O lançamento do filme “O Brutalista” foi amplamente celebrado pela crítica especializada em cinema, entretanto causou polêmica na crítica especializada em arquitetura em decorrência de anacronismos, já que a arquitetura referida como Brutalista, no filme, assemelha-se ÀS obras da década de 1990 de Tadao Ando ou Peter Zumthor. Apesar de se tratar de uma peça de ficção, algumas passagens teriam sido inspiradas na vida do arquiteto e designer judeu-húngaro Marcel Breuer (1902–1981) e do artista, cineasta e designer judeu-húngaro László Moholy-Nagy (1895–1946).
Por: Tânia Tisser Beyda
Marcel Breuer fez sua formação na Escola Bauhaus na Alemanha, antes de emigrar para os Estados Unidos, em 1937, tornando-se um proeminente proponente do estilo Brutalista na América. László Moholy-Nagy foi professor na Bauhaus de 1923 a 1928, quando abdicou do cargo em função de pressões do regime nazista. A partir de 1933, foi proibido de trabalhar na Alemanha, emigrando para Amsterdã, Londres e, depois, para Chicago, em 1937, onde foi convidado a dirigir a escola New Bauhaus e, posteriormente, a School of Design.
Nesse período, outros arquitetos, como Walter Gropius e Mies van der Rohe, também emigraram. Entretanto, de forma diversa à ficção, eles emigraram dando continuidade a suas bem-sucedidas carreiras, assumindo posições de destaque em grandes universidades norte-americanas, e contribuindo para o desenvolvimento da arquitetura moderna.
O Brutalismo
Na arquitetura, o Brutalismo é reconhecido por sua estética crua e não refinada. É um movimento que surgiu na Inglaterra e na França, no início dos anos 1950, caracterizado por sua abordagem experimental à forma e aos materiais. Este estilo é marcado por seu design maciço e monumental, utilizando-se de estruturas de concreto armado, sem adornos, e destacando o material em seu estado mais original. Esse foco na simplicidade e na falta de ornamentação enfatiza o compromisso do movimento com um design funcional e “honesto”, oriundo da Bauhaus. Apesar dessa grande influência da Bauhaus, o Brutalismo buscou responder a demandas e desafios do mundo pós-2a Guerra Mundial, com necessidades sociais e estéticas muito diferentes do contexto pós-1a Guerra Mundial que propiciou o desenvolvimento da Bauhaus.
A arquitetura Brutalista emprega princípios característicos refletidos nos seus elementos construtivos. Ao contrário do movimento de Arts & Crafts que emprega ornamentação para mascarar a estrutura, a arquitetura Brutalista expõe o concreto nu como uma forma dramática, com textura áspera, em formas geométricas repetitivas e simples.
Utilizado principalmente em edifícios governamentais e institucionais, o Brutalismo serve como uma manifestação física de autoridade e permanência. Embora professores modernos como Frank Lloyd Wright, Mies van der Rohe, Walter Gropius e Le Corbusier se destacassem no cenário arquitetônico, na América e na Europa, após a guerra, Le Corbusier foi o arquiteto eminente no seu desenvolvimento. O estilo Brutalista na arquitetura foi nomeado a partir do termo em francês – ‘béton brut’ – ou seja, concreto bruto, pelo qual Le Corbusier era fascinado devido à sua plasticidade e maleabilidade oriundas de mudanças na tecnologia então aplicada.
A Bauhaus
Apesar de ser considerada a mais importante escola de arquitetura, design e arte do século 20, a Bauhaus existiu por apenas 14 anos – de 1919 a 1933. Sua criação foi diretamente influenciada pela Deutscher Werkbund – associação alemã de artistas, arquitetos, designers e industriais fundada em 1907, na Alemanha, que teve papel fundamental no desenvolvimento do design moderno.
Essa associação tinha por objetivo integrar o artesanato tradicional e a produção industrial, buscando melhorar a qualidade dos produtos alemães e torná-los mais competitivos no mercado global. Discutia-se como estabelecer uma nova relação entre o artesão e a indústria, como relacionar processos artesanais aos processos da fabricação industrial, e como mitigar os impactos sociais decorrentes da fragmentação do trabalho do artesão. A Werkbund promovia a ideia de que o design deveria ser funcional e padronizado, eliminando ornamentos desnecessários. Após a 1a Guerra Mundial, as discussões passaram a focar no planejamento urbano, na construção de casas, nos planos habitacionais e na indústria da construção.
A Bauhaus foi criada a partir da contratação, em 1919, de Walter Gropius como Diretor da Grand-Ducal Saxon College of Fine Arts, em Weimar. Ele fez a união formal dessa escola com o College of Applied Arts que havia sido dissolvido em 1915, lançando um manifesto para anunciar seu programa como um recomeço, após a guerra. Sua intenção era oferecer uma formação artística voltada à produção moderna, resgatando o valor do trabalho manual em um contexto industrial. Defendia a unificação entre as artes e propunha que o design deveria responder às necessidades da vida moderna, mesclando função, estética e técnica.
A proposta pedagógica da Bauhaus inovou ao unir teoria e prática, arte e técnica, por meio do método “aprender fazendo”, com foco na formação de profissionais completos – arquitetos, designers e artistas – capazes de lidar com materiais e processos industriais. Defendia que todo designer devia entender e praticar o fazer manual, como carpintaria, marcenaria, cerâmica, tecelagem etc. A base do programa era o treinamento em artesanato por meio de workshops. Defendia que a unificação de disciplinas como escultura, pintura, artes aplicadas e artesanato estabeleceriam uma nova arte da arquitetura.
Nos anos seguintes a escola prosperou, incorporando, como professores, Lyonel Feininger, Gerhard Marks, Johannes Itten, Georg Muche, Paul Klee, Oskar Schlemmer, Lothar Schreyer, Adolf Meyer, Wassily Kandinsky e László Moholy-Nagy.
Em 1923, Gropius formulouuma nova abordagem para a escola, reconhecendo a indústria como a força definidora daquela era. O engajamento com a indústria e a produção mecanizada tornou-se pré-requisito para todo o trabalho da Bauhaus. Ainda assim, Gropius mantinha a preocupação de formar homens ligados aos fenômenos culturais e sociais do mundo moderno. Apesar da determinação racionalista, as atividades ligadas ao estímulo da imaginação eram muito valorizadas, mas deveriam ter um propósito de aplicação prática.
Em 1924, alterações no parlamento do Estado Federal da Turíngia, um Estado Livre (Freistaat) da República de Weimar onde se localiza a cidade de Weimar, levaram à substituição da maioria Social-Democrática que apoiava a Bauhaus.
A partir de abril de 1925, o novo governo notificou o encerramento dos contratos de trabalho e da Escola Bauhaus, dando início à busca por uma solução. O grupo de “Amigos da Bauhaus” foi criado para oferecer apoio moral e suporte prático aos membros da escola. Faziam parte do seu Board: Marc Chagall, Albert Einstein e Gerhart Hauptmann1, entre outros. Iniciam-se negociações com diversas cidades, na busca por dar continuidade à escola. Conseguem ser bem-sucedidos e o Conselho Municipal de Dessau decide criar a Bauhaus como uma escola municipal. E é lá onde começam as publicações de livros com os trabalhos de Gropius, László, Paul Klee, Kandinsky e Piet Mondrian. Em 1926 é inaugurada a nova sede da escola, em um projeto desenhado por Gropius e equipado pelos ateliêsda Bauhaus. A cerimônia contou com mais de mil convidados e durou dois dias, indicando a relevância da Bauhaus e a levando a ganhar fama internacional.
Em 1928 Gropius decide renunciar ao cargo de diretor para trabalhar como arquiteto em Berlim. László, Bayer e Marcel Breuer também deixam a escola. Hannes Meyer assume como novo diretor, redirecionando os princípios da escola com críticas ao trabalho anterior, que chamou de formalista e focado em considerações estéticas. Defendia que o designdeve ser considerado como um processo objetivo baseado em resultados racionais compreensíveis, com foco nas necessidades das pessoas e apropriados à sua vida. Reestruturou os workshops e deu destaque à arquitetura. Empreendeu a reorganização financeira da Bauhaus, aumentando a produtividade dos ateliês e gerando renda para a escola e para os alunos. Meyer era um profundo conhecedor da ciência da construção e seu curso de arquitetura era baseado nesse conhecimento.
Duas fábricas de lâmpadas iniciaram a produção de modelos criados pela Bauhaus, inaugurando a produção em série de objetos anteriormente fabricados apenas nos ateliês da própria escola. Naquele momento a associação de “Amigos da Bauhaus” já contava com 460 membros. Diversas apresentações e exibições foram realizadas nas principais cidades da Alemanha e da Suíça, divulgando a escola e seus membros.
O diretor Meyer se preocupava em sistematizar os conhecimentos científicos e sociais, disponibilizando-os para os ateliês, objetivando preços baixos e atendimento às necessidades da população, que vivia na pobreza e na miséria. Sob sua liderança as prioridades passaram a ser os ideais cooperativos: colaboração, padronização, equilíbrio harmonioso do indivíduo e da sociedade.
Os alunos da Bauhaus tornam-se cada vez mais politizados até que, em 1930, o diretor Meyer é demitido por sua simpatia pelo comunismo. Mies van der Rohe é indicado para o cargo e, mais uma vez, a orientação da escola é modificada. Ele torna o curso totalmente acadêmico e novamente voltado às questões estéticas. Os workshops perdem relevância e a produção de desenho industrial declina. Ele tenta manter a escola longe dos debates políticos, proibindo atividades políticas e removendo todos os alunos que apoiavam o ex-diretor Hannes Meyer. Concentra-se em transformar a Bauhaus em uma escola de arquitetura, com a intenção de salvá-la dos ataques nazistas que consideravam a escola como “judaica e oriental”, e pressionavam seus alunos e professores a deixarem-na, acusando seus trabalhos de “degenerados”.
No ano seguinte, o Partido Nazista ganha as eleições municipais em Dessau com a plataforma de cancelar os subsídios à Bauhaus e determinar a demolição de seus prédios. Os subsídios foram cortados pela metade, em 1930, levando a escola a sobreviver da renda proveniente das licenças pagas pelas empresas que fabricavam os produtos desenvolvidos pela escola. Em 1932 o Partido Nazista vence, sendo aprovada uma moção para descontinuar a escola e encerrar todas as suas atividades.
Mies van der Rohe decidiu dar continuidade à escola como uma instituição privada, em Berlim. Mesmo assim, em 1933 a escola foi revistada e lacrada pela polícia, que deteve 32 alunos. Nessa época, a Gestapo impôs como condição para sua reabertura que Kandinsky e Ludwig Hilberseimer fossem substituídos por professores alinhados com a ideologia nazista e que o currículo satisfizesse os requisitos do novo estado – proposta considerada inaceitável. As incertezas sobre o futuro, as ameaças e pressões políticas e os problemas financeiros levaram os professores a fechar a Bauhaus.
A jornada da Bauhaus não foi suave, reflexo da inovação dos métodos, dos experimentos, das diversas lideranças e do contexto ideológico e político na Alemanha. Como a Bauhaus era uma escola de propriedade do governo e dependia de subsídios, teve sua existência constantemente ameaçada por discussões ideológicas e alterações da maioria política do Parlamento. A escola foi ameaçada, contestada e perseguida diversas vezes. Foi fechada por razões políticas no mínimo umas três vezes. Atribui-se às pressões externas o estabelecimento de um ambiente interno de muita solidariedade, o que possibilitou que seus membros avançassem para uma “nova era”, não apenas em decorrência da qualidade de sua colaboração, mas também pela natureza da vida que compartilhavam na Bauhaus.
Os professores e alunos conviviam em um rico ambiente cultural e social, onde prosperavam festas, palestras, teatro, poesia, música e reuniões. Eles viviam e faziam as refeições juntos e faziam atividades recreativas e esportivas na própria escola. As festas temáticas eram famosas e propiciavam o envolvimento das atividades acadêmicas no seu planejamento e preparação, além de promover o contato entre a escola e o público. Este ambiente também incentivava o desenvolvimento do instinto lúdico – considerada a força motriz da criatividade.
Bauhaus e o Nazismo
Entre 1933 e 1945, cerca de 200 membros da Bauhaus, judeus ou descendentes, foram perseguidos, expulsos e até assassinados. Cerca de 25 deles foram assassinados em campos de concentração, mortos em combates tendo sido obrigados a servir o exército, ou mesmo levados ao suicídio. Mas a pressão e perseguição nazista impactaram não só os membros judeus como também os de ideologia marxista.
Na propaganda oficial, o regime nazista rejeitava completamente a Bauhaus por estar associada a tudo o que consideravam negativo. Mas, por trás do discurso, as ações eram diferentes: os dirigentes nazistas reconheciam a funcionalidade da Bauhaus e souberam se valer dos preceitos objetivos da escola, utilizando diversos de seus membros em projetos e ações de seu interesse. Pôsteres, móveis, utensílios domésticos, retratos de Hitler, peças de propaganda e até edificações em campos de concentração foram criados seguindo os princípios do design e guias construtivos da Bauhaus.
Em 2024, três museus de Weimar apresentaram conjuntamente a exposição Bauhaus e o Nacional-Socialismo, apresentando ao mundo um legado desconfortável da Bauhaus que contradiz a ilusão que persistia desde 1945, de que o modernismo – incluindo a Bauhaus – “foi exclusivamente bom e perseguido”. Realizada a partir de uma investigação que durou cerca de três anos e contou com a cooperação da Klassik Stiftung Weimar², da Universidade de Erfurt, na Alemanha, e da Universidade de Buffalo, em Nova York, reuniu os mais recentes resultados de investigação de universidades e museus internacionais.
O catálogo da exposição lembra que muitos membros da Bauhaus continuaram seu trabalho sem interrupções após 1933, atuando em muitas áreas do designna Alemanha. Destaca ainda que, após o fechamento da escola, muitos de seus ex-alunos e professores permaneceram na Alemanha e enfrentaram decisões difíceis de como lidar com o regime. Alguns se adaptaram, colaboraram ou buscaram formas de sobreviver, enquanto outros foram perseguidos por razões políticas ou raciais.
Os números são expressivos – dos 1.250 membros da escola, 202 não estavam na Alemanha quando Hitler assumiu o poder e para lá não retornaram, e 134 deixaram o país por razões políticas. Cerca de 900 membros teriam permanecido na Alemanha sob o Terceiro Reich. Destes, 188 teriam se juntado ao
Partido Nacional-socialista (Partido Nazista): (170 homens e 18 mulheres), 14 faziam parte das Sturmabteilung3 (SA) e 12 serviam a Schutzstaffel4 (SS).
A pesquisa para a exposição explorou a biografia de 58 membros da Bauhaus – investigando sua produção artística, seu posicionamento e potenciais evidências de resistência ou colaboração com o regime nazista.
O caso de Franz Ehrlich (1907-1984) é muito representativo desse momento. Ele estudou na Bauhaus, em Dessau, a partir de 1927. Como arquiteto e carpinteiro trabalhou com Walter Gropius e se envolveu com escultura e tipografia. Em 1933 recebeu seu diploma de conclusão da Bauhaus e acompanhou Walter Gropius para Berlim, onde teve um escritório de publicidade. Por causa de seu envolvimento comunista foi preso em Leipzig, em 1934, sendo transferido para o campo de concentração de Buchenwald em 1937. A profissão de arquiteto parece ter salvado sua vida: ele foi contratado para projetar a decoração interior da residência do comandante do campo da SS. Posteriormente, recebeu outros comissionamentos da SS, incluindo a criação da inscrição “Jedem das Seine” (“A cada um, o seu”) para o portão do campo de concentração. Seus trabalhos para os nazistas em Buchenwald aconteceram como prisioneiro e provavelmente sob coerção, lançando dúvida sobre o que o teria motivado: colaboração ou busca pela sobrevivência?
Já Herbert Bayer (1900-1985) retrata a situação dos membros da escola que continuaram trabalhando na Alemanha após 1933. Ele foi um dos grandes nomes da Bauhaus, criador do projeto gráfico que até hoje marca a assinatura da escola. Foi aluno no período de 1921 a 1925, tornando-se depois professor e diretor até 1928. A partir de 1933, ele começou a desenhar para a propaganda nazista e trabalhou no design de catálogos e exposições que celebravam a ideologia e o ódio racial do regime de Hitler.
Fritz Ertl (1908-1982), que obteve seu diploma na Bauhaus em 1931, esteve envolvido na construção do campo de concentração de Auschwitz desde o início. Ele trabalhou nesse projeto de 1940 até 1943. Atuou como chefe do Departamento Técnico e mais tarde como chefe do Departamento de Engenharia Estrutural, tornando-se finalmente vice-chefe da Gestão Central de Construção. Ele também fez carreira dentro da SS, alcançando o posto de SS-Untersturmführer (equivalente a segundo-tenente).
Por outro lado, artistas como Otti Berger (1898-1944) enfrentaram proibição profissional pela Reichskulturkammer (Câmara de Cultura do Reich)5 devido à sua origem judaica. Ela foi convidada por László Moholy-Nagy a se juntar à Nova Bauhaus, em Chicago, e enquanto esperava o visto passou vários períodos curtos em Londres, em busca de trabalho. Em 1938 retornou para a Croácia em função da doença de sua mãe e sua incapacidade de encontrar trabalho na Inglaterra – pois não falava a língua, tinha deficiência auditiva e, para os ingleses, era considerada alemã (apesar de ser croata). Em abril de 1944, Otti foi deportada para Auschwitz, junto com sua família, onde morreu.
Ernst Neufert (1900-1986) foi professor na Bauhaus de 1928 a 1933. A partir de 1938, colaborou com Albert Speer – inspetor geral de construção de Hitler para a capital do Reich. Ele foi nomeado comissário para padronização e racionalização da construção residencial de Berlim, e, a partir de 1944, esteve envolvido no planejamento da reconstrução das cidades destruídas pela guerra. Neufert exerceu grande influência na arquitetura mundial, especialmente por seu trabalho na padronização e normatização de projetos arquitetônicos. Seu maior legado é o livro Arte de Projetar em Arquitetura, publicado em 1936, que se tornou uma referência essencial para arquitetos, engenheiros e designers ao redor do mundo. O livro é considerado a “Bíblia da Arquitetura”.
Um exemplo de “tolerância” foi o uso do rótulo “Bauhaus” como ferramenta de marketing em uma linha de papel de parede da empresa Rasch. Este foi um dos produtos de maior sucesso comercial da Bauhaus e era produzido na empresa familiar da aluna Maria Rasch (1897-1959). Os nazistas descobriram que a Rasch era uma das poucas empresas de design alemãs com conexões internacionais e negócios lucrativos de exportação, razão pela qual permaneceu praticamente sem ser importunada.
Todos os ex-membros da Bauhaus que não faziam parte da direita alemã foram banidos, juntamente com suas obras de arte. O regime nazista classificou como “arte degenerada” (Entartete Kunst) diversas obras e artistas que não se alinhavam com sua visão estética e ideológica. Entre eles estavam: Paul Klee, Wassily Kandinsky, László Moholy-Nagy, Anni Albers, Oskar Schlemmer, Lyonel Feininger, Johannes Itten, Georg Muche, Marcel Breuer e Herbert Bayer.
Muitos caminharam em uma linha tênue, deixando-se instrumentalizar, arranjar ou se posicionar, enquanto outros tantos acolheram euforicamente o regime, participando e dele obtendo lucros. Enquanto alguns foram afetados pela ação “arte degenerada”, outros participaram de grandes exposições e shows de propaganda nazista, e, especialmente, no campo da arte aplicada, criaram obras que se conformaram ao sistema. Mies van der Roheteve uma relação complexa com o regime nazista. Por um curto período, em 1934, ele se associou à Câmara de Cultura do Reich, uma organização criada pelo governo nazista para controlar as artes e a cultura. Entretanto, sua participação não resultou aparentemente em uma colaboração relevante para o regime. Enfrentou dificuldades para conseguir projetos na Alemanha e, em 1937, decidiu emigrar para os Estados Unidos, onde se tornou uma figura central na arquitetura moderna.
Assim como ele, diversos artistas, professores e pensadores foram obrigados a deixar a Alemanha em função das perseguições do Terceiro Reich: Josef Albers (1933, EUA), Wassily Kandinsky (1933, França), Paul Klee (1933, Suíça), Walter Gropius (1934, Inglaterra; 1937, EUA), László Moholy-Nagy (1934, Holanda; 1935, Inglaterra; 1937, EUA), Marcel Breuer (1935, Inglaterra; 1937, EUA), Ludwig Mies van der Rohe (1937, EUA), Herbert Bayer (1938, EUA) e Walter Peterhans (1938, EUA). Esse movimento de emigração contribuiu para reforçar, disseminar e internacionalizar os princípios da modernidade desenvolvidos na Bauhaus.
A reputação da Bauhaus perdura globalmente até os dias de hoje em decorrência da ampla abordagem implementada, na qual a modernidade e o progresso foram experimentados em diversos aspectos da arte e da vida. Apesar da escola ter sido fechada, seus membros levaram sua filosofia e atitude de vida para o todo mundo.
1 Gerhart Hauptmann foi um romancista e dramaturgo alemão (1862-1946). Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1912 e o Prêmio Goethe em 1932.
2 A Klassik Stiftung Weimar é uma das maiores e mais importantes instituições culturais da Alemanha. A fundação preserva e promove o legado da Weimarer Klassik, além de abrigar espaços dedicados à Bauhaus, à arte moderna e à literatura alemã.
3 A Sturmabteilung (SA), ou Camisas Marrons, foi uma milícia paramilitar do Partido Nazista, atuando como esquadrões de assalto.
4 A Schutzstaffel (SS) foi uma organização paramilitar nazista criada inicialmente como uma unidade de guarda pessoal do líder nazista, que cresceu e se tornou uma das instituições mais poderosas da Alemanha nazista. Sob o comando de Heinrich Himmler, a SS foi responsável pela administração dos campos de concentração, pela repressão de opositores e pela execução das políticas genocidas.
5 Reichskulturkammer (RKK): Câmara da Cultura do Reich foi uma instituição criada em 1933 na Alemanha – uma organização profissional para todos os artistas alemães. Seu objetivo era adquirir o controle da vida cultural da Alemanha, criando e promovendo a arte de forma alinhada com os ideais nacional-socialistas.
Tânia Tisser Beyda é consultora em Gestão Empresarial, Doutora e Mestre em Administração e Arquiteta.
BIBLIOGRAFIA
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