Por que é uma mitsvá comer na véspera de Yom Kipur?
Yom Kipur é marcado por um jejum de mais de 24 horas, mas sua preparação inclui algo que pode parecer contraditório: na véspera do Dia da Expiação, não se deve jejuar. Pelo contrário, é uma mitsvá fazer uma refeição adicional.
A refeição que antecede o jejum deve incluir pão e ser concluída antes do início de Yom Kipur. Assim, a preparação para o dia mais solene do calendário judaico não começa com a privação física, mas com uma refeição realizada como parte da própria observância religiosa.
Esse contraste ressalta uma característica importante de Yom Kipur: o jejum não é simplesmente um exercício de privação. Tanto a alimentação na véspera quanto a abstinência durante o dia sagrado fazem parte da maneira estabelecida pela Torá e pela tradição judaica de nos prepararmos para Yom Kipur e vivenciarmos sua santidade.
Como pode haver Teshuvá no Shabat se o Shabat é um dia de alegria?
O Shabat entre Rosh Hashaná e Yom Kipur é chamado de Shabat Shuvá — o Shabat do Retorno — e também de Shabat Teshuvá. À primeira vista, essa associação parece contraditória. A Teshuvá costuma envolver arrependimento, remorso e reflexão sobre os erros cometidos, enquanto o Shabat é um dia de alegria, prazer e tranquilidade espiritual. Por isso, não recitamos o Vidui, a confissão dos pecados, no Shabat.
Os ensinamentos místicos do Judaísmo explicam que existem diferentes níveis de Teshuvá. O primeiro envolve reconhecer os erros, arrepender-se e abandonar comportamentos inadequados. Existe, porém, uma forma mais elevada de Teshuvá que não depende da existência de pecados: consiste simplesmente em buscar uma proximidade cada vez maior com D'us.
É essa Teshuvá mais elevada que caracteriza especialmente o Shabat Shuvá. Em vez de olhar apenas para aquilo que precisa ser corrigido, somos convidados a olhar para aquilo que ainda podemos alcançar. Como D'us é Infinito, também não há limite para nossa aproximação a Ele. Por isso, até mesmo os Tzadikim podem fazer Teshuvá — não necessariamente porque tenham cometido transgressões, mas porque sempre é possível alcançar um nível espiritual mais elevado.
Por que Rosh Hashaná constitui a renovação de uma parceria com D’us?
A Torá ensina que nosso relacionamento com D'us envolve uma parceria: recebemos Dele a vida, capacidades e oportunidades, mas também uma missão e responsabilidades. Rosh Hashaná é o momento de avaliar como estamos desempenhando nosso papel nessa parceria e de pensar no que pretendemos realizar no novo ano.
Por isso, o julgamento de Rosh Hashaná não deve ser entendido apenas como uma avaliação das ações do passado. É também um momento para olhar para o futuro e perguntar qual será nossa contribuição para o propósito Divino da Criação. Nossas orações, boas resoluções e o cumprimento das mitsvot expressam o desejo de fortalecer essa ligação com D'us.
Essa perspectiva transforma a maneira de encarar o Ano Novo judaico. Em vez de perguntar apenas o que esperamos receber no ano que começa, Rosh Hashaná nos convida também a perguntar o que podemos oferecer e realizar — e como podemos utilizar o novo ano para cumprir melhor nossa missão.
Por que o sopro do Shofar simboliza a própria alma?
Existe uma profunda relação entre o sopro utilizado para tocar o Shofar e a alma humana. Em hebraico, as palavras neshamá — “alma” — e neshimá — “respiração” — compartilham a mesma raiz, expressando uma ligação entre a vida espiritual e o próprio ato de respirar.
A Torá relata que, ao criar o primeiro ser humano, D'us soprou nele uma alma. Em Rosh Hashaná, aniversário da criação de Adam e Chavah, utilizamos novamente o sopro — desta vez, para produzir o som do Shofar. Segundo os ensinamentos chassídicos, esse som representa o anseio da alma de retornar à sua Fonte e restabelecer sua ligação mais profunda com D'us.
Por isso, o Shofar não precisa produzir uma melodia elaborada nem transmitir uma mensagem por meio de palavras. Seu som simples nasce do próprio sopro e expressa aquilo que as palavras nem sempre conseguem comunicar: o desejo mais íntimo da alma de se aproximar de seu Criador.
Por que o Shofar é feito preferencialmente do chifre de um carneiro?
Embora o Shofar possa ser confeccionado com chifres de diferentes animais casher permitidos pela Halachá, em Rosh Hashaná dá-se preferência ao chifre de um carneiro. A razão está ligada a um dos episódios mais marcantes da Torá: a Akedat Itzhak, a amarração de Itzhak.
Quando Avraham estava prestes a oferecer seu filho Itzhak em sacrifício, um anjo o impediu de prosseguir. Avraham então avistou um carneiro preso pelos chifres e o ofereceu a D'us no lugar de seu filho. Por isso, o chifre do carneiro tornou-se um símbolo da Akedá e da extraordinária devoção demonstrada por Avraham e Itzhak.
Ao ouvirmos o Shofar em Rosh Hashaná, evocamos, assim, o mérito de nossos Patriarcas e pedimos que D'us nos julgue com misericórdia. Um instrumento aparentemente simples torna-se uma ligação entre o momento presente e um dos acontecimentos fundamentais da história espiritual do Povo Judeu.
Por que comemos maçã em Rosh Hashaná?
A maçã que comemos em Rosh Hashaná não simboliza apenas o desejo de um ano doce. Segundo os ensinamentos da Cabalá, essa fruta possui um significado espiritual mais profundo: o Zohar se refere ao Paraíso como Chakal Tapuchin Kadishin — o “Pomar das Maçãs Sagradas”.
Essa associação também aparece na interpretação de um episódio da Torá. Quando Itzhak sente o aroma de seu filho Yaacov, declara: “O cheiro do meu filho é como o cheiro do campo que o Eterno abençoou”. Rashi explica que se trata do aroma do Gan Eden, comparado a um pomar de maçãs.
A maçã também aparece no Shir HaShirim como símbolo do relacionamento entre D'us e o Povo Judeu. Assim, ao comê-la em Rosh Hashaná, evocamos não apenas doçura, mas também o Gan Eden e o amor de D'us por Seu povo, expressando a esperança de que o novo ano seja repleto de bênçãos.
Por que Rosh Hashaná dura dois dias até em Israel?
Rosh Hashaná é diferente das demais grandes festas judaicas. Em outras festividades, como Pessach ou Sucot, as comunidades da Diáspora observam um dia adicional de Yom Tov — costume adotado na Antiguidade, quando o início de cada mês era determinado em Jerusalém após o testemunho de pessoas que haviam avistado a lua nova. Como essas festas começam no meio do mês, havia tempo para que a notícia sobre o início do novo mês fosse conhecida em Israel, mas nem sempre para que chegasse às comunidades mais distantes, que passaram a observar um dia adicional por precaução.
Rosh Hashaná, porém, começa no primeiro dia de Tishrei — exatamente o dia em que o novo mês era declarado. No início desse dia, ainda não se sabia se as testemunhas chegariam a tempo para que aquele próprio dia fosse declarado Rosh Chodesh. Essa incerteza podia existir até mesmo em Jerusalém. Por isso, Rosh Hashaná passou a ser observado durante dois dias também em Israel. Esse costume permaneceu até hoje, mesmo após a fixação do calendário judaico.
Segundo ensinamentos cabalísticos e chassídicos, os dois dias não são apenas consequência dessa antiga incerteza relacionada ao calendário: eles também expressam dimensões espirituais distintas e complementares da festividade, formando um único processo de renovação.
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