Durante décadas, a consagração de Berlim como um dos grandes centros da moda europeia foi deliberadamente excluída da história. O silêncio que se impôs não foi fortuito: acompanhou a destruição sistemática de um setor cuja força criativa e projeção internacional estavam intimamente ligadas ao talento e ao empreendedorismo de empresários e designers judeus.
Por Tânia Tisser Beyda
Na década de 1980, o acaso conduziu Uwe Westphal, jovem jornalista recém-formado, a atuar no caderno de moda do jornal Der Tagesspiegel (Espelho do Cotidiano). Esse fato aparentemente fortuito possibilitou que viesse à luz, em 1986, por meio do livro Berliner Konfektion und Mode: die Zerstörung einer Tradition, 1836-1939 (Confecção e Moda de Berlim: Aniquilação de uma Tradição) a existência, à época, de uma próspera indústria da moda em Berlim, impulsionada majoritariamente por costureiras, comerciantes, artesãos, alfaiates judeus. Mas o que teria levado o mundo a esquecer a história dos fundadores das casas de moda que fizeram de Berlim a capital europeia da moda?
Westphal dedicou-se a uma pesquisa que se estendeu por mais de 30 anos, realizando sucessivas ampliações e atualizações de sua obra. A versão mais recente foi publicada em 2024, sob o título Fashion Metropolis, Berlin: 1836–1939. The Story of the Rise and Destruction of the Jewish Fashion Industry (Metrópole da Moda, Berlim: 1836-1939. A História da Ascensão e Destruição da Indústria Judaica da Moda). Como jornalista, Westphal frequentou desfiles de moda em Paris, Londres, Milão e Nova York, tendo a oportunidade de conhecer designers e empresários judeus que tinham vivido e trabalhado em Berlim. Foram eles que relataram suas experiências na capital alemã durante a década de 1920, descrevendo o glamour e a inovação da moda berlinense nos anos da República de Weimar. Relataram também os episódios de sua fuga quando o regime nazista assumiu o poder.
Intrigado por histórias que jamais haviam sido documentadas, Westphal publicou anúncios em diversas revistas e associações judaicas na Inglaterra, em Israel, na Austrália e nos Estados Unidos, solicitando informações sobre aquele período. Em poucas semanas, passou a receber caixas contendo documentos, fotografias e cartas provenientes de diferentes partes do mundo. Sua atuação como repórter também lhe permitiu pesquisar arquivos na Alemanha, na Polônia, em Israel, na Austrália, nos Estados Unidos e na Inglaterra, além de entrevistar e se corresponder com inúmeras fontes, incluindo designers judeus e antigos empresários do setor.
Já em sua primeira edição, o autor publicou não apenas os nomes dos judeus que construíram carreira em Berlim, mas também daqueles que se apropriaram de negócios expropriados e dos que lucraram com o trabalho forçado nos campos de concentração. Como era de se esperar, houve reações adversas e hostis. Tratava-se de um período em que empresários e estilistas do pós-guerra na Alemanha haviam lançado um véu de silêncio e acobertamento sobre o passado. Não havia interesse em expor a realidade vivida pela indústria naquele contexto. Ainda assim, Westphal prosseguiu com sua pesquisa e documentação histórica, contribuindo para que cerca de 70 judeus conseguissem negociar indenizações reparatórias junto ao governo alemão.
EXCLUSÃO E RESTRIÇÕES LEGAIS (SÉCULOS 13-18)
A presença judaica na indústria da vestimenta em Berlim remonta a 1288, quando a Guilda1 de Alfaiates da cidade recebeu autorização oficial para funcionar. Os judeus, contudo, eram proibidos de integrar essas corporações e de exercer a profissão de alfaiate. Na mesma ocasião, foi vedado aos cidadãos não pertencentes às guildas comercializar vestimentas nas feiras semanais onde anteriormente os judeus haviam liderado o comércio de roupas de segunda mão e artigos pré-fabricados. Restou-lhes apenas a possibilidade de atuar comercialmente dentro da própria comunidade judaica.
Essa exclusão institucional perdurou por séculos, limitando severamente a inserção econômica dos judeus no setor do vestuário. Foi apenas no século 17 que surgiram as primeiras aberturas regulatórias, quando Frederico Guilherme, conhecido como o “Grande Eleitor”2 de Brandemburgo, concedeu aos judeus o direito de comercializar roupas novas e usadas. Essa medida enfraqueceu a hegemonia das guildas e favoreceu um ambiente mais competitivo. Ainda assim, a reação dos alfaiates cristãos foi marcada por crescente hostilidade antissemita, intensificada à medida que o setor se desenvolvia.
No início do século 18, políticas econômicas reforçaram a produção local. Em 1719, o rei Frederico Guilherme I da Prússia determinou que todos os súditos deveriam utilizar roupas fabricadas no território prussiano. Poucos anos depois, em 1731, uma nova regulamentação declarou nulas as guildas e associações profissionais. Apesar dessas transformações, a maior parte da população judaica permanecia em extrema pobreza, sem direitos civis ou políticos, à exceção de uma pequena elite ligada ao comércio da seda. Nesse contexto, em 1741, o comerciante Jacob Israel obteve licença para abrir um negócio de roupas usadas. Em 1815, seu sobrinho Nathan Israel recebeu autorização para comercializar roupas novas, iniciativa que daria origem à mais célebre loja de departamentos de Berlim.
EMANCIPAÇÃO E CONSOLIDAÇÃO ECONÔMICA
Um marco decisivo ocorreu em 1812, com a promulgação da lei conduzida pelo primeiro-ministro Karl August von Hardenberg, que concedeu igualdade jurídica aos judeus na Prússia. Essa medida, combinada às liberdades comerciais já conquistadas, propiciou um rápido desenvolvimento econômico de alfaiates e comerciantes judeus, transformando Berlim em um centro dinâmico de empreendedorismo.
A cidade passou a atrair judeus provenientes da Ucrânia e da Polônia, que fugiam dos pogroms da década de 1820. Parte desses imigrantes reforçou a mão de obra já estabelecida nessa indústria, enquanto outros abriram pequenos negócios e passaram a atuar como fornecedores do setor. Apesar dos avanços legais, os judeus continuavam a ser socialmente estigmatizados como estrangeiros e intrusos na cidade.
Em meados do século 19, já existiam cerca de 100 confecções concentradas no entorno da praça Hausvogteiplatz no distrito de Mitte, região central de Berlim. Novas rotas comerciais foram estabelecidas, e o mercado doméstico passou por significativa ampliação. Comerciantes têxteis, alfaiates e fornecedores judeus, em contraste com empresários tradicionais ligados às antigas corporações, apresentavam maior experiência prática e maior disposição para incorporar inovações produtivas e comerciais.
INOVAÇÃO E PROJEÇÃO INTERNACIONAL
Pesquisas indicam que, já por volta de 1830, havia produção seriada de roupas realizada por alfaiates não vinculados às guildas. Para muitos alfaiates judeus, esse modelo representava a única forma viável de subsistência profissional. Os fabricantes judeus assimilaram rapidamente as tendências da moda oriundas de Paris e Londres, produzindo roupas modernas e desenvolvendo novos designs comercializados em toda a Alemanha e no exterior.
Esse modelo de produção ficou conhecido como Berliner Konfektion, caracterizando-se pela adaptação da alta-costura parisiense ao sistema de prêt-à-porter, com preços acessíveis e tamanhos padronizados. O estilo resultante, denominado “Berlin Chic”, consolidou-se como uma expressão própria da moda berlinense. Embora o prêt-à-porter já tivesse sido implantado em Paris em 1770 e, em Hamburgo, em 1799, sua consolidação em Berlim ocorreu de forma decisiva apenas na segunda metade do século 19.
A introdução da máquina de costura constituiu uma inovação tecnológica fundamental para a expansão do setor. Até aproximadamente 1830, alfaiates e costureiras realizavam o trabalho manualmente, sendo que os profissionais mais experientes alcançavam entre 30 e 50 pontos por minuto. Com a difusão da máquina de costura – inventada por Elias Howe e posteriormente aperfeiçoada por Isaac Merritt Singer –, a produtividade aumentou substancialmente, chegando a cerca de 300 pontos por minuto. Embora Singer tenha nascido nos Estados Unidos e haja controvérsias quanto à sua possível descendência judaica, seu impacto sobre a eficiência e a escala da indústria do vestuário é amplamente reconhecido.
As lojas de departamentos passaram a atender à crescente demanda por modernidade e entretenimento, estimulando o consumo frequente. A moda, anteriormente restrita aos círculos aristocráticos, tornou-se elemento central da vida social da classe média alemã. Esse processo foi acompanhado pelo fortalecimento da imprensa especializada, com destaque para revistas como Die Dame, Die elegante Welt, Der Bazar, Der Silberspiegel e Die Neue Linie, que alcançavam tiragens de centenas de milhares de exemplares. Em 1840, havia aproximadamente 800 jornais e revistas em língua alemã em circulação, muitos dos quais reconheceram precocemente o potencial comercial do tema da moda.
O clima liberal que havia caracterizado as décadas anteriores foi progressivamente substituído por debates políticos cada vez mais polarizados, intensificando os conflitos entre uma classe trabalhadora mal remunerada e uma elite urbana economicamente consolidada. Nesse contexto, não tardaram a emergir discursos de caráter manipulatório que passaram a atribuir aos empresários judeus, até então bem-sucedidos, a responsabilidade pela crise econômica iniciada em 1873, reativando um antissemitismo que permanecera relativamente latente. A precariedade das condições de vida da classe trabalhadora foi frequentemente imputada aos judeus, de forma quase exclusiva, desconsiderando-se a presença expressiva de empresários cristãos.
Diversos agentes intelectuais contribuíram para a difusão e legitimação dessas interpretações. O teólogo protestante Adolf Stoecker desempenhou papel central na popularização do antissemitismo político a partir de 1879, encontrando terreno fértil para suas formulações. O jornalista Wilhelm Marr articulou uma crítica anticapitalista associada ao ressentimento antijudaico, enquanto o historiador Heinrich von Treitschke advertia para um suposto perigo representado pela crescente influência judaica na vida pública, nos mercados financeiros e na imprensa.
Essas construções ideológicas encontraram ressonância em amplos segmentos da sociedade, ainda que por motivações distintas. A burguesia conservadora aspirava ao restabelecimento de uma classe média que se percebia ameaçada pela intensificação da concorrência e pelos efeitos da industrialização, enquanto a classe trabalhadora buscava condições laborais mais favoráveis. Considerando a posição de destaque ocupada pelos judeus no setor de vestuário e sua relevância para a economia berlinense, essa indústria tornou-se um alvo preferencial das campanhas antissemitas. Tornaram-se recorrentes acusações de desvio das práticas comerciais vigentes e mesmo de comportamentos criminosos, como o suposto contrabando sistemático.
A participação expressiva de empresários judeus em associações comerciais foi igualmente interpretada como indício de influência excessiva, alimentando suspeitas, acusações e iniciativas de combate direcionadas ao grupo. Apesar das tensões, a crise econômica e política iniciada em 1873 não interrompeu de forma definitiva a trajetória de crescimento da indústria do vestuário berlinense. Embora tenha provocado retração do consumo e contribuído para o agravamento do discurso antissemita, o setor demonstrou capacidade de adaptação e recuperação. Na década de 1890, Berlim consolidou-se como um importante polo de confecções de prêt-à-porter, além de centro de produção e comércio de peles, tecidos e acessórios.
Nesse período, 371 negócios do setor pertenciam a judeus, correspondendo a aproximadamente 85% da moda feminina produzida na cidade. Estima-se que, então, cerca de 90 mil alfaiates e costureiras atuassem na região da Grande Berlim, evidenciando a centralidade econômica e social da indústria do vestuário.
Cultura urbana, moda moderna e as guerras
A moda produzida em Berlim dispensava o uso de espartilhos rígidos e oferecia roupas adequadas ao cotidiano, conciliando funcionalidade, qualidade e preço. O crescimento do número de mulheres inseridas no mercado de trabalho em atividades administrativas e nos escritórios atribuiu às roupas casuais um significado simbólico associado à emancipação feminina. As calças deixaram de ser exclusividade masculina, enquanto os comprimentos de saias e vestidos se encurtaram e a linha da cintura deslocou-se em direção aos quadris.
Durante a 1a Guerra Mundial, o setor enfrentou um declínio significativo de suas exportações, em decorrência de boicotes impostos por países europeus e pelos Estados Unidos. Ainda assim, algumas nações – entre elas Argentina e Brasil – continuaram a importar produtos berlinenses, reconhecidos por sua elevada qualidade e pelo refinamento de seu design. Com o término do conflito e a implementação da reforma monetária, a indústria do vestuário voltou a prosperar, contribuindo para a consolidação de Berlim como uma metrópole internacional da moda, sustentada por um setor altamente produtivo.
Nesse contexto de retomada econômica, as lojas de departamentos passaram a se destacar pela experiência oferecida aos consumidores. A combinação de decoração interior elaborada, uso extensivo de superfícies espelhadas, arquitetura moderna, grandes dimensões físicas e elevado padrão de serviços transformava esses estabelecimentos em espaços de consumo e entretenimento, reforçando seu papel central na vida econômica e cultural da cidade.
Após a 1a Guerra Mundial, a indústria da moda em Berlim atingiu um novo patamar de expansão econômica e visibilidade cultural, que se expressaria de forma particularmente intensa ao longo da década de 1920. A inovação e a disposição ao risco figuravam entre as características dos empreendimentos judaicos em Berlim. Esses empresários destacaram-se como pioneiros na adoção de práticas comerciais modernas, como o uso sistemático da propaganda, a venda por correspondência, a instalação de linhas telefônicas nos ambientes de trabalho e a consolidação do modelo das lojas de departamentos. Mantinham presença constante em feiras internacionais, onde buscavam novos produtos, referências estéticas e oportunidades de expansão. Atuavam de forma transversal no mercado, atendendo tanto ao segmento popular por meio das chamadas lojas de desconto, quanto ao mercado de maior valor agregado voltado à classe média urbana. A esse dinamismo somavam-se a elevada mobilidade geográfica e as redes internacionais sociais e de parentesco, que viabilizavam estratégias de crescimento baseadas na importação e na exportação.
Como resultado, a indústria da moda de Berlim afirmou-se progressivamente como uma referência de alcance internacional. A vitalidade cultural da cidade desempenhou papel decisivo nesse percurso. A estreita articulação entre moda, artes e vida urbana estimulava a criatividade e favorecia a experimentação estética. Arquitetos ligados à Bauhaus3 influenciaram a adoção de linhas mais simples e funcionais, enquanto compositores, atores e diretores de musicais e filmes populares incorporaram temas da moda ao cotidiano cultural berlinense.
Nesse contexto de expansão cultural e artística, a influência das artes visuais e da arquitetura tornou-se particularmente evidente após 1925. Destaca-se a contribuição de Sonia Delaunay (1885–1979), artista e designer nascida Sarah Stern, em uma família judaica, no Império Russo (atual Ucrânia).
Tendo estudado na Alemanha e na França, Delaunay introduziu na moda o mesmo espírito de vanguarda presente em sua obra pictórica. A artista desenvolveu o conceito de “simultaneísmo”, no qual cores e formas interagem de maneira dinâmica, produzindo uma vibração visual específica. Essa abordagem contribuiu para a consolidação de uma identidade própria da moda berlinense, afastando-a da percepção de mera imitadora de tendências internacionais. A atuação de Sonia Delaunay abrangeu as artes plásticas, a poesia, a decoração de interiores, o design de roupas, tecidos, carpetes e bolsas, além da criação de figurinos para balé, teatro, cinema e ópera. Seu legado exerceu influência duradoura sobre a relação entre arte e moda, alcançando designers como Yves Saint Laurent e dialogando com princípios estéticos da Bauhaus. Em 1964, tornou-se a primeira mulher artista viva a ter uma exposição retrospectiva no Museu do Louvre.
A cena artística e cultural da cidade estimulou, assim, a criatividade do setor, integrando moda, arquitetura, música, teatro e cinema ao cotidiano urbano. Nesse ambiente, a indústria berlinense de vestuário alcançou reconhecimento e lucratividade comparáveis aos da alta-costura parisiense, contribuindo para que estilistas judeus fossem considerados importantes formadores de tendências na Europa.
Os fundadores da moda em Berlim
A formação da indústria da moda em Berlim, ao longo do século 19 e início do século 20, esteve associada à consolidação do prêt-à-porter, à modernização dos processos produtivos e à expansão do varejo urbano. Esse desenvolvimento foi impulsionado por empresários que introduziram a produção em série, o conceito dos preços fixos, as redes de distribuição ampliadas e novas formas de integração entre consumo, informação e vida urbana.
Entre os pioneiros destacou-se Valentin Manheimer, fundador da empresa V. Manheimer, que introduziu em Berlim a produção seriada de casacos voltada à burguesia urbana. Sua empresa tornou-se um símbolo da modernização da moda berlinense, chegando a empregar cerca de 8 mil trabalhadores. Após sua morte, em 1889, o negócio permaneceu sob controle familiar até ser vendido em 1931, em meio à crise econômica.
Outro nome central foi Hermann Gerson, com um comércio especializado inicialmente em seda, rendas e bordados, e posteriormente na produção seriada de casacos femininos. Já em 1848, sua empresa apresentava uma estrutura industrial complexa, com centenas de trabalhadores e milhares de alfaiates associados. Reconhecida internacionalmente, a marca atendia a aristocracia prussiana e a Corte real, consolidando-se como referência no segmento de moda feminina.
No campo do grande varejo, destacaram-se as lojas Wertheim, fundadas por Georg Wertheim em 1875. A rede tornou-se uma das maiores da Alemanha, associando luxo, modernidade e arquitetura monumental. O edifício da Leipziger Platz figurava entre os mais emblemáticos da Berlim do período. Durante o regime nazista, a empresa foi alvo do processo de arianização (expropriação forçada) que atingiu sistematicamente os estabelecimentos judaicos.
Também relevante foi a empresa fundada por Rudolph Hertzog, que desde 1839 operava como uma das maiores lojas de departamentos da cidade. Seu catálogo abrangia tecidos, vestuário pronto, artigos domésticos e serviços de venda por correspondência, responsável por uma parcela significativa da receita. A empresa destacou-se pela inovação logística e pela escala operacional, empregando mais de 2 mil funcionários em seu edifício inaugurado em 1908. Trata-se do único empreendimento da primeira geração do prêt-à-porter cuja trajetória, durante o nacional-socialismo, permanece objeto de controvérsia – se foi arianização ou a propriedade mantida em virtude da assimilação da família.
Por fim, a Casa N. Israel, fundada em 1815 por Nathan Israel, destacou-se por sua longevidade e organização empresarial. Ao longo de quatro gerações, atuou no atacado, varejo e exportação, mantendo elevados padrões comerciais e práticas sociais avançadas, como a criação de um fundo de pensão em 1895 e iniciativas culturais e editoriais. A empresa empregava cerca de 2 mil pessoas em 1925 e operava exclusivamente com capital próprio, o que retardou sua arianização. Ainda assim, foi alvo de boicote em 1933 até ser vendida em 1938, com a arianização formalizada em 1939. Essas empresas e seus fundadores foram decisivos para transformar Berlim em um dos principais centros europeus da moda e do vestuário.
A economia Judenfrei, “livre de judeus”
No início da década de 1930, com a ascensão do regime nazista ao poder, o setor de vestuário passou a ser alvo de perseguição sistemática. Lojas e estilistas judeus foram acusados de representar uma suposta “decadência judaica” por meio da moda prêt-à-porter, que representava a modernidade e a emancipação feminina condenadas pelo discurso nazista.
Embora a República de Weimar (1919–1933) tenha criado condições sociais favoráveis à expressão individual e à diversidade cultural, parte significativa da população se opunha a essas transformações. Esse grupo identificou-se rapidamente com o discurso antissemita nazista, que atribuía aos judeus a disseminação de valores considerados indesejáveis. Para os judeus alemães, a possibilidade de ruptura com os direitos civis conquistados ao longo de aproximadamente um século parecia, até então, inimaginável. O reconhecimento formal de sua condição de cidadãos alemães havia permitido resultados expressivos no setor de vestuário. No entanto, com a chegada de Adolf Hitler ao poder, esse legado foi rapidamente desmontado por meio da exclusão forçada e sistemática dos judeus e da arianização da moda berlinense.
Cronologia
Em 28 de fevereiro de 1933, um decreto assinado por Hitler anulou direitos fundamentais, como liberdade de expressão, liberdade de imprensa, liberdade de reunião e sigilo de correspondência, autorizando o Estado a confiscar ou restringir a propriedade privada.
Em 14 de março de 1933, foi promulgado o Ato de Revogação da Naturalização e da Cidadania Alemã, que anulou as naturalizações concedidas após 9 de novembro de 1918 e possibilitou a retirada da cidadania de indivíduos considerados “inimigos do Reich”. A medida afetou especialmente os judeus que haviam imigrado para a Alemanha após a 1a Guerra Mundial e atuavam no setor de vestuário.
Nos meses de março e abril de 1933, associações comerciais foram reestruturadas e judeus perderam cargos e posições de liderança. Em abril do mesmo ano, o regime impôs boicotes às empresas judaicas, acompanhados de campanhas violentas e ataques a seus proprietários e clientes. A Adefa – Arbeitsgemeinschaft deutsch-arischer Fabrikanten der Bekleidungsindustrie – Associação dos Produtores Arianos de Vestuário exigia a filiação compulsória de todos os negócios do setor e instituiu uma etiqueta que indicava que as roupas haviam sido produzidas por trabalhadores arianos de “raça pura”.
Em janeiro de 1934, foi publicado o Ato para Organizar o Trabalho Nacional, que extinguiu todos os sindicatos e consolidou a Deutsche Arbeitsfront (Frente Alemã do Trabalho – DAF), organização que reunia empresários e trabalhadores e funcionava como instrumento de controle político, social e ideológico. Trabalhadores judeus foram excluídos, embora tenham existido algumas exceções para empresários judeus. Foi a DAF que ajudou a organizar a força de trabalho para a indústria da guerra por meio de trabalho forçado, especialmente de estrangeiros e prisioneiros.
Em setembro e novembro de 1935 foram promulgadas as Leis de Nuremberg, que definiram categorias raciais e revogaram a cidadania alemã de todos os judeus. Em março de 1936, empresas judaicas foram proibidas de manter relações bancárias, incluindo contas, empréstimos e seguros, o que forçou sua liquidação.
Em abril de 1938, foi emitida a Ordenança contra a Ocultação de Empresas Judaicas, que proibia estratégias destinadas a dissimular a condição judaica dos negócios. Simultaneamente, foi publicada a Ordenança sobre a Declaração do Patrimônio dos Judeus, obrigando a declaração detalhada de bens e preparando, assim, para o confisco sistemático da economia judaica. O decreto não confiscava imediatamente os bens, entretanto retirava o controle econômico do proprietário, legalizando as vendas forçadas, confiscos e arianização completa da economia. Estima-se que os negócios vendidos nesse contexto sofressem perdas de valor da ordem de 40% e que cerca de 35% dos negócios foram levados à falência ou a cessão forçada a proprietários arianos.
A perseguição intensificou-se com a exclusão dos judeus do mercado de capitais, a proibição do exercício profissional e a marcação de passaportes com a letra “J”, de Jude. Em 9 e 10 de novembro de 1938, ocorreu o pogrom conhecido como Kristallnacht (“Noite dos Cristais”), caracterizado por ataques coordenados que destruíram centenas de sinagogas, lojas e residências de famílias judias, atacaram indivíduos judeus, resultando em mortes e na prisão de cerca de 30 mil judeus, enviados a campos de concentração. Em 12 de novembro de 1938, os judeus foram banidos de todos os setores da economia alemã (com poucas exceções) e, finalmente, em 6 de dezembro de 1938, os judeus foram proibidos de entrar em certas áreas da cidade, inclusive onde se localizava o centro da moda em Berlim – a Hausvogteiplatz, acelerando a arianização dos negócios.
Em 1939, restavam apenas 90 das aproximadamente 2.700 casas de moda judaicas existentes seis anos antes. A maioria havia sido fechada ou arianizada, e seus proprietários, quando não conseguiram emigrar, foram presos e posteriormente enviados a campos de concentração ou de trabalho forçado.
A perseguição ideológica possuía também um objetivo econômico explícito: a apropriação de capital, propriedades e fábricas judaicas, posteriormente utilizadas com mão de obra forçada. Cerca de 18 campos de trabalhos forçados produziram uniformes e vestuário para atender às demandas da indústria alemã. Empresas como Hugo Boss, C&A e Joseph Neckermann beneficiaram-se da produção em escala industrial com mão de obra forçada. Em 1942, aproximadamente 3,9 milhões de peças de vestuário feminino foram produzidas nesses campos.
A arianização do setor da moda produziu impactos significativos sobre a economia alemã, que dependia fortemente do elevado volume de exportações. À medida que o processo de exclusão resultou na perda de designers, alfaiates e empresários mais experientes, observou-se um declínio progressivo na qualidade da produção, perceptível sobretudo nos mercados externos.
Essa deterioração comprometeu a reputação internacional da moda alemã e reduziu o interesse de grandes compradores estrangeiros. Paralelamente, empresários e designers judeus que conseguiram emigrar e se estabelecer em outros países passaram a atuar como concorrentes diretos no mercado europeu, alavancando a experiência produtiva e as redes comerciais que haviam sido formadas em Berlim. São exemplos: Loewing & Dannenbaum (Inglaterra) e Kurt Ehrenfreund (Amsterdã), que emigraram antes de 1938.
Alguns empresários e designers judeus conseguiram reconstruir trajetórias profissionais bem-sucedidas no exílio, especialmente nos Estados Unidos. Entre esses casos destaca-se Leopold Seligmann, que deixou a capital alemã em 1937 e se estabeleceu em Albuquerque, no Novo México, Estados Unidos, onde, ao longo de cerca de 15 anos, construiu a segunda maior indústria de vestuário do país.
Outro exemplo é Norbert Jutschenka, cuja empresa foi submetida a uma venda forçada no contexto da arianização. Após emigrar para Nova York e adotar o nome Norbert Jay, conseguiu restabelecer-se profissionalmente, sendo reconhecido como um dos agentes da renovação estética da moda. A esse conjunto soma-se Ernst Dryden, ilustrador e diretor artístico formado no ambiente cultural da Berlim da República de Weimar, que, no exílio norte-americano, desempenhou papel relevante na difusão de uma linguagem visual moderna no campo da moda e da publicidade.
Essas trajetórias evidenciam que a perseguição promovida pelo regime nazista resultou, além da expropriação e assassinato de milhões de judeus, também na transferência forçada de capital humano e criativo, que passou a moldar de forma decisiva a moda internacional ao longo do século 20.
Tânia Tisser Beyda é consultora em Gestão Empresarial, Doutora e Mestre em Administração e Arquiteta.
1 Uma guilda era uma corporação que reunia artesãos do mesmo ofício para regular e estabelecer normas técnicas e comerciais.
2 O título de Eleitor (Kurfürst, em alemão) designava os príncipes com direito exclusivo de eleger o imperador.
3 Bauhaus: escola alemã (1919–1933) que revolucionou o design moderno ao unir arte e produção industrial.
Tânia Tisser Beyda é consultora em Gestão Empresarial, Doutora e Mestre em Administração e Arquiteta.
Bibliografia
WESTPHAL, Uwe. Fashion Metropolis Berlin: 1836–1939: the story of the rise and destruction of the Jewish fashion industry. Berlin: Hentrich & Hentrich Verlag, 2024.
GOLDSTEIN, Leah. Fashion Metropolis Berlim. Yad Vashem Jerusalem, v. 90, out. 2019.
BERKELEY NEWS. Berkeley Talks transcript: The rise and destruction of the Jewish fashion industry. Disponível em: https://news.berkeley.edu/2023/11/03/berkeley-talks-transcript-the-rise-and-destruction-of-the-jewish-fashion-industry.
BERGHAUSEN, B. Kaufhaus Rudolph Hertzog. Archivspiegel, 03 jul. 2016. Disponível em: https://www.archivspiegel.de/wirtschaftsgeschichte/kaufhaus-rudolph-hertzog/https://www.archivspiegel.de/wirtschaftsgeschichte/kaufhaus-rudolph-hertzog/.
LADWIG-WINTERS, Simone. The Attack on Berlim Department Stores (Warenhaeuser) After 1933. Shoah Resource Center, The International School for Holocaust Studies.
WESTPHAL, Uwe. Uwe Westphal Collection, 1836-1993. Leo Baeck Institute – The Center for Jewish History ArchivesSpace. Disponível em: https://archives.cjh.org/repositories/5/archival_objects/492961.
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