De acordo com a Lei Judaica, um novo dia não começa à meia-noite, como no calendário civil, mas sim ao anoitecer. Por isso, a Havdalá só é recitada após o anoitecer do sábado, quando o Shabat já chegou ao fim. Como essa cerimônia marca a conclusão do Shabat e envolve ações proibidas durante o dia […]
De acordo com a Lei Judaica, um novo dia não começa à meia-noite, como no calendário civil, mas sim ao anoitecer. Por isso, a Havdalá só é recitada após o anoitecer do sábado, quando o Shabat já chegou ao fim. Como essa cerimônia marca a conclusão do Shabat e envolve ações proibidas durante o dia sagrado – como acender ou apagar uma chama – ela só pode ser realizada quando o Shabat tiver realmente terminado e suas restrições já não estiverem mais em vigor.
Na noite de sexta-feira, após as orações de Shabat (Kabalat Shabat e Arvit), recitamos o Kidush sobre um cálice de vinho. Em seguida, lavamos as mãos (Netilat Yadaim), recitamos a bênção sobre o pão (HaMotzi) e participamos da refeição festiva de Shabat. Embora o Shabat comece com o pôr do sol (Shekiá), é por meio do Kidush que cumprimos o mandamento da Torá: “Lembra-te do dia de Shabat para santificá-lo” (Zachor et yom haShabat lekadshó), conforme está escrito nas Asseret HaDibrot – as Dez Declarações, conhecidas como os Dez Mandamentos.
No sábado à noite, mais uma vez elevamos um cálice de vinho – desta vez, para marcar a despedida do Shabat por meio da cerimônia da Havdalá. Tanto o Kidush quanto a Havdalá são rituais de transição: o Kidush marca a passagem dos dias comuns da semana para o sagrado dia de Shabat, enquanto a Havdalá assinala o movimento inverso – do dia sagrado para os dias comuns da semana.
A palavra hebraica Kidush vem da raiz (שדקׁ), geralmente traduzida como “sagrado”, mas que, literalmente, significa “separado”. Declarar algo como kadosh é retirá-lo do uso comum e dedicá-lo a um propósito mais elevado. A cerimônia do Kidush sobre um cálice de vinho, portanto, não é apenas um ato de santificação, mas uma declaração verbal de distinção – separando o Shabat dos demais dias da semana e reconhecendo que esse dia se encontra em um plano espiritual superior.
Havdalá significa “separação” ou “distinção”. Em essência, tanto o Kidush quanto a Havdalá expressam a mesma ideia central: a separação entre o sagrado e o comum. Ambas as cerimônias marcam a fronteira entre o tempo sagrado e o tempo cotidiano. Como explica Maimônides (o Rambam), assim como santificamos o Shabat em sua entrada por meio do Kidush, afirmamos sua conclusão por meio da Havdalá. Ambas envolvem vinho e são declarações verbais que destacam a singularidade do Shabat. A principal diferença está na direção do movimento: o Kidush nos eleva dos dias da semana à santidade, enquanto a Havdalá nos conduz de volta da santidade para os dias comuns – com a esperança de que a luz do Shabat continue a iluminar nossa semana.
Segundo o Rambam, tanto o Kidush quanto a Havdalá fazem parte do mandamento da Torá de “lembrar o dia de Shabat para santificá-lo” (Êxodo 20:8). Em sua obra Mishneh Torá (Hilchot Shabat 29:1), ele escreve:
“É um mandamento positivo, de origem bíblica, santificar o dia de Shabat com uma declaração verbal, conforme indicado no versículo: ‘Lembra-te do dia de Shabat para santificá-lo’ – ou seja, lembrá-lo com palavras de louvor que expressem sua santidade. Esse ato de lembrança deve ocorrer tanto na entrada quanto na saída do Shabat: no início do dia, por meio do Kidush, que o santifica, e na sua conclusão, por meio da Havdalá”.
Segundo essa visão, a Havdalá não é um mandamento de origem rabínica, mas parte integrante do mandamento da Torá de distinguir verbalmente o Shabat – tanto em sua entrada quanto em sua saída. No entanto, essa posição do Rambam não é unanimemente aceita. Enquanto o Kidush, especialmente na noite de sexta-feira, é amplamente reconhecido como uma obrigação da Torá (de’oráita, ou seja, com origem no próprio Pentateuco), o status haláchico (legal, segundo a Lei Judaica) da Havdalá é objeto de discussão. Muitos comentaristas consideram que a Havdalá é uma mitsvá rabínica (derabanan), instituída pelos Sábios e não exigida diretamente pela Torá. Assim, embora o Rambam considere tanto o Kidush quanto a Havdalá como obrigações da própria Torá, outras autoridades haláchicas de destaque veem a Havdalá como um mandamento de origem rabínica.
A cerimônia é composta por quatro elementos essenciais: vinho, especiarias aromáticas, uma chama e a bênção final de separação. Cada um desses componentes tem fundamento na Lei Judaica e é carregado de significados espirituais e místicos.
O simbolismo do vinho
Assim como no Kidush, a Havdalá é recitada sobre um cálice de vinho – o kos shel berachá (“cálice da bênção”) – que constitui a base do ritual. Na tradição judaica, o vinho é considerado a mais distinta das bebidas. Deve ser casher e sua produção e manuseio seguem uma série de normas rigorosas da Lei Judaica.
No Judaísmo, o vinho possui um profundo significado simbólico. Representa a alegria, a santidade e bênção divina. O Talmud ensina que o vinho é fonte de alegria, e, segundo a Cabalá – especialmente nos ensinamentos do Zohar –, o vinho está associado à dimensão mais profunda da Torá: seus segredos místicos e esotéricos.
O vinho desempenhava um papel fundamental no serviço do Beit HaMikdash (Templo Sagrado) em Jerusalém, sendo oferecido diariamente no altar. Ele também é mencionado com frequência ao longo do Tanach – os 24 livros das Escrituras Judaicas, compostos pela Torá (Pentateuco), Nevi’im (Profetas) e Ketuvim (Escritos). Segundo o Zohar – obra central da Cabalá, a uva era o fruto proibido da Árvore do Conhecimento no Jardim do Éden, da qual foi feito e consumido o vinho.
Uma explicação mística para o papel tão importante do vinho em muitos mandamentos judaicos diz que, ao utilizá-lo no serviço do sagrado, elevamos esse elemento e o direcionamos à santidade – reparando, assim, seu uso original inadequado no Jardim do Éden e restaurando a harmonia espiritual. Por conta de seu status elevado, o vinho é utilizado em diversos rituais sagrados do Judaísmo, como o Kidush (a santificação do Shabat e das festas), o Brit Milá (circuncisão), casamentos, as Sheva Berachot (as sete bênçãos recitadas após as refeições festivas durante a semana que segue o casamento) e o Birkat HaMazón (bênção após as refeições), principalmente em ocasiões especiais. No contexto da Havdalá, o vinho representa a continuidade da elevação espiritual do Shabat nos dias da semana que o seguem. Lembra-nos que a santidade não se deve restringir a um único dia, mas deve influenciar e iluminar a semana que se segue. Nesse sentido, o vinho da Havdalá funciona como uma ponte simbólica, levando a santidade do Shabat para os dias comuns e nos convidando a viver cada momento da semana com propósito e profundidade espiritual.
De acordo com a Lei Judaica, a bebida ideal para a Havdalá é o vinho ou suco de uva, evidentemente casher, sobre os quais se recita a bênção borê peri haguefen (“Aquele que cria o fruto da videira”). Caso o vinho ou o suco de uva não estejam disponíveis, ou se a pessoa não puder consumi-los por motivos de saúde ou outras razões legítimas, pode-se utilizar uma hamar mediná – literalmente, “bebida do país”, ou seja, uma bebida localmente respeitada, como a cerveja, por exemplo. No entanto, esse tipo de substituição só é permitido bediavad (em caráter excepcional); lechatchila (de forma ideal), deve-se sempre utilizar vinho ou suco de uva casher.
O cálice usado na Havdalá, assim como em qualquer kos shel berachá (“cálice da bênção”), deve conter, no mínimo, um reviít – medida líquida estabelecida pela Halachá, estimada entre 86 e 150 mililitros, dependendo da opinião haláchica adotada. O cálice deve estar íntegro, limpo e, idealmente, belo, para que o mandamento seja cumprido com honra e esmero. É costume enchê-lo até a borda e deixá-lo transbordar levemente, como símbolo de bênção e abundância para a semana que se inicia.
Especiarias aromáticas: alento para a alma
Como parte da cerimônia de Havdalá, é recitada uma bênção sobre especiarias aromáticas, que são então circuladas entre os presentes para cheirá-las. A fórmula exata da bênção varia de acordo com a origem botânica do aroma: borê atzê bessamim (“Aquele que cria árvores aromáticas”) é dita sobre substâncias que crescem em árvores; borê isvê bessamim (“Aquele que cria ervas aromáticas”), sobre aquelas que crescem no solo. Quando se utiliza uma mistura de especiarias ou quando não se sabe ao certo sua origem, recita-se a bênção genérica borê minê bessamim (“Aquele que cria diferentes tipos de especiarias”).
Nos livros de oração ashquenazitas, é costume usar apenas borê minê bessamim, enquanto em muitos livros de oração sefaraditas é mais comum a bênção borê atzê bessamim. Segundo o Talmud e as obras da Cabalá, todo judeu recebe uma neshamá yeterá – uma “alma adicional” ou dimensão espiritual expandida – durante o Shabat. Quando o dia sagrado chega ao fim, essa alma extra se retira, e as especiarias aromáticas são usadas para revigorar e consolar a alma que permanece, a qual sente a perda da neshamá yeterá vivenciada ao longo do Shabat.
Em um nível mais simples, a neshamá yeterá representa uma ampliação da capacidade espiritual, emocional e física da pessoa durante o Shabat – incluindo uma sensibilidade maior para apreciar a comida, a bebida, o descanso e o tempo sagrado. Segundo o Zohar, no entanto, a neshamá yeterá não é apenas um estado mental ou emocional elevado, mas sim uma adição espiritual real: uma alma extra concedida no Shabat. Quando o dia sagrado termina, essa alma se retira, e a alma que permanece sente uma forma de luto espiritual.
Por que, entre todos os sentidos, o olfato foi justamente o escolhido para consolar a alma? De acordo com os ensinamentos do Midrash e da tradição mística judaica, o sentido do olfato foi o único que não foi corrompido pelo pecado de Adão e Eva. Quando eles comeram do fruto da Árvore do Conhecimento, todos os outros sentidos foram envolvidos: “A mulher viu que a árvore era boa... pegou do fruto... ele comeu... eles ouviram a voz de D’us...” (Gênesis 3:6–8). O olfato, no entanto, não é mencionado nesse episódio.
Por ter permanecido puro, o olfato passou a ser considerado o mais espiritual de todos os sentidos – aquele mais diretamente ligado à alma. O aroma traz prazer diretamente à alma. É por isso que o olfato é utilizado na cerimônia da Havdalá: para suavizar a tristeza da alma com o fim do Shabat e ajudá-la a fazer a transição do tempo sagrado para a rotina dos dias comuns.
As especiarias usadas na Havdalá devem ser naturalmente aromáticas e apropriadas para a bênção. Entre os exemplos mais recomendados estão o cravo, a canela e outras plantas perfumadas que conservam seu aroma e são tradicionalmente usadas para serem cheiradas. Materiais com fragrância artificial ou especiarias utilizadas principalmente no preparo de alimentos e que não tenham aroma perceptível não devem ser utilizados. Caso não haja especiarias adequadas disponíveis, essa parte da cerimônia simplesmente deve ser omitida.
Embora o uso dos bessamim (especiarias aromáticas) não seja indispensável para a validade haláchica da Havdalá – ou seja, o mandamento é considerado cumprido mesmo sem a bênção sobre as especiarias – trata-se de um costume muito querido e amplamente difundido, repleto de significado religioso, espiritual e simbólico.
A Chama: Iluminando o mundo
Durante a Havdalá, recita-se a bênção borê me’orê ha’esh (“Aquele que cria as luzes do fogo”) sobre uma chama. Segundo a Halachá (Lei Judaica), essa chama deve ter pelo menos dois pavios ou ser uma única chama que aparente ser composta de várias luzes – como no caso de uma vela trançada – para que se enquadre no termo plural me’orot, que significa “luzes”. Uma vela comum, com apenas um pavio, não atende a esse requisito, pois sua chama não expressa visualmente a multiplicidade implícita nas palavras da bênção.
A chama deve ser suficientemente grande e estável para proporcionar um benefício visual perceptível. É costume olhar para as próprias unhas ou para as mãos à luz da chama logo após a bênção, como forma simbólica de demonstrar esse benefício. Essa prática reflete um princípio da Lei Judaica segundo o qual uma bênção sobre a luz só pode ser recitada quando dela se extrai algum uso prático. Ao observar as mãos ou as unhas, a pessoa demonstra que a chama não é apenas simbólica, mas funcional – cumprindo, assim, a exigência de que a luz tenha uma utilidade real no momento da bênção.
O uso do fogo no sábado à noite remete a uma antiga tradição registrada no Midrash, segundo a qual Adam HaRishon – o primeiro ser humano – descobriu o fogo no primeiro Motzaei Shabat (a noite que se segue ao término do Shabat). Quando a escuridão caiu pela primeira vez desde a criação, Adão sentiu medo. Inspirado por D’us, pegou duas pedras, bateu uma contra a outra e, assim, surgiu o fogo. Naquele momento, Adão louvou o Criador com as palavras que mais tarde se tornariam a bênção da Havdalá: “Bendito és Tu, Eterno, que criaste as luzes do fogo.”
Esse relato é ampliado no Midrash e em obras cabalísticas, que explicam que, antes da criação do sol e da lua, D’us criou uma luz primordial – tão intensa que iluminava o mundo de uma extremidade à outra. Após o pecado de Adão e Eva, no sexto dia da Criação, D’us optou por ocultar essa luz e expulsá-los do Jardim do Éden. No entanto, em honra ao Shabat, Ele adiou a expulsão até o fim do dia sagrado, permitindo que essa luz permanecesse até o anoitecer. Quando o Shabat terminou e a escuridão desceu, Adão temeu que o mundo estivesse retornando ao caos. Em resposta, D’us o inspirou a produzir o fogo – símbolo da criatividade humana, da resiliência e da capacidade de impor ordem à escuridão.
O fogo é, portanto, um elemento único entre as criações: é o único sobre o qual se recita uma nova bênção a cada semana, em lembrança de sua descoberta original. Durante o Shabat, não se pode acender, aumentar ou transferir fogo – embora seja permitido usufruir de uma chama previamente acesa. Seu uso pleno só volta a ser permitido no sábado à noite, quando se inicia a nova semana judaica. Por isso, é como se o fogo fosse “criado novamente” a cada semana. Com base nesse simbolismo, os Sábios instituíram uma bênção especial sobre o fogo como parte do ritual da Havdalá.
A Havdalá pode ser realizada normalmente, mesmo se não houver uma chama disponível e não for possível recitar a bênção de borê me’orê ha’esh. No entanto, deve-se evitar de omitir essa bênção quando for possível providenciar uma chama adequada – mesmo que seja necessário unir duas velas para isso. Mais do que uma das bênçãos formais da cerimônia, o fogo carrega um profundo significado simbólico. Marca a transição entre a serenidade espiritual do Shabat e a retomada das atividades da semana. O fogo representa a criatividade humana, o esforço e o retorno à ação com propósito. Após um dia em que se evita toda melachá (trabalho criativo), a chama sinaliza nossa reentrada no mundo da ação – idealmente guiada pela clareza, serenidade e elevação espiritual que o Shabat nos proporcionou.
A chama da Havdalá também transmite uma lição atemporal. Assim como Adão trouxe luz ao mundo ao bater duas pedras, uma contra a outra – enfrentando a escuridão com fé e criatividade, lembramos que também podemos trazer luz e santidade mesmo nas situações mais improváveis ou desafiadoras. Quando o Shabat se despede e a nova semana começa, a chama nos lembra que carregamos dentro de nós o poder de iluminar o mundo.
A Bênção Final: Separando o Sagrado do Comum
A cerimônia da Havdalá se encerra com uma bênção que louva D’us como Aquele “que separa o sagrado do mundano”. Essa declaração – Hamavdil ben kodesh lechol (“Aquele que separa o sagrado do mundano”) – é tanto o centro temático quanto o ponto central da Havdalá, segundo a tradição judaica. Embora as bênçãos anteriores – sobre o vinho, as especiarias e o fogo – tragam profundidade e beleza à experiência, a bênção de Hamavdil é o que cumpre o requisito essencial da Havdalá, conforme determina a Lei Judaica.
O conteúdo dessa bênção expressa um princípio central do pensamento judaico: a santidade não é uma questão subjetiva, nem um estado emocional, nem tampouco uma experiência mística – ela é uma realidade definida por estrutura e distinção. Como dissemos anteriormente, o significado exato de kadosh – “sagrado” – é “separado”. Sem separação, não há santidade. Assim como o ato da Criação começou com uma série de distinções Divinas – entre luz e trevas, céu e terra, dia e noite, a vida espiritual também depende da nossa capacidade de estabelecer limites claros. O Shabat é um dia sagrado justamente porque é separado – distinto – dos outros seis dias comuns da semana. Da mesma forma que o Kidush marca a entrada do Shabat e afirma sua santidade, a cerimônia da Havdalá assinala sua despedida, reafirmando que a santidade está intrinsecamente ligada ao ato de separação.
Após recitar a bênção final – “Bendito és Tu, Eterno, que separas o sagrado do mundano” – , o oficiante bebe o vinho. Em seguida, é costume apagar a vela da Havdalá com o próprio vinho que restou no cálice ou com aquele que transbordou para o prato ou bandeja ao se encher o copo.
Após apagar a chama, muitas pessoas têm o costume de molhar o dedo no vinho derramado e tocá-lo na testa, logo acima dos olhos, inspiradas no versículo: “O preceito do Eterno é puro, ilumina os olhos” (Salmos 19:9). Com o início da nova semana, esse gesto simboliza a ideia de que até mesmo os resquícios de uma mitsvá têm o poder de iluminar. Há também quem molhe o dedo no vinho e o leve ao bolso – um costume considerado uma segulá, ou seja, um ato simbólico que, segundo a tradição, atrai bênçãos materiais e abundância para a semana que se inicia. Com base na associação do vinho à alegria e ao favor Divino, esse gesto expressa o desejo de que, assim como o bolso foi tocado pelo vinho da Havdalá, ele também se encha de sustento e sucesso nos dias que virão.
É importante observar que, embora a Havdalá, como o próprio nome indica, seja um ritual de separação que marca formalmente o fim do Shabat, a tradição judaica – especialmente no pensamento da Chassidut e da Cabalá – ensina que a influência espiritual do Shabat se estende pelos dias da semana. O Zohar e os ensinamentos do Arizal – Rabi Yitzchak Luria, cabalista do século 16 que viveu em Safed – falam sobre o prolongamento da santidade do Shabat ao longo da semana. O Baal Shem Tov – fundador do Movimento Chassídico – e os mestres que o sucederam enfatizam que a luz do Shabat fortalece espiritualmente a pessoa para os dias que virão.
Assim, embora não haja comparação entre a santidade do Shabat – que supera até mesmo a das festas judaicas – e o nível espiritual dos dias mundanos da semana, sua influência não deve se restringir a apenas um único dia. Devemos levar a consciência elevada do Shabat para a semana que se inicia. Ao fazer isso, permitimos que sua santidade nos acompanhe e eleve nossa vida diária – preenchendo até os momentos mais simples com propósito e profundidade espiritual.
Havdalá, ao longo do Ano
Assim como se recita a Havdalá após o Shabat, o mesmo ocorre com os feriados religiosos judaicos (Yamim Tovim). Embora a Havdalá realizada após um Yom Tov tenha o mesmo propósito e siga, em essência, o mesmo texto-base da Havdalá recitada após o Shabat, algumas diferenças importantes em sua estrutura evidenciam a distinção entre Shabat e Yom Tov, inclusive Yom Kipur.
Quando um Yom Tov chega ao fim e é seguido por um dia da semana ou pelos dias intermediários de Pessach ou Sucot (Chol HaMoed), recita-se a Havdalá com um cálice de vinho – mas sem as bênçãos sobre as especiarias (bessamim) e sobre o fogo (ha’esh). A bênção sobre o fogo é omitida porque, em Yom Tov, é permitido utilizar o fogo – desde que ele seja transferido de uma chama já existente e não aceso do zero – ao passo que, no Shabat, isso é totalmente proibido. Da mesma forma, a bênção sobre as especiarias não é recitada porque a neshamá yeterá – uma “alma adicional” – não é concedida em Yom Tov, a menos que ele coincida com o Shabat. Essa distinção destaca a santidade superior do Shabat, que, segundo a maioria dos Sábios do Talmud, é ainda mais elevada do que a de Yom Kipur.
Quando o Shabat é seguido por um feriado religioso judaico (Yom Tov), a Havdalá não é recitada como uma cerimônia separada. Em vez disso, ela é incorporada ao Kidush do Yom Tov. Nesse caso, a bênção sobre a chama (borê me’orê ha’esh) é recitada, mas a bênção sobre as especiarias é omitida. O motivo é o seguinte: embora a neshamá yeterá – a “alma adicional” – de fato se retire com o término do Shabat, e embora as especiarias façam parte da Havdalá de Shabat justamente para consolar a alma por essa perda, a alegria e a santidade do Yom Tov, que se inicia imediatamente, cumprem esse papel consolador. Assim, quando o Shabat dá lugar diretamente a um Yom Tov, a alma não retorna a um estado comum, mas entra em outra dimensão de santidade – também marcada por refeições festivas, cumprimento de mitsvot e celebração espiritual. Por isso, não há necessidade de recitar a bênção sobre as especiarias.
Se um feriado religioso judaico dura dois dias – como ocorre na Diáspora, onde o primeiro dia de Yom Tov é seguido por um segundo, com exceção de Yom Kipur – a Havdalá é adiada para o final do segundo dia. Por outro lado, quando um Yom Tov ocorre numa sexta-feira e é seguido diretamente pelo Shabat, a Havdalá é recitada apenas no sábado à noite. Isso se deve ao princípio segundo o qual não se faz Havdalá ao transitar de um nível inferior de santidade para um superior. Como o Shabat é considerado mais sagrado do que qualquer Yom Tov – inclusive mais do que Yom Kipur, segundo muitas autoridades haláchicas -, sua santidade se sobrepõe a do feriado religioso anterior. Nesses casos, a Havdalá é adiada e recitada apenas ao final do Shabat, quando ocorre a transição para os dias da semana.
Durante a festa de Sucot, quando a Havdalá é recitada ao final do Shabat ou de um Yom Tov, a cerimônia deve, preferencialmente, ser realizada dentro da Sucá. Nesse caso, adiciona-se a bênção Leshev ba-Sucá (“que nos ordenou habitar na Sucá”).
Quando a Havdalá é recitada após Yom Kipur, inclui-se a bênção sobre o fogo (borê me’orê ha’esh). No entanto, por razões técnicas estabelecidas pela Halachá – cuja explicação foge ao escopo deste texto –, essa bênção deve ser recitada apenas sobre uma chama acesa antes do início de Yom Kipur. Já a bênção sobre as especiarias não é recitada, pois a neshamá yeterá – a “alma adicional” concedida no Shabat – não é concedida em Yom Kipur. Isso serve como mais uma demonstração de que a santidade do Shabat é superior à de qualquer outro dia, inclusive à de Yom Kipur.
- Yom Tov, que significa literalmente “dia bom”, refere-se às festas judaicas instituídas pela Torá, como os dois primeiros e os dois últimos dias de Pessach, Shavuot, os dois primeiros dias de Sucot, Shemini Atzeret/Simchat Torá, Rosh Hashaná e Yom Kipur. Essas datas são consideradas sagradas e observam proibições quase idênticas às do Shabat.
BIBLIOGRAFIA
What Is Havdalah?, artigo publicado no site https://www.chabad.org/library
Why Do We Smell Aromatic Spices (Bessamim) at Havdalah?, artigo de Yehuda Shurpin, publicado no site https://www.chabad.org/library/article
Why Do We Make a Blessing on Fire at Havdalah?, artigo de Yehuda Shurpin publicado no site https://www.chabad.org/library/article