Rabi Chanina ben Dosa foi uma das figuras mais fascinantes e lendárias do Talmud. Tornou-se amplamente conhecido por sua santidade, pela força de suas orações e pelos inúmeros milagres a ele atribuídos. As histórias sobre sua vida, registradas no Talmud e no Midrash, revelam sua humildade, caráter extraordinário e fé inabalável – além da frequência com que realizava prodígios que transcendiam as leis da natureza.
Ele era um Tana – título concedido aos grandes Sábios rabínicos que viveram aproximadamente entre os anos 10 e 220 da Era Comum. Esses mestres se celebrizaram por compilar e transmitir a Torá Oral, posteriormente registrada na Mishná por Rabi Yehudá HaNassi.
Os Tanaim foram os grandes mestres cujos ensinamentos e debates legais constituíram a base da Mishná e de boa parte do Talmud, sendo considerados, até hoje, entre os maiores Sábios de toda a História Judaica.
Rabi Chanina ben Dosa viveu em Arraba, uma pequena cidade próxima a Tzipori, no norte da Terra de Israel (Talmud Yerushalmi, Berachot 4:1). Viveu antes da destruição do Segundo Templo Sagrado, em Jerusalém, e foi um discípulo dedicado de Rabban1 Yochanan ben Zakkai – o principal Sábio da época –, reconhecido por ter preservado e perpetuado o estudo da Torá em um dos períodos mais turbulentos da História Judaica.
Rabban Yochanan ben Zakkai foi mestre de muitos Tanaim da geração seguinte e serviu como Nassi (presidente do Sanhedrin, o Supremo Tribunal Judaico) em Yavne, onde restabeleceu o tribunal e fundou uma grande yeshivá – academia rabínica que se tornou o centro de estudos para os Sábios de Israel.
Apesar de sua grandeza espiritual, Rabi Chanina ben Dosa vivia em extrema pobreza e contentava-se com o mínimo necessário. Muitas vezes não tinha nem sequer pão para comer e sobrevivia comendo alfarrobas – fruta barata na antiga Terra de Israel semelhante ao cacau.
O Talmud relata: “Todos os dias, uma voz celestial ecoa do Monte Sinai e proclama: ‘O mundo inteiro é sustentado pelo mérito de Meu filho Chanina, enquanto Meu filho Chanina se satisfaz com apenas um kav2 de alfarrobas, de um Shabat ao outro. O mundo inteiro é sustentado por seu mérito, e ainda assim ele próprio não é sustentado nem mesmo pelo seu próprio mérito’”. (Berachot 17b).
O Midrash Rabbah narra uma história que revela tanto a dimensão sobrenatural da vida de Rabi Chanina ben Dosa quanto sua integridade absoluta e seu desprezo por qualquer ganho pessoal. Certa vez, os habitantes de sua cidade viajaram a Jerusalém para levar oferendas de animais ao Templo Sagrado. Rabi Chanina lamentou não ter recursos para fazer o mesmo. Então saiu pelos campos próximos em busca de algo que pudesse dedicar ao Templo – e ali encontrou uma grande pedra. Talhou-a, alisou-a e a poliu, adornando-a com delicadas gravuras, até transformá-la em uma peça de rara beleza, digna de ser oferecida como doação ao Templo.
A pedra, porém, era extremamente pesada e exigia cinco homens para carregá-la – algo que Rabi Chanina não tinha condições de pagar. Em resposta à sua sincera devoção, D’us enviou cinco anjos disfarçados de homens para ajudá-lo. “Carregaremos sua pedra”, disseram eles, “desde que nos pague cinco selaim, moedas, e que nos ajude colocando um dedo sob a pedra”. Rabi Chanina concordou e, assim que tocou a pedra, encontrou-se milagrosamente em Jerusalém. Mas, quando tentou pagar aos “trabalhadores”, eles haviam desaparecido. Então entrou na câmara do Sanhedrin – a mais alta autoridade judicial e legislativa em assuntos da Lei da Torá, responsável por emitir decisões sobre as questões legais e espirituais mais importantes do povo. Sua sede ficava dentro do próprio complexo do Templo.
Rabi Chanina perguntou aos Sábios o que deveria fazer com o dinheiro que havia separado para pagar aos carregadores: “Parece-nos, nosso Mestre, que foram anjos ministrantes que carregaram sua pedra até Jerusalém; portanto, não lhe cabe obrigação alguma de pagá-los”.
Rabi Chanina não ficou com o dinheiro para si. Entregou-o aos Sábios, pois não queria obter qualquer benefício pessoal de um milagre realizado em sua honra.
Um Fazedor de Milagres e Maravilhas
O conhecimento de Torá de Rabi Chanina ben Dosa era profundo. Infelizmente, seus ensinamentos não foram registrados e, por isso, não chegaram às gerações posteriores. Esse grande Mestre é mencionado na Mishná apenas três vezes e nenhuma dessas menções diz respeito a questões legais (da Halachá, a Lei Judaica).
Rabi Chanina ben Dosa é lembrado pelo poder de suas orações e pelos acontecimentos extraordinários e miraculosos que marcaram sua vida – muitos deles realizados por ele próprio. De fato, mais feitos maravilhosos são atribuídos a Rabi Chanina ben Dosa do que a qualquer outro Sábio do Talmud. Ele viveu de uma maneira em que o natural e o sobrenatural se entrelaçavam, e os milagres relatados sobre ele não são alegorias, mas manifestações literais de suas orações e de sua retidão.
O Talmud (Taanit 25a) narra uma série de episódios que demonstram a merecida reputação de Rabi Chanina ben Dosa como um homem por meio de quem os milagres aconteciam. Um dos mais conhecidos é o seguinte:
Certa sexta-feira à noite, logo após o pôr do sol, Rabi Chanina percebeu que sua filha estava aflita. Ela lhe explicou que, por engano, havia confundido um jarro de vinagre com um de azeite e já o havia colocado na lamparina, acendendo as velas de Shabat com ele. Como o vinagre não queima, desesperou-se, certa de que a luz se apagaria em pouco tempo – e, como o Shabat já havia começado, nada mais podia ser feito para corrigir o erro. Rabi Chanina ben Dosa a tranquilizou: “Minha filha, por que isso a preocupa? Aquele que ordenou que o azeite queimasse pode também ordenar que o vinagre queime”.
E, de fato, a lamparina permaneceu acesa, milagrosamente, durante todo o Shabat – a ponto de, ao seu término, utilizarem a mesma chama para acender a vela da Havdalá. O que torna esse milagre especialmente notável é que ele supera até mesmo o milagre do azeite celebrado em Chanucá. No episódio dessa festa, uma pequena quantidade de azeite durou milagrosamente muito além do esperado; já na história de Rabi Chanina ben Dosa, uma substância totalmente não inflamável – o vinagre – foi transformada em fonte de luz.
A maravilha aqui não está na duração, como no milagre de Chanucá, mas na natureza do acontecimento: aquilo que era, por essência, impossível tornou-se possível pelo poder das palavras de Rabi Chanina ben Dosa – D’us alterou as leis da natureza em resposta a elas.
Outro episódio notável envolve as cabras de Rabi Chanina. Certa vez, algumas pessoas se queixaram de que suas cabras estavam danificando os campos vizinhos. Na verdade, essas cabras nem sequer lhe pertenciam originalmente, pois Rabi Chanina vivia em extrema pobreza. Um dia, um homem passou em frente à sua casa carregando galinhas. Colocou-as no chão e, ao seguir seu caminho, esqueceu-se de levá-las consigo. De acordo com a Lei Judaica, quem encontra um objeto perdido tem a obrigação de guardá-lo e tentar devolvê-lo ao dono legítimo. Assim, Rabi Chanina recolheu as galinhas e passou a cuidar delas até conseguir localizar o proprietário. Com o passar do tempo, as galinhas puseram muitos ovos, que chocaram e deram origem a inúmeros pintinhos. Logo, o número de aves cresceu tanto que cuidar delas se tornou um fardo.
Seguindo o princípio estabelecido no Talmud que permite ao guardião de um bem perdido vendê-lo quando sua manutenção se torna inviável, devendo guardar o valor para devolvê-lo posteriormente ao proprietário –, Rabi Chanina vendeu as galinhas e usou o dinheiro para comprar bodes. Foram esses mesmos bodes que, mais tarde, os moradores acusaram de causar danos aos campos vizinhos.
Diante das acusações, Rabi Chanina ben Dosa declarou: “Se é verdade que eles estão destruindo os campos dos outros, que os lobos os devorem. Mas, se isso não for verdade, que cada bode volte esta noite com um lobo preso aos chifres!” Naquela noite, todos os bodes retornaram – cada um trazendo um lobo morto preso aos chifres.
Algum tempo depois, o homem que havia perdido as galinhas passou novamente diante da casa de Rabi Chanina e comentou com um companheiro que certa vez deixara ali algumas aves. Rabi Chanina ouviu a conversa, saiu e perguntou se ele poderia descrever as galinhas que perdera. O homem mencionou uma marca distintiva, deixando claro que, de fato, eram as suas. Então, Rabi Chanina devolveu-lhe todo o rebanho de bodes que delas se originara.
O Talmud ensina que a esposa do Rabi também era justa e piedosa, e relata diversos episódios que revelam sua fé e virtude. Como mencionado acima, ele vivia em extrema pobreza. Sua dedicada esposa aceitava com coragem aquela condição, mas, uma vez por semana, sentia-se envergonhada ao ver as vizinhas assando pão em honra ao Shabat, enquanto ela nada tinha para preparar.
Para poupar-se do constrangimento, ela acendia o forno toda sexta-feira e colocava dentro uma substância que soltava fumaça, de modo que as vizinhas vissem a fumaça saindo pela chaminé e pensassem que ela também estava assando pães para o Shabat. Uma de suas vizinhas, porém, era uma mulher maldosa. Pensou consigo mesma: “Sei que eles não têm nada em casa – de onde vem tanta fumaça?” E resolveu investigar.
Numa sexta-feira, foi até a casa de Rabi Chanina e bateu à porta. A esposa do Sábio correu para o cômodo interno, aparentemente envergonhada com a possibilidade de que a vizinha descobrisse a verdade. Mas, ao espiar dentro do forno, a mulher ficou pasma ao vê-lo cheio de pães – e, ao lado, uma tigela transbordando de massa fresca.
Assustada, gritou para que a esposa de Rabi Chanina viesse depressa buscar a pá de padeiro antes que o pão queimasse. E ela respondeu: “De fato, entrei no outro cômodo exatamente para pegá-la”. O Talmud explica que a esposa de Rabi Chanina ben Dosa não havia mentido: de fato, tinha ido buscar a pá de padeiro – pois “estava acostumada a que milagres acontecessem por seu intermédio”. Ela confiava que D’us não permitiria que passasse vergonha e que um milagre ocorreria em seu favor.
Em outra ocasião, relata o Talmud, a esposa de Rabi Chanina chegou ao limite e já não suportava a pobreza extrema em que viviam. “Até quando teremos de viver assim?”, clamou ao marido. Ele lhe perguntou: “O que devemos fazer?” E ela respondeu: “Reze por misericórdia, para que os Céus lhe concedam algo de valor”.
Rabi Chanina ben Dosa orou – e um milagre aconteceu: uma mão surgiu dos Céus segurando uma das pernas de uma mesa de ouro maciço e a entregou a ele.
Naquela noite, Rabi Chanina sonhou que, no Mundo Vindouro, todos os Tzadikim – os Justos – estavam sentados às mesas: todas elas de ouro com três pernas. Ele e sua esposa, porém, estavam diante de uma mesa com apenas duas, pois já haviam recebido uma das pernas como recompensa neste mundo.
Ao contar o sonho à esposa, ela insistiu para que ele orasse pedindo que a perna fosse devolvida. “Como poderíamos ficar tranquilos,” disse ela, “vendo todos os demais comerem em mesas completas, enquanto a nossa permanecerá incompleta?”. Rabi Chanina atendeu ao pedido da esposa e rezou para que a perna de ouro fosse retirada. Sua prece foi ouvida – e os Céus recolheram a perna da mesa de ouro. O Talmud conclui que esse segundo milagre – o fato de a perna ter sido tomada de volta – foi ainda maior que o primeiro, pois é tradição que aquilo que os Céus concedem raramente é retirado.
Essa história transmite lições profundas sobre prioridades espirituais, contentamento e a verdadeira natureza da riqueza. A esposa de Rabi Chanina ben Dosa, abatida pelas dificuldades, pediu alívio – e os Céus responderam com uma bênção tangível. Mas, ao perceber que esse presente diminuía sua recompensa eterna, ela escolheu abrir mão do conforto material em favor da integridade espiritual. Sua decisão revela uma fé e visão extraordinárias: a compreensão de que a abundância terrena pode, por vezes, diminuir a recompensa eterna.
A história também ressalta um ensinamento central do Judaísmo: a verdadeira felicidade não depende de bens materiais, mas da proximidade com D’us e da serenidade de consciência. Rabi Chanina e sua esposa demonstram que a autêntica retidão consiste em valorizar o Mundo Vindouro acima deste mundo, preferindo a plenitude do eterno ao conforto do efêmero.
O fato de os Céus terem atendido até mesmo ao segundo pedido – revertendo um presente Divino – revela a grandeza do mérito de ambos e como sua humildade e desapego aos bens materiais os elevaram acima das próprias leis da natureza.
A Oração de Rabi Chanina ben Dosa
Rabi Chanina ben Dosa era conhecido não apenas por seus milagres, mas também por suas orações – e, de fato, ambos estavam profundamente entrelaçados. Suas preces eram feitas com tamanha concentração, humildade e pureza que se tornaram lendárias ainda em sua própria época – a era dos grandes Sábios, os Tanaim.
O Talmud ensina que as orações de Rabi Chanina ben Dosa eram ainda mais eficazes que as do Cohen Gadol – o Sumo Sacerdote – em Yom Kipur, no Templo Sagrado de Jerusalém. Por isso, muitos de seus contemporâneos – inclusive os Sábios mais eminentes – buscavam sua intercessão junto aos Céus.
Tanto seu mestre, Rabban Yochanan ben Zakai, quanto seu colega, Rabban Gamliel II, pediram-lhe que rezasse por seus filhos quando adoeceram – e ambos atribuíram sua recuperação às fervorosas súplicas de Rabi Chanina.
O fato de alguém tão grandioso quanto Rabban Yochanan ben Zakai – líder de sua geração e um dos mestres de Torá mais influentes da História Judaica – ter recorrido às orações de Rabi Chanina revela o grau de proximidade desse Sábio com os Céus, bem como o extraordinário poder espiritual de suas preces e os milagres que delas resultavam.
Rabban Yochanan ben Zakai explicou à esposa por que razão as orações de Rabi Chanina eram mais eficazes que as suas: “Ele é como um servo diante do Rei – alguém que entra e sai livremente e mantém com Ele uma relação de intimidade”. Rabi Chanina também possuía uma habilidade singular: de saber se suas orações haviam sido aceitas. Como relatam a Mishná (Berachot 5:5) e o Talmud: “Diziam sobre Rabi Chanina ben Dosa que ele costumava orar pelos enfermos, dizendo em seguida: ‘Este viverá, e aquele morrerá’. Perguntaram-lhe: ‘Como sabes se o doente viverá ou morrerá?’. Ele respondeu: ‘Recebi uma tradição: se minha oração flui naturalmente da minha boca – se as palavras saem do coração sem esforço –, sei que ela foi aceita favoravelmente e que o enfermo se recuperará. Mas, se minha oração não flui – se tropeço nas palavras –, sei que minha prece foi rejeitada e que a pessoa morrerá’”.
É importante ressaltar que somente alguém da estatura espiritual de Rabi Chanina poderia ter tal discernimento com base apenas na fluidez de sua oração. Uma pessoa comum jamais deve supor que uma prece dita com facilidade será, por isso, aceita por D’us – nem que uma oração hesitante ou entrecortada será, por isso, rejeitada.
Rabi Chanina ben Dosa e o Arod
O Talmud relata que Rabi Chanina certa vez salvou os habitantes de uma cidade de uma criatura mortal. Naquela região havia um arod – um réptil venenoso cuja mordida era fatal – que aterrorizava os moradores.
Os habitantes, apavorados, procuraram Rabi Chanina em busca de ajuda. “Mostrem-me a toca dele”, disse o Sábio. Eles o levaram até o local, e Rabi Chanina colocou o calcanhar sobre a abertura do buraco. O arod saiu, mordeu-lhe o calcanhar – e morreu imediatamente. Rabi Chanina então ergueu o corpo do animal, colocou-o sobre os ombros e o levou até o Beit Midrash – a Casa de Estudos de Torá. “Vejam, meus filhos”, disse ele, “não é o arod que mata – é o pecado que mata”. Desde então, as pessoas costumavam dizer: “Ai daquele que encontra um arod, mas ai do arod que encontra Rabi Chanina ben Dosa”.
Essa história ilustra a fé destemida desse grande Rabi e sua profunda compreensão da justiça Divina. Ao enfrentar diretamente o letal arod, ele demonstrou sua convicção de que o perigo e a morte não possuem poder próprio, senão o poder concedido pela vontade de D’us.
Ao declarar: “Não é o arod que mata, mas é o pecado que mata”, revelou uma verdade espiritual essencial: o mal físico, em última instância, tem origem no desequilíbrio espiritual – é o erro moral, e não a natureza, o que afasta o ser humano da proteção Divina. A serenidade corajosa de Rabi Chanina expressava uma confiança absoluta nos Céus: ele não agia com imprudência, mas com a certeza de que a retidão é, por si só, um escudo protetor. Essa história vai muito além do perigo físico: ela transmite uma verdade espiritual profunda – a de que aquele que vive em harmonia com a vontade de D’us transcende as próprias limitações da natureza.
O “Sexto Sentido” de Rabi Chanina ben Dosa
Certa vez, Rabi Chanina ben Dosa foi procurado para orar pela filha de Nechunia, o “Cavador de Poços”. Nechunia era o responsável, no Templo Sagrado, pela manutenção do abastecimento público de água (Talmud Yerushalmi, Shekalim 5:1). Ele cavava cisternas ao longo das estradas para recolher a água da chuva, garantindo que os peregrinos que viajavam a Jerusalém durante as festividades tivessem água suficiente durante o percurso.
Um dia, a filha de Nechunia caiu em uma dessas cisternas e lá permaneceu por três horas antes de ser resgatada. Quando as pessoas foram até Rabi Chanina na primeira hora e pediram que orasse por ela, ele lhes disse: “Paz” – querendo dizer: “Ela ainda está viva”. Na segunda hora, voltaram, e ele repetiu: “Paz”. Quando retornaram na terceira hora, Rabi Chanina lhes disse: “Ela já saiu da água”. Quando os mensageiros retornaram e souberam que a jovem havia sido retirada da cisterna exatamente naquele momento, ficaram espantados.“És um profeta?”, perguntaram. “Como sabias que ela não morreria – e até previste a hora exata do resgate?”.
Rabi Chanina ben Dosa respondeu: “Não sou profeta, nem filho de profeta. Apenas raciocinei assim: seria possível que a filha do justo Nechunia perecesse justamente em uma das cisternas que o pai cavou para fornecer água aos outros – em benefício do público?”.
Essa bela história é registrada no Talmud Bavli (Yevamot 121b; Bava Kamma 50a). Segundo uma versão citada pelos Tosafot em Bava Kamma, baseada no Talmud Yerushalmi, foi um anjo – com a aparência do próprio Rabi Chanina ben Dosa – quem salvou a jovem.
Ensinamentos de Rabi Chanina ben Dosa na Mishná
No Pirkei Avot – tratado da Mishná também conhecido como Ética dos Pais, que reúne os ensinamentos morais e éticos de nossos Sábios – estão preservados três ditos de Rabi Chanina ben Dosa.
Seu primeiro ensinamento diz: “Todo aquele cujo temor ao pecado precede a sabedoria” – isto é, aquele que estuda a Torá com o propósito de se tornar mais temente a D’us e se afastar do erro –, sua sabedoria perdurará. “Mas todo aquele cuja sabedoria precede o temor ao pecado” – aquele que busca apenas o conhecimento intelectual, sem a intenção de viver de acordo com o que aprende –, “sua sabedoria não perdurará”.
Seu segundo ensinamento diz: “Todo aquele cujas boas ações são maiores do que sua sabedoria, sua sabedoria perdurará. Mas aquele cuja sabedoria é maior do que suas ações, sua sabedoria não perdurará”. Seu terceiro ensinamento diz: “Todo aquele de quem as pessoas gostam” – cujos modos são gentis e agradáveis, e que é estimado pelos outros – “é também alguém de quem D’us Se agrada”. “Mas todo aquele de quem as pessoas não gostam, D’us também não Se agrada”.
Esses três ensinamentos sintetizam a visão de mundo de Rabi Chanina ben Dosa: a verdadeira sabedoria deve estar alicerçada no caráter moral, na reverência aos Céus e em boas ações que expressem o aprendizado da Torá. Para ele, o conhecimento da Torá desvinculado da humildade, da bondade e do temor a D’us era um conhecimento incompleto – e, por isso, não poderia perdurar.
Fazedores de Milagres na Tradição Judaica
O Talmud e o Midrash relatam outras histórias sobre os milagres de Rabi Chanina ben Dosa e o poder de suas orações. Contam que ele podia rezar para que a chuva caísse – ou cessasse – imediatamente, e os Céus prontamente o atendiam. Entre todos os Sábios do Talmud, ele se destaca como o maior realizador de milagres e maravilhas.
Embora, como mencionado anteriormente, fosse um grande erudito em Torá, foram suas histórias de fé, oração e milagres que se tornaram imortais e amplamente celebradas. Diferentemente de outros grandes Tanaim, lembrados sobretudo por seus ensinamentos, sabedoria e debates sobre as leis da Torá, Rabi Chanina ben Dosa foi eternizado pelos relatos extraordinários de sua fé, humildade e feitos prodigiosos.
Ele personificava o conceito ideal de Tzadik – o Justo –, que, muitos séculos mais tarde, se tornaria central no Movimento Chassídico. Encarnava o protótipo do Rebe: um mestre espiritual cujas orações não podiam ser ignoradas nos Céus e a quem as pessoas – inclusive outros grandes Sábios – recorriam em busca de intercessão.
O Talmud ensina que os Tzadikim possuem o poder de transformar a justiça Divina em misericórdia Divina, conforme a célebre máxima:“Tzadik gozer, veHaKadosh Baruch Hu mekayem” – “O justo decreta, e o Santo, bendito seja Ele, cumpre”. (Talmud Bavli, Moed Katan 16b) Da mesma forma, o Talmud ensina que, se alguém tiver um enfermo em casa, deve procurar um Tzadik e pedir que ele reze em seu favor.
O Talmud afirma que, após o falecimento de Rabi Chanina ben Dosa, “cessaram os homens de feitos miraculosos” (Talmud Bavli, Sotá 49a). Embora muitos grandes Sábios tenham surgido depois dele, nenhum foi conhecido por milagres do mesmo grau. Assim, Rabi Chanina permanece incomparável como o Tzadik por excelência – o justo por meio de quem as maravilhas se manifestavam.
Mesmo após dois milênios, seu legado permanece vivo. Ao longo de toda a História Judaica – e até em nossa própria geração – sempre houve Tzadikim cujas orações, bênçãos, milagres e dons sobrenaturais despertam admiração e reverência.
Tanto nas comunidades sefaraditas quanto nas asquenazitas, entre os círculos lituanos e chassídicos, multiplicam-se os relatos sobre rabinos cuja fé e santidade trouxeram cura, salvação e milagres àqueles que buscaram suas orações e bênçãos – perpetuando a sagrada tradição de Rabi Chanina ben Dosa.
Esse grande Sábio e sua esposa estão sepultados na vila de Arraba, no norte de Israel. Tiveram o grande privilégio de viver – e falecer – na Terra Santa. No entanto, sua verdadeira imortalidade não se encontra em seu local de descanso, mas nas páginas das obras sagradas judaicas.
Há quase dois milênios, judeus de todo o mundo estudam, nas páginas do Talmud e do Midrash, os extraordinários milagres atribuídos a Rabi Chanina ben Dosa.Seus ensinamentos no Pirkei Avot e as histórias narradas sobre ele continuam a inspirar e encantar todos os que buscam o espiritual e o miraculoso – e também aqueles que, por meio da oração e da fé, se esforçam em se aproximar, cada vez mais, de D’us.
Ao recordarmos os milagres de Rabi Chanina ben Dosa, fazemos mais do que preservar histórias do passado – evocamos seus méritos sobre nós, sobre todo o Povo Judeu e sobre o mundo inteiro.
– Zécher Tzadik Livrachá – “A lembrança do justo é uma bênção”. (Provérbios 10:7)
1 Rabban: “Nosso mestre”: esse título era superior a “Rabi” e indicava liderança sobre todo o povo, não apenas erudição.
2 Um kav era uma antiga unidade de medida para produtos secos, usada nos tempos talmúdicos.
Bibliografia
Introduction to the Talmud: History, Personalities, and Background. By a team of Torah Scholars under the general editorship of Rabbi Yehezkel Danziger and Rabbi Avrohom Biderman. Published by Mesorah Publications – ArtScroll.
Pirkei Avot – With Commentary by Rabbi Adin Even-Israel Steinsaltz. The Steinsaltz Center – Koren Jerusalem.
The Encyclopedia of Talmudic Sages.By Gershom Bader. Translated by Solomon Katz. Jason Aronson Inc.