Na tarde da data mais reverenciada do ano judaico, durante a oração de Minchá, lê-se, como Haftará, o Livro de Yoná. Nas demais Haftarot do ano, recita-se apenas um trecho dos Nevi’im (Livros dos Profetas). Assim, só em Yom Kipur lemos uma obra inteira, ainda que curta, do início ao fim. Por que razão nossos Sábios atribuíram tal distinção justamente a esse texto e, mais ainda, determinaram que fosse recitado após a leitura da Torá da tarde (e não da manhã), pouco antes da Neilá, a oração que encerra o dia mais solene do ano judaico, quando o decreto Celestial para o ano vindouro está prestes a ser selado?
Por Tev Djmal
Para quem conhece a história do profeta, a resposta parece óbvia: Sefer Yoná é um dos grandes textos das Escrituras Sagradas sobre o arrependimento, o retorno a D’us, tema central de Yom Kipur. Isso está certo, mas não é toda a verdade. Uma leitura mais atenta revela algo mais profundo: uma mensagem que transforma nossa compreensão sobre o Livro de Yoná, o Dia do Perdão e cada ser humano. Antes de explorar esse ensinamento, vale a pena revisitar a obra em questão.
A história de Yoná
No início do Livro, D’us ordenou ao profeta que se dirigisse a Nínive, capital da Assíria, no atual Iraque, para anunciar que chegara, à Sua presença, a maldade da cidade, e que a mesma seria destruída caso seus habitantes não se arrependessem. No entanto, Yoná fugiu para um dos locais mais belos de Israel: o porto de Yafo(Jaffa), que mantém o nome até hoje. Na esperança de escapar da missão Divina, embarcou em um navio com destino a Tarshish, tradicionalmente associada ao sul da Espanha, ou seja, em direção oposta à de Nínive.
D’us, no entanto, enviou um vento forte sobre o mar, e se forma uma tempestade que ameaçava despedaçar a embarcação. Apavorados e cientes de que os meios naturais já não bastariam para salvá-los, os marinheiros clamaram, cada qual à sua divindade, enquanto lançavam ao mar a carga transportada na tentativa de evitar que o navio virasse.
Em meio ao caos, Yoná desceu ao porão da embarcação, deitou-se e adormeceu. Assim, permanecia alheio a tudo enquanto os marinheiros gritavam, oravam e lutavam pela própria vida no mar enfurecido. Ao encontrar o profeta naquele local, o capitão repreendeu-o: “Que estás fazendo, ó dormente? Levanta-te, clama ao teu D’us! Quem sabe D’us se lembre de nós e, assim, não pereçamos” (Yoná 1:6). A ironia é marcante: os marinheiros pagãos clamavam a suas falsas divindades enquanto o seguidor do único D’us verdadeiro permanecia em silêncio. O apelo do capitão, contudo, não surtiu efeito: mesmo depois de despertar, Yoná não rogou ao Eterno.
Convencidos de que a tempestade não era um fenômeno natural, mas um castigo Divino pela culpa de alguém a bordo, os marinheiros lançaram sortes para identificar o responsável. Constatou-se, assim, que o culpado era o profeta, que, questionado, se identificou como hebreu e declarou temer o Eterno, D’us dos Céus, Criador do mar e da terra. Em seguida, admitiu estar fugindo Dele e disse que a única forma de se salvarem era lançá-lo ao mar.
Horrorizados com a ideia, os marinheiros, em vez de segui-la, remaram com toda a força em uma última tentativa de alcançar terra firme. Contudo, como a tempestade só se intensificava, logo perceberam que, sem uma ação imediata, todos pereceriam. Antes de lançarem Yoná ao mar, em vez de se dirigirem a suas falsas divindades, clamaram a D’us: “Rogamos-Te, ó Eterno, que não pereçamos por causa da vida deste homem, e que não faças cair sobre nós sangue inocente, pois Tu, ó Eterno, fizeste como foi do Teu agrado” (Yoná 1:14). Só depois de se entregarem ao julgamento Divino é que, a contragosto, lançaram o profeta ao mar.
Imediatamente após isso, a tempestade cessou, e as águas se acalmaram, confirmando a veracidade das palavras: a tormenta fora, de fato, enviada por D’us por causa de Yoná. Ao testemunharem o milagre, os marinheiros passaram a reconhecer a soberania Divina, oferecendo-Lhe sacrifícios e fazendo promessas.
Entretanto, o profeta não se afogou, mas, para que não perecesse, por intercessão Divina, foi engolido por um grande peixe. Privado de qualquer possibilidade de fuga, Yoná permaneceu em oração no ventre do animal por três dias e três noites. Por ordem de D’us, a criatura então o devolveu em segurança à terra firme.
Pela segunda vez, o Eterno dirigiu-se ao profeta: “Levanta-te! Vai à grande cidade de Nínive e faz-lhes a proclamação que Eu te ordeno” (Yoná 3:2). Desta vez, foi atendido. Ao entrar na capital assíria, Yoná proclamou uma advertência breve, porém contundente: “Daqui a 40 dias, Nínive será revirada” (Yoná 3:4). A reação do povo foi imediata. Do maior ao menor, todos acreditaram na mensagem profética. Proclamaram um jejum público, vestiram-se de saco (um tecido rústico, de pelo de cabra, usado como expressão de luto e submissão) e começaram a se arrepender.
Pouco depois, a mensagem Divina proclamada por Yoná chegou ao próprio rei de Nínive, que se levantou do trono, se despiu das vestes reais, se cobriu de saco e se sentou sobre as cinzas. Em seguida, promulgou um decreto para a cidade inteira: tanto homens quanto animais deviam abster-se de comer ou beber e vestir-se de saco. Todos teriam ainda que clamar intensamente ao Eterno, abandonar seus maus caminhos e renunciar à violência que enchia suas mãos. O rei concluiu a proclamação com uma expressão de esperança: “Quem sabe D’us volte atrás e reconsidere, e Se aparte do furor da Sua ira, para que não pereçamos” (Yoná 3:9). Assim, toda Nínive arrependeu-se sinceramente. Do rei ao mais humilde dos cidadãos, o povo jejuou, orou e se humilhou perante D’us, além de abandonar seus maus caminhos e buscar o perdão do Altíssimo. Ao ver a sinceridade da contrição do povo de Nínive, o Misericordioso poupou a cidade. Na verdade, D’us nunca desejou destruir a capital assíria, mas levá-la a mudar seu mau comportamento.
Surpreendentemente, Yoná ficou angustiado com a atenção à sua advertência e o arrependimento dos ninivitas. Em vez de alegrar-se com a misericórdia de D’us, o profeta queixou-se ao Altíssimo e justificou sua fuga: “Ó Eterno, não foi isso que eu disse enquanto ainda estava em minha terra? Foi por isso que, de início, fugi para Tarshish, pois sabia que Tu és um D’us misericordioso e gracioso, lento em irar-se, rico em bondade, que reconsidera o mal decretado” (Yoná 4:2).
Abatido porque Nínive havia sido poupada, o profeta pediu ao Onipotente que lhe tirasse a vida. Em seguida, deixou a cidade, instalou-se a leste da mesma e construiu um pequeno abrigo para observar o que aconteceria com a capital assíria. Então, D’us fez brotar rapidamente um kikayon (tradicionalmente identificado como uma mamoneira) para proporcionar a Yoná uma sombra bem-vinda contra o sol escaldante. E ele se alegrou com a proteção. Na manhã seguinte, entretanto, o Eterno enviou um verme para atacar o kikayon, que acabou por secar. Pouco depois, um vento oriental abrasador começou a soprar e o sol castigou a cabeça do profeta, que, mais uma vez, pediu a D’us que lhe tirasse a vida.
O Altíssimo perguntou então a Yoná se seu pesar pela planta ressecada era justificado. Diante da resposta afirmativa, o Misericordioso respondeu com a pergunta que conduz o livro ao seu desfecho: “Tu tiveste compaixão do kikayon, pelo qual não trabalhaste nem fizeste crescer, que nasceu numa noite e numa noite pereceu. Acaso Eu não haveria de ter compaixão da grande cidade de Nínive, na qual há mais de 120 mil pessoas que não sabem discernir entre a sua mão direita e a sua esquerda, e também muitos animais?” (Yoná 4:11).
O porquê da fuga
À primeira vista, parece incompreensível que Yoná, um profeta e um Tzadik Gamur (homem perfeitamente justo) segundo nossos Sábios, tenha se recusado a cumprir uma ordem direta do Eterno. Certamente ele sabia que ninguém consegue fugir de D’us, que é Infinito e, portanto, Onipresente. A questão torna-se ainda mais intrigante quando se considera a gravidade da desobediência. Um profeta que deliberadamente deixa de transmitir uma mensagem Divina comete uma das transgressões mais graves do Judaísmo, punível com a morte pelas mãos dos Céus, castigo aplicado não por humanos, mas pelo Supremo Juiz Celestial. Um homem da estatura espiritual de Yoná jamais teria dado um passo como esse sem razões imperiosas.
Ao longo dos séculos, os grandes comentaristas da Torá ofereceram diversas explicações para a fuga intrigante. Uma interpretação clássica sustenta que o profeta preferiu transgredir uma ordem Divina, ainda que ao custo da própria vida, a tornar-se instrumento de uma tragédia que atingiria seu próprio povo, Israel. Para compreender essa interpretação, é preciso conhecer o contexto e as consequências futuras da missão confiada a Yoná. D’us ordenou-lhe que fosse a Nínive para advertir seus habitantes de que, caso não se arrependessem, a cidade seria destruída. Contudo, não se tratava de uma localidade qualquer. Era a capital da Assíria, a maior potência militar do antigo Oriente Médio e inimiga ferrenha de Israel.
Yoná tinha uma outra razão para tanta relutância. Se conseguisse convencer os habitantes pagãos de Nínive a se arrependerem enquanto seu próprio povo continuava a ignorar as advertências dos Céus, a redenção da capital assíria constituiria uma acusação celestial contra os judeus. Portanto, Yoná enfrentava um dilema: como profeta, tinha que transmitir a mensagem de D’us, mas, como leal filho de Israel, compreendia que o cumprimento da missão poderia contribuir para que uma catástrofe se abatesse sobre seu povo. Assim, fugiu, não na tentativa de escapar da presença infinita do Onipotente, mas por um ato de profundo amor por sua própria nação. Ao deixar a Terra de Israel, onde o espírito de profecia costumava repousar sobre os mensageiros de D’us, esperava que seu dom se afastasse dele e a ordem Divina para ir a Nínive não mais o alcançasse.
Disposto a sacrificar tudo (sua estatura espiritual como Tzadik Gamur, seu poder de profecia e até mesmo a própria vida), Yoná buscava proteger seu povo tanto do Império Assírio quanto de decretos celestiais negativos. Sob essa ótica, fugiu não por um ato de rebeldia, mas por um esforço comovente de sacrifício pessoal. Entretanto, foi uma tentativa inútil: a tempestade deixou evidente, de forma inequívoca, a impossibilidade de se evadir da vontade Divina. Apesar de toda a sua resistência, o profeta é finalmente compelido a ir a Nínive.
Por que o Livro de Yoná é recitado em Yom Kipur?
A resposta parece óbvia para quem já leu essa obra, que, entre seus ensinamentos centrais, trata da teshuvá, o arrependimento, exatamente o tema da data maior do nosso calendário, ponto culminante dos Dez Dias do retorno a D’us iniciados em Rosh Hashaná. A mudança de rumos dos ninivitas é um dos grandes exemplos de observância a esse mandamento, nas Escrituras Sagradas. Todos, do rei ao mais humilde de seus súditos, ouviram a advertência profética de Yoná, reconheceram seus erros, clamaram ao Altíssimo em oração, jejuaram, abandonaram os maus caminhos e buscaram a misericórdia de D’us, que aceitou seu arrependimento e revogou o decreto que fora emitido contra eles.
O que torna essa narrativa ainda mais notável é que se trata de uma história de teshuvá coletiva não do Povo de Israel, mas de uma nação pagã, que nem possuía a Torá, nem vivia segundo os mandamentos da Lei. Ainda assim, os habitantes de Nínive adotaram muitas das práticas que caracterizam Yom Kipur: clamaram a D’us em oração, proclamaram um jejum público, afligiram-se, abandonaram seus maus caminhos e procuraram reparar os males cometidos.
O Livro de Yoná ensina o que constitui arrependimento sincero. Ao explicar o motivo da clemência para os ninivitas, não diz que o Eterno viu seu jejum, vestes de saco, cinzas ou orações. Em vez disso, declara: “E D’us viu o que fizeram, como retornaram de seu mau caminho” (Yoná 3:10). Esse versículo revela a forma de obter o perdão Divino. O jejum, as aflições e as manifestações públicas de arrependimento de todo o povo da capital assíria não foram, por si sós, o que levou o Misericordioso a revogar o decreto. Se os ninivitas tivessem feito tudo isso sem mudar seu comportamento, a cidade teria sido destruída da mesma forma. A teshuvá, portanto, vai muito além de atos de observância religiosa, por mais obrigatórios e meritórios que sejam: é a transformação da própria vida para melhor.
Por essa razão, o arrependimento de Nínive constitui, há milênios, um dos mais poderosos exemplos do perdão Divino no Judaísmo. O Misericordioso dispôs-se a perdoar até mesmo os habitantes de uma cidade conhecida por sua violência e perversidade. Portanto, ninguém deve jamais perder a esperança em Sua clemência.
Agora podemos compreender por que nossos Sábios escolheram o Livro de Yoná como a Haftará da tarde de Yom Kipur. Após essa leitura e a Amidá de Minchá, inicia-se a Neilá, o ponto máximo e a oração de encerramento do dia sagrado. É nesse momento, a última oportunidade de obter o perdão Divino, que a narrativa da salvação de Nínive recorda a todos nós que D’us é misericordioso e espera nosso retorno.
É significativo que as palavras do profeta Ezequiel sejam citadas na Amidá recitada durante a Neilá: “Acaso Eu sinto algum prazer com que o malvado morra? diz o Eterno D’us. – Somente que retorne dos seus caminhos e viva” (Ezequiel 18:23). Essa recitação, assim como o Livro de Yoná, faz-nos lembrar que o desejo supremo do Misericordioso não é a punição, mas o nosso arrependimento e Seu perdão.
No entanto, essa não é a mensagem mais profunda dessa obra sagrada. Se nossos Sábios tivessem escolhido esse texto como Haftará de Yom Kipur apenas por causa da redenção de Nínive, outras passagens do Tanach poderiam transmitir a mesma lição. A seleção do livro deu-se também por outra razão: a jornada de Yoná. É o próprio profeta, ainda mais que os habitantes da capital assíria, quem nos demonstra o significado mais profundo da teshuvá. Enquanto a mudança de rumo dos ninivitas ensina que D’us perdoa aqueles que a Ele retornam, a história de Yoná explica o significado real desse processo.
A experiência do profeta
A palavra hebraica teshuvá costuma ser traduzida como “arrependimento”, mas seu sentido literal é “retorno”. É uma referência ao verdadeiro regresso a D’us, quando voltamos à condição da pessoa que fomos criados para ser. Vai muito além do que se observou em Nínive: um reconhecimento dos próprios erros, seguido do arrependimento e da busca por reparação. Significa também retornar ao caminho do qual nos afastamos e abraçar a missão para a qual D’us nos colocou neste mundo.
Sob essa perspectiva, o Livro de Yoná deixa de ser apenas o relato de um profeta que viveu há milhares de anos. Torna-se a história de todo ser humano em todas as gerações, a de cada pessoa que já lutou para aceitar a tarefa que D’us lhe confiou. Em última análise, é o relato de nossa própria trajetória.
O Altíssimo confiou a Yoná uma missão. No entanto, desesperado para evitar o encargo, o profeta buscou uma saída que passou por três etapas, cada qual uma tentativa mais determinada de escapar da incumbência. Inicialmente, recorreu à fuga: deixou Israel e embarcou em um navio rumo a Tarshish, o mais longe possível de Nínive. Isso, no entanto, foi inútil, pois D’us enviou uma tempestade para deixar claro que ninguém pode escapar à Sua vontade. Ainda assim, em vez de reconhecer o chamado para voltar à missão da qual fugira, Yoná recolheu-se ao porão do navio e adormeceu. Enquanto o mar se enfurecia ao seu redor e os marinheiros lutavam pela própria vida, simplesmente se afastou da realidade. O sono tornou-se seu refúgio, uma forma de evitar aquilo que se recusava a enfrentar.
Quando até mesmo isso se revelou inútil, Yoná caiu em desespero. Convencido de que não havia mais saída, pediu aos marinheiros que o lançassem ao mar. Diante da escolha entre abraçar a missão que lhe fora confiada ou entregar a própria vida, escolheu a segunda alternativa.
Entretanto, nem mesmo assim D’us aceitou essa recusa: lançado ao mar, o profeta não pereceu. Em vez disso, foi engolido por um grande peixe. Só então compreendeu que nem a fuga, nem o sono, nem a disposição de entregar a própria vida poderiam liberá-lo da missão que lhe fora confiada. Depois de esgotar todas as possibilidades de escapar, voltou-se, enfim, a D’us em oração, não porque sua incumbência tivesse mudado, mas porque ele próprio se transformara.
Após três dias e três noites, o peixe lançou Yoná sobre a terra firme. Confrontado com a realidade de que não se pode escapar da vontade de D’us, o profeta finalmente aceitou o encargo ao qual resistira por tanto tempo e partiu para Nínive. A missão teve grande êxito: todos os habitantes da cidade acreditaram na advertência do Altíssimo e fizeram teshuvá. Mais de 120 mil pessoas foram poupadas porque um profeta relutante finalmente aceitou a incumbência confiada pelo Misericordioso.
À primeira vista, Yoná fez uma profecia que não se cumpriu, pois proclamara: “Daqui a 40 dias, Nínive será revirada” (Yoná 3:4), o que não ocorreu. Maimônides (o Rambam), contudo, explica que as palavras proféticas se concretizaram no sentido mais profundo possível: Nínive foi, de fato, revirada, não em sentido físico, mas espiritual. Seus habitantes transformaram seu modo de vida por meio de uma teshuvá genuína, e foi precisamente essa transformação que levou à revogação do decreto Divino.
Do ponto de vista de Yoná, entretanto, a missão revelou-se catastrófica, pois o que o profeta mais temia acabou por acontecer. Os pagãos de Nínive arrependeram-se, mas nossos ancestrais, não. A Assíria sobreviveu, fortaleceu-se e, com o passar do tempo, destruiu o Reino do Norte de Israel. Perdidas, as Dez Tribos só iriam ser identificadas e voltariam à terra ancestral na Era Messiânica.
Ainda assim, Yoná acabou por aceitar a missão que lhe fora confiada. Talvez jamais tenha compreendido o plano Divino. Contudo, aprendeu que somos chamados não a entender todos os propósitos por trás das ordens de D’us, mas, isto sim, a cumprir o encargo por Ele confiado.
A história de Yoná é a de todos nós
No início deste artigo, perguntamos por que o livro desse profeta é lido como Haftará na oração de Minchá, pouco antes da Neilá, a prece final de Yom Kipur. A resposta mais imediata é que o arrependimento de Nínive nos lembra que as portas da teshuvá permanecem abertas a todo ser humano: mesmo diante dos pecados mais graves, o arrependimento sincero tem o poder de levar à revogação até dos decretos mais severos. É isso que devemos ter em mente nas últimas horas de Yom Kipur, quando os portões celestiais estão prestes a se fechar. O Livro de Yoná, no entanto, ensina uma lição mais profunda. Como demonstra a própria jornada do profeta, D’us espera de nós não apenas o arrependimento por nossas transgressões, mas também o retorno à missão singular para a qual nos criou. Nesse sentido, a data mais reverenciada do calendário judaico e o ponto culminante dos Dez Dias de Teshuvá é o momento mais apropriado não só para nos arrependermos do passado, mas também para renovarmos o compromisso com o propósito para o qual D’us nos criou e enviou a este mundo.
O Livro de Yoná é extraordinário por diversas razões, entre as quais a atemporalidade e a universalidade de suas mensagens. Embora, por ser parte do Tanach (as Escrituras Sagradas judaicas), tenha sido escrito em hebraico e seja lido todos os anos em Yom Kipur, é muito mais que um relato para nós sobre nosso povo. Os Livros dos Profetas poderiam ter ilustrado o poder da teshuvá por meio do arrependimento dos Filhos de Israel. Em vez disso, escolheram Nínive, capital da Assíria, uma nação pagã conhecida por roubo e violência, que mais tarde se voltaria contra o próprio povo do profeta que a salvara da destruição. Ao situar nesse contexto uma das maiores narrativas das Escrituras sobre o retorno a D’us, o Livro de Yoná ensina que a teshuvá é um chamado a todos, não apenas aos judeus.
Observa-se uma mensagem igualmente universal na atitude dos marinheiros, que, apesar de inicialmente apresentados como pagãos, demonstraram respeito pela vida humana. Recusaram-se a lançar Yoná ao mar até o esgotamento de todas as outras possibilidades e, mesmo então, suplicaram a D’us que não os responsabilizasse pela morte que estariam prestes a causar. No fim da viagem, abandonaram suas falsas divindades, admitiram a soberania de D’us e ofereceram-Lhe sacrifícios. Seu exemplo lembra-nos que a retidão não se limita a nenhum povo ou religião. A capacidade de reconhecer a verdade, reverenciar a vida humana e voltar-se para o Altíssimo pertence a toda a humanidade.
Entretanto, o Livro de Yoná fala a nós de maneira mais pessoal, pois a história do profeta é, em última análise, a nossa própria. Todos temos uma missão Divina a cumprir, responsabilidades que, muitas vezes, preferiríamos evitar. Deveres, relacionamentos, talentos e até desafios fazem parte dessa incumbência singular dada a cada um de nós. Quando somos confrontados com um chamado Divino que preferiríamos não abraçar, nosso primeiro impulso, assim como o de Yoná, é fugir, às vezes com viagens turísticas e mudanças geográficas constantes. Na maioria dos casos, contudo, essa evasão manifesta-se por meio da distração. Mergulhamos no trabalho, no entretenimento, em ocupações incessantes ou até em discussões sobre os problemas do mundo enquanto negligenciamos aqueles que estão mais próximos de nós. Envolvemo-nos tanto em causas distantes que deixamos de perceber as responsabilidades silenciosas que nos aguardam em casa. Até mesmo a atividade religiosa pode transformar-se em fuga quando nos afasta das incumbências que D’us espera que cumpramos.
Quando fugimos do que o Eterno espera de nós, a Providência Divina, com frequência, faz surgir uma tempestade não para nos destruir, mas para nos despertar. Em vez de reconhecermos nisso um chamado para enfrentar aquilo de que temos fugido, muitas vezes reagimos como Yoná: adormecemos. Para alguns, esse sono é literal, porém, para a maioria, é espiritual. Tornamo-nos passivos, adiamos decisões difíceis e convencemo-nos de que as circunstâncias, de algum modo, acabarão por se resolver por si mesmas. Se desconsiderada por tempo suficiente, a tempestade passará, pensamos. Contudo, essas tormentas enviadas por D’us não se vão antes de cumprirem o propósito para o qual foram enviadas. Ao contrário, quanto mais são desprezadas, mais se intensificam. Quando não podem mais ignorar essas perturbações, algumas pessoas caem em resignação silenciosa: deixam de viver e passam apenas a existir. Em vez de moldar o próprio rumo, deixam-se levar pelas circunstâncias, à deriva, como o profeta Yoná sobre as águas do mar. Pouco a pouco, o que começou como fuga transforma-se em rendição não a D’us, mas à própria vida.
Entretanto, segundo o Livro de Yoná, o Onipotente sempre encontrará um meio de alcançar aquele que tenta escapar, por mais longe que vá. Como a tempestade não foi suficiente, o Eterno enviou um grande peixe para engolir Yoná, que só então compreendeu que não havia saída. Não se pode escapar nem da Providência Divina, nem do papel que D’us nos reserva, mesmo quando, como no caso do profeta, os motivos da fuga sejam nobres.
É Yoná, portanto, e não os ninivitas quem nos ensina a essência da teshuvá. Retornar a D’us não significa apenas afastar-se do pecado, mas também abraçar, com coragem e determinação, aquilo que o Eterno espera de nós, por mais difícil, inconveniente ou inesperado que seja.
É essa teshuvá que D’us pede de cada um de nós, tanto como indivíduos quanto como povo. Ao longo da história, muitos judeus procuraram fugir não do Judaísmo, mas das responsabilidades que o acompanham: mandamentos Divinos que lhes pareciam exigentes, pesados ou custosos demais. No entanto, assim como Yoná, acabamos por descobrir que nossa identidade é inseparável de nossa missão. D’us chama cada um de nós e todo o Povo Judeu a cumprir exatamente aquilo para que nos criou.
Em sua essência, o Livro de Yoná ensina que, independentemente de religião, nacionalidade ou origem étnica, todo ser humano foi criado pelo Altíssimo com uma missão única que nenhum outro pode executar, nem no presente, nem no passado, nem no futuro. A cada Yom Kipur, todo o nosso povo lê esse texto. Nínive, os marinheiros e, por fim, Yoná retornaram a D’us. A pergunta que fica é: e nós?
Bibliografia
Steinsaltz, Rabbi Adin Even-Israel, The Steinsaltz Neviim, Koren Publishers, Jerusalem