O ataque das forças alemãs à Polônia, na madrugada de 1º de setembro de 1939, marcou a eclosão da 2a Guerra Mundial. Com essa invasão, Hitler iniciou dois conflitos simultâneos: um, convencional, contra nações, destinava-se à conquista de recursos e TERRITÓRIOS, enquanto o outro visava o nosso povo.
Até então, a política antissemita nazista envolvia segregação, violência, exclusão social e emigração forçada, porém, a partir da ocupação da Polônia, levaram-se adiante os planos para criar um Reich e uma Europa judenfrei (livre de judeus). A violência da guerra e os deslocamentos forçados permitiram aos nazistas ocultar a perseguição contra as populações judaicas.
Enquanto a Wehrmacht, o exército alemão, lutava contra as forças das nações atacadas, o aparato nazista concentrava-se na população judaica, que, sem um Estado, poder militar ou aliados, encontrava-se em uma situação extremamente difícil. Os judeus da Europa constituíam uma minoria civil desarmada e dispersa por todo o continente, e, no Leste Europeu viviam em meio a uma população que os odiava e desprezava.
No discurso perante o Reichstag, o parlamento alemão, em 30 de janeiro de 1939, Hitler declarou: “Se os judeus desencadearem uma guerra mundial, o resultado será o aniquilamento físico(Vernichtung) de sua raça na Europa”. Para ele, a luta contra o Povo Judeu tinha a mesma importância que o conflito militar. A conquista de Lebensraum (espaço vital) no Leste Europeu, a destruição da URSS e a submissão de todo o continente eram fundamentais para a criação de um Reich poderoso, mas, para Hitler, o triunfo seria “incompleto” sem a aniquilação do nosso povo. O extermínio dos judeus era parte de uma luta “racial” e “ideológica” necessária para “purificar” a humanidade – não era um objetivo secundário, mas parte essencial da vitória.
A Polônia foi rapidamente esmagada com o rápido avanço alemão pelo oeste e a invasão soviética pelo leste em 17 de setembro de 1939. No dia 28, Berlim e Moscou repartiram o país nos termos do Pacto Molotov-Ribbentrop, de agosto de 1939. A porção oriental ficou sob domínio da URSS, e, a ocidental sob ocupação da Alemanha, que incorporou as regiões setentrionais do território polonês, entre as quais Posnânia, Silésia e Pomerânia, consideradas “historicamente germânicas” ou estratégicas. Nessas áreas, viviam cerca de um milhão de judeus.
Nas partes central e meridional da Polônia, que incluíam Varsóvia, Lublin e Cracóvia, os nazistas criaram o Generalgouvernement, o Governo Geral, um Estado civil subordinado ao Reich. O Governo Geral estava destinado a ser uma colônia de exploração tanto de recursos naturais quanto de mão de obra escrava. Hans Frank foi nomeado governador, mas as políticas raciais ficaram a cargo de Hitler, Himmler, Heydrich e as SS. Em outubro de 1939, a população judaica dessa região, que totalizava entre 1,5 e 2 milhões de pessoas, representava de 10 a 12% da população polonesa. Após a invasão da Polônia, cerca de três milhões de judeus ficaram sob domínio alemão.
O Generalgouvernement foi o epicentro do Holocausto. Foi onde os nazistas adotaram uma política organizada de confinamento e segregação, além de estabelecerem os maiores guetos e campos de extermínio. A criação dos guetos foi apenas uma etapa da política de destruição sistemática do nosso povo. A concentração forçada facilitava sua deportação para os campos de extermínio. Os alemães estabeleceram pelo menos 1.000 guetos na Polônia e, mais tarde, nos territórios soviéticos ocupados (Lituânia, Letônia, Bielorrússia, Ucrânia e Rússia Ocidental). O maior foi o de Varsóvia. Outros importantes foram criados em Łódź, Cracóvia, Bialystok, Lviv, Lublin, Vilna, Kovno, Czestochowa e Minsk.
Até 1944, os nazistas criaram guetos inclusive na Checoslováquia (Terezín), Hungria, Romênia/Transnístria, Grécia e Eslováquia. Na Europa Ocidental (França, Holanda, Bélgica) prevaleceram restrições e centros de trânsito, sem “guetização” murada.
Por que a diretiva Schnellbrief, de Heydrich, é importante para a historiografia do Holocausto?
As bases do sistema repressivo nazista foram estabelecidas nos seis primeiros meses de ocupação da Polônia (set. 1939 – mar. 1940), de acordo com uma diretiva de Reinhard Heydrich1, chefe do RSHA, órgão que abrangia a Gestapo, polícia criminal e do serviço de segurança (SD). Conhecido como Schnellbrief (carta urgente), o documento foi enviado em 21 de setembro de 1939 aos comandantes dos Einsatzgruppen2, as autoridades da Polícia de Segurança e do SD (Serviço de Segurança da SS) alocadas na Polônia. Com instruções sobre como “lidar” com a população judaica, o Schnellbrief instituiu o arcabouço burocrático e logístico para as fases posteriores do Holocausto.
Na diretiva, Heydrich fez uma distinção “entre a meta final, que só poderá ser alcançada no longo prazo, e os passos intermediários, que devem ser executados com celeridade para avançar até esse objetivo último”. Em seguida, enumerou ações a serem empreendidas como “apenas medidas de caráter provisório (vorläufige Maßnahme); a solução final da questão judaica dependerá das decisões a serem tomadas pelo Führer”. Frisava, ainda, que o “objetivo final” devia ser mantido em “sigilo absoluto”.
O documento revela que já existia uma meta de longo prazo (Endlösung), mas faltava ainda uma definição “prática”, que só foi estruturada mais tarde (1941–1942) com o programa de extermínio.
Na diretiva, Heydrich ordena, entre outros, a imediata concentração da população judaica em grandes centros urbanos próximos a entroncamentos ferroviários para “que as medidas futuras pudessem ser implantadas com mais facilidade”. As comunidades judaicas das áreas destinadas à anexação ao Reich deviam ser, rapidamente, deportadas para essas cidades e toda a população judaica devia ser submetida a uma segregação espacial. Apesar de não usar a palavra “gueto” no documento, Heydrich estabeleceu o caminho que levou à sua criação.
Ele ainda ordena a formação de “Conselhos Judaicos” (Judenräte) e a realização tanto de um censo da população judaica quanto de um levantamento de todas as propriedades que acabariam confiscadas.
Como era a vida dos judeus antes de seu aprisionamento nos gueto?
Os judeus poloneses passaram a sofrer violência e discriminação imediatamente após a invasão alemã do país. Milhares foram mortos em pogroms ou executados sumariamente já nas primeiras semanas como forma de intimidação coletiva. Incendiaram-se sinagogas (às vezes com centenas de judeus – homens, mulheres e crianças em seu interior) e profanaram-se rolos da Torá, saquearam-se residências e lojas de judeus.
Na Polônia, as medidas de segregação e discriminação foram ainda mais brutais e severas que as que vigoravam no Terceiro Reich. Judeus foram rapidamente excluídos da vida econômica, política e social. Entre outros, foram expulsos de escolas, universidades e profissões liberais, seus empreendimentos foram fechados e todos seus bens (ouro, joias, dinheiro e imóveis), confiscados. Era terminantemente proibida aos judeus a posse de rádios e carros. Para executar as ordens nazistas, os conselhos comunitários das Kehillot foram dissolvidos e substituídos pelos Judenräte.
Em setembro de 1939, os nazistas decretaram a obrigação do trabalho forçado3 a todos os judeus entre 14 e 60 anos, de ambos os sexos. Capturados nas ruas, milhares foram enviados para limpar latrinas, esgotos, abrir estradas e cavar trincheiras, entre outros, em condições desumanas que levavam à exaustão física e à morte. Sujeitos diariamente a torturas, fome e violência por parte não só dos guardas alemães, mas também dos colaboradores locais, viviam aterrorizados. “Extermínio pelo trabalho” é a expressão usada para referir-se à política nazista de matar por meio do trabalho escravo em condições deliberadamente letais. A morte era parte do objetivo, não um acidente.
Nas ruas, o medo e a violência passaram a fazer parte do dia a dia do nosso povo, que era agredido, espancado e humilhado publicamente para a diversão dos alemães e dos poloneses. Todos os judeus eram obrigados a usar no braço uma estrela de David para facilitar seu “reconhecimento”. Logo se proibiu sua presença em lugares e transportes públicos, bem como sua circulação. Os judeus eram confinados em bairros que se tornariam guetos murados.
O que eram os Judenräte (Conselhos Judaicos)?
Heydrich ordenara no Schnellbrief a dissolução, em todas as cidades do Leste Europeu, dos conselhos das Kehillot que administravam a vida das comunidades judaicas, e a formação dos Judenräte. Os membros desses Conselhos eram os “intermediáriosforçados” entre os alemães e a população judaica. Obrigados a obedecer à Gestapo e à administração nazista, deviam ser ameaçados com “medidas severas em caso de sabotagem das ordens”.
Com o estabelecimento dos guetos, os Judenräte foram obrigados a assumir a administração da vida da comunidade. Entre outras atribuições, deviam organizar os espaços superlotados, providenciar moradia para judeus locais e os deportados de outras regiões, e distribuir os escassos alimentos fornecidos pelos nazistas. Cuidavam ainda dos serviços comunitários, entre os quais hospitais improvisados, casas de oração e escolas clandestinas (qualquer nível de ensino formal ou informal era proibido). Também recolhiam impostos e confiscavam bens. Eram obrigados a fornecer listas de judeus a serem enviadas para trabalhos forçados fora do gueto. Nos maiores, como os de Varsóvia ou Łódź, centenas eram exigidas de uma só vez.
A partir de 1942, com a deflagração da Operação Reinhard – a deportação em massa de judeus para campos de extermínio –, os Judenräte foram obrigados a preparar listas de nomes para as deportações. As autoridades alemãs “asseguravam” que se tratava de “reassentamento no Leste”, onde os judeus supostamente viveriam e trabalhariam – eufemismo usado para encobrir o genocídio e viabilizar sua logística. Era política nazista empregar termos como “evacuação” e “tratamento especial” para mascarar assassinatos em massa.
Aos poucos, os Judenräte perceberam o verdadeiro sentido das deportações: relatos de ferroviários poloneses e os raros fugitivos dos campos de extermínio confirmaram que quase ninguém sobrevivia ao suposto “reassentamento”. Viram-se, então, diante de um dilema moral sem saída: obedecer às ordens nazistas – tentando ganhar tempo e salvar parte da população por meio de manobras de atraso – ou resistir, cientes de que poderiam ser presos, executados ou substituídos e que a comunidade sofreria punições brutais. Em cada gueto, a combinação entre o perfil dos líderes dos Judenräte, o momento em que a verdade veio à tona, o grau de coerção e a margem de manobra resultou em respostas diferentes.
O papel dos Judenräte é um dos temas mais penosos e controversos da história do Holocausto. Para alguns estudiosos, esses Conselhos funcionaram como instrumentos da dominação nazista; para outros, apesar das ações controversas, permitiram alguma continuidade da vida comunitária e criaram condições para a luta pela sobrevivência.
Após a Guerra, muitos sobreviventes criticaram duramente os Judenräte, acusando-os de ter “cooperado” com os nazistas na organização das deportações. A verdade é que não há nem como julgar o comportamento dos diferentes Judenräte nos mais de mil guetos, nem fazer generalizações sobre eles. Alguns líderes ajudaram a resistir ou atrasaram o cumprimento das ordens nazistas; teve os que cederam mais rapidamente, outros que não permitiram uma resistência ativa, alguns aproveitaram de suas posições. Contudo, quaisquer que fossem suas posições ou atitudes, nenhum escaparia do fim que os nazistas reservavam a todo judeu. Muitos foram mortos sumariamente por sua desobediência. Outros não suportaram a pressão moral e se suicidaram. A maioria encontrou o fim em campos de extermínio.
A ínfima minoria que sobreviveu suportou o peso de acusações de “colaboracionismo” pelo resto da vida, porém seus testemunhos tornaram-se fundamentais para o debate histórico e ético.
Em contraste com administrações colaboracionistas de alguns países, a cooperação judaica deu-se sob coação direta – terror e “escolhas sem escolha”. Enquanto, por exemplo, o governo de Vichy, na França, aderiu ao projeto nazista, os judeus não queriam – nem podiam – fazê-lo; as condutas “colaborativas”, quando ocorreram, derivaram da violência estrutural do domínio nazista e da inexistência de alternativas reais.
Por que foi criada, dentro dos guetos, a polícia judaica?
A polícia judaica surgiu em 1940 por imposição alemã para garantir a “ordem” dentro dos guetos. O sistema foi criado para quebrar a moral e a coesão comunitária, transferindo as tarefas mais nefastas às próprias vítimas.
Na teoria, os policiais judeus estavam subordinados aos Judenräte, mas, na prática, respondiam aos nazistas, que, para garantir obediência, recorriam a racionamentos diferenciados, privilégios precários e severas punições. Muitos judeus passaram a integrá-la para buscar proteção ou salvar familiares.
As funções da polícia judaica incluíam, entre outras, a aplicação dos regulamentos do gueto, a imposição de toques de recolher e a fiscalização dos cartões de racionamento. Também era obrigada a reunir e escoltar os judeus selecionados para o trabalho forçado, além de prestar suporte aos nazistas e seus colaboradores durante as batidas e, tragicamente, as deportações para os campos de extermínio. Os policiais dispunham de pouquíssima autonomia efetiva, eram constantemente vigiados pela SS, que impunham “metas e quotas” diárias para as deportações.
As polícias judaicas não eram homogêneas: o comportamento variava entre indivíduos e guetos. Alguns policiais abusaram do cargo e outros colaboraram com os alemães. Houve casos notórios, como o de Józef Szeryński, chefe da Polícia Judaica no Gueto de Varsóvia – judeu de origem, batizado4 e notório antissemita que cooperava ativamente com os nazistas. Outros temiam as represálias alemãs e limitavam-se a cumprir ordens; e houve ainda os que tentaram reduzir danos, alertando a população sobre batidas, facilitando o contrabando de alimentos ou evitando, sempre que possível, entregar crianças e idosos.
A atuação das polícias judaicas, assim como a dos Judenräte, é mais um tema penoso e controverso. Cabe lembrar que os policiais, assim como todos do gueto, viviam “sob coação” brutal. Caso se recusassem a obedecer às ordens, eram executados, em muitos casos, juntamente com a família, de maneira sumária.
Como era a vida nos guetos?
Os guetos criados pelos nazistas durante a 2ª Guerra Mundial diferiam daqueles que surgiram na Europa a partir de meados do século 16. À época, por imposição da Igreja ou de autoridades civis cristãs, os judeus eram obrigados a viver separados do restante da população, em áreas delimitadas, com horários definidos de entrada e saída. Ao contrário de bairros onde judeus viviam por escolha ou afinidade, o gueto se definia pela segregação obrigatória determinada por autoridades.
Apesar da opressão, das condições de vida precárias e da limitação do espaço, nos guetos tradicionais os judeus autogovernavam-se, exerciam atividades econômicas e alguns prosperaram. Tinham uma vida comunitária ativa, com sinagogas e escolas. Esses guetos não eram temporários, como no período nazista; perduraram por séculos, até a emancipação judaica entre o final do século 18 e o 19. O objetivo era a separação e não a destruição física de seus moradores.
Na Polônia e em outros territórios ocupados, os guetos foram instituídos pela Alemanha nazista como medida de segregação e controle – em caráter provisório – enquanto a liderança discutia as “opções” para a chamada “Solução Final da Questão Judaica”. Alguns guetos duraram poucos meses; outros, alguns anos. Entre 1942 e 1943 quase todos foram liquidados e a maioria de seus habitantes foram mortos in loco ou deportados para campos de extermínio. Os raros sobreviventes foram exceções.
Os guetos funcionavam como espaços de morte lenta: a política nazista provocava fome, frio e doenças como instrumentos de extermínio, somados à violência – patrulhas, espancamentos, tiros e franco-atiradores “por diversão”. O cotidiano mesclava humilhação, dor e perigo; ainda assim, os moradores buscavam resistir à inanição e à desumanização por meio de redes de ajuda mútua e iniciativas culturais clandestinas.
Em geral, os guetos eram instalados nas áreas mais antigas e degradadas das cidades. Neles, judeus locais e deportados de outras regiões eram confinados atrás de muros ou cercas de arame farpado; mesmo quando “abertos” – alguns dos menores –, vigoravam severíssimas restrições de circulação.
O contato com o exterior era proibido. As entradas eram vigiadas pela polícia alemã, pela Polícia Judaica e, na Polônia ocupada, pela chamada polícia “azul”. Alguns judeus recebiam permissões temporárias para trabalhar, sob escolta, em oficinas vinculadas ao regime nazista. Fugir era extremamente arriscado: patrulhas alemãs atiravam para matar; civis poloneses podiam denunciar; e quando recapturados, os fugitivos eram executados, além dos nazistas imporem punições coletivas à comunidade.
As condições de vida nos guetos superlotados eram sub-humanas. No de Varsóvia – o maior da Polônia – viviam cerca de 380 mil judeus em 3,3 km² em 1940. No ano seguinte, após a chegada de judeus expulsos de outras regiões, a população atingiu aproximadamente 450 mil. Os recém-chegados, alojados em antigas escolas ou prédios vagos, viviam amontoados no chão. No gueto de Łódź, havia inicialmente cerca de 160 mil pessoas, número que superou 200 mil após a deportação de judeus de outras localidades. Era comum que entre seis e dez pessoas dividissem um único cômodo, em edifícios antigos e com péssimas condições sanitárias.
A quantidade de alimentos que os alemães destinavam aos judeus equivalia a uma sentença de morte por inanição: representava menos de 10% do mínimo necessário para sobreviver. Em Varsóvia, por exemplo, em 1941 a cota para judeus ficava abaixo de 200 kcal/dia (contra cerca de 670 para poloneses e mais de 2.500 para alemães). Além disso, comprar alimentos de poloneses era proibido e podia ser punido com a morte. Foi o contrabando que permitiu à população judaica subsistir por mais tempo: crianças e adolescentes se esgueiravam por pequenos buracos nos muros, escombros ou bueiros – tarefa arriscadíssima, reprimida a tiros.
Devido à falta de saneamento e medicamentos, as epidemias de tifo, tuberculose e outras doenças alastravam-se com rapidez. Enfraquecidos por causa da fome, dos maus-tratos, da escassez de combustível e do frio intenso durante os invernos europeus, milhares morreram. Em Varsóvia, de acordo com o Yad Vashem e o USHMM, cerca de 83 mil pereceram “por causas naturais” ou pela violência das SS entre o final de 1940 e meados de 1942, quando se iniciaram as deportações em massa. Além disso, os nazistas requisitavam diariamente centenas de judeus para trabalhos forçados, como abrir e manter estradas, erguer instalações militares e construir ou ampliar campos de concentração. A maioria morria de exaustão e doenças.
A vida dos que trabalhavam em fábricas ou oficinas dentro ou fora do gueto era minimamente melhor. Em Varsóvia e Łódź, fabricavam-se uniformes e móveis ou consertavam-se equipamentos militares. Empresas alemãs como IG Farben, Siemens e Krupp, entre outras, exploraram mão de obra escrava judaica durante toda a Guerra. Após o início das deportações, esses trabalhadores iludiam-se pensando que seus cartões de trabalho (Ausweise) representariam um “salvo-conduto”. Na verdade, apenas reduziam o risco no curto prazo, mas não evitavam a deportação para os campos de extermínio.
Os judeus resistiram de alguma forma?
Um dos desafios da historiografia é o estabelecimento de um conceito exato de “resistência”, a qual se enquadra em duas categorias básicas: civil, que se caracteriza pela não violência, e a armada que se subdivide em ofensiva e acorrentada. O primeiro subtipo inclui as operações não convencionais, de sabotagem ou de guerrilha (por exemplo, as empreendidas pelos judeus que viviam nas florestas). O segundo abrange as ações armadas em que não há nenhuma esperança de sobrevivência, como, por exemplo, o Levante do Gueto de Varsóvia, em abril de 1943.
Qualquer ato de resistência, mesmo mínimo, era reprimido com violência extrema. Para um judeu capturado “resistindo”, a execução sumária era a melhor opção, pois as ordens eram que os judeus deviam “ser mortos da maneira que mais conduzisse à obediência cega e impedisse qualquer resistência”. No Leste da Europa, alguns foram esfolados ou queimados vivos. Jovens judias recebiam injeções de veneno que provocavam espasmos antes da morte.
A resistência era, sobretudo, inibida pela política alemã de “responsabilidade coletiva”, que atribuía até a comunidades inteiras a culpa por atos individuais. Mesmo quando envolviam uma única pessoa – fuga, contrabando de alimentos, posse de rádio, telefone ou arma – as represálias podiam incluir o massacre de dezenas ou centenas. Se um judeu ferisse ou matasse um alemão, punições em larga escala eram desencadeadas. Diante desse terror, a pergunta impõe-se: Como pôde haver resistência?
No início do confinamento em guetos, quando ninguém nem sequer imaginava a possibilidade de um extermínio em massa, a população judaica, preocupada sobretudo com a sobrevivência física, moral e espiritual, demonstrou uma ativa resistência civil. Na maioria dos guetos maiores, surgiram “comunidades paralelas”, redes de organizações assistenciais, religiosas e educacionais com líderes provenientes de instituições judaicas, movimentos juvenis sionistas e partidos do pré-guerra.
Esses grupos estabeleceram escolas, sinagogas, refeitórios, orfanatos, clínicas e abrigos. Uma resistência religiosa entrou em ação para ajudar os judeus a observar, dentro do possível, as leis e os feriados religiosos. Os rabinos continuavam não só a lecionar, mas também a realizar casamentos, Brit Milot e Bar Mitzvot. Em casas clandestinas de orações (cerca de 600 em Varsóvia), havia minyanim. Em muitos casos, as atividades sociais davam cobertura a movimentos políticos, juvenis inclusive, que, em um segundo momento, exerceriam um papel importante na criação de algum tipo de resistência armada.
Dia após dia, mais judeus passaram a registrar a vida sob a ocupação e a deixar testemunhos dos crimes nazistas. Escrever era uma forma de resistência. Quando perceberam que a luta contra a fome estava perdida, os médicos do Gueto de Varsóvia passaram a estudar, “ilegalmente”, os efeitos da inanição. As conclusões foram publicadas no pós-guerra, em Paris.
Para os judeus, era ilegal a posse de rádios e telefones, assim como a publicação de qualquer tipo de periódico ou até de avisos. No entanto, os grupos juvenis e políticos lutavam contra esse isolamento com jornais e boletins clandestinos. As notícias eram compiladas a partir de transmissões de rádios soviéticas ou da BBC captadas com aparelhos escondidos.
A fuga era outra maneira de resistir, mas, mesmo quando se dispunha dos meios e surgia uma oportunidade, as dificuldades eram enormes. Sem ajuda, era quase impossível esconder-se do lado “ariano” e sobreviver. E, quem quer que aceitasse ajudar um judeu sabia que, se descoberto, seria executado. A população não judaica muitas vezes era hostil, em sua sanha antissemita. Além disso, os nazistas contaram com o apoio entusiasmado de ucranianos, lituanos e poloneses.
Como temos informações sobre a vida nos guetos?
Emanuel Ringelblum, historiador e líder comunitário do Gueto de Varsóvia exortava: “Tudo deve ser registrado sem que se omita um único fato. E quando chegar a hora – como certamente há de chegar –, deixem que o mundo o leia e tome conhecimento do que fizeram nossos assassinos”.
Ele idealizou a mais importante coleção de documentos sobre a vida judaica nos guetos: os Arquivos do Oyneg Shabes (Oneg Shabat). Com mais de 35 mil páginas, constituem um testemunho do sofrimento e da vida cultural e espiritual dos judeus de Varsóvia e de outras regiões da Polônia sob ocupação nazista.
Ringelblum e seu grupo de colaboradores não foram os únicos a registrar o dia a dia durante esse período de horror. Em todos os guetos, havia judeus anotando relatos dos acontecimentos e abusos quotidianos. Legaram-nos diários, crônicas e cartas pessoais como as de Adam Czerniaków (líder do Judenräte de Varsóvia) ou Janusz Korczak5, que descrevem as atividades diárias, a escassez de alimentos e o medo. Os médicos e pesquisadores dos guetos estudaram não só a “doença da fome”, mas também epidemias de tifo, tuberculose e disenterias, assim como as estratégias para lidar com trauma e depressão. Os presidentes dos Judenräte mantinham registros administrativos. Já os documentos da Gestapo e da SS têm um tom burocrático, com números de mortos, deportados e racionamentos, além de filmes e fotografias muitas vezes manipulados para uso em propaganda antissemita. Muitos sobreviventes deram depoimentos em julgamentos e instituições como Yad Vashem e a USC Shoah Foundation.
Enquanto os judeus poloneses estavam trancafiados nos guetos, os exércitos de Hitler avançavam pela Europa: Dinamarca e Noruega (1940); Países Baixos, Bélgica e Luxemburgo (1940); França (1940); Iugoslávia e Grécia (1941). Apenas a Grã-Bretanha resistiu e a Alemanha não conseguiu invadi-la.Hitler então voltou-se contra a União Soviética. Desde o início, via o pacto germano-soviético como manobra tática temporária e, em dezembro de 1940, assinou a primeira diretriz da Operação Barbarossa, a invasão da URSS. Já no planejamento, Exército, autoridades policiais e SS definiram uma guerra de aniquilação contra o governo “judaico-bolchevique” e contra civis – sobretudo judeus.
Em 22 de junho de 1941, a invasão alemã começou, dando início à fase mais mortífera do Holocausto.
1 Chefe do RSHA, Reinhard Heydrich (1904-1942) foi o “arquiteto do Holocausto”. Desempenhou um papel central na perseguição e extermínio dos judeus da Europa. Presidiu a Conferência de Wannsee (janeiro de 1942), durante a qual os nazistas implantaram oficialmente a execução do genocídio da população judaica.
2 Os Einsatzgruppen eram unidades móveis de extermínio. Criados pela SS e subordinados a Heydrich, atuaram sobretudo na Polônia e na URSS ocupada (a partir de 1941). Seu papel principal foi a execução em massa de judeus, comunistas, romani (ciganos) e outros “inimigos do Reich”.
3 Nos guetos, as crianças e os idosos também eram forçados a trabalhar.
4 Para os nazistas, o batismo não alterava a classificação racial judaica e “judeus-cristãos” eram obrigados a viver em guetos.
5 Janusz Korczak (1878/79–1942), médico pediatra, educador e escritor judeu-polonês, dirigiu o orfanato Dom Sierot em Varsóvia (mantido também durante o período do Gueto). Recusou ofertas de fuga e seguiu com as crianças na deportação de agosto de 1942 para Treblinka, onde foi assassinado.
Bibliografia
Dawidowicz, Lucy, The War Against the Jews: 1933-1945
Marrus, Michael R., The Holocaust in History
Ringelblum, Emmanuel, Notes From The Warsaw Ghetto: The Journal Of Emmanuel Ringelblum (edição em inglês) eBook Kindle