Descrita muitas vezes como “surpreendente”, a ofensiva militar deslanchada por Israel em junho contra alvos militares iranianos, no entanto, se encaixou num modus operandi existente há décadas e modelado pela chamada Doutrina Begin. Segundo ela, o Estado Judeu deve deslanchar ataques preventivos para impedir a posse, por países que pregam a sua aniquilação, de armas de destruição em massa, em especial as nucleares.
Por: Jaime Spitzcovsky
A revolução iraniana, de 1979, derrubou a monarquia do xá Reza Pahlevi, instalou uma teocracia e transformou o país numa base de anti-americanismo e de rejeição a valores democráticos. Passou a defender a destruição de Israel, aliado dos tempos pré-revolucionários e do inimigo Estados Unidos.
Empenhado em expandir sua influência no Oriente Médio, o Irã, de maioria persa e xiita, investiu ainda na criação e financiamento de grupos terroristas como o libanês Hezbolá, o palestino Hamas ou os iemenitas houthis. Também fincou influência na Síria de Bashar al-Assad e no Iraque pós-Saddam Hussein. Teerã batizou o resultado desse expansionismo de o “eixo da resistência”.
A estratégia em busca da supremacia regional contava com mais um elemento: as ambições nucleares. E a denúncia sobre os planos secretos de Teerã apareceu em agosto de 2002, quando um grupo oposicionista iraniano no exílio, o Conselho Nacional de Resistência do Irã, expôs a existência de estruturas nucleares então clandestinas, construídas, por exemplo, sem o conhecimento da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), da ONU.
Começou assim uma das mais longevas crises internacionais do século 21, com a busca para evitar que a teocracia iraniana alcançasse o poderio atômico, planejado para colocar em xeque a existência de Israel, para desafiar a liderança saudita no mundo muçulmano e para poder desestabilizar a economia global, ao ter armamento para eventualmente fechar o estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico, rota de pelo menos 20% da produção mundial de petróleo.
O Irã e a AIEA já colecionaram atritos nos primeiros anos da crise, entre 2004 e 2005. Em 2006, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a resolução 1696, exortando a teocracia iraniana a suspender as atividades de enriquecimento de urânio ou enfrentar sanções. O país persa rejeitou a demanda, e até 2010, foram aprovadas diversas punições econômicas em escala internacional.
Com sua economia debilitada, o Irã aceitou se envolver em negociações responsáveis pelo acordo nuclear de 2015, liderado à época pelo governo de Barack Obama. O princípio básico do tratado consistia no congelamento do programa atômico de Teerã, em troca do levantamento de sanções econômicas.
Os críticos do acordo, entre eles Benjamin Netanyahu, apontavam para o fato de haver congelamento, e não desmantelamento do programa nuclear. E, argumentavam eles, após 10 anos, duração do tratado, o Irã poderia retomar suas ambições atômicas num cenário de franca recuperação econômica.
Ignorar o programa de mísseis balísticos e as iniciativas expansionistas do Irã no Oriente Médio também foi apontado pelos críticos como uma falha grave do acordo liderado pelos EUA, mas ainda com a participação de China, Rússia, França, Reino Unido e Alemanha.
O governo de Barack Obama apontou o acordo como uma das suas principais conquistas diplomáticas e argumentava ter, com a iniciativa controversa, evitado uma guerra. Seguia o raciocínio: se o Irã chegasse à beira de obter a bomba atômica, Israel, devido à Doutrina Begin, atacaria o país persa. Donald Trump, crítico contumaz daquela iniciativa diplomática de seu antecessor, retirou os EUA do acordo em 2018. Reintroduziu sanções econômicas, numa política chamada de “pressão máxima” sobre o regime iraniano.
O Irã seguiu no caminho dos desafios. Em março de 2020, a AIEA reportou que o estoque iraniano de urânio enriquecido havia quase triplicado desde novembro de 2019. E, em 2021, o regime iraniano passou a enriquecer urânio (processo semelhante a uma purificação do material) a 60%, nível para o qual não há aplicação civil.
Quando enriquecido a cerca de 4%, o urânio é utilizado para produção de energia elétrica. A 90%, para bombas atômicas.
Segundo alguns relatos, a decisão iraniana de avançar definitivamente para a montagem de uma bomba atômica teria ocorrido após o massacre de 7 de outubro de 2023. Teerã, apoiador e financiador do Hamas, imaginava ter de se preparar para a resposta israelense.
Israel e Irã, em 2024, se enfrentaram duas vezes, com bombardeios aéreos, mísseis e drones. Os inimigos deixavam, pela primeira vez em décadas, a “guerra nas sombras”, quando se defrontavam por meio de operações de inteligência e de sabotagem, para entrarem num confronto militar direto.
A volta de Donald Trump à Casa Branca, em janeiro deste ano, significou o início de um novo capítulo na crise. Numa reviravolta, em março, o presidente enviou uma carta ao regime iraniano, propondo a abertura de negociações sobre a questão nuclear. A proposta, após muita hesitação de Teerã, foi aceita.
No mês seguinte, o diálogo começou em Omã, país do Golfo Pérsico. E Trump colocou um ultimato: as negociações teriam de terminar no prazo de 60 dias.
As negociações se arrastaram por cinco rodadas. Enquanto isso, a AIEA lançou relatos alarmantes. A 31 de maio, informou que o Irã havia expandido seu estoque de urânio enriquecido a 60%. E, a
12 de junho, a agência da ONU aprovou uma resolução, a mais dura em 20 anos, apontando o não cumprimento pelo Irã de suas obrigações nucleares.
No dia seguinte, Israel deslanchou a ofensiva militar. Donald Trump lembrou então ter dado o prazo de 60 dias para obtenção de um acordo e observou que aquela sexta-feira era o “dia 61”.
Há relatos de que Israel, diante da escalada iraniana, havia planejado um ataque para maio, mas aceitou postergá-lo, a fim de dar uma chance para o processo diplomático defendido por Trump. Diante do fracasso das negociações, o governo israelense optou por recorrer, pela terceira vez na história, à Doutrina Begin.
A doutrina surgiu em 1981, quando o primeiro-ministro Menachem Begin ordenou o bombardeio do reator nuclear de Osirak, em construção, do Iraque de Saddam Hussein. Batizado de Operação Ópera, o ataque dizimou as ambições atômicas da ditadura iraquiana e recebeu pesadas críticas internacionais, incluindo uma condenação do Conselho de Segurança da ONU.
Em 1990, Saddam Hussein ordenou a invasão do Kuwait e, no ano seguinte, os EUA lideraram uma coalizão de mais de trinta países, responsável pela expulsão das tropas iraquianas do território ocupado. O cenário teria sido bastante diferente se o Iraque contasse com um arsenal atômico.
O ex-presidente Bill Clinton, numa entrevista em 2005, apoiou a Operação Ópera, em contraste com as críticas norte-americanas nos tempos do ataque. “Todo mundo fala sobre o que os israelenses fizeram em Osirak, em 1981, o que, eu acho, em retrospecto, foi algo realmente bom. Você sabe, impediu Saddam de desenvolver poder nuclear”.
O premiê Menachem Begin, em entrevista ao programa de TV norte-americano “Face the Nation” cerca de uma semana após a ação no Iraque, declarou: “Este ataque será um precedente para todos os governos futuros em Israel...Todo futuro primeiro-ministro israelense vai agir, em circunstâncias similares, da mesma maneira”.
Coube a Ehud Olmert, em 2007, ordenar a Operação Pomar, com bombardeio de instalação nuclear na Síria, construída com apoio da Coreia do Norte. Assim como contra o Irã, a Doutrina Begin entrava em ação.
Jaime Spitzcovsky colaborador da Folha de S.Paulo, foi correspondente do jornal em Moscou e em Pequim.