Quando dois violentos terremotos de magnitude 7,2 e 7,5 atingiram o centro-norte da Venezuela, em 24 de junho de 2026, devastando cidades inteiras e provocando milhares de mortes, poucos imaginavam que Israel estaria entre os primeiros países a oferecer ajuda humanitária.

Por UNIDADE DE PORTA-VOZES DAS FORÇAS DE DEFESA DE ISRAEL

A participação israelense chamou a atenção porque, desde 2009, Venezuela e Israel não mantêm relações diplomáticas, após Hugo Chávez romper os vínculos com o Estado Judeu. Mesmo assim, já no dia seguinte aos terremotos, Israel anunciou o envio de uma missão humanitária especializada encabeçada pelo Home Front Command (Comando da Frente Interna) das Forças de Defesa de Israel (FDI), reafirmando um princípio que, há décadas, orienta sua atuação: prestar assistência às vítimas de desastres naturais independentemente de suas relações políticas com os países em questão.

Os terremotos atingiram principalmente os estados de Yaracuy, onde ficou o epicentro, La Guaira, Carabobo, Aragua e a região metropolitana de Caracas. Milhares de casas ficaram inabitáveis, pontes cederam, rodovias foram bloqueadas por deslizamentos, e o fornecimento de energia, água e comunicações foi interrompido em diversas localidades, dificultando a coordenação das operações de emergência.

Nas semanas seguintes, o balanço oficial revelou a dimensão da tragédia: 5.398 mortos, 16.740 feridos, cerca de 17.900 desabrigados e dezenas de milhares de desaparecidos, segundo dados divulgados pela Assembleia Nacional da Venezuela. Os prejuízos diretos foram em cerca de US$ 19,6 bilhões, e a reconstrução deverá levar anos. Diante da magnitude do desastre, dezenas de países e organizações internacionais mobilizaram ajuda humanitária.

A missão israelense foi organizada pelo Ministério das Relações Exteriores em conjunto com o Home Front Command das FDI, ao qual se somaram especialistas da Autoridade Nacional de Gestão de Emergências (NEMA). A delegação chegou à Venezuela para colaborar com as autoridades locais, reunindo profissionais experientes em busca e salvamento, que colocaram sua expertise a serviço das comunidades afetadas.

Ao longo de décadas, Israel acumulou ampla experiência na resposta a terremotos, atentados terroristas e outros desastres. Essa capacidade resulta principalmente da atuação do Home Front Command das FDI, especializado em busca e resgate urbano, atendimento médico, avaliação estrutural, hospitais de campanha e logística humanitária. As frequentes emergências enfrentadas pelo país impulsionaram o desenvolvimento de sofisticados sistemas de resposta rápida.

Em muitas missões humanitárias das FDI ao redor do mundo, as equipes são enviadas logo após os desastres para localizar e resgatar sobreviventes. Na Venezuela, porém, a pedido das autoridades locais, a missão assumiu um perfil diferente: concentrou seus esforços na engenharia estrutural, na avaliação de danos e no planejamento da recuperação. Especialistas israelenses passaram a inspecionar edifícios residenciais, hospitais e outras infraestruturas afetadas para determinar quais estruturas poderiam voltar a ser utilizadas com segurança e quando os moradores teriam condições de retornar às suas casas.

Uma das características da missão foi o uso intensivo de tecnologia. Enquanto equipes atuavam na Venezuela, especialistas em Israel analisavam imagens de satélite, fotografias aéreas e dados enviados do campo para produzir mapas de risco e orientar a reconstrução. O objetivo era apoiar a recuperação da infraestrutura e fornecer às autoridades instrumentos técnicos para planejar as próximas etapas.

O profissionalismo da missão rapidamente conquistou o reconhecimento das autoridades venezuelanas. Poucos dias depois do início dos trabalhos, em um gesto inesperado diante de quase duas décadas de rompimento diplomático, o governo venezuelano solicitou oficialmente que Israel ampliasse sua participação, colaborando também na elaboração de um plano nacional de reconstrução das regiões devastadas.

O pedido tornou-se um dos aspectos mais simbólicos da operação. Após tantos anos de rompimento diplomático, prevaleceu a cooperação diante da tragédia. A experiência israelense em gestão de desastres mostrou-se mais importante do que as diferenças políticas.

Ao estender a mão a um país que durante anos lhe foi politicamente hostil, Israel reafirmou um princípio que orienta grande parte de suas missões internacionais de socorro: em momentos de calamidade, salvar vidas está acima das diferenças ideológicas.

Uma tradição humanitária de mais de sete décadas

A missão enviada por Israel à Venezuela em 2026 insere-se em uma longa tradição de assistência humanitária internacional. Desde 1953, as FDI realizaram dezenas de operações de socorro em países atingidos por terremotos, guerras, atentados terroristas, desastres naturais e crises humanitárias.

A primeira missão ocorreu em 1953, quando um terremoto devastou as Ilhas Jônicas, na Grécia. Navios da Marinha israelense prestaram socorro e atendimento médico aos sobreviventes.

Nas décadas seguintes, Israel enviou equipes médicas e de resgate para diversas regiões do mundo: Camboja (1975), para atender refugiados da guerra; Cidade do México (1985) e Armênia (1988), após grandes terremotos; Romênia (1989), durante a revolução; e Zagreb, na Croácia (1992), durante a guerra nos Bálcãs.

Em 1994, equipes israelenses atuaram em Buenos Aires, após o atentado contra a AMIA, e em Goma, na República Democrática do Congo, auxiliando refugiados da guerra civil em Ruanda. Em 1998, participaram das operações de resgate após o atentado à embaixada dos Estados Unidos em Nairóbi, Quênia.

Em 1999, Israel instalou um hospital de campanha na Macedônia para atender refugiados da guerra em Kosovo e enviou missões de busca e salvamento após os terremotos na Turquia e em Atenas, na Grécia.

Nas décadas de 2000 e 2010, as operações incluíram Gujarat, Índia (2001); Taba, Egito (2004); o tsunami no Sri Lanka (2004); o furacão Katrina, em Nova Orleans (2005); o desabamento de um edifício em Nairóbi (2006); e o terremoto no Haiti (2010), considerado uma das maiores missões humanitárias israelenses, com hospital de campanha, centenas de cirurgias e milhares de pacientes atendidos.

Nos anos seguintes, missões israelenses também atuaram nas enchentes na Colômbia (2010), no terremoto e tsunami no Japão (2011), no terremoto na Turquia (2011), no atentado em Burgas, Bulgária (2012), no desabamento de um edifício em Gana (2012), no tufão nas Filipinas (2013) e no terremoto no Nepal (2015).

Entre 2016 e 2018, a Operação Good Neighbor levou atendimento médico, alimentos, medicamentos e ajuda humanitária a milhares de civis sírios na fronteira com as Colinas de Golã. Em 2017, uma equipe foi enviada ao México após outro grande terremoto, e, em 2018, Israel resgatou integrantes da organização humanitária Capacetes Brancos, na Síria.

Em anos mais recentes, destacam-se as missões para Brumadinho, Brasil (2019); Albânia (2019); Honduras (2020); Guiné Equatorial (2021); o desabamento do edifício em Surfside, Miami (2021); o terremoto na Turquia (2023); o terremoto que afetou Mianmar e Tailândia (2025); o envio de ajuda médica à cidade síria de Sweida (2025); e o combate aos incêndios florestais em Chipre (2025).

As equipes são formadas por militares da ativa e reservistas das FDI, principalmente do Home Front Command. Médicos, enfermeiros e engenheiros civis também podem ser convocados como reservistas, atuando uniformizados e identificados com as insígnias e a bandeira de Israel.

Ao longo de mais de sete décadas, essas missões consolidaram Israel como um dos países com maior experiência em resposta rápida a desastres naturais, atentados terroristas e crises humanitárias em diferentes partes do mundo.