um judeu praticante: fazia as orações diárias e reunia a família para celebrar o Shabat, nas noites de sexta-feira, mesmo depois de passar a integrar, nos EUA, um grupo reformista, no Temple Emanu-El de Nova York. Embora pessoalmente afiliado a essa corrente reformista, proveu generosos recursos para o Jewish Theological Seminary, pois estava convencido de que o nascente movimento Conservador oferecia uma via mais adequada para os imigrantes do Leste Europeu. Se a formação religiosa moldou seu caráter, sua aptidão para os negócios manifestou-se igualmente cedo: aos 14 anos, já como aprendiz em uma firma comercial, demonstrava vocação para as finanças.
A América, duas vezes
Encerrada a Guerra de Secessão nos EUA, em 1865, Schiff cruzou o Atlântico pela primeira vez, aos 18 anos e contra a vontade do pai. Em Nova York, iniciou-se no mercado financeiro, trabalhando como corretor e, em 1867, foi um dos cofundadores da pequena corretora de valores Budge, Schiff & Co. Naturalizou-se cidadão do novo país em 1870. Em 1873, com a dissolução da firma, retornou à Alemanha, onde passou a trabalhar em Hamburgo na casa bancária de Moritz Warburg, representante do London & Hanseatic Bank. Naquele mesmo ano, a morte do pai levou-o de volta a Frankfurt, onde permaneceu por algum tempo ao lado da mãe.
Schiff retornou definitivamente para os EUA em 1875, quando passou a integrar a instituição Kuhn, Loeb & Co., em Nova York. Trazia algo de imenso valor – uma rede de contatos com a alta banca europeia: Sir Ernest Cassel, de Londres, que viria a se tornar consultor financeiro do rei Eduardo VII do Reino Unido; Robert Fleming, de Dundee, mais tarde estabelecido na capital britânica; e Édouard Noetzlin, do Banque de Paris et des Pays-Bas. Em 6 de maio de 1875, casou-se com Therese Loeb, filha de Solomon Loeb, um dos fundadores da firma. Foi um enlace ao mesmo tempo afetivo e estratégico, pois, por meio dele, Schiff uniu-se à família controladora do banco e consolidou-se como sócio pleno da instituição.
O construtor de ferrovias
Em 1885, com a aposentadoria de Solomon Loeb, Schiff assumiu a liderança da casa bancária. A instituição, sob o comando do executivo de apenas 38 anos, transformou-se em um dos bancos de investimento mais poderosos dos EUA, a ponto de ser o único a rivalizar com o J. P. Morgan & Co. No entanto, consolidou sua reputação sobretudo com o financiamento de ferrovias, então o setor mais estratégico da economia do país, tanto que seu nome passou a estar ligado a algumas das maiores empresas do segmento, como Pennsylvania, Baltimore & Ohio e Great Northern. Em 1897, teve um papel decisivo no aporte de recursos para a aquisição da falida Union Pacific pelo magnata Edward H. Harriman e, dessa forma, contribuiu para a recuperação da companhia.
O episódio mais dramático, porém, ocorreu em 1901, quando Schiff e Harriman travaram uma intensa guerra com J. P. Morgan e James J. Hill pelo controle da Northern Pacific. Essa ferrenha disputa gerou uma progressiva escassez de ações da empresa-alvo no mercado e, por conseguinte, uma disparada da cotação dos papéis. Com isso, inúmeros especuladores foram obrigados a liquidar outras posições para cobrir perdas, o que desencadeou o primeiro grande pânico do século 20 em Wall Street. Diante do risco de um colapso financeiro, os grupos rivais negociaram uma trégua e uniram forças para criar uma holding que reunia o controle da Northern Pacific, da Great Northern e da Burlington: a Northern Securities Company, dissolvida pela Suprema Corte dos EUA em 1904, após contestação judicial pelo governo Theodore Roosevelt com base nas leis antitruste.
Schiff era visto não apenas como um operador financeiro, mas como um solucionador de problemas. Assim, costumava repetir aos sócios: “Nosso único atrativo é o bom nome, bem como a reputação de oferecer aconselhamento sólido e agir com integridade.”
A vingança contra o czar
A operação financeira mais célebre de Jacob Schiff teve uma motivação que ia muito além dos interesses econômicos: a resposta ao antissemitismo. Em abril de 1904, durante a Guerra Russo-Japonesa (1904–1905), o magnata encontrou-se, em Paris, com Takahashi Korekiyo, vice-governador do Banco do Japão, com quem negociou a concessão, pela Kuhn, Loeb & Co., de uma série de empréstimos ao país asiático, no total de US$ 200 milhões, equivalente a vários bilhões em valores atualizados. Foi por meio dessa primeira grande emissão de seus títulos públicos em Wall Street que o Japão conseguiu cerca de metade dos recursos necessários para o esforço de guerra.
Por que razão um banqueiro de Nova York financiaria um país do Extremo Oriente contra uma potência europeia? Em parte, por cálculo, mas sobretudo como resposta aos pogroms contra o Povo Judeu no Império Russo, em especial ao massacre de Kishinev, em 1903. Muito revoltado com esse episódio brutal, Schiff recusou-se, com obstinação, a conceder recursos ao regime do Czar, posição só revertida após a queda do monarca, em março de 1917. Em 1907, recebeu a Ordem do Sol Nascente, uma das mais altas condecorações do Japão, em reconhecimento a seu papel decisivo no esforço de guerra do país asiático. Mais que uma honraria internacional, a homenagem simbolizava a projeção alcançada por um homem para quem o êxito financeiro tinha que estar sempre a serviço de um dever maior: o compromisso com o Povo Judeu.
A “era Schiff”: liderança e filantropia
De sua posição em Wall Street, o banqueiro tornou-se o principal líder da comunidade judaica dos EUA e enfrentou praticamente todas as grandes questões de seu tempo: a situação dos judeus sob o regime czarista, o antissemitismo tanto nos EUA quanto no exterior, o amparo aos imigrantes necessitados e o surgimento do Sionismo. Raras foram as causas relevantes para o nosso povo que ele tivesse deixado de apoiar, em sua época.
Schiff contribuiu tanto para a fundação quanto para o desenvolvimento do Hebrew Union College e do Jewish Theological Seminary; financiou a Divisão Judaica da Biblioteca Pública de Nova York; foi não só presidente, mas também benfeitor, por décadas, do Hospital Montefiore, que visitava semanalmente, e participou da fundação do American Jewish Committee. Apesar das reservas que manteve, por muitos anos, em relação ao Sionismo político, fez generosas contribuições para o desenvolvimento de instituições em Eretz Israel, entre as quais o Technikum de Haifa, mais tarde renomeado Technion – Israel Institute of Technology. Pouco antes de morrer, declarou que nosso povo deveria, enfim, ter um lar próprio, “um grande reservatório de saber judaico” no qual sua cultura pudesse ser promovida e desenvolvida.
A imigração judaica e o Plano Galveston
A partir de 1881, os pogroms na Rússia czarista desencadearam uma onda migratória que fez do Lower East Side de Nova York o principal destino de centenas de milhares de judeus da Europa Oriental. Schiff temia que a chegada em massa de correligionários em situação de penúria à Costa Leste dos EUA alimentasse o antissemitismo e o país acabasse por restringir a imigração. Sua resposta foi o Movimento (ou Plano) Galveston (1907–1914): em vez de seguirem a rota habitual por Nova York, os recém-chegados eram conduzidos diretamente da Europa, sobretudo de Bremen, na Alemanha, à cidade no Texas que dá nome à iniciativa. Desse porto de desembarque, eram encaminhados para localidades do Sul, do Centro-Oeste e de outras regiões dos EUA.
Schiff destinou pessoalmente cerca de US$ 500 mil ao projeto e sonhava em reassentar milhares de judeus no interior do continente. A realidade, contudo, foi mais modesta. Devido às dificuldades de cooperação entre as organizações judaicas envolvidas nos dois continentes, à hostilidade crescente das autoridades de imigração de Galveston e ao quadro econômico desfavorável nos EUA, até 1914, quando o movimento chegou ao fim, entraram pelo porto da cidade texana apenas cerca de 10 mil judeus. Embora muito aquém das metas de Schiff, o projeto deixou um legado duradouro, pois muitas comunidades judaicas do Oeste dos EUA têm nele sua origem.
O banqueiro e a enfermeira
Em 1893, Schiff conheceu a jovem de ascendência judaico-alemã Lillian Wald, que vivia entre os pobres do Lower East Side, aos quais prestava cuidados de saúde como enfermeira. Por observar nela qualidades que ele próprio cultivava (inteligência, dedicação integral ao trabalho e extraordinária capacidade de transformar ideais em ação), tornou-se um dos principais patrocinadores da obra de Wald e foi, por muitos anos, um de seus benfeitores mais generosos, embora de forma discreta. Seu apoio viabilizou a expansão do serviço de enfermagem domiciliar e do Henry Street Settlement. O primeiro evoluiu para o Visiting Nurse Service of New York; o segundo tornou-se uma das mais importantes instituições assistenciais da cidade. A parceria entre o banqueiro de Wall Street e a reformadora social criou um modelo de filantropia que ajudou centenas de milhares de imigrantes a superar suas necessidades mais urgentes e, posteriormente, conquistar autonomia.
O homem por trás da fortuna
Jacob Schiff e Therese tiveram dois filhos, Mortimer e Frieda, e, ao longo de 45 anos de casamento, poucas vezes estiveram distantes um do outro. Nessas ocasiões, trocavam cartas, entre si, diariamente. Avesso à ostentação e fiel ao ideal judaico da benfeitoria discreta, o filantropo evitava associar seu nome às instituições que sustentava, com a notável exceção do Pavilhão Schiff do Hospital Montefiore. O benemérito morreu em Nova York em 25 de setembro de 1920, aos 73 anos. Seu legado ultrapassou em muito o mundo das finanças e marcou profundamente a história do Povo Judeu nos EUA. A firma que ergueu sobreviveu-lhe por décadas, conduzida por nomes como Otto Kahn e Felix Warburg, até fundir-se, em 1977, com a Lehman Brothers. No entanto, não é nem nas ferrovias, nem nos balanços que está o legado mais duradouro de Schiff, mas nas instituições de ensino, saúde e assistência que financiou, bem como na ideia, que ajudou a consolidar, de que a prosperidade conquistada nos EUA impunha o dever de amparar
os que viessem depois.
Em uma época em que o antissemitismo era moeda corrente nos clubes e salas de diretoria de Nova York (J. P. Morgan evitava até mesmo socializar com judeus), Jacob Schiff conquistou respeito sem renunciar à própria identidade. Atuou em conselhos cívicos ao lado de protestantes, mas manteve os laços mais estreitos com a comunidade judaica-alemã da qual provinha. Foi, ao mesmo tempo, plenamente cidadão dos EUA e judeu. É nisso que reside sua verdadeira grandeza.
1 Um dos maiores líderes da Ortodoxia Judaica no século 19, fundou a Ortodoxia Moderna e defendeu o conceito de Torá im Derech Eretz (Torá com o caminho do comportamento apopriado no mundo).
2 Concebida no início do século 20 por filantropos judeus da Alemanha, a instituição foi originalmente chamada de Technikum, nome dado a escolas superiores de engenharia nesse país.