Jerusalém ganhou um novo espaço dedicado à memória política do país: o Museu do Knesset, instalado na Beit Frumin (Froumine House), no n0 24 da rua King George V, em plena região central da cidade. O endereço não foi escolhido por acaso. Ali funcionou, entre 1950 e 1966, a sede temporária do Parlamento israelense – o “Antigo Knesset”, como o prédio ficou conhecido, palco das sessões do 1º. ao 5º. Knesset, antes da mudança definitiva para o complexo atual, em Givat Ram.
A inauguração ocorreu oficialmente em 11 de agosto de 2025. O projeto do museu está amparado pela Lei do Museu do Knesset, de 2010 – um marco que formalizou a missão de preservar, organizar e expor a história parlamentar de Israel.
Um edifício com biografia própria
A Beit Frumin, de três andares e fachada arredondada, carrega uma história urbana típica de Jerusalém do pós-Mandato Britânico: iniciada em 1947 como empreendimento misto (residencial e comercial) da família Froumine, teve sua construção interrompida pela Guerra de Independência de Israel (1948-49). O arquiteto associado ao projeto foi Reuven Abram (Abramovich), e seus planos originais previam um edifício maior do que o que foi concluído. O local acabou sendo escolhido pelo governo por oferecer um grande salão no térreo – condição rara e prática para abrigar um parlamento em formação.
Transformar esse espaço em museu exigiu um trabalho amplo de restauração, com o objetivo de devolver ao prédio a atmosfera das décadas iniciais do Estado. A reconstrução procurou reconstituir não apenas paredes e mobiliário, mas também a “atmosfera” institucional: o plenário semicircular com assentos típicos do período, a galeria de visitantes, salas de comissões e a antiga cafeteria – ponto de encontro informal onde, entre um voto e outro, circulavam figuras centrais da política israelense.
Da política viva à memória cívica
O Museu do Knesset é fruto de um trabalho longo e meticuloso de Moshe Fuksman-Sha’al, responsável por transformar esse antigo espaço em uma viagem pela história da política israelense. Antes da inauguração, seu escritório funcionava no atual edifício do parlamento israelense.
Mais do que apresentar fatos e datas, Fuksman-Sha’al e sua equipe apostaram em pequenas histórias e conexões humanas que ajudam a iluminar os primeiros anos do Estado e aproximam o visitante da experiência vivida naquele edifício.
O Museu combina grandes marcos da história israelense com micro-histórias: objetos aparentemente banais (telefones, ventiladores de mesa, itens pessoais recolhidos junto às famílias) ajudam a tornar palpável um período frequentemente contado apenas por discursos e datas. Ao mesmo tempo, o museu assume uma postura cuidadosa diante do presente – a instituição adotou uma regra explícita: não incluir em sua exposição parlamentares ainda vivos, incorporando narrativas biográficas apenas após a morte das figuras públicas – como uma forma de reduzir a fricção partidária em tempos de polarização e manter o foco na história institucional.
Experiência imersiva
Mais do que uma exposição contemplativa, o Museu do Knesset foi concebido como ferramenta de educação cívica. O museu se apresenta como uma narrativa sobre a democracia israelense, desde a fundação do país, e busca aproximar o público do funcionamento do sistema parlamentar.
Em visitas guiadas, apoiadas por recursos digitais, o visitante é convidado a assumir simbolicamente o papel de um parlamentar, acompanhando etapas do processo legislativo e revisitando momentos que marcaram a história do Estado. O percurso inclui vídeos, áudios, recortes de imprensa, trechos de discursos e explicações sobre o processo legislativo. Há uso de recursos contemporâneos (incluindo elementos de IA em algumas apresentações) para “dar vida” ao ambiente, sem abrir mão da restauração minuciosa dos espaços originais. As exposições explicam a formação do Knesset e suas diferentes sedes ao longo do tempo, além de seções que abordam referências históricas e culturais presentes na construção institucional do país. Parte da proposta do Museu é permitir que o público “entre” no cenário dos primeiros anos do Estado e entenda como os debates, discursos e decisões foram construídos naquele espaço.
Um dos pontos altos é o plenário restaurado: um semicírculo que recria a sensação de estar no centro do debate político dos anos 1950 e 1960. Em salas específicas, o museu também reconstitui ambientes de decisão, como a sala do gabinete (com cerca de uma dúzia de lugares), associando o espaço a episódios históricos discutidos no prédio – do anúncio sobre a captura de Adolf Eichmann a deliberações em momentos críticos de segurança nacional.
O Knesset e o Talmud
Em uma das galerias, a exposição explica que o sistema parlamentar israelense tem raízes na tradição talmúdica e contextualiza o Knesset, com seus 120 membros, número tradicionalmente associado aos Anshei Knesset HaGuedolá (Homens da Grande Assembleia). Os Anshei Knesset HaGuedolá foram um corpo de líderes espirituais e jurídicos do Povo Judeu que atuou no período do retorno do exílio babilônico, no início da era do Segundo Templo (séculos 5-4 a.E.C.). Esse grupo era composto por 120 Sábios, entre eles profetas e grandes mestres da Torá, como Ezra e Nechemiah.
A Grande Assembleia teve um papel fundamental na reorganização da vida religiosa e comunitária judaica após décadas de exílio. A ela são atribuídas decisões determinantes para a preservação do Judaísmo, como a fixação de partes centrais da liturgia, a canonização do Tanach, o fortalecimento do estudo da Torá e a criação de estruturas estáveis de liderança espiritual.
Visitação e vocação pública
Localizado em uma das áreas mais movimentadas do centro de Jerusalém, o Museu do Knesset pretende firmar-se como ponto de referência para visitantes interessados em política, história e cultura cívica, reunindo patrimônio arquitetônico, memória institucional e linguagem museográfica contemporânea. As visitas são feitas por reserva e são guiadas, com tours em inglês, árabe e outros idiomas.
Ao instalar-se no “Antigo Knesset”, o museu faz mais do que preservar um prédio: ele transforma um endereço histórico em lugar de reflexão sobre representatividade, regras do jogo democrático, cultura do debate e a própria construção do Estado. É uma narrativa sobre instituições – contada com arquitetura, documentos, objetos e tecnologia – que procura aproximar passado e presente sem confundir memória com disputa cotidiana.