O dia mais triste do nosso calendário, Tishá b’Av, rememorado em nove do mês de Menachem Av, é antecedido por Shabat Chazon (Shabat da Visão). Esse nome deriva das palavras iniciais da Haftará (trecho dos Profetas recitado na sinagoga, após a leitura da Torá, no Shabat e nas festividades) recitada nessa ocasião: Chazon Ieshaiáhu (A visão de Isaías) (Isaías 1:1–27).

A Haftará começa com uma severa reprimenda. Em nome de D’us, o profeta Isaías, além de denunciar Israel como “uma nação pecadora, um povo carregado de iniquidade”, expõe as falhas morais e espirituais de nossos antepassados. No entanto, a Haftará não termina com uma condenação ou em tom de desespero, mas com esperança e encorajamento. Culmina com uma visão de restauração e redenção: um tempo em que a grandeza espiritual de Jerusalém seria renovada e os judeus exilados retornariam à sua terra ancestral: “Tsión será redimida com justiça, e seus cativos, com retidão”.

Lida no Shabat que antecede Tishá b’Av, o dia da destruição dos dois Templos Sagrados de Jerusalém, acontecimento que marcou o exílio do Povo de Israel, essa Haftará tem um duplo papel: de advertência e promessa. Ao longo dos milênios, tem-nos lembrado não só das causas desse infortúnio, mas também do caminho para a redenção. A visão de Isaías, assim, abrange tanto a tragédia quanto a esperança, o julgamento e o consolo.

O fato de o Shabat que antecede Tishá b’Av receber o nome de sua própria Haftará indica que esse texto expressa o tema central do dia. No entanto, por que Chazon Ieshaiáhu, a visão de Isaías, é tão importante para esse Shabat? Porque esse nome tem um significado que vai muito além das palavras do texto sagrado: remete não só à experiência do profeta, mas também a uma visão mística dada a todos nós nesse dia.

Esse sentido mais profundo de Shabat Chazon foi esclarecido por um dos maiores mestres chassídicos, o Rabi Levi Yitzchak de Berditchev, cabalista, milagreiro e célebre defensor do Povo Judeu. De acordo com esse grande Sábio, se, em Tishá b’Av, lamentamos a destruição do Primeiro e do Segundo Templos, no Shabat que o antecede, é-nos concedida a visão do Terceiro, já edificado por D’us e destinado a revelar-se na Era Messiânica.

A visão do Terceiro Templo Sagrado

O Rabi Levi Yitzchak de Berditchev ilustra essa ideia por meio de uma parábola: “Certa vez, um homem preparou uma bela veste para o filho. O menino, porém, não soube valorizar o presente, e a peça logo se deteriorou. O pai então lhe deu uma segunda roupa, que, também entregue ao desleixo, acabou por se perder. Preparou então uma terceira, mas, desta vez, manteve-a consigo. Em ocasiões especiais, mostrava a vestimenta ao filho e prometia dá-la a ele quando este aprendesse a valorizá-la e a cuidar dela como se deve. Diante disso, o menino passou a refletir sobre seu comportamento e, pouco a pouco, tornou-se digno de receber o presente”.

Da mesma forma, segundo o Rabi Levi Yitzchak de Berditchev, a visão do Terceiro Templo é concedida à nossa alma em Shabat Chazon ainda que não estejamos conscientes disso. Como explica o Talmud, mesmo quando a pessoa não enxerga, “seu mazal vê”, ou seja, nossa essência mais profunda vislumbra o que está além dos sentidos físicos.

Esse ensinamento convida-nos a uma reflexão mais profunda sobre a natureza da percepção espiritual. Nem toda apreensão da realidade é consciente, nem toda visão depende dos olhos materiais. Há verdades que, embora estejam além dos cinco sentidos, são captadas pela alma.

Como o filho da parábola, que, por graça do pai, entrevê algo que ainda não pode possuir, também nós, em Shabat Chazon, recebemos um vislumbre de uma realidade por ora não manifesta. Essa visão destina-se não só a consolar, mas também a transformar e refinar nossa percepção, bem como a elevar nossa conduta e a aproximar-nos do momento em que essa realidade será revelada em sua plenitude.

O que o Templo Sagrado representava

Para compreender a profundidade desse ensinamento, é preciso refletir sobre a verdadeira natureza do Templo Sagrado de Jerusalém, o Beit HaMikdash. Não era apenas uma estrutura física ou um centro religioso nacional, mas o lugar em que a Presença Divina se manifestava no mundo físico.

Um princípio fundamental do Judaísmo é que D’us está em toda parte: “[...] toda a terra está repleta de Sua glória”. (Isaías 6:3). Obra cabalística fundamental do século 14 e importante complemento ao Zohar, o Tikkunei HaZohar, que trata da aceleração da Redenção Messiânica, ensina: “Não há lugar vazio d’Ele”. Ainda assim, a Presença de D’us permanece, em geral, oculta, velada pela aparente autonomia da natureza e pelo desenrolar da história. O mundo parece funcionar segundo suas próprias leis enquanto a Fonte Divina que o sustenta permanece invisível.

O Templo Sagrado de Jerusalém rompia esse véu. Era como uma janela através da qual a Presença de D’us irradiava para o mundo. Em seu interior, a atuação do Onipotente não estava oculta, mas revelada. Os milagres não eram acontecimentos excepcionais, mas parte do serviço diário do Templo, cuja própria existência testemunhava uma realidade além dos limites do mundo físico. Em essência, o local era o ponto de encontro entre o Céu e a terra, o lugar em que D’us Se manifestava ao homem e este permanecia diante do Altíssimo.

Duas vezes, nós, o Povo de Israel, recebemos esse extraordinário presente. O Primeiro Templo, erguido sob a liderança do rei Salomão, existiu por 410 anos, e o Segundo, construído no mesmo solo sagrado, por 420 anos. Em ambas as épocas, porém, não correspondemos às exigências espirituais impostas por uma revelação dessa magnitude. O Primeiro Templo caiu em mãos dos babilônios, e o Segundo, dos romanos. A destruição deste último marcou o início do longo exílio do Povo Judeu.

O Terceiro Templo, porém, será fundamentalmente diferente. Ao contrário dos dois primeiros, edificados pela mão do homem e, portanto, sujeitos às limitações humanas, será uma criação Divina, eterna e indestrutível. Por ora, existe em uma dimensão mais elevada e oculta, além do alcance da percepção física. Ainda assim, em Shabat Chazon, é-nos concedido um vislumbre dessa realidade oculta. Todo ano, nessa ocasião, nossa alma entrevê um mundo que já está plenamente realizado em seu propósito e no qual a Presença Divina deixou de estar oculta. Em outras palavras, o mundo como será na Era Messiânica.

A visão do Terceiro Templo não é simbólica. É, ao mesmo tempo, uma promessa, pois anuncia a revelação plena da Presença de D’us em nosso plano de existência e a consumação da Redenção Messiânica, e também uma exigência espiritual, porque convoca o ser humano, em particular, o Povo Judeu, a viver de modo condizente com essa realidade para se tornar instrumento da concretização da mesma. Dessa forma, ver o Terceiro Templo, ainda que apenas em vislumbre, é reconhecer que a redenção não pertence apenas ao futuro, mas já começa a se manifestar no presente. Assim como o pai que mostra ao filho a veste que o menino ainda não merece, D’us revela-nos aquilo que já existe, à espera de sua manifestação. Essa visão nos convoca a alinhar nosso comportamento com os propósitos Divinos para que possamos recebê-la.

Ao longo de quase dois milênios desde a destruição do Segundo Templo, essa ideia deixou sua marca. Assim, Shabat Chazon, o Shabat da Visão, não é uma experiência abstrata: tem um caráter transformador que nos conduz ao dia em que aquilo que hoje nossa alma consegue vislumbrar será revelado no mundo físico.

Destruição e promessa

Os temas de Shabat Chazon (visão, destruição e redenção) não são isolados, pois estão no coração do Judaísmo: a eternidade do nosso povo; o vínculo indissolúvel entre D’us e Israel; e a fé duradoura de que, mesmo no exílio, a redenção é inevitável. Portanto, não é por acaso que a ocasião em que nos é concedida uma visão da Era Messiânica ocorra imediatamente antes de Tishá b’Av, o dia em que lamentamos as maiores tragédias de nossa história. Visão e luto não são opostos, mas integram uma única realidade espiritual.

O profeta Jeremias retoma essa ideia e, ao contrário de Isaías, que apresenta uma leitura que vai da reprimenda ao consolo, fala do processo pelo qual essa repreensão se cumpre na história. Suas palavras, registradas no livro que leva seu nome, conclamam os judeus ao arrependimento ao adverti-los sobre a destruição que se seguiria caso não mudassem de conduta. Ainda assim, seus avisos foram ignorados.

Nos dias de Jeremias, nossos ancestrais, seduzidos por falsos profetas e suas promessas vazias, acreditavam que Jerusalém, juntamente com o Templo Sagrado, jamais poderia cair e a Presença Divina em seu meio lhes garantiria não só segurança, mas também permanência em Israel independentemente de sua conduta. Assim, desprezaram as palavras de Jeremias, que advertia sobre a catástrofe iminente. O rei de Judá, Yehoyakim, chegou a queimar um rolo dos escritos do profeta (os quais, segundo uma opinião, constituem o Livro das Lamentações) por rejeitar os avisos ali contidos sobre a queda de Jerusalém e a perda de seu reinado.

Em vez de dar ouvidos a Jeremias, o povo passou a persegui-lo: zombaram dele, atacaram-no e até atentaram contra sua vida. O profeta, que buscava apenas salvar o Reino de Judá do desastre, foi recebido com resistência e desprezo. A tragédia que se seguiu – a derrota militar, a conquista da Terra de Israel, a queda do Templo Sagrado e o exílio do Povo Judeu – constituiu o cumprimento de advertências proféticas proclamadas reiteradamente ao longo do tempo.

Essa destruição é relatada no Livro das Lamentações (Megillat Eichá), escrito por Jeremias e recitado em Tishá b’Av. A obra, que relata a devastação de Jerusalém, descreve, em linguagem poética e pungente, o sofrimento de um povo conquistado, humilhado, esfomeado e exilado de sua terra em ruínas.

Ainda assim, em meio à tragédia da queda do Primeiro Templo Sagrado, permanece uma luz de esperança. Por mais devastadoras que tenham sido, a destruição de Jerusalém e o exílio para a Babilônia não significaram o abandono de Israel por D’us. Ao contrário, como ensina o Midrash, o Altíssimo “derramou Sua ira sobre a madeira e a pedra” (as estruturas materiais) e não sobre Seu povo, que, apesar do Templo arrasado, permaneceu vivo. D’us escolheu sacrificar Sua morada na terra para que perdurássemos para sempre. Ademais, nas próprias profecias de Jeremias, entre algumas das reprimendas mais severas das Escrituras, encontram-se certas afirmações do amor Divino por Israel, bem como da eternidade do Povo Judeu e de seu retorno à terra ancestral, que figuram entre as mais poderosas dos livros sagrados.

Um tema recorrente na obra de Jeremias é nossa futura redenção, um tempo em que os exilados dispersos retornarão à sua pátria, o luto se transformará em alegria e Jerusalém, outrora desolada, florescerá novamente com a volta de seus filhos: “Assim disse o Eterno: Neste lugar, sobre o qual dizeis: ‘Estão desoladas, sem habitantes e sem animais, tanto as cidades de Judá quanto as ruas de Jerusalém’, ainda se voltará a escutar vozes de alegria e de regozijo, a voz do noivo e a voz da noiva, a voz dos que dizem, ‘Rendei graças ao Eterno dos Exércitos, pois o Eterno é bom e Sua misericórdia permanece para sempre’, bem como as vozes dos que trazem oferendas de gratidão à Casa do Eterno. Pois farei retornar os cativos desta terra (para que a habitem) como nos dias do passado – diz o Eterno”. (Jeremias 33:10–11).

Segundo o profeta, assim como a ordem natural do mundo (o Sol, a Lua e as estrelas) é imutável, também o é a aliança de D’us com o Povo de Israel: nenhum fracasso, exílio, pecado ou destruição pode romper esse vínculo (Jeremias 31:34–36).

À luz dessa perspectiva, a destruição do Templo Sagrado adquire um sentido diferente. Não se trata de mera punição, mas de parte de um plano Divino mais amplo que oculta para posteriormente revelar de modo mais profundo. A perda do Templo e o exílio do Povo de Israel nos quatro cantos da Terra deram origem a um mundo em que a Presença Divina está oculta. No entanto, é justamente assim que se formaram as condições para uma Revelação maior que independerá apenas do mérito humano e jamais será retirada.

Essa é a conexão mais profunda entre a visão de Isaías, as profecias de Jeremias, sobretudo as contidas no Livro das Lamentações, recitado em Tishá b’Av, e o tema de Shabat Chazon. Antes de lamentarmos a destruição, é-nos revelado seu propósito último. Antes de mergulharmos na escuridão, é-nos concedido um vislumbre da luz que está além. A antevisão do Terceiro Templo Sagrado não se separa da memória dos dois primeiros, mas é seu cumprimento.

A visão de Rabi Akiva

A ideia de que a própria destruição contém as sementes da redenção está expressa, de forma poderosa, em uma conhecida passagem do Talmud (Bavli, Makkot 24b), segundo o qual quatro de nossos maiores Sábios, Rabban Gamliel, Rabi Elazar ben Azarya, Rabi Yehoshua e Rabi Akiva, subiram certa vez a Jerusalém após a destruição do Templo Sagrado. Ao chegarem ao Har HaTzofim (o Monte Scopus) e contemplarem as ruínas da Cidade Santa, rasgaram suas vestes em sinal de luto conforme prescreve a Lei Judaica.

Ao se aproximarem do Monte do Templo, viram uma raposa sair do local em que antes se erguia o Kodesh HaKodashim, o Santo dos Santos, a câmara mais sagrada do Templo Sagrado, à qual só o Sumo Sacerdote tinha acesso e apenas em Yom Kipur. Os Sábios começaram a chorar.  Rabi Akiva, porém, riu.  Os outros se voltaram para ele e, perplexos, perguntaram:

- Akiva, por que ris?

- E por que chorais?

- Este é o lugar sobre o qual está escrito: “e o estranho que se aproximar morrerá” (Números 1:51), e agora raposas caminham ali. Não devemos chorar?

Rabi Akiva respondeu com um ensinamento que transformou a compreensão do que estavam presenciando. Disse:

- É por isso que rio. Pois está escrito que, quando D’us revelou o futuro ao profeta Isaías: “Buscarei para mim testemunhas confiáveis: Uriá,

o sacerdote, e Zechariahú (Zacarias) ben Ieverechiáhu”. (Isaías 8:2).

- Qual é a relação entre esses profetas? Uriá profetizou no período do Primeiro Templo, e Zacarias, no do Segundo. O versículo, no entanto, associa-os para ensinar que o cumprimento da profecia deste depende do cumprimento da visão daquele. Uriá anunciou a destruição: “Portanto, por vossa culpa, Tsión será arada como um campo, Jerusalém se tornará um montão de ruínas e o Monte do Templo tornar-se-á um amontado de pedras perdidas na floresta” (Miqueias 3:12), uma desolação tão completa que animais selvagens vagueariam por ali. Já Zacarias profetizou a redenção: “Assim disse o Eterno dos Exércitos: ‘Ainda voltarão a sentar anciãos e anciãs nas ruas de Jerusalém, cada um apoiado em sua bengala por serem de idade avançada. E crianças brincarão também nas ruas, tornando-as repletas de meninos e meninas’ ” (Zacarias 8:4-5). É uma visão do retorno do Povo de Israel à sua terra e do renascimento de Jerusalém.

Rabi Akiva explicou:

- Enquanto a profecia de Uriá, sobre a destruição da cidade, não se cumprisse, eu temia que a de Zacarias não se concretizasse, pois ambas estão ligadas. Agora que aquela se cumpriu, é certo que esta também se concretizará.

Ao ouvirem isso, os demais Sábios responderam:

- Akiva, tu nos consolaste; Akiva, tu nos consolaste.

Esse episódio sintetiza a esperança e a resiliência que têm caracterizado o Povo Judeu ao longo de milênios de provações e adversidades. Rabi Akiva não negou a realidade da destruição, mas, ao contrário, percebeu-a com mais clareza do que qualquer outro. Foi justamente por apreender toda a profundidade da tragédia que conseguiu discernir, no interior da mesma, a certeza da redenção. Para os demais, inclusive para os maiores Sábios, entre eles dois líderes do Sanhedrin (Rabban Gamliel e Rabi Elazar ben Azarya), bem como seu mestre, Rabi Yehoshua, a presença de uma raposa no lugar mais sagrado do Templo parecia o sinal definitivo de desolação, mas, aos olhos de Rabi Akiva, aquilo confirmava que o plano Divino se desenrolava conforme anunciado.

Nessa perspectiva, a destruição não é a negação da redenção, mas seu necessário prelúdio. Assim, em Shabat Chazon, nos é concedida uma visão que espelha a de Rabi Akiva: a capacidade de ver além da superfície da tragédia e discernir, em seu interior, a certeza da futura redenção.

O cumprimento das profecias

Há mais de dois mil anos, o Povo Judeu permanece em luto em Tishá b’Av: observa o jejum de mais de 24 horas, cumpre as restrições do dia e recita o Livro das Lamentações. Ao longo desses séculos, uma pergunta persistia: quando se cumpririam as profecias sobre o retorno a Jerusalém?

Então, após a maior tragédia da História Judaica, o Holocausto, o extermínio de seis milhões de judeus, quando tudo parecia perdido, nosso povo retornou à sua pátria ancestral e restabeleceu um Estado soberano, em 1948. Menos de vinte anos depois, na Guerra dos Seis Dias, em junho de 1967, Jerusalém voltou às mãos de Israel. Quem percorre hoje as ruas da cidade, que já não está desolada, testemunha o cumprimento das profecias de Jeremias e Zacarias. Ouvem-se vozes de noivos e noivas judeus; veem-se multidões que afluem ao Kotel (o Muro Ocidental) para rezar e agradecer a D’us, bem como para proclamar que o Eterno é bom e Sua misericórdia perdura para sempre.

A visão de Rabi Akiva revelou-se verdadeira: assim como se cumpriu a profecia de Uriá acerca da destruição, também se concretiza a de Zacarias. Hoje, homens e mulheres judeus idosos sentam-se nas ruas de Jerusalém enquanto crianças que falam a mesma língua de Jeremias, Zacarias e dos demais profetas brincam nos parques. Como observou Elie Wiesel, o escriba do Holocausto, sua geração foi a de Jó e a de Jerusalém: a que suportou a maior das catástrofes e, ainda assim, testemunhou o cumprimento das profecias do retorno dos judeus à sua pátria ancestral e à sua Cidade Sagrada.

Apesar dos milagres da volta do nosso povo à sua terra, continuamos a observar Tishá b’Av, pois o Terceiro Templo ainda não foi reconstruído e a Era Messiânica ainda não se concretizou. A paz ainda não chegou nem a Jerusalém, nem ao mundo. Ainda assim, em nossa geração, a visão de Shabat Chazon torna-se mais tangível do que em qualquer época desde a destruição do Segundo Templo. Após o cumprimento de tantas profecias, não há espaço para dúvida de que as restantes também se cumprirão.

A principal lição de Shabat Chazon é que as maiores fontes de luz estão ocultas na escuridão e, no próprio seio da destruição, reside a semente do renascimento. Não deixa de impressionar a profunda justiça poética do ensinamento talmúdico de que, assim como o profeta Jeremias, o Mashiach nascerá em Tishá b’Av.

Segundo outra tradição, o dia que testemunhou a tragédia, o nono de Av, será, no futuro, o marco inaugural da Redenção Messiânica. O Midrash ensina ainda que o Terceiro Templo será erguido nesse mesmo mês, quando também ocorreram a destruição e a ruína dos dois Santuários anteriores (Pesikta d’Rav Kahana 13). Assim, a data que hoje simboliza a tragédia marcará o início da renovação. Em outras palavras, como escreve Maimônides, o dia mais triste do calendário judaico passará a ser, por fim, um momento de grande alegria.

Em Shabat Chazon, é-nos concedida uma visão desse acontecimento futuro, quando o Mashiach virá para estabelecer a paz para toda a humanidade. Depois de milhares de anos de espera, a redenção já se mostra iminente. Se abríssemos os olhos para aquilo que o nosso mazal percebe no Shabat da Visão, contemplaríamos o Terceiro Templo em toda a sua glória. Se abríssemos os ouvidos e escutássemos com atenção, ouviríamos os passos do Mashiach que se aproxima.

Que isso se cumpra em breve, muito em breve, em nossos dias.

Selah. Amén. Ken yehi ratson.

Bibliografia:

Shabbat of Vision. Baseado nos ensinamentos do Lubavitcher Rebbe. MeaningfulLife.com. Disponível em: https://www.chabad.org/library/article_cdo/aid/52985/jewish/Shabbat-of-Vision.htm

Rabbi Adin Steinsaltz. Koren Talmud Bavli: Noé Edition. Vol. 31. Koren Publishers