A preservação da memória dos seis milhões de judeus assassinados durante a Shoá, o exemplo mais chocante da desumanidade do homem contra o homem, é uma obrigação moral do nosso povo. Os nazistas condenaram à morte todos os judeus. Independentemente de sexo ou idade, perseguindo-os de maneira sistemática. Foram trancafiando-os em guetos, onde pereciam de fome, frio, doenças e maus-tratos impensáveis. Centenas de milhares foram fuzilados. Milhões foram levados a campos de extermínio e assassinados em câmaras de gás. Não havia limites para a brutalidade e a crueldade nazista.

Segundo Elie Wiesel, a mente humana tem dificuldade em compreender a extensão e a violência do Holocausto em sua totalidade, de forma que, a seu ver, é uma realidade que só pode ser acessada por meio da vivência direta, ou da voz dos sobreviventes. Diante das atrocidades cometidas pelos nazistas e seus colaboradores, é natural que a mente humana tenda a focar no sofrimento das vítimas, na saga dos sobreviventes ou na coragem daqueles que ajudaram os judeus, os Justos entre as Nações. No entanto, qualquer estudo da Shoá deve considerar a ideologia que pavimentou o terreno para o genocídio, bem como para as medidas adotadas por aqueles que perpetraram ou possibilitaram com sua anuência as atrocidades.

É preciso lembrar que o Holocausto não surgiu do nada, nem tampouco ocorreu logo após a ascensão dos nazistas ao poder. Foi um processo gradual que se desenrolou por doze longos anos. A ideologia nacional-socialista levou à degeneração da alma humana, à perda de valores morais, espirituais e éticos. Ao conseguirem dessensibilizar populações inteiras, os nazistas não só fizeram da compaixão uma fraqueza perigosa, mas também transformaram a aniquilação do Povo Judeu em uma “missão gloriosa, messiânica, em prol da humanidade”.

O Holocausto foi executado sob a bandeira do antissemitismo, um dos princípios fundamentais da ideologia nazista. Para os historiadores, o antissemitismo nazista, caracterizado por uma obsessão e uma intensidade sem precedentes, distingue-se das perseguições e do ódio contra os judeus que marcaram nossa história. Contudo, o antissemitismo já se encontrava profundamente enraizado na Europa desde a Antiguidade, e os nazistas encontraram um terreno fértil para semear suas crenças sobre o “perigo judaico”.

Cabe ressaltar que, da mesma forma que não fazia segredo de suas aspirações geopolíticas, Adolf Hitler - o Führer (“líder”) - jamais escondeu suas ideias nem tampouco suas intenções em relação aos judeus. De fato, nunca candidato algum a cargo público expôs, de forma tão explícita, sua ideologia e seu programa de governo e, por mais que tivesse sido inicialmente subestimado, uma vez eleito conseguiu chegar tão perto da plena execução de todas as promessas de campanha.

Em sua obra Mein Kampf  (Minha Luta), que escreveu em 1924 enquanto esteve na prisão após o Putsch da Cervejaria1, Hitler, antissemita e racista fanático, apresentou sua visão de mundo. De acordo com o Führer, o motor da história era a luta entre as “raças”, e a guerra era inerente à condição humana. Para sobreviverem, os grupos raciais dependiam da pureza do respectivo patrimônio genético, da capacidade de reprodução e do acesso aos meios necessários para alimentar sua população. Como todos ansiavam pela expansão numérica, e sendo o espaço territorial limitado, eram inevitáveis os confrontos militares e as conquistas. O povo alemão, por pertencer a uma suposta “raça ariana”, “superior a todas as outras”, estaria predestinado, biológica e cosmicamente, a dominar toda a Terra.

Hitler acreditava que tanto a política interna da nação quanto a externa estavam a serviço de um objetivo maior: a criação da Grande Alemanha2, militarmente poderosa, racialmente pura e Judenrein (livre de judeus). Suas ideias sobre a solução da chamada “Questão Judaica” foram fundamentais para o desenrolar dos acontecimentos que culminariam com o Holocausto. Para o Führer, a luta contra nosso povo era uma confrontação de proporções apocalípticas, uma guerra contra um inimigo que, segundo ele, ameaçava a própria sobrevivência da Alemanha.

Entre 1933 e setembro de 1939, quando eclodiu a 2ª Guerra Mundial, a Alemanha preparou-se política e militarmente para a concretização dos delírios messiânicos do Führer: eliminação das “injustas e ilegítimas” fronteiras internacionais impostas pelo Tratado de Versalhes, anexação de territórios com populações de etnia alemã (Volkdeutsche) e conquista, na Europa Oriental, de um “espaço vital” (Lebensraum) que permitisse a expansão duradoura do Reich.

Diante do atual ressurgimento do antissemitismo, da proliferação de teorias conspiratórias, da violência, tanto verbal quanto física, contra o Povo Judeu e o Estado de Israel, o estudo da trajetória das políticas nazistas, bem como da reação do mundo às agressões e à brutalidade do regime nacional-socialista, deve servir de alerta. É fundamental compreender que as palavras de ódio e o ataque verbal são os primeiros passos para a agressão física, e a indiferença e o silêncio perante os ataques são o consentimento ou até mesmo o incentivo à violência. 

Como os nazistas consolidaram o poder interno?

Após se tornar chanceler, em 1933, Hitler logo assumiu o controle político, social, cultural e econômico da Alemanha. Silenciou a oposição e transformou o país em uma ditadura unipartidária baseada em exacerbado nacionalismo, absoluto autoritarismo e uma ideologia profundamente racista, em particular antissemita. Todos os aspectos da vida passaram a ser controlados pelo Partido Nacional-socialista. Esse processo de centralização total ficou conhecido como nazificação (1933-1937) ou Gleichschaltung (palavra alemã que significa “coordenação totalitária”).

O regime consolidou-se por meio de intensa propaganda, voltada à difusão, sobretudo, dos ideais de “pureza racial” e da solução da “Questão Judaica”, com a erradicação de toda a população judaica do país. A campanha “intelectual” foi elaborada com cuidado de maneira a evitar a imagem de brutalidade gratuita. Para tanto, os nazistas sempre procuraram apresentar uma justificativa ideológica para seu antissemitismo, baseada na ampla divulgação de temas como “o perigo judaico” e a existência de uma conspiração judaica para dominar o mundo. Isso ocorria não só na Alemanha, mas também no exterior, por meio de diplomatas e enviados especiais, incumbidos de convencer as lideranças e o público da urgência do combate a essa suposta “ameaça”.

Além dos judeus, quais outros grupos eram vistos como um risco à “raça ariana”?

Em seu pensamento distorcido, os nazistas acreditavam que a sobrevivência e a “força” da nação germânica dependiam da “pureza do sangue” do povo alemão. Assim, logo após sua ascensão ao poder, passaram a eliminar tudo que consideravam como “ameaças à integridade da raça ariana”.

Os judeus eram os principais inimigos, mas outros grupos também eram vistos como “indesejáveis”, “inimigos do Estado” e “poluidores da raça germânica”. Eles sofreram perseguições, prisões, torturas e assassinatos, ainda que não com a mesma regularidade e brutalidade reservadas ao nosso povo. A ideologia nazista não exigia sua total eliminação, como no caso dos judeus.

Os portadores de deficiências físicas e mentais eram considerados uma “ameaça biológica” à saúde genética do povo alemão. Assim, sob o programa de eutanásia do regime, de 250 mil a 300 mil pessoas foram eliminadas. Os romanis3, chamados, de forma pejorativa, de “ciganos”, eram classificados como uma raça inferior com “tendências criminosas hereditárias”. Muitos foram presos, deportados, mortos a tiros ou utilizados em experimentos médicos cruéis em campos como Auschwitz. Segundo estimativas, pelo menos 250 mil (possivelmente até 500 mil) foram assassinados.

Os negros, também vistos como inferiores em termos raciais, foram perseguidos e mortos. Considerados ameaças ideológicas e políticas, comunistas, socialistas e sindicalistas foram enviados para campos de concentração e executados aos milhares. Membros do grupo Testemunhas de Jeová, que se recusavam a prestar lealdade ao regime, também foram aprisionados. As relações entre pessoas do mesmo sexo eram classificadas como “comportamentos anormais” que representavam entraves às políticas de incentivo à reprodução ariana, portanto, os homossexuais foram perseguidos, presos e transferidos para campos de concentração.

Quando começou a desabar a vida dos judeus alemães?

Segundo a classificação racial nazista, a comunidade judaica da Alemanha à época da ascensão de Hitler ao poder, em 1933, constituía-se de aproximadamente 475 mil indivíduos “de religião judaica” e 300 mil “judeus cristãos”, isto é, judeus convertidos ao Cristianismo. As leis do Terceiro Reich não faziam distinção entre esses dois grupos, portanto, mesmo que já pertencesse à terceira geração após a conversão da família, a pessoa ainda era considerada judia. Havia ainda cerca de 750 mil Mischlinge (mestiços), frutos de casamentos mistos com ascendência judaica parcial em primeiro ou segundo grau.

A maioria dos judeus alemães pertencia à classe média. Constituída, em sua maior parte, de comerciantes e profissionais liberais, a comunidade era abastada e culta. Estava tão integrada que muitos afirmavam com orgulho: “Não somos judeus alemães, mas sim cidadãos alemães de fé mosaica”.

O primeiro grande abalo por ela sofrido ocorreu em 1º de abril de 1933, quando Hitler ordenou um boicote a todos os consultórios, escritórios e lojas pertencentes a judeus. O segundo, que teve repercussões ainda mais graves e imediatas, foi a implantação de leis antissemitas destinadas a “limpar” a nação alemã da presença judaica. Com isso, entre 1933 e 1939, os judeus alemães perderam todos os direitos civis e a cidadania.

Demitidos do emprego e excluídos de profissões liberais, eles sofreram boicotes econômicos, confiscos de bens, violência arbitrária, humilhações explícitas, prisões sem processo e internações em campos de concentração. Sua vida pública e privada foi alvo de restrições impostas por mais de 400 decretos.

A despeito disso, determinada a preservar a vida judaica na Alemanha, a comunidade reorganizou-se internamente já a partir de 1933. Ainda havia a ilusão de que o nazismo seria algo passageiro. Em setembro daquele ano, foi criada a Representação Nacional dos Judeus Alemães (Reichsvertretung Deutscher Juden). Abriram-se escolas judaicas para crianças expulsas de estabelecimentos públicos de ensino. Também foi criado o Kulturbund, associação que organizava e promovia atividades culturais exclusivamente para a comunidade. A instituição acolheu milhares de artistas afastados, de maneira sumária, da vida alemã. Contudo, os nazistas estavam decididos a eliminar qualquer esperança de futuro para o nosso povo no Reich.

Como os nazistas tentaram solucionar a “Questão Judaica”?

Uma das grandes preocupações do regime nacional-socialista era a busca de uma estratégia para livrar a Alemanha da presença judaica. Como poderia ser resolvida a “Questão Judaica” era a grande pergunta das lideranças nazistas. O assassinato em massa, no entanto, não foi a primeira solução proposta pelos nazistas. Em um primeiro momento, adotou-se uma política de emigração forçada. Contudo, apesar da crescente perseguição e segregação, só cerca de 37 mil judeus deixaram a Alemanha em 1933. Mas, a intenção do regime era forçar a saída de toda a população judaica. Está exposta de maneira explícita em um memorando de 1934 endereçado a Reinhard Heydrich: “O objetivo [...] deve ser a emigração total dos judeus... Devem ser restritas todas as suas oportunidades de vida, não apenas no campo econômico. Para [eles], a Alemanha precisa tornar-se um país sem futuro”.

Para os judeus alemães, era extremamente difícil abandonar um país que consideravam sua pátria e pelo qual haviam lutado na 1ª Guerra Mundial. Apesar do acirramento das medidas antissemitas, acreditavam que ainda havia esperança na possibilidade de uma vida judaica segregada, porém viável, dentro do Terceiro Reich. Algumas figuras de destaque posicionaram-se contra uma emigração precipitada. Apenas os líderes sionistas, sobretudo os revisionistas, ligados a uma corrente idealizada por Zeev Jabotinsky, defendiam a partida imediata, a qualquer custo.

Em agosto de 1933, a Federação Sionista da Alemanha, o Banco Anglo-Palestino (ligado à Agência Judaica) e autoridades nazistas firmaram o “Acordo de Há’avará” (“transferência”, em hebraico), que facilitava a partida para a Palestina sob Mandato Britânico. Ao permitir contornar os rígidos controles cambiais em vigor, o pacto possibilitava que os emigrantes judeus convertessem seu patrimônio em bens tangíveis produzidos na Alemanha a serem levados para a Palestina britânica e lá vendidos. Estima-se que entre 50 e 60 mil tenham ido para Eretz Israel por meio desse acordo.

Após as Leis de Nuremberg, de 1935, até mesmo os chamados Kaiserjuden (judeus do Kaiser), judeus mais assimilados, reconheceram que já não era possível uma existência segura na Alemanha. O pânico instalou-se efetivamente com a anexação da Áustria, em março de 1938, e sobretudo com os pogroms violentos da Kristallnacht (Noite dos Cristais), entre 9 e 10 de novembro do mesmo ano.

A situação tornara-se desesperadora. O confisco de bens e a “arianização (em alemão, Arisierung, termo cunhado para referir-se à transferência compulsória de empresas e propriedades para “arianos”) haviam-se tornado práticas cotidianas e a comunidade judaica estava empobrecida.

Diante da escalada da violência e do sofrimento, abandonar a Alemanha, algo até então impensável, passou a ser a única saída possível.

O que foi a “arianização” da economia?

Trata-se de um eufemismo empregado pelo regime nazista para referir-se ao confisco, roubo e transferência sistemática de propriedades de judeus para “arianos”. Conduzido entre 1933 e 1945, esse processo, além de constituir um dos alicerces econômicos da política antissemita do Terceiro Reich, proveu uma parcela expressiva dos recursos utilizados na produção em massa de armamentos na Alemanha nazista.

A “arianização” ocorreu em duas fases distintas. A primeira, de 1933 até 1938, foi chamada de “voluntária” embora envolvesse intensa pressão. O regime “incentivava” os empresários judeus, já marginalizados econômica e socialmente, a se desfazerem de seus negócios a preços irrisórios, em muitos casos por apenas 20% a 30% do valor real. Das cerca de 100 mil empresas de propriedade judaica na Alemanha no início de 1933, metade era composta por pequenos comércios, as demais eram fábricas, oficinas e escritórios de profissionais liberais. Em 1938, cerca de dois terços desse total já haviam sido liquidados ou vendidos a “arianos”.

Os violentos pogroms da Kristallnacht, em novembro de 1938, marcaram o início da segunda fase da “arianização”, que passou a ser forçada. Todas as empresas de propriedade judaica deveriam ser obrigatoriamente transferidas para mãos “arianas”. Passaram a nomear “administradores” não judeus para supervisionar a venda imediata dessas empresas. Os honorários desses “administradores”, muitas vezes quase equivalentes ao valor da venda, eram pagos pelos antigos proprietários. Leis e decretos subsequentes proibiram aos judeus a participação na maior parte das atividades econômicas do país.

Qual era a visão geopolítica nazista?

Na Alemanha, tanto Hitler como grande parte da população alemã, consideravam “injustas e ilegítimas” as fronteiras internacionais definidas pelo Tratado de Versalhes, assinado em 1919 entre esse país e os vencedores da 1a Guerra Mundial (EUA, Reino Unido, França e outros aliados). Nos termos do acordo, a Alemanha perdera cerca de 13% de seu território e aproximadamente um décimo de sua população (entre 6,5 e 7 milhões de habitantes).

Para o Führer, os alemães tinham não só o direito, mas também o dever de romper o cerco territorial imposto pelos inimigos do país e incorporar, ao Terceiro Reich, todas as populações de origem germânica (Volkdeutsche) de outras regiões da Europa. Ainda segundo a visão geopolítica nazista, era indispensável a conquista do Leste Europeu, visto como um Lebensraum (“espaço vital”), essencial para o crescimento populacional dos alemães geneticamente puros.

A expulsão e a destruição dos povos eslavos, considerados inferiores, permitiriam não só o crescimento territorial, mas também a obtenção de recursos agrícolas e naturais fundamentais para o Reich. O assassinato em massa e a limpeza étnica eram, segundo a ideologia nacional-socialista, meios legítimos para conquistar essas terras e manter o controle sobre elas. Ademais, com a ocupação do Leste Europeu, Hitler pretendia destruir o bolchevismo (comunismo), que considerava uma ameaça existencial, nada mais do que uma conspiração judaica para destruir a Alemanha.

A política de apaziguamento dos aliados ajudou na expansão territorial nazista?

Essa estratégia pragmática, que envolvia concessões diplomáticas em face das pretensões geopolíticas de Hitler, foi adotada sobretudo por Reino Unido e França, cujos líderes desejavam evitar uma nova guerra mundial a qualquer custo. Contudo, essa abordagem permitiu ao Führer expandir as fronteiras da Alemanha sem disparar um único tiro. No fim das contas, seu único resultado foi o fortalecimento político e militar nazista, sem impedir o conflito mundial que se seguiu.

Dado o peso do Reino Unido no cenário internacional à época4, a posição britânica foi particularmente relevante. Embora mais associada ao primeiro-ministro Neville Chamberlain (1937–1940), essa política já era seguida por seus antecessores: James Ramsay MacDonald (1929–1935) e Stanley Baldwin (1935–1937).

A tática de Hitler nos dois primeiros anos de governo para evitar qualquer reação militar preventiva por parte das potências vencedoras da 1ª Guerra Mundial avançou, tanto na política externa quanto no rearmamento, com certa cautela. Mas, em março de 1936, em violação direta ao Tratado de Versalhes, tropas alemãs marcharam, sem oposição, na Renânia, uma região da Alemanha que fazia fronteira com a França. A aposta valeu a pena para Hitler, pois não houve nenhuma represália, o que o incentivou a prosseguir com seus planos bélicos.

Dois anos mais tarde, em 11 e 13 de março de 1938, os nazistas ocuparam a Áustria (Österreich), que perdeu sua independência e se tornou uma província (Land) do Terceiro Reich. Essa incorporação, que ficou conhecida como Anschluss (“anexação”, em alemão), violava expressamente os termos dos Tratados de Versalhes e de Saint-Germain, que proibiam a unificação desses dois países. A comunidade internacional não tentou impedir a ocupação da Áustria, nem tampouco impôs alguma punição à Alemanha, o que indicou a Hitler, mais uma vez, que poderia seguir adiante com sua política expansionista.

Os nazistas celebraram o Anschluss como o cumprimento do destino do povo germânico. Nos dias, semanas e meses seguintes, promoveram, com a colaboração de boa parte dos austríacos, uma nazificação acelerada de todos os aspectos da vida no país anexado. Os cerca de 200 mil judeus que lá viviam viram-se sujeitos, de um dia para o outro, às mesmas leis antissemitas já em vigor na Alemanha. Para eles, o Anschluss marcou o início de um pesadelo. Judeus foram espancados, perseguidos e humilhados publicamente por membros do Partido Nazista e pela população local. Enquanto a brutalidade e os assassinatos prosseguiam em todo o Terceiro Reich, o mundo assistia em silêncio, acreditando que a política de apaziguamento garantiria a paz.

Apenas seis meses após o Anschluss, os nazistas forjaram uma crise nos Sudetos, região na Tchecoslováquia com população de língua alemã. Em setembro de 1938, líderes da Itália, da França e do Reino Unido reuniram-se com Hitler em Munique para negociar. Mais uma vez, a fim de evitar um conflito cederam a região dos Sudetos à Alemanha, com a condição de que o restante da Tchecoslováquia permanecesse intacto. Ao retornar, Chamberlain declarou: “Volto da Alemanha trazendo a paz para o nosso tempo”. Em março de 1939, o Führer mostrou ao mundo o quanto valia sua palavra: Nada! O Terceiro Reich infringiu o acordo e ocupou o restante do território checoslovaco, inclusive sua capital, Praga.

Por que um número maior de judeus não deixou a Alemanha antes da 2a Guerra Mundial?

A resposta é simples: porque nenhum país lhes abriu as portas. O então líder sionista Chaim Weizmann resumiu assim a trágica situação do nosso povo: “O mundo estava dividido em dois: lugares onde os judeus não podiam viver e lugares para onde não podiam ir”.

O maior obstáculo enfrentado pelos judeus alemães e austríacos que queriam deixar o Terceiro Reich era a obtenção de vistos de entrada ou de trânsito. Apesar da quantidade cada vez maior dos que buscavam escapar da perseguição, as cotas de imigração dos diversos países permaneciam inalteradas, sobretudo nos EUA, no Reino Unido e na América Latina.

Além das barreiras diplomáticas, as dificuldades econômicas e burocráticas causavam ainda mais entraves à sua partida. O regime nazista pretendia expulsar todos os judeus; no entanto, não queria que levassem consigo seus bens. Aqueles autorizados a abandonar o Reich eram obrigados a partir sem recursos financeiros. Foi adotado o chamado “imposto de voo” (Reichsfluchtsteuer), que visava impedir a fuga de capital do país. O imposto podia chegar a 100% do valor do patrimônio pessoal. Einstein, entre outros, teve de pagar um pesado “imposto de voo” para deixar o país.

A situação piorou ainda mais em abril de 1938, quando o governo anunciou o confisco de todos os bens acima de 5 mil Reichsmarks pertencentes a judeus. Isso praticamente impossibilitava qualquer reconstrução da vida fora da Alemanha.

As nações da Europa Ocidental e das Américas, por sua vez, demonstraram grande resistência em aceitar um grande número de refugiados judeus, sobretudo por se tratar de pessoas sem recursos financeiros. Em muitos casos, a política externa desses países, além de considerar o fator econômico, refletia um forte antissemitismo.

Qual foi a política dos EUA em relação aos refugiados?

Milhares de judeus alemães e austríacos que tentavam emigrar não conseguiram vistos de entrada para os EUA. Não foi permitida nem mesmo a entrada de crianças judias. Apesar do apoio de alguns setores da sociedade, o Congresso rejeitou o projeto de lei Wagner-Rogers de 1939, que permitiria a vinda de
20 mil crianças judias do Terceiro Reich.

Naquela época, para boa parte da população desse país, os refugiados representavam uma ameaça à estabilidade econômica, um acirramento da concorrência no mercado de trabalho e, possivelmente, um fardo para os programas de assistência social, já sobrecarregados. Mas, como apontado por historiadores, uma das principais causas do fracasso dos esforços de ampliação da entrada de judeus nos EUA durante esse período foi a existência de atitudes antissemitas dentro do Departamento de Estado americano.

Mesmo após as primeiras notícias sobre assassinatos em massa pelos nazistas, o governo dos EUA não flexibilizou sua política. Com base em razões de segurança nacional, em particular o temor com a possibilidade da infiltração de espiões entre os refugiados, o Departamento de Estado restringiu ainda mais as cotas de imigração, de forma que diminuiu drasticamente o número de judeus autorizados a entrar no país.

O que foi a Conferência de Évian de 1938?

Nesse ano, o presidente dos EUA, Franklin D. Roosevelt, em resposta ao acirramento da pressão política, sobretudo por parte da comunidade judaica de seu país, convocou uma conferência internacional a realizar-se em Évian-les-Bains, na França. O objetivo era discutir a crise dos refugiados judeus da Alemanha e da Áustria, recém-anexada. O encontro reuniu representantes de 32 países em julho daquele ano.

No entanto, desde os preparativos, ficou claro que nem os EUA, nem a França e tampouco o Reino Unido pretendiam alterar as respectivas políticas de imigração. Esse último chegou a condicionar sua participação na conferência à exclusão de qualquer discussão sobre o Mandato Britânico na Palestina. Golda Meir, então representante do Yishuv (comunidade judaica de Eretz Israel), participou como observadora, sem permissão de se dirigir formalmente aos delegados.

Nos nove dias da conferência, muitos expressaram solidariedade verbal às vítimas da perseguição nazista, mas afirmaram que seu país não flexibilizaria as políticas migratórias. Só a República Dominicana se comprometeu a receber um número expressivo de refugiados, entretanto, acolheu muito menos que o prometido. Já a Bolívia recebeu mais de 20 mil judeus entre 1938 e 1941.

O que a Conferência de Évian sinalizou para o Terceiro Reich?

Para Hitler, o encontro foi a prova definitiva de que “ninguém queria os judeus”. O governo nazista declarou, com ironia, ser “espantoso” que os outros países criticassem a Alemanha pelo tratamento que dispensava à comunidade judaica, quando nenhum deles estava disposto a abrir as portas “quando a oportunidade se apresentasse”. Com os planos já traçados de uma expansão territorial que engoliria toda a Europa, Hitler sabia que milhões de judeus estabelecidos nos territórios a serem conquistados seriam incorporados ao Terceiro Reich. Em vista disso, só por meio da emigração forçada seria impossível alcançar o principal objetivo de um Reich Judenrein, livre de judeus. Isso reforçou, no pensamento nazista, a necessidade de buscar outra “solução definitiva” para o chamado “problema judaico”. Para os judeus, a Conferência de Évian deixou claro que o mundo não se preocupava com seu destino e que não tinham para onde ir.

O governo britânico e os refugiados

Durante a década de 1930, imigraram para a Palestina, então sob Mandato Britânico, mais de 60 mil judeus alemães. No entanto, em maio de 1939, o Parlamento do Reino Unido adotou o White Paper, um documento que impunha restrições rígidas à entrada de judeus na região sob Mandato.

Essa mudança de política iniciou-se em 1936, quando começa, na Palestina britânica, uma revolta árabe contra o domínio colonial britânico e a imigração judaica. Para apaziguar os nacionalistas árabes, o governo de Sua Majestade adotou uma postura rigorosa quanto à imigração judaica. Nem mesmo durante a 2a Guerra Mundial a Grã-Bretanha flexibilizou essa política, o que impediu que mais judeus escapassem do terror nazista. As restrições permaneceram em vigor até a saída dos britânicos da região e a fundação do Estado de Israel, em 1948.

Apesar dessa postura restritiva, após a Kristallnacht (1938), em uma resposta parcial aos apelos do Comitê Britânico de Refugiados Judeus, o governo inglês autorizou a entrada no Reino Unido, com documentos de viagem provisórios, de um número indefinido de crianças entre 2 e 17 anos de idade. O governo britânico exigia o pagamento de uma fiança de £50 por criança. Com isso, entre 1938 e 1939, foram transferidas da Alemanha, da Áustria e da Tchecoslováquia cerca de 7.500 crianças e adolescentes desacompanhados, no que ficou conhecido como Kindertransport. Os primeiros trens partiram cerca de seis semanas após a Kristallnacht, e o último deixou a Europa continental dois dias antes da eclosão da 2ª Guerra Mundial. As crianças e adolescentes foram encaminhados a lares adotivos, escolas, fazendas e orfanatos, em todo o Reino Unido. A maioria jamais voltou a ver seus familiares.

A viagem do St. Louis

A história do St. Louis, transatlântico alemão que zarpou do porto de Hamburgo em maio de 1939, com 937 passageiros, a maioria deles emigrantes judeus, ilustra muito bem as dificuldades para escapar do terror nazista. Como forma de justificar, perante o mundo, a política antissemita do Terceiro Reich, os Ministérios das Relações Exteriores e da Propaganda da Alemanha exploraram a recusa de outros países em aceitar esses refugiados.

Todos os passageiros que embarcaram no St. Louis haviam recebido, do governo de Cuba, documentos que permitiriam o desembarque nesse país. No entanto, quando o navio chegou a Havana, o presidente cubano recusou-se a reconhecer essas mesmas autorizações.

Obrigado a deixar o porto de Havana, o St. Louis aproximou-se da costa da Flórida, tanto que os passageiros conseguiram ver as luzes de Miami. O capitão solicitou permissão para atracar, mas o pedido foi negado. Em vez disso, navios da Guarda Costeira dos EUA passaram a patrulhar as águas territoriais para que os passageiros nem desembarcassem, nem sequer tentassem nadar rumo à liberdade.

Sem alternativa, o St. Louis foi obrigado a retornar à Europa. Após demoradas negociações, Bélgica, Holanda, França e Reino Unido concordaram em acolher parte dos refugiados. Poucos meses depois, no entanto, após a invasão alemã da Europa Ocidental, muitos dos passageiros abrigados nesses países foram capturados e mortos pelos nazistas.

Por que Hitler assinou um Pacto de Não-Agressão com a URSS?

Em agosto de 1939, o ministro de Relações Exteriores do Reich, Joachim von Ribbentrop, assinou o Pacto de Não-Agressão Germano-Soviético, pelo qual Alemanha e União Soviética, inimiga ideológica do regime nacional-socialista, comprometeram-se a não se atacarem mutuamente. Para Hitler, o acordo não passava de uma aliança temporária que lhe garantiria a liberdade estratégica para ocupar, sem temor de retaliação por parte dos soviéticos, a Polônia, cujo território, conforme uma das cláusulas secretas do pacto, seria dividido entre os dois signatários. Assim, o acordo foi fundamental para a invasão nazista desse último país, a qual deu início à 2a Guerra Mundial.

Em 1º de setembro de 1939, a Alemanha nazista invadiu a Polônia. Dois dias depois, a Grã-Bretanha e a França declararam guerra à Alemanha. Na época viviam na Polônia cerca de 3,3 milhões de judeus – 10% de sua população. Ao fim da guerra, em 1945, os nazistas haviam assassinado três milhões de judeus poloneses.

A invasão marcou o início de uma nova fase na história do Holocausto. Com o súbito aumento da população judaica sob seu controle, as lideranças nazistas chegaram à nefasta conclusão de que para alcançar um Reich Judenfrei – um “Império alemão livre de judeus” – a emigração forçada ou a transferência de comunidades inteiras não eram alternativas viáveis. Os nazistas sabiam que teriam de recorrer a “soluções” mais amplas e definitivas para o “problema judaico”.

BIBLIOGRAFIA

Dawidowicz, Lucy, The War Against the Jews: 1933-1945

Marrus, Michael R., The Holocaust in History

Martin, Gilbert,  O Holocausto: História dos Judeus na Europa na Segunda Guerra Mundial