Localizado na América do Norte, o Canadá é o segundo maior país do mundo. A história da comunidade judaica canadense – a quarta maior do mundo – espelha a singularidade do país. A persistente dualidade franco-inglesa atenuou a pressão por um nacionalismo único e excludente, reduzindo acusações de “dupla lealdade”.
Embora inserido nas Américas, o Canadá não reproduziu, ao menos em teoria, o mesmo secularismo, espírito democrático, nacionalismo ou liberalismo atribuído aos Estados Unidos. Ainda assim, ofereceu a judeus que se estabeleceram em suas terras a promessa de liberdade e de ascensão material para si e seus filhos.
O antissemitismo que hoje aflige o Canadá não é um “fenômeno” novo. Em Quebec, há registros nesse sentido desde o fim do século 19, com picos nos entreguerras e na 2a Guerra, e retomadas em períodos de tensão política. Mas, nas últimas décadas, o antissemitismo vem se reacendendo. Os indicadores voltaram a subir ainda mais em anos recentes: relatórios anuais e estatísticas oficiais registram recordes e apontam os judeus como o grupo religioso mais visado em 2024. Grandes manifestações contra Israel – sobretudo em Toronto, Montreal e Vancouver – e atos de vandalismo ampliaram a sensação de insegurança na comunidade judaica. Na arena internacional, o Canadá, historicamente visto como pró-Israel, mudou seu posicionamento adotando posições bastante críticas em relação ao Estado Judeu em foros multilaterais e em declarações governamentais recentes.
Domínio francês e transição britânica
O primeiro marco francês no Canadá data de 1534, quando Jacques Cartier reivindicou o vale do São Lourenço em nome da Coroa francesa. O domínio efetivo, no entanto, começou em 1608, com Samuel de Champlain. No período da Nova França, as leis coloniais proibiam o assentamento de judeus e de protestantes. Ainda assim, houve judeus envolvidos no comércio com colônias francesas nas Américas e é possível que alguns comerciantes de Quebec fossem conversos.
A presença judaica só teve início, de fato, após a derrota da França. A primeira comunidade judaica do Canadá, a Shearith Israel, foi criada em Montreal em dezembro de 1768. A congregação adotou o nome da principal sinagoga de Nova York e, embora buscasse orientação religiosa em Londres, manteve laços estreitos com as comunidades de Nova York e Filadélfia. Apesar de ser constituída majoritariamente por ashquenazitas, essa kehilá 1 seguia a liturgia sefaradita.
Os judeus de Montreal mantinham estreitas relações comerciais com mercadores britânicos que dominavam a economia, daí se beneficiando de conexões políticas com Londres. Destacou-se, na região, Aaron Hart, nascido em Londres, que chegara no Canadá com as forças britânicas em 1760. Fixou-se em Trois-Rivières, dedicando-se ao comércio de peles. Com o tempo foi adquirindo propriedades, até fundar uma dinastia mercantil e política.
Em sua maioria, os judeus que se estabeleceram no Canadá eram comerciantes de língua inglesa e integravam a elite administrativa e comercial britânica. A maioria deles havia nascido nas Treze Colônias americanas ou na Inglaterra. Durante a Revolução Americana de 1776, mantiveram lealdade à Coroa britânica, embora defendessem um grau de autogoverno equivalente ao das antigas colônias.
Coube a Ezekiel Hart, segundo filho de Aaron, pagar o preço do conflito interno entre ingleses e franceses. Eleito em 1804 para a Assembleia do Baixo Canadá2, foi impedido de assumir por ser judeu e, consequentemente, por não poder prestar o costumeiro juramento cristão. Reeleito, foi novamente expulso e abandonou a disputa. No Baixo Canadá a proibição de judeus ocuparem cargos seria revogada apenas em 1831, pondo um fim à sua condição de “cidadãos de segunda classe”.
Montreal, Toronto e outras cidades no século 19
Com a prosperidade de Montreal – centro do comércio de importação e exportação – prosperaram também os judeus que lá viviam. Em 1847, o eminente rabino sefardita e erudito Abraham de Sola chega à cidade, proveniente de Londres. Pelos 35 anos seguintes, ele atuou como líder religioso da comunidade, conquistando grande prestígio dentro e fora da mesma. O rabino de Sola manteve vínculos com o meio intelectual e social judaico que se estendia de Londres a Filadélfia.
Nas últimas décadas do século 19, judeus ingleses, alemães, alsacianos e poloneses se fixaram em Montreal. Em 1846, formou-se uma congregação de liturgia ashquenazita e, no ano seguinte, foi fundada a Hebrew Benevolent Society para apoiar os recém-chegados. Na época, os judeus da cidade eram, em sua maioria, pequenos comerciantes. Poucos atuavam nos grandes setores nacionais, nas finanças, transportes e manufaturas. A primeira sinagoga de Quebec City foi aberta em 1852. Sua congregação era composta de judeus alemães e ingleses.
Um pequeno número de ashquenazim – alemães, ingleses, austríacos e poloneses – se estabelecera em Toronto, Hamilton e Victoria, onde fundaram sinagogas. Em Toronto, criaram em 1856 o Holy Blossom Temple, de liturgia ashquenazita; em Hamilton, em 1850, a Anshe Sholom também ashquenazita. A sinagoga de Victoria, a Congregation Emanu-El, foi aberta em 1863, seguindo o rito ashquenazita com influências sefarditas. A sinagoga é, hoje, a mais antiga ainda em uso no Canadá. Nessas três cidades, a maioria dos judeus vivia do comércio de miudezas, tabaco e roupas baratas, grande parte vendida a lojistas do interior. O varejo e o atacado de vestuário abriram caminho para a manufatura de roupas e o tabacopara a fabricação de charutos e cigarros em pequenas fábricas urbanas.
Até o fim do século 19, as comunidades judaicas do Canadá eram relativamente isoladas entre si. Em Montreal, a chegada de imigrantes do Leste Europeu, que fugiam da pobreza e de perseguições, impulsionou a assistência organizada, liderada pelo Baron de Hirsch Institute (antiga Young Men’s Hebrew Benevolent Society), que coordenou a ajuda aos recém-chegados. Em Toronto e em Winnipeg foram sendo criadas associações com a mesma finalidade. As pressões por coordenação comunitária aumentaram ainda mais com o crescimento do fluxo de judeus. Entre 1880 e 1900, cerca de 10 mil judeus chegaram ao Canadá. A população judaica do país saltou de menos de 2.500 para mais de 16 mil – um crescimento proporcional superior ao da população nacional.
Imigração do Leste Europeu e trabalho
A maioria dos judeus recém-chegados (russos, austro-húngaros, romenos) não falava inglês nem tinha experiência comercial. Um alto funcionário do governo canadense propôs, em 1882, a migração de “judeus agricultores para o nosso Noroeste”. Incentivou-se, então, seu assentamento nas planícies do Oeste, daí surgindo colônias agrícolas, em geral pouco duradouras. Mas, no conjunto, prevaleceu a fixação urbana: muitos se tornaram mascates, recebendo pequenos empréstimos de instituições como o Baron de Hirsch Institute.
Outros ingressaram na indústria de confecções, então em expansão, aceitando baixos salários e difíceis condições de trabalho. A imprensa judaica denunciou abusos nessa indústria e defendeu a formação profissional em outros ofícios. Nas primeiras décadas do século 20 a indústria do vestuário era de vital importância na vida econômica judaica. Em 1931, 16% dos judeus com ocupação, em Montreal, trabalhavam no setor; em Toronto, mais de 27%, percentuais que haviam sido ainda mais altos em décadas anteriores.
Antissemitismo no final do século 19 e início do 20
O aumento da imigração judaica intensificou tensões sociais, dando origem ao crescimento do antissemitismo. Universidades e clubes adotam cotas e barreiras informais; adotaram também cláusulas restritivas em escrituras que passaram a excluir judeus de certos bairros e resorts. E organizações religiosas cristãs pressionam os judeus ortodoxos quanto à observância do domingo.
Em Quebec, a grande imprensa francófona tendia à neutralidade, mas setores católicos ultramontanos difundiam retórica antissemita. O jornal La Vérité, por exemplo, conclamava os leitores a “ficar de guarda contra os judeus, para impedir que se estabeleçam aqui…”.
Em Montreal, os grandes diários evitaram a animosidade, com exceção do The True Witness e o Daily Chronicle, que, nos julgamentos de Alfred Dreyfus3, posicionaram-se contra o capitão francês.
Em Toronto, o intelectual Goldwin Smith tornou-se notório por seu virulento antissemitismo. Atribuía aos judeus uma “influência desmedida na imprensa”, desferia ataques ao primeiro-ministro britânico Benjamin Disraeli – a quem chamava de “aventureiro e trapaceiro desprezível” por ser judeu – e chegou a vincular a Guerra dos Bôeres a supostos interesses judaicos.
Em 1920, o psiquiatra C. K. Clarke opôs-se à entrada de crianças judias refugiadas da Ucrânia por “pertencerem a uma raça neurótica”.
No meio acadêmico, multiplicaram-se as restrições: em 1919, o diretor da Queen’s University afirmou que a entrada de “muitos judeus” rebaixaria o nível da instituição, enquanto que a universidade McGill reduziu matrículas judaicas e, nos entreguerras, impôs cotas rígidas.
Em Quebec, mitos medievais – inclusive o libelo de sangue – voltaram a circular, e as autoridades religiosas e políticas fomentaram a desconfiança contra os judeus. Em setores católicos, os judeus eram vistos como “estrangeiros perigosos”; entre jovens nacionalistas, como elementos “desagregadores”. Temendo tumultos, um rabino telegrafou ao ministro da Justiça alertando para “grandes reuniões” contra judeus em Quebec City.
Na década de 1930, o fascista Adrien Arcand liderou movimentos abertamente antissemitas, enquanto o Estado canadense tinha uma política de portas quase fechadas a refugiados judeus – período lembrado como “None Is Too Many” (“Nenhum já é demais”).
Crescimento comunitário
No início do século 20, a intensa imigração judaica oriunda do Leste Europeu ampliou e diversificou a comunidade, que passou a assumir um perfil nitidamente leste-europeu. Entre 1901 e 1922, os fluxos migratórios atingiram níveis sem precedentes.
O censo de 1901 registrou 16,5 mil judeus; uma década depois, 75 mil; e, em 1921, 126 mil (1,5% da população). A maioria concentrou-se nas grandes cidades: entre 1901 e 1911, Montreal cresceu cerca de 400% e Toronto, quase 600%; Ottawa e Hamilton também apresentaram crescimento expressivo.
Nas cidades grandes, pobreza, doença e sepultamento eram os problemas centrais das comunidades. Sociedades de mútuo socorro e caixas de crédito floresceram, atenuando as dificuldades de adaptação dos imigrantes judeus.Os recém-chegados transformaram a vida judaica canadense: fundaram suas próprias sinagogas e redes comunitárias, criaram shuls 4 improvisados, landsmanschaften 5, jornais, sindicatos e clubes. Mesmo comunidades menores tinham shuls esinagogas, às vésperas da 1a Guerra.
A educação judaica sempre foi prioritária. Foram abertos Talmudei Torá (escolas religiosas), para o ensino de hebraico, iídiche, orações, Torá e, não raro, Talmud e Mishná. Sua pressão pela democratização da política comunitária resultou na criação do Canadian Jewish Congress (CJC) – Congresso Judaico Canadense.
Emergência do Sionismo
Os sionistas canadenses foram mais contundentes do que seus pares americanos, em parte pela ausência de um nacionalismo pan-canadense.
O movimento sionista cresceu graças ao gênio organizador do empresário Clarence de Sola, filho do rabino Abraham de Sola, que liderou por duas décadas (1899–1919) a Federation of Zionist Societies of Canada. Sob sua direção a arrecadação tornou-se simultaneamente a raison d’être e a principal medida de sucesso comunitário.
Durante a 1a Guerra, o Canadá ainda era um domínio do Império Britânico. A plena autonomia legislativa só viria em dezembro de 1931, com o Statute of Westminster, preservando-se o mesmo monarca como chefe de Estado.
Na 1ª Guerra, o Império Britânico, parte da Tríplice Entente, combateu as Potências Centrais6, entre elas o Império Otomano. No Oriente Médio, a ofensiva na Palestina foi liderada pelo general britânico Edmund Allenby.
Os sionistas canadenses articularam sua causa ao nacionalismo britânico-canadense sem levantar dúvidas quanto à lealdade ao país. Apoiaram maciçamente o recrutamento para a Legião Judaica – criada em 1917 como os 38º, 39º e 40º Batalhões dos Royal Fusiliers –, que serviu na campanha da Palestina sob o comando de Edmund Allenby. (Seu precursor foi o Zion Mule Corps, de 1915, por vezes lembrado como a primeira unidade militar judaica da era moderna). O governo canadense autorizou o alistamento de judeus e, no fim de 1917, um oficial britânico assumiu a campanha de recrutamento para a Legião; centenas de voluntários – alguns já incorporados às forças canadenses – transferiram-se para os batalhões judaicos.
Cresceu, também, o movimento sionista feminino. A Canadian Hadassah espalhou-se pelo país, infundindo urgência imediata ao movimento. Em 1920, era a organização nacional mais forte, coesa e bem liderada no cenário judaico canadense.
O entreguerras e o antissemitismo
Um forte sentimento antiestrangeiro cresceu no Canadá durante e após a 1a Guerra. A Greve Geral de Winnipeg7, atribuída a “estrangeiros” – especialmente austríacos, judeus e turcos –, o surgimento do Partido Social Democrata e, em 1921, do Partido Comunista do Canadá, inflamaram sentimentos nativistas e anti-imigrantes.
Em 1919, o governo canadense restringiu a imigração de “inimigos estrangeiros” – nacionais de países com os quais o Canadá estivera em guerra. Muitos judeus dessas origens foram alcançados pelas medidas, não por serem judeus, mas por sua nacionalidade. Mesmo após a posterior isenção dos judeus dessa categoria, o Congresso Judaico Canadense se manteve atento às demais exigências (documentação, quantia mínima de recursos) e ao amplo poder discricionário dos agentes migratórios, que continuou a dificultar a imigração judaica.
Em 1921, porém, carente de liderança e financiamento, o CJC perdeu fôlego; ao longo da década de 1920, os judeus ficaram sem porta-voz para pautas coletivas, como a política migratória.
Nos entreguerras, o antissemitismo tornou-se virulento. No Quebec francófono, judeus eram acusados de “bolchevismo”, de “fomentar a Revolução Russa” e de serem membros do “comunismo internacional”. Multiplicaram-se artigos antissemitas na imprensa de língua francesa – em especial em L’Action Catholique –, enquanto revistas como Le Goglu e Le Miroir exibiam caricaturas de judeus.
Intelectuais nacionalistas atacavam o suposto “materialismo”, “comunismo” e “capitalismo” judaicos. A campanha de boicote econômico Achat Chez Nous, articulada sobretudo em Montreal e Quebec City por círculos católico-nacionalistas, visava a principalmente comerciantes judeus e conclamava os franco-canadenses a “comprar entre nós” e a não frequentar “lojas de judeus”.
A violência contra judeus irrompeu ocasionalmente – como no motim de Toronto (agosto de 1933). Os “camisas azuis”, à moda nazista, marcharam em várias cidades. Em certas localidades, como uma pequena comunidade em Quebec, houve tentativas de bloquear sinagogas e até um incêndio criminoso na véspera de sua inauguração (1944).
No Canadá anglófono, o preconceito podia soar mais “moderno”, mas não era menos nocivo. Continuava ancorado em velhas calúnias e estereótipos – da acusação de “assassinos de Jesus”, à figura do Shylock de Shakespeare – ou disfarçado pelo “pseudo-cientificismo” do “racismo científico” nazista e da eugenia. O antissemitismo restringia enormemente oportunidades profissionais, educacionais, residenciais e de ascensão econômica e social.
A comunidade anglo-protestante ofereceu pouca proteção aos judeus de Quebec, alimentando o sentimento de que “la province de Québec n’est pas une province comme les autres” (“a província de Québec não é uma província como as demais”).
Reativado em 1934, o CJC combateu o antissemitismo difundindo materiais que desmascaravam Os Protocolos dos Sábios de Sião e alertavam para o nazismo. Enfrentou fascistas e combateu a propaganda de ódio, pressionando sempre por uma legislação antidiscriminatória.
Mas, o impacto mais tangível e cruel do antissemitismo foi o controle da imigração judaica. As restrições impuseram fardos pesados aos judeus. Normas de 1921 exigiam passaportes válidos do país de origem – algo complicado para poloneses e russos que haviam escapado do antigo império czarista. Era impossível obtê-los sem voltar, risco que poucos correriam. Em 1923, a lei classificou imigrantes como “preferidos”, “não preferidos” e “permissão especial”. Todos os judeus caíam nesta última, submetidos às restrições mais severas.
A imigração judaica – exceto por “permissões especiais” de parentes de primeiro grau – foi, na prática, interrompida. O Canadá fechou suas portas aos judeus.
O restricionismo reduziu drasticamente a imigração judaica: em 1931, o fluxo foi menos de um quinto do nível de 1930. Nos anos seguintes, apesar de apelos desesperados, o governo manteve as portas praticamente fechadas – atitude depois sintetizada pela fórmula tornada célebre por dois historiadores canadenses, Irving Abella e Harold Troper8, atribuída a um funcionário: “None is too many” (“Nenhum já é demais”).
O historiador Arthur R. M. Lower, então no Wesley College (Winnipeg), manifestou-se contra a antiga “generosidade imigratória”, que, a seu ver, atraía “inadequados” e punha em risco o “caráter anglo-saxão” do país – “maus” imigrantes expulsariam “bons” canadenses de sua própria terra!
Cedendo a pressões internas, oprimeiro-ministro liberal William Lyon Mackenzie King não revogou a política restricionista de imigração. Após a Kristallnacht, ocorrida em 9 e 10 de novembro de 1938, na Alemanha nazista, King disse ao gabinete que era hora de atos condizentes com a “consciência nacional”, e não com o cálculo político. Mas, admitir judeus no Canadá trazia poucos votos e muitos custos, e as portas do país continuaram trancadas.
O Canadá na 2ª Guerra
Às vésperas da 2a Guerra, a população judaica no Canadá alcançou cerca de 170 mil pessoas. Proporcionalmente, os judeus eram mais urbanizados, mais numerosos na pequena classe média local e tinham níveis de escolaridade superiores à média nacional.
A partir da eclosão da Guerra, o Congresso Judaico Canadense queria que os canadenses soubessem que os judeus estavam fazendo sua parte. Em 1940, o Congresso criou o National War Efforts Committee, abriu centros de recrutamento pelo país, além de criar uma rede de apoio social e religioso a militares judeus espalhados por bases no país.
Mais de 16 mil judeus serviram nas Forças Armadas do Canadá durante a 2ª Guerra. Quando o Exército canadense entrou na Bélgica e na Holanda, militares judeus desempenharam papel importante no socorro a sobreviventes, distribuindo alimentos, enviando suprimentos a crianças em Bergen-Belsen e ajudando comunidades em cidades como Amersfoort e Amsterdã. O capelão-rabino Samuel Cass organizou celebrações de Chanucá em sinagogas vandalizadas, “reconsagrando-as” com o acendimento das luzes dessa festa.
Atividade Sionista nos anos 1940–1950
Nos anos 1940–1950, o Sionismo canadense atingiu novos patamares. À tradicional arrecadação de fundos somaram-se a militância política e um compromisso com um Lar Nacional Judaico. A influência pública foi menor do que nos EUA – pelo caráter “quase britânico” do Canadá –, mas campanhas de opinião e lobby fortaleceram o apoio ao Estado Judeu dentro da comunidade. Após o Holocausto, mesmo não-sionistas aderiram à defesa de um Lar Judaico na Terra de Israel. Com a independência de Israel, em maio de 1948, o Sionismo tornou-se um consenso entre os judeus do Canadá.
No entanto, apesar de imagens do Holocausto e dos campos nazistas libertados, o antissemitismo continuou forte no imediato pós-guerra. Em 1946, uma pesquisa Gallup mostrou que, entre “grupos indesejados”, apenas os japoneses foram mais citados do que os judeus. Ainda assim, pressões internacionais e a necessidade de mão de obra relaxaram a política migratória em 1946, permitindo a entrada de contingentes significativos de judeus. No total, cerca de 35 mil judeus sobreviventes chegaram entre 1945 e 1956, proporção maior do que nos EUA.
Rumo à igualdade
Na década de 1960, Quebec passou por uma renovação urbana e um processo de laicização que desmontou grande parte do antigo antissemitismo institucional. Ainda assim, a ascensão do separatismo (anos 1960–1970), a Crise de Outubro (1970) e a legislação linguística levaram muitos judeus – sobretudo os jovens – a migrar para Toronto e outras províncias.
No Canadá inglês, vitórias jurídicas derrubaram barreiras residenciais e ocupacionais. Ontário aprovou a primeira lei provincial contra a discriminação racial e o estatuto de práticas justas de emprego. Persistiram, porém, cotas e barreiras acadêmicas: a Universidade McGill limitou o ingresso em Medicina a cerca de 10% de judeus até os anos 1960; na Universidade de Toronto, exigiam-se notas mais altas e havia acesso restrito a estágios e hospitais.
A evolução do multiculturalismo canadense, a partir do fim dos anos 1960, – com maior diversidade étnica, retórica oficial e políticas públicas – reforçou a confiança: a comunidade preservou sua identidade etnorreligiosa e maximizou sua participação na vida nacional.
A imigração prosseguiu em ondas: sefarditas do Oriente Médio e do Norte da África, nos anos 1950-60, sobretudo para Montreal, soviéticos/russos dos anos 1970 em diante; israelenses (anos 1970–80) e fluxos da África do Sul, Etiópia e América Latina. Como antes, os novos imigrantes criaram redes comunitárias próprias.
Em vários indicadores, os judeus canadenses mostraram-se mais “judaicos” do que os americanos – devido à maior parcela de nascidos no exterior e ao multiculturalismo canadense.
Início do século 21
Entre 1981 e 2001, a população judaica canadense cresceu – ao contrário do padrão da maior parte da Diáspora. No Censo de 2001, havia cerca de 371 mil judeus. A comunidade concentra-se nas maiores cidades: 180 mil em Toronto, 93 mil em Montreal e 23 mil em Vancouver. Toronto consolidou-se como principal metrópole judaica, alimentada pelo êxodo de Montreal nas décadas de 1960-1970. Ao mesmo tempo, o apoio de Quebec às escolas confessionais atraiu mais judeus religiosos para Montreal.
Os judeus tornaram-se um grupo altamente escolarizado e integrantes, majoritariamente, da classe média/alta: em 2001, 45% tinham diploma universitário (ante 18% no total canadense). Nos anos 1990–2000, estimativas apontam que 14–20% das famílias mais ricas do país tinham origem judaica. Sobrenomes como Bronfman, Asper, Azrieli, Belzberg, Dan, Koffler, Reichmann e Schwartz figuram com destaque – e mobilizam recursos filantrópicos para causas judaicas e gerais.
No século 21, a comunidade judaica canadense reúne alta escolaridade, vida institucional vibrante e forte engajamento cívico e com Israel, ao mesmo tempo em que enfrenta o recrudescimento do antissemitismo e desafios de segurança. Pelo Censo de 2021, vivem no país cerca de 400 mil judeus, o que coloca o Canadá como a 4ª maior comunidade judaica da Diáspora.
1 Kehilá – congregação, em hebraico
2 Baixo Canadá – Colônia britânica criada em 1791 a partir da divisão da Província de Quebec, abrangendo o sul da atual Quebec. Em 1841, foi unida ao Alto Canadá para formar a Província do Canadá; em 1867, com a Confederação, desdobrou-se em Ontário e Quebec.
3 Caso Dreyfus (1894–1906) – dividiu a França após a falsa acusação de traição contra o capitão judeu Alfred Dreyfus; a revisão do processo, impulsionada pelo “J’accuse…!” de Émile Zola, expôs o antissemitismo institucional e culminou em sua reabilitação e anulação da condenação em 1906.
4 Shul – escola ou casa de orações, em iídiche.
5 Sociedade de ajuda mútua para imigrantes judeus da mesma cidade ou região europeia.
6 Na 1ª Guerra Mundial (1914–1918), as Potências Centrais – Alemanha, Áustria-Hungria, Império Otomano – enfrentaram a Tríplice Entente e aliados (França, Reino Unido e Rússia até 1918, e EUA em 1917, entre outros).
7 A maior paralisação trabalhista da história do Canadá, ocorrida em maio -
junho de 1919.
8 Abella e Troper foram os coautores de None Is Too Many: Canada and the Jews of Europe, 1933-1948. No livro eles demonstram como a política imigratória canadense no período foi deliberadamente restritiva aos judeus – daí a frase “None is too many”.