Nos últimos anos, sob o comando do primeiro-ministro Pedro Sánchez, a Espanha vem se transformando no epicentro da onda anti-Israel e antissemita a contaminar, com particular intensidade, o continente europeu. Empenhado numa luta por sua sobrevivência no poder, o socialista investe em se posicionar como principal adversário de Binyamin Netanyahu e de Donald Trump, entre as lideranças governistas da Europa Ocidental.

Por Jaime Spitzcovsky

Vivemos a mais aguda crise na relação entre a Espanha e o Povo Judeu em 500 anos”, declarou o empresário e líder comunitário espanhol David Hatchwell ao jornal The Jerusalem Post. A avaliação se alicerça sobre uma longa lista de investidas verbais e diplomáticas de Sánchez e seus aliados contra Israel e sobre um aumento recorde de ataques antissemitas, em números divulgados pelo próprio governo espanhol.

Segundo os dados oficiais, atos antissemitas aumentaram 86% no ano passado, na comparação com 2024, quando foram registrados 37 episódios, contra 69 em 2025. A população comunitária no país contabiliza cerca de 70 mil pessoas, de acordo com a Federação das Comunidades Judaicas da Espanha, país com 49,7 milhões de habitantes.

Em 11 de março deste ano, a Espanha se tornou o primeiro país europeu a retirar seu embaixador de Israel desde o início da guerra atual, iniciada com o ataque terrorista do Hamas a Israel, a 7 de outubro de 2023. Na lista de ações emanadas de Madri, o governo Sánchez se juntou à ação contra Israel na Corte Internacional de Justiça, sediada em Haia, iniciativa liderada pela África do Sul. O premiê ainda qualificou a reação israelense como “genocídio” e impôs embargo de armas ao Estado Judeu.

Yolanda Díaz, vice-primeira-ministra e militante do Partido Comunista, terminou um discurso, em maio de 2024, com o slogan “From the river to sea, Palestine will be free”. Também naquele ano, a Espanha, junto com Irlanda e Noruega, reconheceu o Estado palestino.

A estratégia não se limitou ao campo político. Sánchez defendeu a exclusão de Israel do Eurovision, festival de música, e de eventos esportivos internacionais. Manifestações anti-Israel e pichações de cunho antissemita se espalharam pelo país ibérico.

Durante o enfrentamento americano-israelense com o Irã iniciado a 28 de fevereiro deste ano, o líder socialista impediu o uso do espaço aéreo de seu país a aviões dos EUA, aliado militar histórico de Madri. “No a la guerra” se transformou num lema governamental, ecoando movimento de cerca de 20 anos atrás, de oposição ao apoio do então premiê José María Aznar, conservador, às ações norte-americanos no Iraque, para a derrubada do ditador Saddam Hussein.

O rosto de Pedro Sánchez e seus lemas passaram a decorar mísseis disparados pela teocracia iraniana, segundo a agência oficial de notícias Tasnim, do Irã. O grupo terrorista Hamas também endereçou elogios a políticas do governo espanhol, coalizão entre o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) e o bloco de esquerda Sumar, que inclui grupelhos como o Partido Comunista de Yolanda Díaz. Sánchez ainda costurou acordos com separatistas catalães e bascos, alguns deles herdeiros políticos do ETA, um dos mais famigerados grupos terroristas da Europa Ocidental, sobretudo nos tempos da Guerra Fria.

No poder desde 2018, o premiê espanhol testemunha acentuada queda de popularidade nos últimos meses, enfrenta diversas acusações de corrupção e teme a aproximação das eleições parlamentares previstas para 2027. Desenhou então a estratégia de usar a política externa como forma de demonstrar liderança e tentar recuperar espaço político.

Sánchez também aposta no enfraquecimento do adversário histórico do PSOE, o conservador Partido Popular (PP) e, para isso, adota medidas altamente polêmicas, com o intuito de fortalecer o Vox, de ultradireita e criado em 2013. Exemplo: em dezembro, promoveu a regularização da situação de 500 mil imigrantes ilegais, gerando, como reação, no campo oposicionista, o aumento de popularidade de forças políticas com visões anti-imigração mais radicais.

Assim, o Vox sobe nas pesquisas de opinião, geralmente atraindo ex-apoiadores do PP, dono de propostas direitistas mais moderadas. Sánchez intensifica então o discurso no qual descreve o avanço da ultradireita como um retorno à era do general Francisco Franco (1939-1975) e se apresenta como “o líder contra a ameaça crescente do fascismo”.

Pedro Sánchez, considerado habilidoso estrategista político até por alguns adversários, encontra terreno propício para avançar a política anti-Israel. O sociólogo Alejandro Baer, nascido na Argentina e com formação universitária na Espanha, listou três fatores a facilitarem o avanço da narrativa governista.

“O antissemitismo se intensificou pela Europa Ocidental, mas a reação da Espanha foi diferente – mais aguda, mais ruidosa e mais composta por forças políticas tradicionais”, escreveu Baer no site do The Jewish Chronicle, para depois destacar os motivos a sustentarem a intensa onda anti-israelense e antijudaica.

Primeiro, o fato de o país não ter seguido a cultura da memória de perseguições impostas, no passado recente ou distante, aos judeus, como fez a Alemanha, por exemplo. O país produziu relatos históricos sobre o tema, mas não um “acerto de contas moral”, o que significa pouca reflexão sobre a ignorância e preconceitos relativos a temas judaicos e israelenses.

Segundo fator, a composição do bloco de sustentação política de Sánchez, a contemplar visões extremistas de esquerda, moldadas pela máquina de propaganda soviética depois da Guerra dos Seis Dias, em 1967. Naquele momento, o Kremlin decidiu se afastar de vez do apoio histórico proporcionado à criação de Israel, em 1948, e, numa mudança ditada pela priorização de seu embate com os EUA, produziu a narrativa de descrever o Estado Judeu como “imperialista e chauvinista”, mitologia ecoada até os dias de hoje pela maioria esmagadora da esquerda global.

Baer aponta como último vértice do triângulo a falta de recursos humanos em volume suficiente para responder às narrativas preconceituosas. Jornalistas e acadêmicos com visões enviesadas da realidade médio-oriental costumam ocupar mais espaço no debate público espanhol. Em universidades espanholas, aumenta o número de centros de estudos árabes e islâmicos.

Importante também lembrar a questão migratória, um dos principais temas a polarizar o debate entre esquerda e direita, sobretudo em países europeus. Muçulmanos correspondem a 5% da população do país, contra cerca de 1% no começo do século.

Em meio ao avanço, nos últimos anos, da visão anti-Israel, impulsionada pela aliança entre grupos esquerdistas e islâmicos, destaca-se uma voz sólida na defesa do Estado Judeu e de suas conquistas democráticas: a jornalista e escritora Pilar Rahola. Sua origem política na esquerda não a poupa de uma pressão hoje traduzida até em ações judiciais, acusada de “defender o genocídio em Gaza”.

A crise entre Madri e Jerusalém contrasta com o cenário de otimismo nas relações hispano-israelenses registrado a partir de 1986, quando os países estabeleceram tardias relações diplomáticas. O motivo do atraso foi a ditadura fascista de Francisco Franco, a implementar uma política pró-mundo árabe.

Com a morte do ditador, em 1975, veio a transição democrática. Em 1982, o PSOE ganhou as eleições, e Felipe González chegou ao poder. O primeiro-ministro capitaneou a aproximação com Israel e, mais tarde, em 1991, Madri chegou a sediar uma histórica conferência de paz, entre israelenses e árabes.

Em 2004, em meio à ofensiva iniciada com o atentado de 11 de setembro de 2001, nos EUA, o terrorismo fundamentalista islâmico atacou a capital espanhola. Bombas explodiram no sistema ferroviário da cidade, mataram 193 pessoas e deixaram mais de 2,5 mil feridos.

À época, o governo conservador de José María Aznar se alinhava aos EUA, na Guerra do Iraque. Os terroristas buscavam sabotar a aliança e, na sequência, eleições proporcionaram vitória aos socialistas, então na oposição.

Em 2015, o PP estava de volta ao poder e aprovou, no Parlamento, a lei de ancestralidade sefaradita, que concedia cidadania a quem conseguisse provar as origens judaicas. A iniciativa foi vendida como tentativa de reparação histórica pela Inquisição e pela expulsão do Povo Judeu em 1492. O programa especial de concessão de passaportes foi extinto em 2023.

Apesar da tempestade política e do avanço do antissemitismo, Espanha e Israel ainda mantêm laços sólidos em áreas como comércio e tecnologia. E setores de oposição a Sánchez prometem, caso cheguem ao poder, implementar uma nova política em relação a Israel e ao Oriente Médio, priorizando o diálogo e o entendimento com Jerusalém. Caminho, aliás, que jamais deveria ter sido abandonado.

Jaime Spitzcovsky, colaborador da Folha de S. Paulo, foi correspondente do jornal em moscou e em pequim.