Inspirado em uma instituição com o mesmo nome localizada em Los Angeles, o Museu da Tolerância é mais que um novo edifício na paisagem de Jerusalém. Iniciativa do Centro Simon Wiesenthal, nasceu com a ambição de ser um espaço de diálogo, respeito e dignidade entre povos e religiões.

O projeto final é dos israelenses Bracha e Michael Chyutin, uma vez que o autor do original, o renomado arquiteto Frank Gehry, acabou por se desligar da empreitada. Inaugurado em maio de 2023, o edifício de vidro e pedra, com quase 14 mil m2, ergue-se como uma pomba de asas abertas. No interior, quatro paredes vazadas deixam entrar a luz dourada de Jerusalém. À noite, feixes coloridos projetam-se para o céu. No centro, uma escadaria entrecruzada liga quatro andares. É, pode-se dizer,  uma “escada para a tolerância”, símbolo do esforço em ouvir e compreender o outro.

Abaixo do anfiteatro, abre-se uma janela para o passado: um aqueduto romano da época do Segundo Templo. Descoberta durante as obras do Museu, que sofreram um atraso de sete anos por causa desse achado arqueológico, a estrutura acabou incorporada à narrativa do espaço cultural: o diálogo entre o antigo e o novo, o visível e o subterrâneo.

A ala principal abriga um cinema e um anfiteatro com, respectivamente, 400 e 1.000 assentos. Este último, localizado ao ar livre, oferece vista para o aqueduto.Há ainda um museu infantil com um teatro de 150 lugares, salas de aula, camarins;  um Laboratório Social para exposições sobre tolerância; um espaço para culto; uma biblioteca de dois andares; café, loja de presentes e estacionamento subterrâneo.

O novo Museu está localizado no coração da Jerusalém moderna, em seu centro revitalizado, na divisa entre o espaçoso Parque da Independência e o ambiente urbano construído. O local é um ponto de encontro de três ruas principais, cada uma com características e funções distintas. Rua Hillel: uma movimentada zona comercial; Rua Moshe Ben Israel: uma rua que atravessa o parque; e Rua Moshe Salomon, o calçadão de pedestres de Nachalat Shiva, um polo turístico repleto de restaurantes e lojas. Os edifícios ao redor do museu têm características arquitetônicas diversas, representando a história da arquitetura de Jerusalém do século 19 até hoje.

A importância do novo museu de Jerusalém é mais fácil de ser avaliada quando se considera a história das instituições culturais desse tipo em Israel, que hoje totalizam cerca de 230 em todo o país. A primeira foi o Bezalel Museum, fundado por Boris Schatz em 1906, a partir da Escola Bezalel de Arte e Design. Criado em 1937 em um kibutz, o Mishkan LeOmanut foi o primeiro a descentralizar a arte ao levá-la ao interior. Mais de um século após o surgimento do pioneiro, o Museu da Tolerância une cultura, tecnologia e empatia em um só espaço com uma proposta ousada: transformar dor em diálogo. É, portanto, um experimento de convivência. Seu valor está não só nas exposições, mas também no convite ao diálogo.

“Das trevas à luz”

Logo em sua abertura, o museu recebeu a primeira grande exposição dedicada aos ataques de 7 de outubro de 2023. 06:29 – Da Escuridão à Luz oferece um vislumbre em primeira pessoa e sem filtros dos horrores sofridos pelas vítimas do terror que atingiu o sul de Israel naquele dia. O presidente israelense Isaac Herzog compareceu à abertura, juntamente com sobreviventes, socorristas, familiares de reféns e vítimas e dignitários internacionais.

À medida que os visitantes entram na experiência imersiva, são transportados de volta àquele dia fatídico. Abrigos móveis, semelhantes àqueles onde muitas vítimas tentaram se esconder, ecoam sirenes e dispositivos de comunicação, reproduzindo a sensação de se estar preso na mira do Hamas.

No centro da exposição estão os depoimentos de 35 mulheres, cada uma testemunhando suas experiências em 7 de outubro. De Shelly Shem Tov, que testemunhou seu filho sendo sequestrado em Gaza por telefone, a Linor Attias, uma paramédica voluntária da United Hatzalah que foi uma das primeiras socorristas no sul de Israel, a exposição oferece uma compreensão visceral do que aconteceu naquele dia trágico. Entre as sobreviventes do massacre no Festival Nova, está Noam Ben-David, que perdeu o namorado. E as demais aparecem como hologramas em tamanho real, narrando suas experiências no horário exato em que as sirenes começaram a soar: 6:29.

Os visitantes usam fones de ouvido e escolhem as histórias que desejam ouvir. Há ainda reproduções de abrigos antiaéreos, vídeos e fotos documentais de Ziv Koren, além de objetos recolhidos após o ataque, como um bilhete encontrado no bolso de um terrorista com instruções em árabe: “Vocês devem afiar as lâminas de suas espadas e serem puros em suas intenções diante de Alá. Saibam que o inimigo é uma doença sem cura, exceto decapitar e arrancar seus corações e fígados. Ataquem todos!”.

Na saída, o visitante é convidado a escrever mensagens para os sobreviventes do 7 de outubro. As paredes estão cobertas por bilhetes em dezenas de idiomas, testemunhos espontâneos de empatia e solidariedade.

Em outro andar, a exposição Documentando Israel: 75 anos de Visão apresenta 120 obras de fotógrafos da agência Magnum, entre eles Robert Capa, David “Chim” Seymour e Inge Morath, que registram o nascimento e o cotidiano do país desde os anos 1940 até hoje. As imagens revelam rostos de todas as origens: judeus e árabes, religiosos e seculares, imigrantes e nativos. A mostra convida o público a ver Israel não como ideia, mas como pluralidade viva.

Museus semelhantes

O Museu da Tolerância de Jerusalém integra uma constelação de instituições que unem memória e educação moral: o Museo Memoria y Tolerancia (Cidade do México), dedicado a genocídios e direitos humanos; o Lugar de la Memoria, la Tolerancia y la Inclusión Social (em Lima, no Peru); o Holocaust Memorial & Tolerance Center (Nova York) e o Jewish Museum Berlin, que, sem usar a palavra “tolerância”, incorpora o conceito por trás dela em sua arquitetura fragmentada, obra de Daniel Libeskind. Todos esses espaços partem de um mesmo princípio: não basta recordar o horror; é preciso educar para a convivência.

Ainda sem exposições permanentes instaladas, o Museu da Tolerância de Jerusalém já cumpre seu papel essencial: levar o visitante a refletir sobre questões complexas sem oferecer respostas simples, mas caminhos de escuta. Entre a luz dourada que entra pelas paredes do edifício e as vozes gravadas tanto de vítimas quanto de sobreviventes, compreende-se que a tolerância é um processo, uma escada em construção.