Aproximadamente há 2.100 anos, a Terra de Israel estava  ocupada pelo império sírio-grego, governado por Antioco. Homem do mal, ele  emitiu uma série de decretos com o propósito de forçar o Povo Judeu a abandonar  o judaísmo e a adotar a ideologia e os rituais helenistas. Dentre seus esforços  para extirpar o judaísmo, ele declarou ilegal o estudo da Torá e o cumprimento  de vários de seus principais mandamentos. Ademais, os sírio-gregos profanaram o  Tempo Sagrado de Jerusalém com seus ídolos.

Em resposta à opressão e aos decretos nefastos de Antioco, e percebendo que o futuro do judaísmo estava em jogo, um número pequeno de judeus, os Macabeus, em gritante inferioridade numérica, ergueram contra as forças de ocupação sírio-gregas na Terra de Israel. Ainda que fossem minoria – e de terem o apoio de apenas 10% da população judaica, que já estava se helenizando – os Macabeus derrotaram o poderoso exército sírio-grego, expulsando-os de nossa terra. Quando reconquistaram o Templo Sagrado, em 25 do mês hebraico de Kislev, foram acender a Menorá do Templo – o candelabro de sete braços –, mas se depararam com o azeite de oliva ritualmente puro propositalmente contaminado pelos sírio-gregos. Encontraram, no entanto, um único frasco que havia escapado aos invasores. Continha apenas o azeite suficiente para acender a Menorá durante um único dia – e levaria oito dias para produzir azeite ritualmente puro. Os Macabeus acenderam a Menorá com aquele pouquinho que, milagrosamente, durou oito dias – o tempo suficiente para a produção de novo azeite ritualmente puro.  Para divulgar e celebrar esses milagres – o da vitória e o do azeite – nossos Sábios estabeleceram a festividade de oito dias de Chanucá.

O principal mandamento de Chanucá é o acendimento da Chanuquiá – uma Menorá de oito braços. Este ano, começamos a acendê-la no sábado à noite, após o término do Shabat, na noite de 24 de dezembro de 2016.

A Chanuquiá

Os elementos básicos de uma Chanuquiá são oito suportes para azeite ou velas. Adicionalmente, deve haver outro suporte para o Shamash – a vela “auxiliar”. Muitos têm o costume de usar velas de cera de abelha para o Shamash. Este fica um pouco acima ou abaixo do que as demais velas ou suportes para o azeite: é importante distingui-lo dos demais, senão poderia parecer que a Chanuquiá tivesse nove braços.

Uma vez acesas as velas de Chanucá, não se deve apagar o Shamash. São duas as razões para tal. Primeiro, o Shamash deve estar pronto para servir, fazendo jus a seu nome: no caso de uma vela ou pavio se apagar, pode ser aceso novamente com o “auxiliar”. Outra razão para deixarmos o Shamash aceso é a proibição de usar as luzes de Chanucá para qualquer outro propósito além de cumprir o mandamento de acender a Chanuquiá. Assim sendo, se alguém necessita de uma fonte de luz, por alguma razão, pode usar o Shamash, mas não uma das luzes da Chanuquiá.  

Estas podem ser alimentadas por azeite ou pelas chamas de velas. Mas como o milagre de Chanucá envolveu o azeite de oliva – o suprimento de azeite para um dia que durou oito dias – é preferível acender a Chanuquiá com azeite em vez de velas. Deve-se dar preferência ao azeite de oliva como combustível e ao pavio de algodão porque estes produzem uma chama bem perfeita.

É importante notar que não se devem usar Chanuquiot elétricas. Elas podem ser colocadas em locais públicos para divulgar os milagres de Chanucá – mas não para cumprir o mandamento. Para isso, devemos acender as luzes da Chanuquiá com chamas reais, produzidas pela cera ou o azeite – como as chamas da Menorá do Templo Sagrado de Jerusalém.

O acender das luzes de Chanucá é um mandamento que cabe tanto a homens quanto a mulheres.

Algumas comunidades têm o costume de que o chefe da casa acenda a Chanuquiá enquanto todos os demais ouvem com atenção as bênçãos e respondem “Amén”. Em outras comunidades, todos os integrantes da casa, inclusive as crianças, acendem sua própria Chanuquiá. Qualquer que seja o costume, é importante que todos os judeus, de todas as idades, estejam presentes e envolvidos quando o mandamento de acender as luzes de Chanucá é cumprido.

Há, também, diferentes tradições sobre o local do lar em que se coloca a Chanuquiá.  Alguns a colocam em uma entrada central, em uma cadeira ou uma mesa pequena perto do vão da porta onde está a Mezuzá. Dessa forma, quando as pessoas passam pelo vão da porta, estão rodeados por dois mandamentos – a Mezuzá de um lado e a Chanuquiá de outro. Outra opção é colocá-la no peitoral de uma janela de frente para a rua. Essa opção é preferível se as luzes de Chanucá puderem ser vistas pelo público passante.

As luzes de Chanucá são acesas noite após noite nesta festividade de oito dias. Acendemos uma luz na primeira noite, duas na segunda e assim por diante. Na oitava e última noite, acendemos todas as oito luzes.

Há diferentes costumes também acerca do horário exato para o acendimento. A maioria das comunidades o faz ao cair da noite – cerca de meia hora após o pôr-do-sol. Outras o fazem logo após o pôr-do-sol. Em qualquer dos casos, as luzes de Chanucá devem arder durante um mínimo de 30 minutos após o cair da noite. Qualquer que seja o costume seguido, na noite de 6a feira, todas as comunidades acendem as velas de Chanucá antes do sol se pôr e, no sábado à noite, após o cair da noite, pois é proibido acender fogo durante o Shabat. Portanto, ao entardecer da 6a feira acendemos a Chanuquiá logo antes de acender as velas do Shabat. Estas últimas tradicionalmente são acesas 18 minutos antes do sol se pôr.

Na 6ª feira, devemos usar azeite suficiente ou velas suficientemente grandes para que as luzes de Chanucá fiquem acesas durante meia hora após o cair da noite – cerca de 1 ½ horas após a entrada do Shabat. Uma vez iniciado o Shabat, não podemos reacender chamas apagadas nem mover de lugar a Chanuquiá; tampouco preparar as velas para serem acesas sábado à noite. Isso somente poderá ser feito ao término do Shabat. Sábado à noite, as luzes de Chanucá são acesas após a realização da Havdalá.

Deve-se acender a Chanuquiá tão logo seja permitido, porque maior mérito tem aquele que se apressa em cumprir os mandamentos Divinos. Portanto, somente se deve postergar o acendimento das luzes enquanto se espera pela chegada dos familiares que desejam estar presentes nesse momento tão importante. Se alguém perdeu o horário adequado do acendimento da Chanuquiá – por exemplo, por ter chegado muito tarde em casa – essa pessoa pode cumprir o mandamento desde que ainda haja gente na rua ou se outro membro da família estiver acordado para acompanhá-lo. Caso as ruas estiverem vazias e ninguém estiver acordado, ele poderá acender as velas, mas sem dizer as bênçãos que são recitadas antes de cumprir esse mandamento.

Após acender a Chanuquiá, é costume cantar canções tradicionais da festividade, como HaNerot Halalu e Maoz Tsur, devendo-se ficar em volta do candelabro durante meia hora, pelo menos. Uma das razões para tal é para assegurar que as luzes ardam, no mínimo, pelo tempo de meia hora. Às 6as feiras, quando as pessoas se preparam para ir à sinagoga ou para receber o Shabat, não é necessário sentar-se 30 minutos ao redor das luzes da Chanuquiá. Há uma tradição de que as mulheres não devem realizar tarefas domésticas enquanto a Chanuquiá estiver acesa. Desta forma, estão honrando as corajosas mulheres judias que ajudaram a assegurar a vitória militar dos Macabeus. 

Em Chanucá, é tradição comer alimentos ricos em azeite, como os deliciosos sufganiot (sonhos) e os latkes (panquecas de batata fritas), celebrando também dessa forma o milagre do azeite.

Vimos um resumo das leis de Chanucá. Como dissemos, diferentes comunidades guardam diferentes tradições. Para maiores informações ou em caso de dúvidas, deve-se consultar com um rabino ou uma autoridade competente em Halachá, a Lei Judaica.

Celebrando o milagre

O mandamento fundamental de Chanucá é o acendimento das velas, ou, o que é ainda melhor, do azeite de oliva. Esse mandamento recorda os dois milagres que celebramos durante essa festividade. O primeiro foi o triunfo dos Macabeus sobre os sírio-gregos – superpotência militar à época, que ocupava a Terra de Israel. A revolta dos Macabeus foi uma resposta às atrocidades cometidas contra o Povo Judeu pelo exército sírio-grego e por sua campanha para coagir nosso povo a renunciar ao judaísmo e a se assimilar e abraçar as crenças helenísticas, seus ideais e sua cultura.  

O segundo milagre foi o do azeite. O acendimento da Menorá com azeite de oliva ritualmente puro era um componente importante do serviço diário no Beit HaMikdash – o Templo Sagrado de Jerusalém. Após libertá-lo das mãos do exército invasor, os Macabeus encontraram um único frasco de óleo ritualmente puro, que escapara à profanação proposital pelos sírio-gregos. O frasco continha o azeite suficiente para acender a Menorá durante um único dia. Seriam necessários oito dias para produzir azeite ritualmente puro. Os judeus foram em frente e acenderam a Menorá com o que tinham. Mas uma ocorrência sobrenatural mudou o jogo: o azeite milagrosamente durou o tempo necessário para a produção de novo azeite ritualmente puro.

O fenômeno sobrenatural do suprimento de um dia ter queimado durante oito dias não foi apenas um milagre, mas também um sinal Divino de que os Macabeus deviam sua vitória militar à Providência Divina. Haviam lutado brava e valentemente, mas não fosse pela Mão Divina, eles não teriam triunfado. Eram um grupo pequeno de homens que se levantaram contra os gigantes militares da época. Tivesse tudo corrido de acordo com as leis da natureza, teria sido uma derrota fragorosa: as possibilidades de terem vencido eram tão remotas quanto o suprimento de um dia de azeite ter durado oito dias – praticamente impossível, não fosse a Ajuda Divina.

A festa de Chanucá, de oito dias, celebra milagres porque tudo nessa festividade é milagroso: a vitória militar, o fato de que os sírio-gregos tenham, de uma forma ou de outra, deixado passar um recipiente de azeite ritualmente puro e o fenômeno sobrenatural de que essa quantidade de azeite tivesse ardido oito dias – exatamente o número de dias necessários para a produção de novo azeite ritualmente puro.

Entre todas as festividades de nosso calendário, talvez Chanucá seja a mais conhecida e apreciada pelos não judeus. A Chanuquiá em locais públicos é acesa por muitos governantes e líderes políticos, inclusive aqui no Brasil. É acesa na Casa Branca e até no Kremlin.

O motivo para isso é que a mensagem de Chanucá é atemporal e universal – aplica-se a todos os seres humanos, independentemente de religião, nacionalidade e etnia. Os temas da festa ressoam no coração de todas as pessoas boas e decentes e a Festa das Luzes nos ensina que os milagres acontecem. Chanucá nos faz recordar, ano após ano, que, cedo ou tarde, a luz impera sobre a escuridão e, no fim, a bondade acaba triunfando sobre a maldade.

A Chanuquiá e a Menorá

Como vimos acima, acendemos as luzes de Chanucá para celebrar o milagre do azeite usado para acender a Menorá do Templo Sagrado.  Há, no entanto, claras diferenças entre a Chanuquiá – a Menorá de Chanucá – e a Menorá do Templo Sagrado, além do fato de que uma tem oito braços e a outra tinha sete. Uma das diferenças é que o número de luzes acesas na Menorá do Templo era constante. Diariamente, todos os sete braços eram acesos. Já em Chanucá, acendemos uma luz na primeira noite, duas na segunda noite e assim por diante. Na oitava e última noite, acendemos todas as oito luzes festivas.

Outra diferença é o fato de que no Templo Sagrado, a Menorá era acesa durante o dia – ao passo que, excetuando-se a tarde de 6a feira devido ao Shabat, as luzes de Chanucá são acesas quando cai a noite e a escuridão. Ademais, a Menorá ficava acesa dentro do Templo Sagrado, enquanto que a Chanuquiá deve ficar, idealmente, próxima a uma janela, para que suas luzes possam ser vistas pelo público de fora, divulgando assim os milagres que celebramos durante a festividade.

Há ainda outra diferença, bem acentuada, entre o acendimento da Menorá e da Chanuquiá. A Menorá, construída por Moshé, simboliza a independência e a autossuficiência do Povo Judeu. No deserto, fomos liderados pelo maior líder judeu e profeta de todos os tempos, e todas as necessidades materiais da nação estavam providas: o maná que caía dos Céus e o poço de Miriam que lhes fornecia água em abundância. Foram anos de abundância espiritual para o Povo Judeu, pois quando o ser humano está livre de preocupações, ele pode melhor dedicar-se aos assuntos Divinos. Quando o maná caía dos Céus, havia mais tempo e tranquilidade para se dedicar a estudar a Palavra de D’us. Quando há paz e prosperidade, as pessoas geralmente têm mais tempo para se dedicar a cumprir os mandamentos da Torá.

Diferentemente da Menorá de sete braços, a Chanuquiá nos faz lembrar incidentes que foram milagrosos, mas que ocorreram em tempos difíceis para o Povo Judeu. A Terra de Israel estava sob o domínio dos tirânicos sírio-gregos, que profanaram o segundo Templo Sagrado de Jerusalém. O Povo Judeu sofria terrível opressão, seu exército era pequeno e muitos judeus se estavam assimilando. Essas limitações físicas e dificuldades refletiam o frágil estado espiritual da nação judaica. Isso explica porque apenas 10% do Povo Judeu apoiou a revolta dos Macabeus. A falta de azeite ritualmente puro para acender a Menorá simbolizou a falta de espiritualidade dos judeus à época.

Chanucá e a necessidade de luz adicional

Em tempos de abundância material e espiritual, quando reina a paz e a prosperidade, o Povo Judeu não é compelido a executar atos de extremo auto sacrifício. Quando tudo corre bem, não há necessidade urgente de luz adicional: falando por metáforas, pode-se acender o mesmo número de luzes a cada dia e não é necessário fazer grandes esforços para iluminar o mundo que nos cerca. Mas quando reinam a escuridão e a opressão, como na época em que os Macabeus tiveram que ir à guerra, não basta que as pessoas vivam dentro de sua zona de conforto. Em tais circunstâncias, é necessário muito auto sacrifício para aumentar a luz do mundo.  Essa é uma das principais mensagens das luzes de Chanucá. Elas nos ensinam que não é suficiente que um judeu ilumine sua casa – ou seja, seu domínio privado.

Apesar do grande esforço envolvido, cada ser humano consciencioso precisa se empenhar em iluminar o mundo. Diferente da Menorá, que era acesa de dia e no interior do Templo Sagrado, nós acendemos a Chanuquiá quando a noite cai, e a colocamos onde suas luzes possam ficar visíveis àqueles que passem pela rua. Isso nos ensina que a luz é especialmente necessária quando está escuro do lado de fora. Diferentemente da Menorá, cujo número de luzes era constante, a Chanuquiá nos ensina que em épocas de desafios espirituais, não é suficiente gerar a mesma quantidade de luz como no passado. Cada dia que passa, precisamos constantemente avançar em tudo o que se refere à espiritualidade, santidade e bondade. Nunca devemos nos dar por satisfeitos com nossas conquistas, não importa quão sensacionais sejam. Pelo contrário, sempre devemos nos esforçar para conquistar mais, gerando assim mais luz para o mundo.

As luzes de Chanucá também nos ensinam que em tempos de grande escuridão espiritual, um ser humano nobre não se deve permitir ser intimidado. Pelo contrário. Os desafios devem incitá-lo à ação. Como os Macabeus, que foram a uma guerra que parecia invencível, e, assim como nossos antepassados, que insistiram em acender a Menorá com o azeite sagrado que só bastaria para um dia, nós nunca devemos recuar nem desistir de nada, especialmente quando a luta for por uma causa digna.

O ser humano que assim age, que está disposto a se sacrificar em benefício dos demais e que quer aperfeiçoar-se, e que não se satisfaz com as conquistas passadas, esse ser humano pode contar com a ajuda de D’us para ser vitorioso e bem sucedido. D’us o ajudará como Ele ajudou aos Macabeus. Em outras palavras, quando vivermos uma vida sobrenatural e não permitirmos que o mundo natural nos dite como devemos viver, D’us fará milagres para nós. Viver uma vida sobrenatural significa produzir luz adicional para que a mesma possa vencer a escuridão e vencer todas as formas do mal.

Todos os seres humanos que produzem luz estão transformando o mundo: eles estão ajudando a frui-lo por completo – até o dia em que o mundo todo será de luz. Quando isso acontecer, o azeite de oliva ritualmente puro será levado para acender a Menorá do terceiro Templo Sagrado de Jerusalém – que será eterno e que, com a ajuda de D’us, será construído muito em breve, em nossos dias. Amén, ken yehi ratsón.

Bibliografia
Rabi Menachem Mendel Schneerson – Likutei Sichot, volume 1, pg. 89