Seguem, em ordem alfabética de sobrenomes, compositores cujos espetáculos obtiveram na Broadway seus mais significativos sucessos de público e de crítica.
Por Zevi Ghivelder
LIONEL BART (1930-1999)
Lionel Bart (Begleiter) é um caso único dentre os compositores de musicais: nunca tocou um só instrumento, nunca leu uma só partitura, nunca registrou uma só nota numa pauta musical. Cantarolava suas composições e alguém as transpunha para as partituras e depois as tocava no piano, momento em que ele ia acrescentando as letras. Foi dessa maneira insólita que se tornou o autor de um dos maiores sucessos do teatro musical do Reino Unido e da Broadway em todos os tempos, o espetáculo Oliver!, inspirado no romance Oliver Twist, de Charles Dickens, clássico da literatura britânica. Em 1956, juntou-se a alguns amigos para criar uma bem-sucedida banda de rock. Em 1960, compôs a comédia musical Oliver! que ficou em cartaz em Londres por mais de 2.500 apresentações.
Como judeu, Lionel Bart enfrentou um dilema. Fora os dois meninos protagonistas, um importante personagem era o judeu Fagin. O livro de Dickens, notadamente antissemita, apresenta Fagin como um bandido judeu, mentor de uma quadrilha de meninos ladrões, aos quais Fagin ensina como furtar e bater carteiras.
Bart fez de Fagin um vilão sorridente, bem ao contrário do soturno personagem descrito por Dickens. O espetáculo estreou em Nova York em 1962, recebendo transbordante aclamação. Com Oliver! ainda em cartaz, Bart lançou mais três trabalhos para a televisão e assinou o roteiro do segundo filme da série de James Bond. Em 1968, Oliver! foi um suntuoso longa-metragem que conquistou seis Oscars.
Nos anos seguintes, Lionel Bart permaneceu quase inativo, sem alcançar nada de significativo em suas tentativas como autor teatral. Sua vida foi marcada por extravagâncias e alcoolismo que o levaram à depressão e a contrair dívidas impagáveis. Ele jamais se conformou por nunca mais ter obtido, nem de longe, um sucesso como o de Oliver!.
IRVING BERLIN (1888-1989)
Irving Berlin foi um dos pilares do teatro musical, assim definido pelo compositor Jerome Kern, seu contemporâneo:“Berlin não tem um lugar na música americana, ele é a música americana”.
Sua relevância para a comédia musical e para a cultura popular dos Estados Unidos se caracteriza num ponto fundamental: a transição do vaudeville para o musical moderno, levando o ritmo das ruas de Nova York para os palcos. Em 1911, fez sucesso mundial com a canção Alexander’s Ragtime Band que popularizou o ritmo sincopado do ragtime. Mostrou que a música popular americana tinha energia para preencher um espetáculo inteiro na Broadway. Seu musical Annie Get Your Gun, de 1946, foi um marco na chamada “Era de Ouro” da Broadway. Muitas das músicas que Berlin compôs para os palcos e, mais tarde, para filmes de Hollywood tiveram a propriedade de definir a identidade musical americana, com destaque para as melodias que emolduraram icônicos números de dança apresentados por Fred Astaire e Ginger Rogers.
Irving Berlin era autodidata. Não sabia ler nem escrever partituras e só conseguia tocar o piano na tonalidade de Fá Sustenido (as teclas pretas). Fazia uso de um piano especial com uma alavanca mecânica que transpunha as notas para outras tonalidades enquanto tocava.
Irving (Israel Isidore) Berlin nasceu na Rússia Imperial e chegou nos Estados Unidos com cinco anos. Em seus 101 anos de vida, compôs mais de 1.500 canções, dentre as quais duas se celebrizaram em datas festivas cristãs: White Christmas, no Natal, e Easter Parade, na Páscoa.
LEONARD BERNSTEIN (1918-1990)
Leonard Bernstein representou uma fulminante presença na Broadway, quando já era um consagrado regente de música erudita. Ele trouxe sons e técnicas da música de concerto para a Broadway, misturando o jazz com surpreendentes ritmos latinos aos quais acoplou dissonâncias modernas. Esses elementos estão presentes em West Side Story, sua extraordinária criação de 1957, inspirada em Romeu e Julieta, adaptada para o Upper West Side de Manhattan. Canções constantes do espetáculo, como America e o quinteto Tonight, se tornaram pontos de referência da cultura popular norte-americana. Nesta obra, contou com dois excelentes colaboradores: o coreógrafo Jerome Robbins e o compositor e letrista Stephen Sondheim.
Bernstein consolidou o conceito, já imposto por Richard Rodgers, segundo o qual a música, a dança e a dramaturgia formam um conjunto inseparável. Em West Side Story, Bernstein aborda problemas da sociedade americana como o preconceito contra os porto-riquenhos, violência urbana e desigualdades sociais.
Ele se baseou na obra Candide, de Voltaire, para levar para a comédia musical uma sátira política que aborda a intolerância do Macarthismo. Produziu uma obra vibrante e original em On the Town ao capturar a identidade rítmica e urbana da cidade de Nova York. Em suma, elevou o nível de exigência da Broadway, fazendo com que seus contemporâneos se convencessem de que a partitura de um musical não precisava ser linear para seduzir o público.
A relação de Leonard Bernstein com Israel foi profunda e constante. Foi um defensor apaixonado do Sionismo e manteve intensa ligação com a Orquestra Filarmônica de Israel. Um dos momentos mais marcantes dessa relação data de 1947, quando viajou pela primeira vez para a Palestina sob Mandato Britânico, para reger a Orquestra Sinfônica da Palestina, atual Filarmônica de Israel. No ano seguinte, durante a Guerra da Independência, regeu um concerto histórico em Beersheva, então um povoado primitivo, para a tropa das Forças de Defesa de Israel, que participava da campanha militar que garantiria ao novo país o controle do deserto do Neguev.
Ao longo de décadas retornou frequentemente para turnês do norte ao sul de Israel e gravou dezenas de obras do repertório clássico à frente da Filarmônica. Sua identidade judaica influenciou algumas de suas obras, como a Sinfonia Kaddish e a Sinfonia Jeremiah, uma comovente imersão nas raízes bíblicas do Povo Judeu.
JERRY BOCK (1928-2010)
Jerrold Lewis Bock cresceu no Queens, NY. Com nove anos era um prodígio. Estudou na Universidade de Wisconsin e, nos bastidores da Broadway, conheceu o letrista Sheldon Harnick. O primeiro sucesso da dupla foi o musical Fiorello,sobre Fiorello La Guardia, o mítico prefeito de Nova York.
Bock e Harnick assinaram o musical The Rothschilds, a primeira imersão dos dois numa temática judaica. Insistiram neste viés e recorreram à obra do mestre da literatura no idioma iídiche, Scholem Aleichem. Focaram nas famosas histórias sobre o leiteiro Tevye, um fascinante personagem que sintetiza em sua jornada as alegrias e tristezas vividas por uma pequena comunidade de judeus em uma aldeia da Rússia Imperial.
Junto com o já célebre coreógrafo Jerome Robbins (Jerome Wilson Rabinowitz), criaram o espetáculo musical Fiddler on the Roof (Um Violinista no Telhado),que, estreado em 1964, se tornou um fenômeno artístico e cultural. Os autores tomaram como referência as atraentes músicas folclóricas judaicas da Europa Oriental e assim revestiram de autenticidade o personagem central e seu entorno. A canção mais emblemática é If I Were a Rich Man, na qual Harnick capta o estilo irônico que caracteriza a obra de Scholem Aleichem: quando se é rico, pensam que a gente sabe tudo. O êxito do espetáculo ultrapassou as fronteiras da Broadway. Foi traduzido para diversos idiomas e, de maneira surpreendente, conquistou plateias distantes da temática judaica. No Brasil, conheceu importantes montagens em 1971 e em 2011.
Este sucesso se deve ao fato de abordar temas que abrangem, sem distinção, os seres humanos: vida em família, injustiça, preconceito, choque de gerações e preservação de identidade em face de adversidades.
A obra de Bock e Harnick foi o primeiro musical da Broadway a ultrapassar a marca de três mil representações, tendo Zero Mostel como Tevye; em Londres, o papel principal foi do israelense Topol. Desde sua estreia, o espetáculo continua tendo novas encenações, consagrando o talento de artistas judeus americanos, filhos de imigrantes, que criaram um espetáculo de sonho, assim como seus pais haviam buscado o sonho americano.
GEORGE GERSHWIN (1898-1937)
George Gershwin foi um dos artistas mais importantes dentre os compositores do século 20, tendo conjugado as obras dos grandes mestres clássicos europeus à música popular americana, incluindo o jazz. Antes dele, a música erudita olhava o jazz de cima para baixo, enquanto o jazz reinava absoluto no país. Em suas composições mais transcendentais, Gershwin levou os múltiplos ritmos e melodias do jazz para as salas de concerto mais sofisticadas e prestigiadas do mundo, conferindo a seu país uma rica e legítima identidade musical.
Gershwin causou impacto na música do século passado com a consagração do aclamado jazz sinfônico, tal como apresentado na obra Rhapsody in Blue, de 1924. A peça começa com um famoso solo de clarinete, subindo como um lamento, uma singularidade no cenário musical de então ao acoplar a estrutura de uma peça para piano com as harmonias do jazz e dos blues. Assim demonstrou que a música americana tinha uma densidade artística própria, que percorreu audiências mundiais onde colheu milhões de admiradores.
Junto com Ira, seu irmão e exímio letrista, compôs centenas de canções para musicais da Broadway. O conjunto de sua obra ganhou tal dimensão que é possível afirmar que, em qualquer momento, dia ou noite, em qualquer ponto do planeta, está sendo executada uma de suas criações. Estas incluem desde pequenas peças destinadas a espetáculos de variedades até trilhas elaboradas para o cinema, a par de uma torrente de aberturas e canções para comédias musicais. Junto com sucessos populares, produziu obras substanciosas para piano solo, como os Prelúdios, e para piano e orquestra em formato erudito, como o Concerto em Fá.
Em 1925, já famoso, viajou para Paris com a finalidade de conhecer grandes mestres da música de concerto. Admirava Ravel e, em Paris, pediu que ele lhe desse aulas de composição. Ravel recusou, dizendo: “Por que você quer ser um Ravel de segunda classe quando já é um Gershwin de primeira?”.Quando conheceu Stravinsky, a quem admirava ainda mais, insistiu em ter aulas. O russo lhe perguntou quanto ganhava por ano. Gershwin revelou a quantia e Stravinsky disse: “Então, acho que eu deveria ter aulas com você”.
A viagem de Gershwin para a França resultou em uma de suas obras mais fascinantes, a suíte sinfônica An American in Paris, na qual acrescentou aos instrumentos musicais os sons de autênticas buzinas dos táxis parisienses.
Quando George e Ira decidiram transformar o romance Porgy em uma ópera com formato e dimensão clássicos, parecia um empreendimento distante porque a segregação racial tornaria quase impossível reunir um elenco todo negro, mais um numeroso coro. Os irmãos se empenharam numa busca exaustiva até encontrar os cantores líricos que eram a base do projeto.
Depois de um ano de trabalho, tempo relativamente curto para uma obra de tamanha envergadura, concluíram a ópera Porgy and Bess, que estreou em 1935.
Foi a instância máxima na carreira de Gershwin, assinalando um imponente marco na música americana e mundial do século 20. Sua importância se deve ao fato de ter aproximado duas expressões artísticas separadas pelo oceano e por suas características intrínsecas: a cultura da ópera europeia e a cultura popular americana, com a surpreendente inclusão de melodias originadas dos chamados Negro Spirituals, gênero de música religiosa criado pelas comunidades afro-americanas nos Estados Unidos. As raízes americanas são tão profundas no espetáculo que o próprio Gershwin classificava sua composição como uma ópera folclórica.
A trama dramática da ópera é simples. A ação se passa em Catfish Row, um povoado pobre de pescadores na Carolina do Sul, onde Porgy, um deficiente físico, e Bess, uma mulher voluptuosa e volúvel, têm um relacionamento. O romance é interrompido porque ela é levada para Nova York por um insinuante marginal. Porgy parte à procura dela, cantando a belíssima ária final, I’m On My Way que, com a ária inicial, a icônica Summertime, se inserem nos mais comoventes instantes da música americana.
A par da partitura de Gershwin, as letras de Ira também são excepcionais. Uma delas, I Got Plenty of Nothing, transborda originalidade: eu tenho muito de nada e nada é muito pra mim.
Desde sua estreia, há mais de 90 anos, Porgy and Bess continua sendo encenada em palcos do mundo inteiro. Suas canções foram gravadas por centenas de cantores na América e no mundo, conferindo a seu compositor uma definição insubstituível: imortal.
George Gershwin, Jacob Gershowitz de nascença, foi acometido por um tumor cerebral e morreu dois meses antes de completar 39 anos de idade.
JERRY HERMAN (1931–2019)
O compositor e letrista Gerald Sheldon Herman assinou notáveis sucessos da Broadway. Foi o criador, em 1961, de um musical com abordagem sionista, Milk and Honey, que acompanha turistas americanos em Israel. Era um musical alegre e solar, característica que se repetiu em seus demais trabalhos, com canções fáceis de cantarolar, como ele mesmo gostava de definir.
Três anos depois, Herman conquistou a Broadway com Hello, Dolly!, musical baseado na obra The Matchmaker, de Thornton Wilder. O musical foi produzido pela primeira vez em 1964, ganhando dez prêmios Tony e se tornando um dos sucessos mais duradouros do teatro musical americano, chegando a 2.844 sessões. Também teve uma grandiosa versão no cinema que ganhou três Oscars, com Barbra Streisand no papel principal. No Brasil, Dolly foi vivida pela atriz Bibi Ferreira.
Jerry Herman tinha o dom especial de pressentir o gosto do público. Foi com essa habilidade que criou o musical Mame, oriundo de um romance best-seller, depois adaptado para o teatro e, em seguida, levado para o cinema. Mas foi no musical de Herman que atingiu sua mais cativante expressão artística.
Ele jamais escondeu sua mágoa pelo insucesso de Mack and Mabel, comédia musicalque parecia reunir todos os ingredientes para o sucesso: o despertar do cinema mudo.
Mas, foi recompensado pelo fantástico êxito de La Cage aux Folles, espetáculo adaptado de uma peça teatral francesa. O musical estreou na Broadway em 1983 e ficou quatro anos em cartaz. As remontagens subsequentes, em 2005 e 2010, lotaram plateias. A canção que encerra o primeiro ato, I Am What I Am, ficou mais de um ano em primeiro lugar nas paradas de sucessos.
FREDERICK LOEWE (1901-1988)
O compositor Frederick Loewe tem seu nome solidamente associado ao do letrista Alan Jay Lerner. Ambos são responsáveis por uma das mais icônicas criações da Broadway, a comédia musical My Fair Lady.
Loewe nasceu em Berlim, filho de pais vienenses, ambos cantores de operetas. Aprendeu a tocar piano de ouvido e, aos 13 anos, tornou-se o pianista solista mais jovem a se apresentar com a Filarmônica de Berlim.
A família emigrou para Nova York em 1924. Ali, em 1942, Loewe conheceu Lerner, seu parceiro de sempre. O primeiro sucesso da dupla foi Brigadoon, uma fantasia romântica ambientada em uma vila escocesa mística. Foi seguido por uma história da Corrida do Ouro, Paint Your Wagon, que teve menos sucesso de público, apesar de ter recebido boas críticas.
Lerner e Loewe pensaram em adaptar para uma comédia musical a peça teatral Pygmalion, de George Bernard Shaw, escrita em 1912. O próprio Shaw já havia relutado em autorizar uma versão cinematográfica que acabou sendo realizada 25 anos depois. Após longas negociações, obtiveram autorização para a adaptação na Broadway, com o papel de Professor Higgins cabendo a Rex Harrison e o de Eliza Doolittle a uma atriz novata, Julie Andrews.
Os ensaios foram tumultuados. Harrison alegava não saber cantar e o diretor Moss Hart concordou que sua interpretação se adequasse a um recitativo melódico que acabou dando certo. O espetáculo estreou em março de 1956, alcançando um sucesso que se estendeu por 2.717 representações, um recorde na época. Seis anos depois, chegou à grande tela, ainda com Rex Harrison, mas sendo Julie Andrews substituída por Audrey Hepburn, que não era cantora e sua voz foi dublada. No Brasil, os principais papéis couberam a Bibi Ferreira e Paulo Autran.
Segundo a imprensa da época, Loewe e Lerner chegaram quase ao desespero com o sucesso de My Fair Lady porque acharam que seriam incapazes de produzir um novo musical com igual aceitação. No entanto, quatro anos mais tarde, reafirmaram sua criatividade com o musical Camelot, baseado em histórias do lendário Rei Arthur.
Loewe decidira se aposentar na Califórnia, mas voltou à Broadway assinando mais um êxito: as canções românticas do musical Gigi, depois de um sucesso no cinema.
RICHARD RODGERS (1902-1979)
Nenhum compositor da Broadway colecionou tantos sucessos e tanta fama como Richard Charles Rodgers, nascido no Queens, NY. Ele não foi apenas um compositor prolífico, cujas montagens chegaram até hoje à marca de mais de 30 mil representações. Foi um dos principais criadores que transformaram e consolidaram as estruturas do teatro musical americano. Rodgers seguiu os passos do compositor Jerome Kern que, em 1927, já tinha inovado a Broadway com o musical Show Boat.
Quando Rodgers era adolescente, os palcos musicais pertenciam ao vaudeville e ao burlesque. Eram um aglomerado de quadros cômicos e musicais sem conexão uns com os outros, um tipo de espetáculos que floresceram no Brasil até os anos 1960, conhecidos como Teatro de Revista.
Rodgers e outros compositores contemporâneos transformaram o vaudeville na comédia musical moderna, moldando uma forma de arte consistente que reuniu melodias expressivas a uma bem estruturada concepção dramática.
A importância de Rodgers para a Broadway se divide em duas fases: a primeira na parceria com Lorenz (Larry) Hart e a segunda com um amigo dos tempos de escola, Oscar Hammerstein II. Filho de um renomado médico, Rodgers começou a compor canções com sete anos. Aos 16, fez amizade com Hart, que era um pesquisador de rimas poéticas e ensaiava uma promissora carreira como letrista.
As criações de Rodgers e as letras de Hart enriqueceram o cancioneiro popular americano com sofisticação urbana e musicalidade complexa.
A dupla foi para a Califórnia, onde ficou quatro anos compondo para filmes de Hollywood. Voltando a Nova York, tiveram seu primeiro sucesso na Broadway, em 1936, com o musical On Your Toes. Deram um importante salto no ano seguinte com a produção de Pal Joey, que chocou e seduziu a plateia ao apresentar um protagonista anti-herói, inscrevendo no roteiro do musical um tema adulto e realista.
Hart faleceu com 48 anos e Rodgers se uniu a Oscar Hammerstein II. Juntos, causaram a maior revolução na história da Broadway, materializando o conceito do que Rodgers classificava como “Musical Integrado”: a conjugação da ação dramática com a música e a dança de forma indissolúvel. O marco inicial desta inovação foi a montagem, em 1943, do musical Oklahoma!, um caudaloso sucesso. O espetáculo foi seguido por outros grandes êxitos como Carousel, South Pacific e The King and I. Em 1959, a dupla criou o espetáculo que os críticos apontam como o “musical dos musicais”, The Sound of Music, que, no Brasil, teve um inadequado título, A Noviça Rebelde. Esses e outros trabalhos de Rodgers e Hammerstein constituem um resumo da própria história e da grandeza dos musicais da Broadway.
STEPHEN SONDHEIM (1930-2021)
Stephen Joshua Sondheim é o compositor e letrista que deixou uma das marcas mais importantes e consequentes no teatro musical americano. Antes dele, grande parte das comédias musicais se completava com tramas lineares e canções fáceis de assoviar. Depois dele, o gênero ganhou mais maturidade artística, mais profundidade na dramaturgia e mais complexidade musical. Em sua longa trajetória, ele reinventou a estrutura narrativa das comédias musicais, para as quais elaborou canções assinaladas em sensível personalidade musical.
Sua estreia na Broadway foi dourada: tinha 27 anos quando foi convidado por Leonard Bernstein para fazer as letras das canções de West Side Story, o que lhe deu fama imediata. Dois anos depois, assinou as letras do musical Gypsy, brilhando com construções verbais e rimas surpreendentes como: no fists, no fights; no feuds and no egos; friends, forever. Em seguida, adaptou para o teatro musical uma comédia romana de Plauto e compôs Anyone Can Whistle. Apesar de suas belas canções, o espetáculo ficou apenas nove dias em cartaz, mas, até hoje, é apreciado como um cult.
Em Company, de 1970, abordou a crise existencial do homem solteiro e as neuroses do casamento. Acolheu o formato de um drama clássico com moldura aristocrática do século 19 em A Little Night Music, no qual inseriu a canção Send In the Clowns, seu maior sucesso popular. Em Follies, teve um olhar tenro para a terceira idade das beldades justamente dos musicais da Broadway. Com impressionantes guinadas artísticas, assinou o musical Pacific Overtures inspirado na ancestralidade cultural do Japão e sua tentação pelo mundo ocidental. Refletiu sobre relações familiares no contexto de contos de fadas em Into the Woods. Em 1979, estreou sua obra mais densa, Sweeney Todd, baseada numa história de terror, ocorrida em Londres, em 1864, algo inimaginável para um musical da Broadway.
Dentre as criações de Sondheim, há uma que é coroada como autêntica obra-prima: Sunday in the Park with George. O espetáculo tem como inspiração um famoso quadro do pintor Georges Seurat, da época do Pós-Impressionismo, cujos personagens saem da tela e ganham vida musical.
As obras de Stephen Sondheim se impuseram por suas harmonias complexas, dissonâncias propositais, sua técnica de justapor vozes em diferentes ritmos e tempos, por oscilar entre cantos e recitativos, tudo isso exigindo dos intérpretes um sólido domínio profissional.
Stephen Sondheim costumava dizer: “A arte é um mistério que a gente tem que procurar desvendar”. Como ninguém, ele soube impor nessa procura sua dimensão genial.
JULE STYNE (1905-1994)
Julius Kerwin Stein, filho de ucranianos, nasceu em Londres e seus pais emigraram para Chicago quando ele tinha cinco anos. Foi criança prodígio no piano, começando sua carreira em Hollywood na década de 1930, quando trabalhou como arranjador musical. Ganhou fama por suas colaborações com o letrista Sammy Cahn, produzindo grandes sucessos de canções populares, como Three Coins in the Fountain. Mas seu extraordinário mérito artístico está nas composições para musicais da Broadway, que incluem Gentlemen Prefer Blondes e as icônicas Gypsy e Funny Girl, ambas repletas de canções com forte apelo emocional.
O musical Funny Girl é uma abordagem biográfica da comediante judia Fanny Brice que reinou na Broadway nos anos 1930 e 1940, interpretada por uma jovem atriz e cantora, Barbra Streisand, em seu primeiro papel como protagonista.
Além da atividade na Broadway, Styne apresentou em Londres, em 1978, a comédia musical The Bar Mitzvah Boy, baseada no premiado telefilme do mesmo nome, exibido com sucesso na BBC. A história gira em torno de um rapazola que, tomado por ansiedade, foge da sinagoga momentos antes de seu Bar Mitzvá, para desgosto dos pais de classe média baixa, que haviam investido todas suas economias em uma suntuosa festa para o filho. O musical ficou em cartaz por apenas 78 apresentações. A versão americana mudou o cenário de Londres para o Brooklyn dos anos 1940.
Outra incursão teatral judaica de Jule Styne consistiu na produção da peça Teibele and her Demon, adaptação de um conto de Isaac Bashevis Singer que tem como tema o empenho de um exorcista para salvar uma mulher que se julga possuída por um demônio.
A música de Styne se caracteriza pela versatilidade, compreendendo desde baladas românticas a números musicais vibrantes, com particular destaque para as vozes femininas levadas aos palcos por personagens divertidas e extravagantes. Ao longo de sua carreira, escreveu cerca de 1.500 canções, conquistando prêmios como o Oscar e o Tony. O legado de Styne perdura através de suas composições atemporais, tendo adquirido importante lugar na cultura popular americana.
Zevi Ghivelder é jornalista e escritor.
Um momento inesquecível
O Festival Internacional da Canção, realizado no Rio de Janeiro, em 1969, teve no júri dois expoentes da música popular americana: o compositor Jule Styne, autor de sucessos da Broadway, e o letrista Sammy Cahn, vencedor de três prêmios Oscar. No saguão do hotel que abrigava a sede do Festival, alguém me apontou para eles, que vieram ao meu encontro: “Você é de fato judeu? Depois de amanhã é véspera de Rosh Hashaná. Como podemos ir a um shul?” (Sinagoga, em iídiche). Combinei de levá-los no fim da tarde seguinte ao Grande Templo, no centro da cidade. Ficaram impressionados com a imponência da construção e a beleza de seu interior. Pegaram livros de orações que acompanharam, emocionados. Depois, levei-os para o tradicional jantar na casa dos meus pais. Foi tudo muito gratificante.
No dia seguinte viria ao Rio o astronauta Neil Armstrong que, poucos meses antes, tinha sido o primeiro homem a pisar na Lua. A Embaixada Americana concordou que ele comparecesse a um almoço em sua homenagem, na sede da revista Manchete, da qual eu era o Chefe da Redação. Convidei Styne e Cahn para o grande evento. Neil Armstrong chegou simpático e sorridente. Apresentei-lhe Jule Styne, que disse estar honrado por apertar sua mão. O astronauta colocou as mãos sobre seu ombro e exclamou: “A honra é minha em conhecê-lo. Sou seu admirador. Namorei minha mulher ao som de suas melodias”. Em seguida, Styne sentou-se ao piano e tocou os acordes da canção Three Coins in the Fountain, a mais famosa composição da dupla. Cahn começou a improvisar: “Three men in a rocket, to the moon how high they fly...” . Foi um momento inesquecível.