Ao liderar a negociação do cessar-fogo na Faixa de Gaza, em outubro passado, o presidente norte-americano Donald Trump buscava também fazer avançar um de seus mais ambiciosos projetos diplomáticos: os Acordos de Abraão. “Não se trata apenas da recuperação de Gaza. Trata-se de transformar a região”, declarou o secretário de Estado Marco Rubio, durante reunião de cúpula realizada no Egito, com a presença de mais de 20 líderes internacionais.
Por Jaime Spitzcovsky
Apesar dos enormes desafios contidos no plano para Gaza, como o desarmamento do grupo terrorista Hamas, a Casa Branca avalia o frágil cessar-fogo como alavanca para retomar o processo diplomático iniciado formalmente a 15 de setembro de 2020, no primeiro mandato trumpista. Naquele dia histórico, Emirados Árabes Unidos e Bahrein assinaram, em Washington, acordo de normalização de relações com Israel.
A caravana diplomática, chamada de Acordos de Abraão, incluiu ainda Marrocos (dezembro de 2020) e Sudão (janeiro de 2021), impossibilitado de aplicar o tratado devido à guerra civil que assola o país. Antes, no mundo árabe, apenas Egito, em 1979, e Jordânia, em 1994, haviam reconhecido o direito de Israel a existir.
Trump conseguiu catalisar uma aproximação em curso havia cerca de uma década entre Israel e monarquias do Golfo Pérsico, preocupadas com ambições expansionistas e nucleares de Teerã. O regime teocrático iraniano, controlando um país majoritariamente persa e xiita, alimenta rivalidades ao buscar a liderança do Oriente Médio, com países árabes e sunitas, como Arábia Saudita e Egito.
Contribuiu decisivamente também para os ventos mudancistas a chegada ao poder, no reino saudita, do príncipe herdeiro Mohammad bin Salman, apoiado numa visão de reestruturação do modelo econômico de seu país. Chamado de Visão 2030, o projeto visa diminuir a dependência do petróleo e enfatizar o setor de serviços (tecnologia, turismo, finanças). As ambições de Riad implicam construir um Oriente Médio mais estável, menos belicoso, com a integração de Israel no cenário regional.
Donald Trump costumava evidenciar seus interesses comerciais, enquanto empresário, e estratégicos, enquanto presidente, nas reformas econômicas sauditas. Quando de seu primeiro mandato, a Arábia Saudita foi escolhida para ser o desembarque inicial na primeira viagem bilateral do presidente norte-americano ao exterior. A opção se repetiu no segundo mandato, ao se falar de agenda previamente programada.
A arquitetura dos Acordos de Abraão contou com a assinatura dos Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Marrocos e Sudão como teste inicial para a reação da opinião pública internacional, em particular no mundo muçulmano. Correspondia a um estágio pioneiro de um processo concebido para formalizar, no seu momento mais relevante, os laços entre o Estado Judeu e o líder religioso e financeiro do mundo islâmico, a Arábia Saudita.
Em setembro de 2023, em discurso na Assembleia Geral da ONU, o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu mencionou a proximidade do entendimento. O príncipe herdeiro, Mohammad bin Salman, pouco tempo antes, havia dito em entrevista à Fox News que “a cada dia, estamos mais próximos”. Entre final de setembro e começo de outubro daquele ano, dois ministros israelenses, do Turismo e das Comunicações, realizaram visitas oficiais à Arábia Saudita.
No dia 7 de outubro de 2023, o Hamas perpetrou o maior ataque terrorista da história de Israel. A operação estava, obviamente, em preparação havia anos, mas o momento escolhido para deslanchá-la correspondia também a um contra-ataque iraniano à tentativa de ampliar o processo de paz no Oriente Médio, uma clara ameaça ao regime teocrático de Teerã, interessado na manutenção do cenário de beligerância na região.
Os interesses estratégicos dos EUA com os Acordos de Abraão não se limitam aos dividendos oriundos de acordos econômicos com monarquias do Golfo Pérsico ou a isolar o Irã diplomática e militarmente no Oriente Médio. Significam ainda dificultar, na região, a expansão de influência da China, descrita pela Casa Branca como a principal ameaça à hegemonia norte-americana no cenário global.
No cenário da política israelense, também há partidos refratários ao processo comandado por Donald Trump, com destaque para aqueles liderados por Bezalel Smotrich, ministro das Finanças, e Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança Nacional. Ambos priorizam, por exemplo, a anexação de territórios na Cisjordânia e rejeitam a solução de dois Estados, colocando-se contrários à ideia da criação de um Estado palestino.
Nas costuras diplomáticas, a Arábia Saudita costuma colocar como condição para aderir aos Acordosde Abraão a abertura de “um caminho com credibilidade para a criação de um Estado palestino”. O posicionamento público não entra em detalhes sobre contornos do eventual país ou sobre cronograma de sua criação.
O plano de 20 pontos de Trump para a Faixa de Gaza contempla, ainda que de forma vaga, a ideia de criação de um Estado palestino. Trata-se da concessão da Casa Branca a parceiros como Arábia Saudita e Egito, empenhados em demonstrar, sobretudo à opinião pública do mundo muçulmano, não terem desistido de apoiar a chamada “causa palestina”.
Trump, portanto, também se coloca como obstáculo às ambições anexionistas de Smotrich e Ben-Gvir. O presidente norte-americano já declarou ter prometido a lideranças árabes impedir tal expansão territorial de Israel.
“Os Acordos de Abraão são incríveis”, sustentou Trump numa entrevista coletiva na Casa Branca, ao lado de Netanyahu. Num rasgo de entusiasmo, o presidente acrescentou: “Talvez até o Irã possa entrar. Esperamos que possamos nos entender com o Irã. Creio que eles estarão abertos a isso. Realmente acredito”. No entanto, dias depois, Teerã, como era de se esperar, rejeitou frontalmente a hipótese.
Devaneios diplomáticos à parte, a iniciativa segue como prioridade da Casa Branca. Diálogo e pressão seguem sobre Síria e Líbano, que dificilmente poderiam aderir aos Acordos de Abraão, sobretudo devido à forte oposição interna, destacando-se, no caso libanês, o grupo terrorista Hezbollah, apoiado pelo Irã. No entanto, não se descarta que Jerusalém possa assinar com Beirute e com Damasco tratados de segurança, para evitar novos conflitos bélicos.
Washington, sem desistir da Arábia Saudita e conversando com Riad sobre a possibilidade de novos acordos militares e o eventual fornecimento de um programa nuclear civil, busca atrair outros parceiros para a caravana diplomática. E a Indonésia desponta como um dos candidatos mais cortejados. Diálogo já havia começado no primeiro mandato de Trump.
Prabowo Subianto, presidente do arquipélago, surpreendeu ao discursar na abertura da Assembleia Geral da ONU, em setembro. Terminou sua fala com um pedido de paz em alguns idiomas, como árabe e sânscrito. E disse também, em hebraico: Shalom!
Em sua fala, o líder do país com a maior população muçulmana do planeta repetiu apelo pela criação de um Estado palestino. Mas observou: “Devemos também reconhecer, devemos também respeitar, e devemos também garantir a segurança de Israel. Apenas então poderemos ter uma paz verdadeira”.
Semanas depois, Trump desembarcou em Kuala Lumpur, para um encontro de líderes asiáticos, e devolveu a gentileza: “Quero agradecer à Malásia e ao Brunei, assim como ao meu amigo, presidente Prabowo da Indonésia, por seu incrível apoio aos esforços para assegurar um novo dia para o Oriente Médio”.
Prabowo, no entanto, enfrenta forte resistência à adesão aos acordos por parte de diversos setores da sociedade indonésia. Trump, em entrevista à Fox Business Network, falou sobre um aspecto que pode acelerar a expansão dos Acordos de Abraão. “Espero ver a adesão da Arábia Saudita, e espero ver outros aderindo. Creio que, quando a Arábia Saudita entrar, todos os outros entrarão”.
Já numa conversa com a revista Time, o presidente norte-americano foi indagado sobre as “chances de as mudanças no Oriente Médio resistirem ao tempo”. Trump seguiu na linha do “depende”. “Agora, está somente crescendo de uma maneira bonita. Então a questão é o que acontece depois? Mas posso dizer isso, tenho mais de três anos pela frente. É um tempo longo. Enquanto estiver lá, vai apenas melhorar e fortalecer, e será perfeito”, afirmou o líder republicano.
E emendou: “Se um mau presidente assumir, pode terminar muito facilmente. O aspecto mais importante é que devem respeitar o presidente dos Estados Unidos. O Oriente Médio precisa entender isso. E eles entendem. Se você for ao Qatar, se você for à Arábia Saudita, se você for aos EAU (Emirados Árabes Unidos), que são os três grandes, nesse sentido, eles todos respeitam o presidente”.
Jaime Spitzcovsky colaborador da Folha de S.Paulo, foi correspondente do jornal em Moscou e em Pequim.