Para milhões de judeus — e também para tantos outros imigrantes — Nova York nunca foi apenas uma cidade. À sombra da Estátua da Liberdade, ela se tornou um sonho, um porto seguro e um símbolo da esperança de quem chegava à América em busca de uma nova vida. Era o lugar onde se podia recomeçar, mesmo sem recursos, sem contatos e sem falar inglês. Durante grande parte do século 20, a cidade abrigou a maior comunidade judaica do mundo; hoje, continua sendo um dos centros vitais da Diáspora e a metrópole com a maior população judaica fora de Israel.

Nova Amsterdã

Ainda que alguns judeus já tivessem chegado à América do Norte antes de 1654, é a partir desse ano que se reconhece o início da presença judaica em Nova York – uma história que, curiosamente, começa no Brasil, em Recife.

Em meados do século 17, quando o Nordeste brasileiro estava sob domínio holandês, Recife abrigou uma pequena e próspera comunidade de judeus sefarditas. Foi o único momento da história colonial brasileira em que os conversos puderam voltar a assumir, abertamente, sua identidade judaica.

Os portugueses reconquistaram a região em 1654 , com eles, voltaram a intolerância religiosa e a ameaça da Inquisição. Diante da escolha entre se reconverter ao Catolicismo ou partir, cerca de 150 famílias judias que viviam em Recife deixaram o Brasil em navios holandeses.

Um desses navios, com 23 judeus a bordo, foi interceptado por piratas espanhóis no Caribe e, posteriormente, socorrido pela tripulação de uma embarcação francesa, a St. Catherine. No início de setembro de 1654, poucos dias antes de Rosh Hashaná, o grupo chegou à ilha de Manhattan. Sem recursos para prosseguir viagem, os judeus foram obrigados a desembarcar na então colônia holandesa de Nova Amsterdã, fundada entre 1625 e 1626 pela Companhia Holandesa das Índias Ocidentais.

A recepção foi hostil. Peter Stuyvesant, diretor-geral da colônia e calvinista convicto, tentou impedir a permanência daqueles “judeus da Nação Portuguesa”, alegando que ameaçariam o caráter cristão do assentamento com a prática de sua “abominável religião”. Escreveu, então, à Companhia, pedindo autorização para expulsá-los.

Em Amsterdã, porém, a comunidade sefardita era influente. Ao tomar conhecimento do pedido de Stuyvesant, seus líderes enviaram uma petição à Companhia das Índias Ocidentais, reafirmando sua lealdade aos interesses holandeses, ressaltando a importância dos judeus para o comércio internacional e lembrando que alguns dos principais acionistas da própria Companhia eram judeus. Em abril de 1655, Stuyvesant recebeu a resposta à sua consulta: “Estas pessoas [os judeus] podem viajar, comerciar, viver e permanecer na colônia, desde que não se tornem um encargo para a comunidade”. Ainda assim, tentou dificultar a vida dos judeus, mas estes reagiram. Asser Levy, um dos que chegaram em 1654, contestou repetidamente as medidas de Stuyvesant nos tribunais, saindo vitorioso na maioria das vezes.

Outros comerciantes judeus sefarditas estabeleceram-se em Nova York, então Nova Amsterdã, formando, em 1655, a primeira congregação judaica do que viria a ser os Estados Unidos: a Shearith Israel, mais tarde conhecida como Congregação Espanhola e Portuguesa. Como muitos de seus fundadores provinham da comunidade judaico-portuguesa de Amsterdã, sua organização comunitária seguia o modelo da sinagoga portuguesa daquela cidade.

Nessa cidade, os judeus tinham liberdade de praticar sua religião, desde que o fizessem discretamente, em suas casas. Em 1656, as autoridades coloniais concederam à comunidade um pequeno terreno para sepultamento, considerado o mais antigo cemitério judaico registrado no país.

Nova Amsterdã passa a se chamar Nova York

Em 1664, os ingleses tomaram Nova Amsterdã, que passou a se chamar Nova York.

As novas autoridades britânicas mantiveram o status jurídico dos judeus: preservaram a tolerância já existente, sem ampliar de modo significativo seus direitos civis e religiosos.

No início do século 18, Nova York ainda era uma pequena cidade portuária, e a vida judaica local girava em torno da Shearith Israel, que, até 1825, permaneceu como a única congregação judaica da cidade.

A partir das primeiras décadas do século 18, começou a mudar o perfil da comunidade judaica de Nova York e da América do Norte como um todo. A maioria dos judeus que lá se estabeleciam eram ashquenazitas, originários da Europa Central e do Leste. Apesar disso, a Shearith Israel continuou seguindo a tradição sefaradita, sendo, até hoje, a sinagoga de rito hispano-português da cidade.

Até 1730, quando a primeira sinagoga da Shearith Israel foi erguida na Mill Street (atual South William Street), a congregação funcionava em imóveis alugados. Essa primeira sinagoga era um prédio simples, de tijolos. Com o crescimento da comunidade, o local foi ficando pequeno para abrigar todos os seus membros e, em 1818, iniciou-se a construção de uma segunda sinagoga, na mesma rua. Esta possuía 167 lugares para homens e 133 para mulheres.

Guerra de Independência Americana

Em 1776, viviam nas Treze Colônias1  cerca de 2.500 judeus, menos de 0,1% da população colonial. Embora numericamente reduzida, essa população já se encontrava integrada à vida econômica e urbana de diversas cidades, não apenas Nova York, mas também Filadélfia, Newport, Charleston e Savannah.

O crescente descontentamento dos colonos com a exploração econômica metropolitana, a tributação imposta pela Grã-Bretanha, a ausência de representação política – sintetizadas no lema “No taxation without representation” (Nenhuma tributação sem representação) –, bem como a aspiração ao autogoverno e a difusão das ideias iluministas levaram as colônias à ruptura com o poder britânico. A crise se agravou com episódios como a Festa do Chá de Boston (Boston Tea Party)2, em dezembro de 1773, e converteu-se em guerra aberta em abril de 1775. A independência foi proclamada no ano seguinte, em 4 de julho de 1776.

Os judeus das Treze Colônias, como o restante da população colonial, dividiram-se entre os partidários da independência, os “patriotas”, e os leais à Coroa. Muitos judeus identificaram-se com a causa revolucionária, acreditando que a independência do domínio britânico lhes garantiria a liberdade religiosa e o fim das restrições legais e de juramentos religiosos excludentes3.

Quando, em 1776, Nova York foi ocupada pelos britânicos, essas tensões manifestaram-se com mais nitidez. À frente da Shearith Israel encontrava-se então o chazan (cantor litúrgico) Gershom Mendes Seixas (1745–1816), nascido na América e adepto da causa patriota. Recusando-se a manter a sinagoga em funcionamento sob domínio britânico, ele deixou Nova York com parte dos membros da comunidade, seguindo para Connecticut e depois para Filadélfia, onde serviu na sinagoga Mikveh Israel. Os judeus que permaneceram na cidade continuaram a frequentar a Shearith Israel sob proteção britânica. A trajetória de Seixas tornou-se emblemática do engajamento da comunidade judaica na causa revolucionária.

O legado judaico na Guerra de Independência foi desproporcional ao reduzido tamanho da população judaica das Treze Colônias. Entre as figuras mais lembradas está Haym Salomon, judeu de origem polonesa que se destacou como comerciante e financista ligado ao esforço revolucionário. Salomon foi um importante apoiador financeiro da causa patriota e teve um papel decisivo no financiamento da guerra.

A guerra chegou ao fim em 1783, com a assinatura do Tratado de Paris, que reconheceu a independência dos Estados Unidos. Com a criação da nova república, os judeus passaram a acreditar que alcançariam plena integração civil e liberdade de culto. Essa expectativa encontrava respaldo nos fundamentos políticos e jurídicos do novo país. O ideário de igualdade enunciado na Declaração de Independência – segundo a qual “todos os homens são criados iguais”, e não apenas “todos os protestantes” ou “todos os cristãos” – não constituía, por si só, uma garantia completa de liberdade religiosa. Esta viria a se afirmar de modo mais claro em estatutos e dispositivos legais posteriores.

Em 1786, o Estatuto da Virgínia para a Liberdade Religiosa, associado a Thomas Jefferson, repudiou a coerção em matéria de fé ao proclamar que “Nenhum homem deve ser forçado a frequentar ou sustentar qualquer culto, lugar ou ministério religioso”. A Constituição federal, por sua vez, proibiu a adoção de qualquer teste religioso como requisito para o exercício de cargos públicos; e a Primeira Emenda da Constituição, ratificada em 1791, vedou tanto o estabelecimento de uma religião oficial quanto a restrição ao livre exercício religioso.

O presidente George Washington, ao responder às felicitações enviadas por congregações judaicas, afirmou que todos os grupos que compunham a nova nação estavam igualmente sob a proteção da República americana. Em carta dirigida, em agosto de 1790, à congregação judaica de Newport, declarou que o governo dos Estados Unidos “não dá à intolerância nenhuma sanção, à perseguição nenhuma assistência” – frase que se tornou, com razão, um dos marcos simbólicos da inserção judaica na experiência política americana.

Século 19

Ao longo do século 19, Nova York firmou-se como um dos principais portos comerciais dos Estados Unidos, convertendo-se em polo de atração para sucessivas ondas migratórias. Entre os grupos que ali chegaram encontravam-se novos contingentes judaicos que contribuíram para ampliar e diversificar a vida judaica da cidade.

A própria trajetória da Congregação Shearith Israel reflete o processo de expansão urbana e demográfica. À medida que a comunidade se deslocava para outras áreas de Manhattan, a congregação acompanhava esse movimento por meio da construção de novas sinagogas. Em 1834, inaugurou uma sinagoga na Crosby Street, utilizada até 1860, quando foi erguido um novo edifício na West 19th Street, a oeste da Quinta Avenida. Essa sinagoga permaneceu em uso até 1897 e chegou a ser descrita, à época, como a estrutura mais alta visível a partir da Rua 14. Em maio de 1897, foi inaugurada a Shearith Israel da Seventieth Street, edifício que continua sendo sua sede até hoje.

Desde os seus primórdios, a Shearith Israel procurou atender às múltiplas necessidades da comunidade judaica, acompanhando seus membros do nascimento até o fim da vida. A congregação oferecia educação religiosa e desempenhava diversas funções assistenciais e comunitárias. Ao longo de sua história, a Shearith Israel, bem como membros e rabinos a ela ligados, participaram da criação e do desenvolvimento de importantes instituições judaicas e filantrópicas de Nova York.

Nas décadas de 1820 e 1830, chegaram aos Estados Unidos – e, em particular, a Nova York – as primeiras levas de judeus provenientes das terras germânicas e da Europa Central. Esse movimento intensificou-se nas duas décadas seguintes, alterando profundamente o perfil da vida judaica no país. A população judaica americana passou de cerca de 15 mil pessoas, em 1840, para algo entre 150 mil e 200 mil às vésperas da Guerra Civil. Em Nova York, o crescimento foi igualmente expressivo: a comunidade, estimada em cerca de 16 mil pessoas em 1850, alcançou aproximadamente 40 mil em 1860, o equivalente a quase 5% da população da cidade.

A maior parte desses recém-chegados era formada por judeus de língua alemã, muitos dos quais iniciaram sua vida econômica como mascates e, mais tarde, se estabeleceram como lojistas, comerciantes e pequenos empresários. Concentraram-se sobretudo em Manhattan – no Lower East Side e na chamada Little Germany, contribuindo para a expansão demográfica, institucional e cultural da presença judaica na cidade. Foram também decisivos para a difusão do Judaísmo Reformista e, de modo mais amplo, para a configuração do Judaísmo moderno americano. A força dessa influência pode ser medida pelo fato de que, por volta de 1880, quase todas as cerca de 200 sinagogas então existentes nos Estados Unidos eram reformistas. O Movimento Conservador, por sua vez, estruturou-se institucionalmente a partir da fundação, em Nova York, do Jewish Theological Seminary, em 1886.

No campo do comércio, esses imigrantes e seus descendentes exerceram papel de destaque no desenvolvimento do varejo americano e, em especial, na consolidação das grandes lojas de departamentos de Nova York. A Bloomingdale’s teve origem no negócio fundado em 1861 pelos irmãos Lyman Bloomingdale e Joseph Bloomingdale; a Macy’s, embora não tenha sido fundada por judeus, passou ao controle da família Straus em 1896; a B. Altman & Company, criada por Benjamin Altman, filho de imigrantes judeus bávaros, tornou-se uma das mais importantes casas de departamentos da cidade; e a Bergdorf Goodman, fundada em 1899 por Herman Bergdorf, ganhou projeção sob a liderança de Edwin Goodman a partir de 1901. Em conjunto, essas empresas ajudaram a redefinir a cultura do consumo urbano entre o final do século 19 e o início do século 20, ao mesmo tempo em que áreas como a Ladies’ Mile se afirmavam como o coração comercial elegante da Nova York da Gilded Age 4.

Foi também nesse período que surgiram algumas das instituições que se tornariam pilares do Judaísmo americano: hospitais, sociedades de auxílio mútuo, organizações beneficentes, escolas religiosas e associações comunitárias. Um dos marcos desse processo foi o atual Mount Sinai Hospital. Fundado em 1852 como Jews’ Hospital e inaugurado em 1855, destinava-se a atender judeus que, com frequência, eram recusados por outros hospitais,  e oferecia atendimento médico gratuito aos judeus sem recursos. Após a Guerra Civil, a instituição abandonou formalmente seu caráter sectário e, em 1866, passou a se chamar Mount Sinai Hospital.

Guerra Civil (1861–1865)

Em 1861, teve início a Guerra Civil Americana, travada entre os estados do Norte, reunidos na União, e os estados do Sul, que formaram a Confederação após proclamarem sua secessão. Na origem da guerra estavam tensões em torno do poder federal e dos direitos dos estados, especialmente aquelas relativas à escravidão, então base econômica e social do Sul agrário. Enquanto os estados confederados buscavam preservar a ordem escravista e ampliar sua autonomia política, o Norte lutava pela preservação da União e, no decorrer do conflito, passou a vincular sua causa à abolição da escravidão.

Em Nova York, a população judaica mostrou-se dividida. Alguns comerciantes, ligados ao comércio do algodão, mantiveram relações com a Confederação; outros, porém, apoiaram a União, identificando-se com a causa abolicionista. Ao término da guerra, em 1865, a vitória do Norte assegurou a preservação dos Estados Unidos como um só país e abriu caminho para a abolição da escravidão.

A guerra revelou a crescente inserção dos judeus na vida pública. Em 1861, a Board of Delegates of American Israelites, com forte presença nova-iorquina, enviou Arnold Fischel, chazan da Shearith Israel, a Washington. Até então, a legislação dos Estados Unidos permitia apenas capelães cristãos no Exército da União, o que excluía os rabinos. Após reunir-se com o então presidente Abraham Lincoln, Fischel defendeu o direito de soldados judeus serem assistidos por capelães de sua própria fé. Em 1862, o Congresso alterou a legislação, abrindo caminho para a nomeação de capelães judeus. O episódio revela que a comunidade judaica de Nova York já participava do debate público e começava a se afirmar como um centro de articulação judaica nacional.

A migração do Leste Europeu

Entre as décadas de 1860 e 1880, Nova York consolidou-se como o principal centro urbano e econômico dos Estados Unidos. De acordo com o censo de 1880, a cidade reunia 1.206.299 habitantes, dos quais cerca de 80 mil eram judeus. Ainda que esse número estivesse longe de refletir a extraordinária expansão que a comunidade judaica conheceria a partir do final do século 19, já bastava para conferir-lhe presença significativa e influência crescente na vida econômica, religiosa e cultural nova-iorquina.

A cidade contava então com numerosas sinagogas e congregações judaicas, erguidas por imigrantes de diversas procedências. As fundadas por judeus alemães, como a Temple Emanu-El, refletiam a ascensão de um Judaísmo Reformista que procurava integrar-se ao contexto americano. Em contrapartida, a Shearith Israel preservava a tradição sefardita e o prestígio histórico de ser a mais antiga congregação judaica dos Estados Unidos.

Esse quadro, contudo, seria profundamente transformado nas décadas seguintes, quando uma vasta onda migratória de judeus vindos do Império Russo e do Leste Europeu, impulsionados pela perseguição, pela pobreza e pela falta de perspectivas econômicas, alteraria de forma duradoura a composição, o perfil e a escala da comunidade judaica nova-iorquina.

A partir de 1881, após o assassinato do czar Alexandre II, uma sucessão de pogroms varreu províncias do sul e do oeste do Império Russo, ao mesmo tempo em que o regime czarista endurecia sua política em relação aos judeus, processo que culminaria nas restritivas Leis de Maio de 1882. Centenas de milhares de judeus decidiram emigrar em busca de melhores condições de vida.

Ao longo das décadas seguintes, mais de 2,5 milhões de judeus da Europa Oriental deixariam suas terras de origem. A maioria dirigiu-se aos Estados Unidos, e Nova York – principal porta de entrada da imigração no país, primeiro por Castle Garden e, a partir de 1892, pela Ellis Island– tornar-se-ia o grande portal dessa leva imigratória.

A saga desses imigrantes converter-se-ia em um capítulo decisivo não apenas da história do Judaísmo americano, mas também da própria história dos Estados Unidos, ao redefinir a demografia, a vida urbana, o mundo do trabalho e a cultura judaica da metrópole nova-iorquina.

Para sobreviver, os recém-chegados aceitavam o trabalho que aparecesse. A indústria do vestuário, em plena expansão em Nova York, absorveu milhares deles, sobretudo mulheres. Havia oficinas de costura instaladas em porões, galpões e apartamentos superlotados. Nas chamadas sweatshops (fábricas de confecção que operavam em condições precárias), costureiras cumpriam jornadas longas e extenuantes, recebendo salários miseráveis e trabalhando em ambientes insalubres e perigosos.

A tragédia do incêndio da Fábrica Triangle Shirtwaist, em 1911, no qual morreram sobretudo operárias judias e italianas, provocou indignação generalizada. Greves, paralisações e manifestações multiplicaram-se, muitas vezes lideradas por sindicalistas formados na cultura política do Leste Europeu, sob a influência do socialismo e do movimento socialista judaico, o Bund. Os judeus nova-iorquinos passaram, assim, a ocupar um lugar central no movimento operário urbano. A luta por salários mais dignos, pela limitação da jornada de trabalho, por condições mínimas de segurança e por legislação trabalhista tornou-se parte essencial da história social americana.

A “cidade judaica”

Nas décadas de 1910 e 1920, Nova York transformou-se na grande metrópole do Judaísmo moderno. Em certos momentos, chegou mesmo a constituir o maior centro judaico do mundo. A população judaica da cidade crescera de forma vertiginosa, alcançando, em 1920, cerca de 1,6 milhão de pessoas. A história judaica de Nova York já não cabia apenas em Manhattan: espalhava-se agora por toda a cidade, acompanhando a trajetória de uma comunidade cada vez mais enraizada na paisagem urbana americana.

À medida que melhoravam de vida, muitos imigrantes deixavam o Lower East Side (em Manhattan) e se mudavam para áreas mais amplas e valorizadas, especialmente no Brooklyn e no Bronx. O Brooklyn tornou-se um dos principais destinos desse movimento. Bairros como Brownsville, Williamsburg, Crown Heights e Borough Park passaram a receber sucessivas levas de famílias judias. No Bronx, por sua vez, formou-se uma expressiva classe média judaica. Durante algumas décadas, o distrito abrigou uma das mais vibrantes concentrações judaicas do mundo, com intensa vida cultural, instituições próprias e participação crescente na política municipal.

A “República Iídiche”

O Lower East Side transformou-se em um extraordinário centro de produção cultural judaica. Jornais em iídiche, com tiragens impressionantes, circulavam diariamente, dando voz aos dilemas da imigração, do trabalho, da religião e da vida familiar. O mais célebre deles foi o Jewish Daily Forward (Forverts), fundado em 1897, que se tornou uma das vozes mais influentes do Judaísmo imigrante. Mais do que um jornal com notícias e editoriais, oferecia romances em folhetim, sátiras, conselhos práticos aos recém-chegados e debates intensos sobre política, educação e identidade. Ainda hoje, o Forward sobrevive em formato digital.

O teatro iídiche, por sua vez, transformou a Segunda Avenida numa espécie de “Broadway judaica”. Ali floresceu um universo vibrante de comédias, melodramas, musicais, operetas e peças de teor político, que encenavam, com humor e emoção, os conflitos entre o Velho e o Novo Mundo.  A chamada “república iídiche” de Nova York converteu-se, assim, em um dos mais férteis laboratórios de ideias, identidades e projetos de futuro da vida judaica moderna.

Esse florescimento cultural tinha raízes já lançadas no final do século 19, quando a vida judaica nova-iorquina passou a projetar figuras de grande destaque, algumas célebres em toda a cultura americana, outras consagradas sobretudo no universo iídiche da cidade. Na poesia e na vida intelectual, Emma Lazarus ocupa lugar singular: autora do poema de The New Colossus 5, de 1883, tornou-se uma das primeiras vozes judaico-americanas de projeção nacional e associou, de forma duradoura, a experiência judaica à ideia dos Estados Unidos como refúgio para imigrantes.

No campo do jornalismo, Joseph Pulitzer, de origem judaico-húngara, afirmou-se como um dos mais poderosos editores da imprensa americana e ajudou a moldar o jornal moderno nos Estados Unidos. Seu legado foi tão significativo que o Pulitzer Prize – o prêmio anual americano de maior prestígio em jornalismo, literatura e música – recebeu esse nome em sua homenagem.

Na imprensa iídiche, Abraham Cahan despontou como figura central: imigrante vindo do Império Russo, participou da fundação do Jewish Daily Forward.

Na literatura em iídiche, Morris Rosenfeld destacou-se como uma das vozes mais marcantes da experiência operária judaica, ao descrever, em seus poemas, as duras condições de vida dos imigrantes nas oficinas de costura da cidade. No teatro, Avrom Goldfaden é amplamente reconhecido como o originador do teatro iídiche moderno, cuja obra exerceu profunda influência sobre a cena judaica nova-iorquina. Foi nesse ambiente que se afirmaram grandes nomes do palco judaico, como Jacob Adler, célebre por seus papéis dramáticos, e Boris Thomashefsky, pioneiro do teatro iídiche nos Estados Unidos e uma de suas figuras mais populares. Ao lado dele brilhou Bessie Thomashefsky, atriz, cantora e comediante que se tornaria uma das estrelas da cena iídiche nova-iorquina já nos anos 1890.

Nesse ambiente efervescente, escritores, jornalistas, dramaturgos e intelectuais passaram a elaborar uma reflexão original sobre o que significava ser judeu na modernidade americana. Alguns acreditavam na plena integração ao melting pot, o caldeirão cultural dos Estados Unidos; outros defendiam a vitalidade de uma cultura judaica secular centrada no idioma iídiche; e havia ainda os que viam no Sionismo e na construção de um lar nacional judaico em Eretz Israel uma resposta à vulnerabilidade da vida judaica na Diáspora. Nova York converteu-se, assim, em um dos maiores centros da modernidade judaica, onde imprensa, literatura e espetáculo se entrelaçavam na elaboração de novas identidades judaicas na América.

Antissemitismo e o fim da livre imigração

Embora Nova York tenha se consolidado, ao longo do tempo, como o principal centro da vida judaica nos Estados Unidos, nem o país nem a cidade jamais estiveram livres do antissemitismo. Nos séculos 18 e 19, embora a situação legal dos judeus fosse bem mais favorável do que em grande parte da Europa, o preconceito ainda existia e se manifestava sobretudo na esfera social. Um marco dessa discriminação foi o caso de 1877, quando o banqueiro nova-iorquino Joseph Seligman foi recusado no Grand Union Hotel, em Saratoga Springs. O episódio ganhou repercussão nacional e se tornou símbolo da exclusão dos judeus nos círculos e espaços de prestígio da Gilded Age.

No início do século 20, essa hostilidade raramente assumia a forma de violência aberta típica da Europa Oriental, mas continuava a se manifestar na exclusão social, profissional e residencial: judeus encontravam barreiras em hotéis, resorts, clubes privados e outros ambientes de elite. Em resposta a esse quadro, o Estado de Nova York aprovou, em 1913, uma lei de direitos civis que proibia a discriminação em locais de hospedagem e diversão públicas com base em fé religiosa. Ainda assim, práticas discriminatórias continuaram a existir de forma velada ou informal.

Na década de 1920, com o crescimento demográfico e a ascensão social dos judeus, o antissemitismo ganhou nova visibilidade, alimentado pelo nativismo e por movimentos extremistas.

Alarmados com a escala da imigração – judaica e não judaica – e influenciados pelas teorias raciais então em voga, os Estados Unidos passaram a restringir severamente a entrada de estrangeiros. A era da imigração em massa chegava ao fim. Em 1921 e 1924, o Congresso aprovou leis que estabeleceram cotas rígidas, baseadas na composição étnica histórica da população americana. Na prática, essas medidas reduziram drasticamente a entrada de imigrantes do sul e do leste da Europa, entre eles os judeus. Fechava-se, assim, o grande ciclo migratório que levou milhões de judeus a deixar sua terra natal e fazer de Nova York a grande capital urbana da Diáspora judaica moderna.

1 As Treze Colônias eram um conjunto de colônias britânicas estabelecidas ao longo da costa atlântica da América do Norte entre os séculos 17 e 18. Elas formavam a base do domínio inglês na região e, mais tarde, dariam origem aos Estados Unidos após o processo de independência.

2 A Boston Tea Party foi um protesto ocorrido em 1773, em Boston, quando colonos jogaram carregamentos de chá no mar para protestar contra as taxas impostas pela Grã-Bretanha.

3 Os juramentos exigiam a profissão da fé cristã e sua prestação em fórmula explicitamente cristã como condição para o exercício de certos direitos civis e o acesso a cargos públicos, excluindo assim os judeus da plena participação na vida cívica. Na Europa, tais restrições só foram sendo gradualmente abolidas entre o fim do século 18 e o século 19.

4 A Gilded Age (Era Dourada) nos Estados Unidos foi o período histórico situado no final do século 19, entre a década de 1870 e o ano de 1900.

5 Em 1903, uma placa de bronze com o poema The New Colossus, escrito por Emma Lazarus em 1883, foi instalada no pedestal da Estátua da Liberdade, imortalizando a frase: “Dai-me os vossos cansados, os vossos pobres, As vossas massas amontoadas anseiam por respirar livremente”.

Bibliografia

Howe, Irving, The Immigrant Jews of New York: 1881 to the Present, New edition, Editora Oxford University

Oppenheim, Samuel, The Early History of the Jews in New York, 1654-1664: Some New Matter on the Subject. eBook Kindle

Polland, Annie, Soyer, Daniel. Emerging Metropolis: New York Jews in the Age of Immigration, 1840-1920 (City of Promises Book 4). eBook Kindle