“O maior entertainer do mundo!” Era assim que o ator e cantor Al Jolson se autodefinia, sob estrondosos aplausos, para as plateias de costa a costa dos Estados Unidos, na primeira metade do século passado. Talvez ele não tenha sido o maior do mundo, mas com certeza foi um dos maiores astros da América, em todos os tempos. Entrou para a história do cinema ao protagonizar, em 1927, o primeiro filme sonoro, “O Cantor de Jazz”, e continua sendo reverenciado até hoje, há exatos 75 anos após sua morte.

Por Zevi Ghivelder

Jolson foi o primeiro grande artista popular americano a se assumir publicamente como judeu e sionista. Em 1937, disse para um público da Broadway: “Na próxima semana, vou mandar meus pais para uma viagem rumo à Palestina. Quero que eles vejam as coisas maravilhosas que os pioneiros judeus estão fazendo por lá”.

Em 1948, após a independência de Israel, redescobriu uma banal canção iídiche, intitulada Mamãe, Eu Quero Casar, e lhe deu uma letra em inglês revestida de exaltação patriótica: “Vamos reconstruir nosso templo / Vejo a Estrela de David no céu”.No ano anterior, já tinha gravado o hino nacional Hatikvah e a oração de Kol Nidrei. Doou os direitos autorais decorrentes das vendas dos discos para o United Jewish Appeal (Fundo Unificado Judaico) e mandou exemplares das gravações para Chaim Weizmann, que, então, se encontrava nos Estados Unidos. Acrescentou àquelas gravações uma canção toda interpretada em iídiche, Um Cantor Para o Shabat, que de forma surreal teve enorme aceitação junto ao público não-judeu.

Desde o início de sua carreira, conquistou o público ao se apresentar com um estilo único e original, tendo o mágico dom de adivinhar as canções que as plateias gostavam de ouvir.

A exemplo de outros artistas de sua época, Jolson se apresentava em blackface, o rosto pintado de preto. Era uma tradição musical que teve início em meados do século 19, muito apreciada nos chamados shows de menestréis, formados por pequenos ou grandes conjuntos de cantores.

Com a voz anasalada, Jolson ia com facilidade dos agudos aos graves, acrescentando às interpretações recitativos, com feição melodramática, muitas vezes de gosto duvidoso. Inovava em suas apresentações com expressões corporais inusitadas e costumava se ajoelhar sobre uma perna ao término de uma canção. Então, abria os braços como se sublinhasse os acordes finais da melodia e repetia um celebrizado bordão: “Vocês ainda não ouviram nada”.

Asa Yoelson nasceu em Srednik, uma shtetl (cidadezinha) judaica na região lituana da Rússia Imperial. Embora afirmasse ter nascido no dia 26 de março de 1886, nunca teve algum documento que comprovasse a data. Foi o quarto filho do cantor de sinagoga Moshe Yoelson e sua mulher, Naomi. A família constituída por duas meninas e dois meninos vivia de acordo com a estrita tradição ortodoxa. Em 1890, Moshe viajou para a América, prometendo trazer a esposa e os filhos o mais rapidamente possível. Em Washington, se tornou o rabino-chefe de uma congregação e reunificou a família quatro anos depois.  Mas, o que seria uma vida familiar normal foi brutalmente abalada com a morte de Naomi no ano seguinte.

Asa e seu irmão, Hirsh, logo absorveram a cultura americana, aprendendo as canções do ragtime, tocadas nas ruas e salões de Washington. Moshe se casou com Hessi, uma antiga vizinha da Lituânia que, por isso mesmo, já tinha afeto pelas crianças. Hirsh mudou o nome para Harry.  Asa se tornou  Al e Yoelson resultou em Jolson. Os dois irmãos ficaram fascinados pelo mundo dos espetáculos. Em 1901, Al começou a cantar num circo itinerante e, em seguida, ele e Harry atuaram em companhias de burlesque, uma atração que alternava quadros cômicos com números musicais, um gênero que também teve enorme popularidade no Brasil, conhecido como Teatro de Revista.

Em 1904, durante uma apresentação no Keeney’s Theatre, no Brooklyn, Al começou a se apresentar em blackface. Fez sucesso junto com Harry e os dois foram incluídos no elenco de vaudeville do concorrido Teatro Orpheum. Naquela época, outros artistas judeus também usavam a blackface, misturando a melancolia judaica com a dos negros americanos, ambas calcadas em opressões sofridas ao longo de décadas.

Harry e Al acabaram se separando, ao optarem por carreiras isoladas. A partir de 1906, Al foi cultivando e aprimorando seu estilo. Além de cantar, dançava e sapateava, a par de contar piadas, algumas picantes e outras tendo judeus como personagens. Sua favorita: “Yankl e Chaim abriram um negócio e para fugir das características judaicas deram a seu comércio o nome de O’Hara & O’Hara. Quando o telefone tocava, a secretária perguntava: ‘Com qual O’Hara o senhor quer falar, Yankl ou Chaim?’ ”.

Com apenas 20 anos, Jolson continuava a acumular elogios no vaudeville e aceitou um convite para entrar em um consagrado conjunto de menestréis, podendo também se apresentar em números solos. Estava convicto de que aquela famosa companhia lhe abriria caminho para maiores oportunidades, o que de fato aconteceu. Quando a trupe se apresentou em Nova York, após um número solo, recebeu uma aclamação com a qual jamais tinha sequer sonhado. Foi então que começou a assoviar no palco, usando assovios como trinados melódicos, pontuando canções. O assovio permaneceria como uma marca inimitável no decorrer de sua longa carreira.

Já naquela época, Jolson demonstrava sinais de extremo ego e de colossal vaidade, características que o acompanharam por toda a vida, mas que, nem por isso, afetaram sua popularidade. Quando o empresário Florenz Ziegfeld o convidou para um teste para participar do elenco do famoso espetáculo Ziegfeld Follies, ele recusou. Julgou que poderia ir mais longe por conta própria.

Em fevereiro de 1911, foi chamado para se apresentar em seu primeiro musical na Broadway. Os produtores o incentivaram a deixar o roteiro de lado e fazer solos. O êxito foi tão torrencial que o público começou a voltar a assistir ao espetáculo mais de uma vez, somente por sua causa. Ao fim de uma temporada de oito meses, Al Jolson era o mais novo e o mais aclamado astro do teatro musical americano.

Depois da estreia na Broadway, fez uma turnê triunfante por diversas cidades e retornou ao palco do Teatro Winter Garden, em Nova York, para um novo e suntuoso musical.  O espetáculo resultou irregular e demasiadamente longo, mas os solos de Jolson confirmaram sua condição de grande estrela da Broadway. Em seguida, protagonizou novo musical no qual, pela primeira vez, interpretou um divertido personagem chamado Gus, como o rosto pintado de preto. O ardiloso Gus enfrentava situações improváveis nas quais sempre se dava bem e se tornou uma espécie de alter ego de Jolson, sendo inserido em musical após musical.

Depois de uma aplaudida nova estreia, convocou a imprensa para uma entrevista coletiva e declarou: “Todas as noites, há mais de cem artistas se apresentando nos teatros da Broadway. Como eu estou no palco nos mesmos dias e nas mesmas horas, os colegas nunca podem me assistir. Portanto, tanto eles como o público estão convidados para os recitais que passarei a dar nas noites de domingo, no Winter Garden”. Em seguida, pediu aos proprietários do teatro que construíssem uma passarela que ia desde o proscênio até a última fila da plateia, para que pudesse se apresentar bem próximo dos espectadores. Dizia: “Quando canto, gosto de ver as reações de cada pessoa”.

Após um recesso de verão e uma turnê no outono, estrelou novo espetáculo, no qual o engenhoso Gus era um mordomo que tecia uma trama amorosa. Na noite da estreia, a representação se estendia por tempo muito longo. Interrompeu a ação dramática e se dirigiu para a plateia: “Vocês já sabem que vai haver um final feliz. Querem ouvir o resto da história ou preferem me ouvir?”  Por conta da ruidosa aprovação recebida, transformou o musical num recital.

Assim, devido ao sucesso obtido e posterior repercussão, passou a repetir aquele recurso de dispensar o elenco em futuras apresentações. Foi quando alcançou algo jamais visto na Broadway: seu nome passou a vir acima e em caracteres maiores do que o do próprio espetáculo em cartaz.

Seu novo musical ficou em turnê por mais de um ano. Quando a turnê chegou a Washington, Jolson convidou a família para vê-lo cantar para o presidente Woodrow Wilson. Mas, era a noite do Shabat, e o rabino Moshe Yoelson manteve a obrigação de conduzir o serviço na sinagoga e nem ele, nem a mulher e as filhas, foram ao teatro. Segundo um dos biógrafos de Jolson, o pai tinha orgulho do filho, mas julgava que acima de sua fama, era mais importante a fidelidade às leis judaicas. Na mesma ocasião, Jolson comprou uma bela casa para Moshe e Hessi.

Em seu próximo musical, Sinbad, começou a escrever letras para algumas das canções que interpretava e estimulou os compositores a lhe trazerem novas criações. Foi assim que obteve a canção Swanee, um dos maiores sucessos de sua trajetória, da autoria de um jovem compositor judeu, em começo de carreira, chamado George Gershwin. 

O show excursionou durante dois anos pelo país e ele continuou adicionando músicas inéditas ao longo do percurso. A mais emblemática de todas e que seria a mais marcante de sua carreira foi My Mammy, uma canção na mesma linha emocional e lacrimosa da judaica Main Yiddishe Mame (Minha Mãe Judia), cantada em iídiche.

Durante a participação dos Estados Unidos na 1a Guerra Mundial, Jolson cantou em comícios destinados à venda de bônus de guerra e em eventos beneficentes, arrecadando milhões de dólares. Também se apresentou em acampamentos militares, um hábito que manteve pelo resto da vida. Perto do fim do conflito, estreou em um novo e elegante teatro com 1.600 lugares que recebeu o nome de Jolson’s 59th Street Theater.

Jolson era um feixe de contradições. Apesar de sua imponente segurança no palco, sofria de incontrolável nervosismo antes de a cortina ser aberta, em uma estreia, e até mesmo nos dias posteriores. Dizia que sentia borboletas voando dentro do estômago, as famosas butterflies, uma expressão que até hoje é repetida por muitos artistas. Apesar de seu egocentrismo, era generoso e ajudava colegas que enfrentavam necessidades, além de se apresentar em eventos beneficentes. Ao mesmo tempo, torrava dinheiro apostando em pugilistas e corridas de cavalos. À medida que sua carreira progredia, foi se tornando imensamente rico e fez substanciosas contribuições para comunidades judaicas de diversas cidades americanas, depois contempladas em seu testamento.

Jolson atravessou três casamentos fracassados. Só foi feliz com a quarta mulher, Erle Galbraith, uma técnica em radiologia que conheceu durante uma apresentação em um hospital militar. Tinha um relacionamento instável com o irmão Harry, que havia sido malsucedido em sua carreira solo. Harry achava cada vez mais difícil se livrar da sombra do festejado irmão. À medida que a fama de Al subia, a de Harry descia, sendo apresentado, para sua amargura, como “o irmão de Al Jolson”. Na verdade, embora não admitisse, ele não chegava perto do talento de Al. Os períodos de animosidade entre os dois foram seguidos por tentativas inúteis de reconciliação. Quando a carreira de Harry no vaudeville chegou ao fim, Al o convenceu a ser seu empresário. Ele recebia salários, mas nunca chegou a exercer essa função. Harry sobreviveu a Al por três anos.

Durante as férias de verão da turnê do aplaudido espetáculo Bombom,emjulho de 1922, Jolson sofreu severa bronquite e se recuperou em um cruzeiro marítimo. Ao retornar a Nova York, reencenou Big Boy, um sucesso anterior. Durante a turnê, achou que o público não tinha aceitado, conforme esperava, a canção If You Knew Susie. Ele a ofereceu a um amigo e concorrente, o artista também judeu Eddie Cantor, que transformou Susie no maior sucesso de sua carreira. Anos depois, Jolson lhe disse: “Se eu tivesse percebido que a canção era tão boa, nunca a teria dado a você!”

No verão de 1926, viajou para a Europa e no regresso fez algumas aparições em filmes mudos, sem obter uma repercussão à altura de sua fama. No ano seguinte, o estúdio Warner Brothers adquiriu os direitos de um conto literário, O Cantor de Jazz, que havia sido adaptado para a Broadway. Era a história de um cantor popular em busca da fama, apesar da desaprovação de seu pai, cantor de uma sinagoga. Tratava-se da trajetória verdadeira de Jolson contada, por coincidência, em forma de ficção.  Sua escolha foi óbvia para protagonizar o filme que seria o primeiro longa-metragem sonoro. Filmado em Los Angeles no final do verão de 1927, o roteiro foi adaptado para se adequar a algumas das conhecidas atuações de Jolson.

A intenção original da Warner era usar o som apenas em algumas sequências musicais, mas Jolson alterou a proposta e improvisou diálogos. Suas falas foram tão espontâneas e divertidas que o estúdio decidiu adicionar diálogo a uma cena na qual o rapaz contracena com a mãe e, em  seguida, canta Blue Skies, do compositor Irving Berlin. O final do filme mostra o jovem cantor deixando de fazer sua estreia num grandioso musical, partindo para a sinagoga onde canta Kol Nidrei, a oração inicial do Yom Kipur. Sua voz ecoa no templo enquanto o pai vive num leito seus últimos instantes.

Os mais conceituados críticos e historiadores de Hollywood até hoje não conseguem explicar a razão pela qual uma temática tão intensamente judaica pudesse alcançar tamanho sucesso junto ao público americano. É certo que um atrito entre pai e filho corresponde a um tema universal, mas o êxito do filme supera essa moldura. Seu grande sucesso talvez possa ser creditado ao seu forte componente religioso, independentemente de ser judaico, acrescido pelo carisma de Al Jolson.O filme estreou em outubro de 1927, abarrotou o cofre da Warner e marcou o fim da era do cinema mudo.

Como o cinema pagava muito mais do que o teatro e requeria menos esforço, Jolson não hesitou em se mudar para a Califórnia e se dedicar em tempo integral ao cinema. Em The Singing Fool, obteve sucesso ao interpretar a canção Sonny Boy, que a crítica abominou por seu excesso de pieguice, mas que caiu no gosto do público de forma avassaladora, levando o filme a bater recordes de bilheteria. 

Em seguida, estrelou dois filmescom Ruby Keeler, então sua mulher e já famosa no cinema.O gosto do público estava mudando, mas a Warner o manteve na tela, fazendo praticamente o mesmo papel em todos os filmes que produziu. Quando estrelou o melodramático Mammy e, depois, uma desajeitada versão cinematográfica da peça teatral Big Boy, em 1930, seu reinado como astro de Hollywood chegou ao fim.

Jolson voltou para a Broadway em The Wonder Bar. O musical ficou apenas dez semanas em cartaz. Foi seu primeiro e único fracasso no teatro. Ele decidiu apostar no rádio e apresentou programas de variedades nos quais cantava e monologava.

A Warner Brothers lhe deu nova oportunidade no cinema em maisum filme com Ruby Keeler, mas, apesar de algumas belas canções, a história era frágil e o filme não vingou. Ele então tornou a se concentrar em programas de rádio transmitidos em rede para todo o país. Em meio a um divórcio tempestuoso, aceitou papéis secundários em mais dois filmes.

Durante a 2ª Guerra Mundial, Al Jolson se dedicou de forma incessante ao entretenimento das tropas. No início de 1942, voou para o Caribe e, vestindo um uniforme de soldado raso, se apresentou em Trinidad e Curaçao. Dos trópicos, foi para o Alasca e se apresentou nas Ilhas Aleutas. Depois, rumou para a Irlanda e a Inglaterra, onde ficou sessenta dias entretendo britânicos e os contingentes americanos que ali chegavam.

Em 1943, partiu para bases no Pacífico e na Índia. Logo após a invasão Aliada no Norte da África, fez uma longa turnê na Argélia e no Marrocos. O jornal Variety, especializado em entretenimento, lhe pediu uma narrativa de suas viagens. Jolson escreveu um longo relato, no qual há uma passagem significativa sobre o Brasil: “Depois de uma escala em Dacar, eu e meu pianista, Harry Akst, partimos de avião para Belém. Comemos omeletes no café da manhã. Depois, fiz palhaçadas e cantei para alguns meninos. De lá, fomos a uma base aérea em Natal1, onde nos apresentamos para três mil soldados. Logo depois, fizemos outro show para a Marinha e, um terceiro, para a população local. Às cinco horas da manhã pegamos o avião para a cidade do Recife, onde nos apresentamos em um espetáculo ao ar livre”. Após a passagem pelo Brasil, Jolson percorreu as frentes de batalha da Sicília.

Na volta a Nova York, reuniu amigos para um jantar no hotel Sherry Netherland, quando, de repente, sentiu tontura e começou a transpirar. Sua temperatura subiu e ele foi levado para um hospital onde foi diagnosticado com severa pneumonia. Seu estado de saúde se complicou por conta de uma infecção contraída no exterior. Ficou sob tratamento intensivo por mais de um mês, mas quando se recuperou, ainda tinha uma reserva de energia que o deixou pronto para novos shows. Ele e Akst viajaram de avião, ônibus e trem para quase todos os estados americanos.

Em seguida, aproveitou todas as oportunidades que eventualmente surgissem para retomar suas atividades. Apareceu cantando, como ele mesmo, em uma boa cinebiografia de George Gershwin. Foi convidado para participar de um concerto beneficente, mas no respectivo anúncio na imprensa, seu nome não constava. Mesmo assim, decidiu comparecer. O produtor musical brasileiro Aloysio de Oliveira, que viveu 40 anos em Hollywood, contou numa entrevista: “O evento já durava mais de uma hora e meia quando Al Jolson apareceu no palco. Cantou duas canções, foi muito aplaudido e soltou seu bordão: ‘Vocês ainda não ouviram nada’. Foi eletrizante como cantou e dominou a plateia por mais quarenta minutos”.

Naquele tempo, a Drogaria Schwab, em Beverly Hills, que ficava aberta a noite inteira, era um ponto de reunião do pessoal dos estúdios. Certa madrugada, Jolson ali se encontrou com o jornalista Sidney Skolsky, especializado na cobertura de Hollywood. No meio de uma conversa despretensiosa, o jornalista disse ser seu admirador e sugeriu que ele elaborasse um roteiro para um filme sobre sua vida. Jolson, que vivia um momento de acentuado pessimismo, desconversou. Respondeu que ninguém mais se lembrava dele. Skolsky, porém, não desistiu e levou a ideia para Harry Cohn, dono do estúdio Columbia. Ele também era fã de Jolson e, em princípio, aceitou desenvolver o projeto.

Logo no início da produção, ocorreu a primeira desavença: Jolson insistia em aparecer interpretando as canções do filme, “porque ninguém é capaz de cantar melhor do que eu”. Segundo desencontro: do alto de sua vaidade, queria fazer seu próprio papel, o filme inteiro. Cohn argumentou que não tinha o menor cabimento porque ele já estava com quase 60 anos de idade e sua história seria contada desde os 20.

Finalmente, Jolson concordou em gravar as canções do filme e sua voz seria dublada por um ator indicado pelo estúdio. Cohn não queria um rosto conhecido, mas precisava de um ator com alguma experiência em face dos aspectos particulares do personagem central. O escolhido foi Larry Parks, de 32 anos, cujo desempenho se revelou assombroso, tanto no gestual como na milimétrica dublagem. Foi o resultado de incontáveis ensaios, nos quais Jolson incutiu em Parks todos seus maneirismos e o jovem ator teve a virtude de ir além de imitar Jolson. Em sua notável atuação, adicionou ao biografado um brilho ainda mais especial.

O filme The Jolson Story (Sonhos Dourados, no Brasil) alcançou um sucesso extraordinário, dando à Columbia uma receita que o estúdio nunca tinha apurado, em 22 anos de existência. As adolescentes que suspiravam por um cantor iniciante chamado Frank Sinatra, também passaram a suspirar pelo veterano cantor Al Jolson. Ele aparece no filme em uma tomada distante, dançando e cantando Swanee. Não dava para o público reconhecê-lo, mas foi o bastante para satisfazer seu ego.

Aos 61 anos, estava de volta ao show business e no auge da fama. Cativou uma nova geração de fãs e seus discos acumulavam centenas de milhares de cópias vendidas. Como tinha direito a uma porcentagem dos lucros do filme e das gravações, arrecadou uma verdadeira fortuna e fez uma doação de US$ 1 milhão e 300 mil (em moeda corrigida) para o United Jewish Appeal.

Em 1947, voltou aos programas de rádio, com altos índices de audiência. Asa Yoelson tinha recuperado sua alegria de viver, a ponto de ele e a mulher, Erle, adotarem um casal de bebês. Gravou novas canções, ganhou muito mais dinheiro. A Columbia produziu, em 1949, uma sequência de sua cinebiografia, Jolson Sings Again (O Trovador Inolvidável, no Brasil) que não alcançou o mesmo êxito do primeiro filme, mas contribuiu para alavancar a aceitação de suas gravações e multiplicar os convites para shows.

Jolson assinou contrato para um novo filme e uma série de especiais de televisão, mas adiou tudo para entreter soldados que lutavam na guerra da Coreia. Quando o Departamento de Defesa disse que não tinha orçamento para artistas, pagou todas as despesas do próprio bolso. Durante sete dias, em setembro de 1950, fez 42 recitais. Ao retornar à Califórnia, evidenciava debilidade e extremo cansaço. No dia 23 de outubro de 1950, estava em São Francisco se preparando para mais um programa de rádio. Enquanto jogava cartas com amigos em seu quarto de hotel, disse não se sentir bem. Quando os médicos chegaram, estava na cama. Sentiu o próprio pulso e murmurou: “Ah, estou indo embora”. Assim morria o maior entertainer do mundo.

No funeral de Jolson, o elogio fúnebre coube ao comediante George Jessel: “O rei está morto, mas não posso dizer viva o rei, porque não há ninguém capaz de segurar o seu cetro”.

No alto de uma colina no cemitério Hillside Memorial Park, em Los Angeles, sua viúva mandou erguer um imponente mausoléu. São quatro extensas colunas que sustentam uma grande cúpula. Sobre um piso de mármore estão uma lápide tumular em granito, e, ao lado, uma escultura em bronze de Jolson ajoelhado, com os braços abertos. A partir de uma fonte, dali escorre colina abaixo, de forma permanente, uma estreita cachoeira cuja água simboliza a vida e a eternidade. No teto da cúpula, há um afresco com imagens bíblicas e uma inscrição: “Al Jolson, doce cantor do Povo de Israel”.

1  A Base Aérea de Natal, em Parnamirim, no Rio Grande do Norte, foi criada como uma instalação aérea estratégica dos Estados Unidos por ser o ponto do hemisfério mais próximo da África. A base se tornou conhecida como o Trampolim da Vitória.

Zevi Ghivelder é escritor e jornalista.

Bibliografia

Goldman, Herbert. Jolson: The Legend Comes to Life. Oxford University Press, 1990, EUA.

Freedland, Michael. Jolson: The Story of Al Jolson. Pub Overstock Unlimited, 1995, Reino Unido.