No cenário diplomático do Oriente Médio, as relações com Turquia e Qatar despontam como um ponto de discórdia entre os aliados Donald Trump e Binyamin Netanyahu. Enquanto o norte-americano cultiva laços políticos e econômicos com os dois países muçulmanos, o israelense questiona intensamente a atual aproximação com Ancara e Doha, ao apontar, por exemplo, as relações dos governos turcos e catariano com grupos antissemitas e terroristas, como o Hamas.

Por Jaime Spitzcovsky

O intrincado tabuleiro geopolítico médio-oriental engloba atualmente complexas redes de vínculos econômicos e militares, em contraste com a realidade bipolar da Guerra Fria. Naquela época, a lógica indicava opção clara por orbitar na esfera de influência dos Estados Unidos ou da União Soviética. Havia pouco espaço para arquiteturas alternativas.

Num mundo marcado pela multiplicação de vetores a definir as alianças, o ditador turco, Recep Erdogan, e o emir do Qatar, Tamin bin Hamad Al Thani, operam uma teia diplomática ao permitir, simultaneamente, relações estreitas com democracias ocidentais, como os EUA, e com grupos antiocidentais, como o Hamas e a Irmandade Muçulmana, criada no Egito.

Um dos resultados dessa complexa equação é uma frente de tensionamento entre Trump e Netanyahu. Para a Casa Branca, interesses políticos, militares e comerciais, além de pilares históricos, justificam o flerte com Erdogan, que recebe elogios do presidente norte-americano. “Eu, por acaso, gosto dele e ele gosta de mim... e nunca tivemos um problema”, declarou o presidente norte-americano, em abril do ano passado, ao receber ninguém menos do que Netanyahu, em Washington.

O ditador turco, em conversa telefônica com o líder catari em junho passado, chamou Israel de a “maior ameaça ao Oriente Médio”. Em outra ocasião, comparou Netanyahu a Adolf Hitler e se transformou numa das vozes mais estridentes a alimentar a onda internacional antissionista.

Ao chegar ao poder, no início dos anos 2000, Erdogan chegou a levar adiante a política de seus antecessores de manter uma Turquia com a pretensão de aderir à União Europeia e aliada de Israel. Porém, à medida que avançava seu projeto autoritário, ele percebeu que abrir mão de buscar alinhamento automático com países ocidentais e os ataques verbais a Israel granjeavam apoio em setores da opinião pública de seu país, dispostos a seguir o populismo emanado de Ancara.

As saraivadas de críticas a Israel se encaixavam também perfeitamente na estratégia populista em sua dimensão externa, pois o Oriente Médio atravessava a turbulência da Primavera Árabe, iniciada em 2010, com protestos derrubando ditadores como o egípcio Hosni Mubarak e o tunisiano Ben Ali, entre outros.

Erdogan enxergou, nesse contexto de mudanças em países árabes, a oportunidade de expandir a influência turca no Oriente Médio. Implementava assim a política neo-otomana, arquitetada para recuperar protagonismo em áreas dominadas pelo império comandado desde Istambul entre os séculos 14 e 20. Além de se alimentar do posicionamento radical anti-Israel, Erdogan adotou outro ingrediente na estratégia de buscar ampliar apoio, na opinião pública árabe, ao país que outrora representou a força ocupante, ou seja, as tropas otomanas. O ditador turco explicitou sua aproximação ideológica com a Irmandade Muçulmana, grupo radical e profundamente antiocidental, criado em 1928 pelo egípcio Hassan Al-Banna.

Com tentáculos espalhados por diversos países árabes, a Irmandade Muçulmana passou a ser considerada um vetor de reverberação da política neo-otomana. E o Hamas surgiu em 1987, na Faixa de Gaza, exatamente como vertente palestina da organização criada por Al-Banna. Como um dos resultados desses movimentos políticos, a Turquia se transformou num refúgio para lideranças do Hamas, além de base para atividades econômicas destinadas a levantar fundos para a organização terrorista da Faixa de Gaza.

A política neo-otomana, no entanto, produz um paradoxo: a permanência da Turquia na Otan, a aliança militar ocidental, criada pelos EUA em 1949. Em território turco, desde a década de 1950, há a base aérea de Incirlik, utilizada pela força aérea norte-americana e britânica. Washington e Londres não demonstram vontade de romper essa cooperação, sobretudo devido à estratégica localização da Turquia, nas fronteiras do Oriente Médio, da Rússia, do mar Mediterrâneo e dos Balcãs.

Outra base aérea de destaque é a de Al Udeid, localizada no Qatar e utilizada por norte-americanos desde 2001. Trata-se de um ponto nevrálgico para a presença militar dos EUA no Oriente Médio e, sobretudo, no Golfo Pérsico. E a monarquia catariana, a exemplo da ditadura turca, alimenta laços com a Irmandade Muçulmana e seus tentáculos pelo mundo árabe, como o Hamas.

O Qatar vê proximidade ideológica com alguns dos pilares da Irmandade Muçulmana, mantém diálogo com o Irã, proporciona refúgio aos principais líderes do Hamas e financia, por exemplo, a Al Jazeera, rede de TV com forte viés anti-Israel, principalmente na sua versão transmitida no idioma árabe.

Durante anos, a monarquia enviou recursos ao Hamas na Faixa de Gaza, com anuência de autoridades israelenses, que imaginavam, com estes aportes financeiros, “manter o grupo terrorista numa posição menos beligerante e mais interessado na reconstrução econômica”.

O emirado árabe mantém uma chamada política multidimensional. Questões ideológicas à parte, sua bússola diplomática é orientada pelo medo de o país, com território comparável à metade do estado de Sergipe, e com gigantescas reservas de petróleo e gás, ser invadido devido a uma busca por suas riquezas. Devido a esse temor, a diplomacia catariana monta um leque amplo de alianças, a fim de “comprar amizades e proteções militares”.

Tal lógica leva o Qatar a sediar uma base norte-americana e cultivar relações com o Hamas, por exemplo. Logo após o massacre de 7 de outubro de 2023, o governo catariano se colocou como mediador entre Israel e o grupo terrorista, nas negociações por cessar-fogo e pela libertação dos reféns.

Em visita oficial ao país árabe, em 2025, Donald Trump recebeu como presente um jato para ser transformado, após reformas, no novo Air Force One, avião presidencial norte-americano. O gesto catariano e a aceitação do presidente geraram intensa polêmica, em especial, claro, nos Estados Unidos, por questões políticas, de protocolo e de segurança.

O tema aviões também permeia o diálogo entre Trump e Erdogan. Em dezembro passado, o republicano declarou considerar a venda dos avançados F-35 para a Turquia, numa iniciativa a preocupar o governo israelense. “Prometo que nunca vão usar (contra Israel)”, afirmou Trump. “Não vamos ter esse problema.”

Em setembro último, caças enviados por Jerusalém bombardearam um prédio em Doha, numa tentativa de atingir os principais líderes do Hamas fora da Faixa de Gaza. O alvo se encontrava a apenas cerca de 30 quilômetros da base aérea de Al Udeid.

O Qatar exigiu, então, um pedido de desculpas de Netanyahu e um acordo explícito de defesa mútua com os EUA, ou seja, que um ataque a solo catariano obrigasse Washington a defender o aliado com “as medidas apropriadas”. O emirado obteve sucesso em ambas as demandas.

Trump, no entanto, segundo relatos e especulações da mídia internacional, teria exigido como contrapartida a “pressão total” do Qatar sobre o Hamas, para a obtenção do cessar-fogo na guerra de Gaza, o que ocorreu no mês seguinte, em outubro.

No processo árduo de negociação, para aumentar a pressão sobre o Hamas, Trump também convocou autoridades turcas. E, no evento no Egito, para celebrar a assinatura do cessar-fogo, o presidente norte-americano, na longa lista de agradecimentos, destacou publicamente o papel de mediação exercido por Turquia e Qatar.

A aliança Trump-Netanyahu, uma das mais sólidas do cenário internacional, vive também às voltas com contradições e diferenças. Enquanto a Casa Branca ainda vê um papel para a Turquia e para o Qatar na Faixa de Gaza, o governo israelense sinaliza clara rejeição a tal caminho. Caberá à arte da negociação e da diplomacia buscar acomodar as visões antagônicas, a fim de preservar os laços entre o presidente e o primeiro-ministro.

Jaime Spitzcovsky colaborador da Folha de S.Paulo, foi correspondente do jornal em Moscou e em Pequim.