Um ataque a uma sinagoga – em qualquer época, inclusive hoje em dia – não é “apenas” vandalismo: é uma violência dirigida ao centro da vida judaica, ao coração de uma comunidade e de todo um povo. Às vésperas da 2a Guerra Mundial, estimava-se que houvesse cerca de 17 mil sinagogas na Europa; ao fim do conflito, apenas 3.237 edifícios históricos de sinagogas teriam permanecido de pé.

A devastação foi um prenúncio do Holocausto: sinalizava a tentativa de apagar a presença judaica do espaço público – e, com isso, sua memória, sua cultura e seus marcos de continuidade comunitária.

Durante o Holocausto, os nazistas e seus colaboradores assassinaram cerca de seis milhões de judeus. Em toda a Europa, destruíram milhares de sinagogas, profanaram cemitérios e saquearam bens e obras de arte. No Leste Europeu, a devastação atingiu proporções ainda maiores, destruindo de forma sistemática o modo de vida judaico. Muitos shtetls – pequenas cidades e vilas com população majoritariamente judaica – foram arrasados, seus habitantes assassinados, e uma parte expressiva da cultura local, incluindo a língua iídiche, foi empurrada para o esquecimento. No pós-guerra, inúmeros desses lugares permaneceram como “comunidades vazias” ou foram ocupados por populações não judias, e a vida judaica anterior a 1939 ficou reduzida a vestígios.

As sinagogas estiveram entre os alvos preferenciais do regime nazista. A agressão não foi “dano colateral” da 2a Guerra, mas parte integrante de uma política deliberada: um ataque físico, ideológico e simbólico. Os métodos variavam – incêndios, depredação, saque e profanação – e incluíam o reaproveitamento forçado dos edifícios como estábulos, depósitos, oficinas ou instalações militares. Era uma forma de rebaixar o sagrado ao nível do utilitário, convertendo a “casa de oração” em ruína e humilhação. Há vasta documentação fotográfica e arquivística dessa devastação, preservada em museus e arquivos, que registra não só a destruição material, mas também o sentido ideológico da violência: atacar sinagogas era atacar a própria possibilidade da presença judaica na Europa.

Para entender por que esses ataques ocorreram, é preciso lembrar o que é – e o que representa – uma sinagoga. Elas não são apenas espaços religiosos: são também núcleos sociais, intelectuais e comunitários, locais de estudo, assistência e coesão. Ao atingir uma sinagoga, o regime nazista buscava intimidar e humilhar os judeus; mas, acima de tudo, eliminar marcos visíveis de identidade e continuidade judaica – “apagar”, do espaço público, qualquer vestígio de presença judaica.

Em 1872, o rabino-chefe da França, Zadoc Kahn, ao discorrer sobre a importância das sinagogas, afirmou que essas instituições foram um dos grandes instrumentos de preservação do Judaísmo: entre suas paredes – às vezes ricamente ornadas, outras vezes simples e despojadas – “formou-se e desenvolveu-se” a vida judaica e suas práticas. Ao longo dos séculos, o Beit HaKnesset (em hebraico, “casa de reunião”) ajudou a manter comunidades unidas, oferecendo um lugar de oração e estudo da Torá, mas também de amparo moral e material, especialmente em épocas de hostilidade e perseguição.

Por muito tempo, faltaram dados consolidados sobre a extensão da destruição de sinagogas na Europa – sobretudo no Leste europeu – e o tema era conhecido principalmente por episódios emblemáticos. Ainda antes do início da 2a Guerra, o próprio regime já sinalizava que pretendia apagar do espaço público os marcos visíveis da presença judaica. Um exemplo disso foi a demolição da Grande Sinagoga de Munique, em junho de 1938, por ordem direta de Hitler: a justificativa oficial era remover do centro um edifício judaico considerado demasiado “destacado” e “incômodo”. Tratava-se, porém, de um gesto deliberado, que antecipava a escalada de violência e a política de exclusão total.

Essa escalada se tornaria explícita na Kristallnacht (Noite dos Cristais, em 9–10 de novembro de 1938), o pogrom que marcou um ponto decisivo na perseguição aos judeus do Reich. Naquelas horas, o regime coordenou uma onda de ataques em diversas cidades: grupos ligados à SA e à SS, com apoio de multidões incitadas pela propaganda nazista, incendiaram e depredaram sinagogas, profanaram rolos da Torá e devastaram casas e estabelecimentos judaicos. Segundo o Museu Memorial do Holocausto dos EUA (USHMM), naqueles dois dias, mais de 1.400 sinagogas e locais de culto foram destruídos ou incendiados na Alemanha, na Áustria anexada e na região dos Sudetos. Em muitos lugares, as chamas arderam à vista do público: bombeiros foram instruídos a intervir apenas quando o fogo ameaçasse construções não judaicas. Em Berlim, a Neue Synagoge foi atacada e alvo de incêndio, mas o fogo acabou contido – o edifício não foi totalmente consumido naquela noite, embora tenha sofrido danos e profanações. No conjunto, a violência contra as sinagogas foi um ataque simbólico ao coração da vida judaica – um prenúncio do que, poucos anos depois, se converteria em extermínio.

A política do “apagamento” não se limitou à Alemanha. A partir de 1939, com a invasão da Polônia, e sobretudo após 1941, com a invasão da União Soviética, sinagogas históricas no Leste europeu passaram a ser atacadas sistematicamente: algumas foram queimadas nos primeiros dias de ocupação; outras, convertidas em armazéns, estábulos, oficinas ou quartéis, como vimos acima; e muitas, por fim, demolidas. Em casos extremos, sinagogas também se tornaram palco de assassinatos em massa – como em Białystok, onde relatos e estudos descrevem o incêndio da Grande Sinagoga, em junho de 1941, com centenas de judeus presos em seu interior.

Quase desapareceram, também, as sinagogas de madeira do Leste europeu, um marco da arquitetura judaica e da arte litúrgica ashquenazi – patrimônio singular, de valor artístico e histórico excepcional. A maioria foi destruída durante a 2a Guerra, restando apenas poucos exemplares (especialmente em partes da Lituânia), hoje vestígios raros de um mundo aniquilado.

Um dos episódios mais emblemáticos dessa violência simbólica ocorreu ao final da repressão nazista ao Levante do Gueto de Varsóvia, iniciado em 19 de abril de 1943, às vésperas de Pessach. A resistência foi esmagada e, em 16 de maio, Jürgen Stroop – comandante da SS responsável pela operação – comunicou a Berlim que o Gueto de Varsóvia “deixara de existir”. Para “selar” a vitória alemã e consumar a destruição do gueto, ordenou a demolição da Grande Sinagoga de Varsóvia (Tłomackie), um gesto concebido explicitamente para simbolizar o fim da vida judaica na cidade e registrado no conjunto documental conhecido como “Relatório Stroop”. (Apesar de projetos discutidos no pós-guerra, a sinagoga não foi reconstruída).

Nas últimas décadas, iniciativas de mapeamento e inventário em escala europeia tornaram a devastação mais mensurável – e revelaram dados inquietantes. Mesmo entre as sinagogas históricas que sobreviveram fisicamente, muitos edifícios hoje estão abandonados ou têm uso não religioso. Das 3.237 sinagogas históricas que sobreviveram à guerra, apenas 718 (22%) continuam funcionando como sinagogas. As demais têm usos variados: 133 tornaram-se locais de culto de outras religiões, 180 são museus, 289 funcionam como centros culturais e de artes, e 900 viraram residências ou escritórios.

Outras antigas sinagogas são hoje academias, teatros e cinemas, depósitos e restaurantes – além de garagens e quartéis de bombeiros. Um fim trágico para um lugar onde, em outros tempos, milhares de pessoas abriram seus corações e elevaram ao Eterno, o Todo-Poderoso, suas mais candentes orações.

Nossos sábios ensinam que toda sinagoga é um Mikdash Me’at – um pequeno santuário. Desde a destruição do Segundo Templo de Jerusalém, a sinagoga passou a concentrar, em escala local, a vida espiritual e coletiva do Povo de Israel. Assim como a destruição dos Templos precedeu a grande matança e o exílio do Povo Judeu, a devastação das sinagogas na Europa sinalizou a catástrofe que se aproximava.

As sinagogas destruídas pelos nazistas são, portanto, testemunhos de uma tragédia que começou muito antes das câmaras de gás. Recordar essa história não é apenas um exercício de memória: é um alerta permanente. Onde a profanação do sagrado e o apagamento da identidade judaica são tolerados, a violência contra judeus não tarda a chegar.