Chanucá começa ao anoitecer, marcando o início do dia 25 do mês hebraico de Kislev, e estende-se por oito dias. Em observância ao mandamento central da festividade, na primeira noite, acende-se uma luz da Chanuquiá, o candelabro de oito braços; na segunda, duas; na terceira, três, e assim por diante até a última, quando brilham todas as oito chamas.
Por Tev Djmal
Embora se aceitem velas, usa-se, de preferência, azeite puro de oliva em lembrança do milagre do frasco desse óleo que, apesar de suficiente para apenas um dia, manteve a Menorá do Templo Sagrado acesa por oito.
Em nosso calendário, Chanucá e Purim são as duas únicas festividades de origem rabínica, ou seja, instituídas não pela Torá, mas pelos Sábios de Israel em reconhecimento a grandes milagres que marcaram o destino do Povo Judeu. De qualquer forma, tanto em Israel quanto na Diáspora, Chanucá figura entre as comemorações mais queridas e observadas.
No entanto, por não saberem o que exatamente se comemora na ocasião, muitos imaginam que a festividade remeta apenas ao milagre do azeite. Sem dúvida, esse acontecimento sobrenatural tornou-se o principal símbolo de Chanucá, sobretudo porque o acendimento da Chanuquiá é a mitzvá central dessa festa e a principal forma de comemorá-la. Contudo, na realidade, Chanucá recorda, acima de tudo, uma vitória militar e espiritual do nosso povo na Terra de Israel há pouco mais de dois mil anos: o triunfo da família dos Hashmonaim, também conhecidos como Macabeus, sobre as forças de Antíoco IV Epifânio.
Esse monarca governou, entre 175 e 164 a.E.C., o Império Selêucida, surgido da fragmentação do vasto território conquistado por Alexandre, o Grande, que morreu sem herdeiros em 323 a.E.C.. Por essa razão, seus generais repartiram entre si o gigantesco domínio. Entre esses chefes militares, estava Seleuco I Nicátor, fundador da Dinastia Selêucida, que, em seu auge, chegou a controlar grande parte do Oriente Médio, incluindo a Síria, a Mesopotâmia e extensas regiões antes sob controle persa.
Em toda essa imensa extensão, promovia-se a cultura helenística: a língua grega, a filosofia, a arte, o esporte e as práticas religiosas. Com a intensificação dessa política por Antíoco IV Epifânio, a influência cultural transformou-se em uma verdadeira campanha de assimilação forçada. O confronto entre o Judaísmo, que, enraizado no monoteísmo, enaltece a Sabedoria Divina e a alma, e o Helenismo, que, baseado em uma religião politeísta, exaltava a razão e o corpo humano, preparou o terreno para os acontecimentos rememorados em Chanucá.
Ao assumir o controle da Terra de Israel, Antíoco IV iniciou a helenização do novo domínio, com a substituição das leis da Torá e do Judaísmo pela cultura, filosofia e idolatria gregas. O objetivo era a total obliteração da identidade nacional e religiosa dos judeus que lá viviam para transformá-los em súditos leais.
Assim, baniram-se práticas ordenadas por mandamentos que constituem a base do Judaísmo e do pacto eterno entre D’us e o Povo de Israel: o Brit Milá (circuncisão), a observância do Shabat, o Rosh Chodesh (proclamação do novo mês judaico, que define o calendário e as datas festivas) e o estudo da Torá. Os judeus foram ainda obrigados, sob pena de morte, a participar de rituais e sacrifícios pagãos.
As imposições eram aplicadas com extrema brutalidade. Crianças que se recusassem a se curvar diante dos ídolos eram executadas, e mulheres eram mortas junto com os filhos que houvessem circuncidado. Um dos decretos mais cruéis determinava que, antes de um casamento entre judeus, a noiva deveria passar sua primeira noite com um oficial grego.
No auge da perseguição, o Beit HaMikdash, o Templo Sagrado em Jerusalém, foi profanado. As tropas de Antíoco saquearam seus tesouros, violaram sua santidade e o reconsagraram ao culto das divindades gregas. O altar foi maculado com sacrifícios pagãos, e o serviço a D’us foi proibido.
Em resposta a tamanha opressão e sacrilégio, eclodiu uma revolta liderada por Matityahu, um Cohen (sacerdote) da cidade de Modi’in, e seu filho Yehudá HaMacabi. A rebelião durou cerca de três anos. Contra todas as probabilidades, o pequeno exército judeu, movido pela fé e pela determinação, derrotou as forças muito mais numerosas e bem equipadas do Império Selêucida, uma das maiores potências militares do mundo antigo.
Após a vitória, os Macabeus entraram em Jerusalém, purificaram o Beit HaMikdash e reconsagraram-no em 25 de Kislev de 164 a.E.C. Segundo o Talmud (Shabat 21b), quando foram reacender a Menorá, o candelabro de sete braços do Templo, como se fazia diariamente com azeite puro de oliva, símbolo da luz da Presença Divina, só encontraram um frasco selado do óleo ritualmente puro, não profanado pelos gregos.
No entanto, aconteceu um milagre: embora o conteúdo do recipiente bastasse para mantê-la acesa por apenas um dia, a chama da Menorá brilhou por oito, exatamente o tempo necessário para preparar e consagrar novo azeite.
Em lembrança desses acontecimentos, nossos Sábios instituíram, para todas as gerações, a festividade de Chanucá, um período de gratidão e louvor a D’us em que se celebram tanto a vitória militar quanto o milagre do óleo, que reafirmou o pacto eterno entre o Eterno e os Filhos de Israel.
Uma guerra pela sobrevivência do Povo Judeu
Os acontecimentos comemorados em Chanucá ocorreram cerca de dois séculos depois daqueles relembrados em Purim. Ambas as festas, de origem rabínica, celebram nosso triunfo sobre opressores, porém as ameaças enfrentadas em cada ocasião foram totalmente diferentes.
Na história de Purim, o vilão Haman, o amalequita, buscou exterminar todo o Povo Judeu: homens, mulheres e crianças. Seu objetivo era nada menos que o genocídio total, um intento que Adolf Hitler, líder da Alemanha nazista, quase atingiu mais de dois milênios depois.
Por outro lado, Antíoco IV Epifânio visava a uma destruição não física, mas de caráter espiritual e nacional. Por meio da helenização, uma assimilação cultural e religiosa, de todo o nosso povo, buscava apagar o Judaísmo e nossa própria identidade. Enquanto Haman pretendia matar todos nós sem exceção, o imperador selêucida permitiria que vivêssemos desde que adotássemos o Helenismo.
Em outras palavras, a condição para uma vida livre de perseguições era a renúncia à nossa própria fé e essência nacional, com o rompimento do pacto com D’us, a secularização do estudo da Torá, a transformação do Templo Sagrado em um santuário pagão e a aceitação plena da cultura helenística. Com isso, na prática, a Terra de Israel deixaria de ser um Estado Judeu, nossa religião desapareceria e nosso povo seria gradualmente assimilado até a extinção. Enquanto Haman pretendia nos aniquilar, Antíoco buscava erradicar o Judaísmo, junto com nossa pátria e identidade nacional.
Ao contrário de Haman e Hitler, que não ofereciam escolha, o rei selêucida deu uma opção que, tragicamente, muitos judeus não só aceitaram, mas abraçaram com entusiasmo. O Helenismo exaltava ideais que, em muitos aspectos, se assemelham a certas tendências do mundo ocidental moderno: relativismo moral, licenciosidade, hedonismo, culto ao corpo e idolatria do prazer sensorial. Esses valores atraíram aqueles que desejavam uma vida sem as restrições da Torá e a aceitação social no mundo helenístico.
Em People Love Dead Jews, a escritora judia-americana Dara Horn cita um exemplo marcante. Alguns judeus chegaram a se submeter a procedimentos cirúrgicos para reverter o sinal físico do pacto entre D’us e os Filhos de Israel: a circuncisão, vista com desprezo na sociedade grega, em particular nos ginásios, nos quais os atletas competiam nus.
Por isso, é importante desfazer o equívoco de que Chanucá foi uma guerra travada por todo o Povo Judeu em sua terra ancestral contra os invasores selêucidas. Na realidade, os Macabeus eram uma pequena minoria que enfrentou não só o poderio militar da potência estrangeira, mas também a forte resistência de judeus cooptados pelo Helenismo. Sua revolta foi, portanto, uma luta tanto militar quanto espiritual, uma batalha por independência política, liberdade religiosa e resistência à tirania, assim como pela sobrevivência do Judaísmo e do nosso povo como nação distinta.
Os milagres comemorados em Chanucá
Chanucá tem como principal mandamento, o acendimento da Chanuquiá, portanto, para muitos, rememora apenas o milagre do azeite. Embora seja um fenômeno sobrenatural, a duração por oito dias de um frasco de óleo que bastaria para manter a Menorá acesa por apenas um não seria, por si só, suficiente para justificar uma celebração tão duradoura, sobretudo porque o Talmud relata ocorrências muito mais extraordinárias que não deram origem a nenhuma festa rabínica.
Por que, então, nossos Sábios instituíram Chanucá? A resposta encontra-se no acréscimo litúrgico recitado nessa festa, na Amidá e no Bircat HaMazón, o trecho conhecido como Al HaNissim (“Pelos milagres”). Esse texto não faz nenhuma menção ao azeite, mas só se concentra na vitória militar dos Macabeus – um grupo de judeus sem armamento suficiente e em desvantagem numérica – sobre as poderosas forças do Império Selêucida, uma das potências militares mais temidas do mundo antigo. Assim, a vitória dos Macabeus, embora sem caráter sobrenatural, foi incomparavelmente mais significativa do que o milagre do azeite.
Com essa vitória, o Povo de Israel conseguiu manter fidelidade à Torá e evitar o desaparecimento pela assimilação. Apesar da queda, mais tarde, da Terra de Israel sob domínio romano, o Judaísmo sobreviveu. O triunfo dos Macabeus impediu que nossa nação caísse no esquecimento e preservou nossa ligação espiritual com D’us, Sua Torá e nossa pátria ancestral.
No entanto, isso levanta uma questão: se Chanucá comemora sobretudo uma vitória militar, por que, durante a festividade, acendemos a Chanuquiá, que remete ao milagre do azeite?
A resposta, segundo nossos Sábios, é que a ocorrência sobrenatural – embora de utilidade prática limitada, já que a Menorá poderia ter sido acesa com óleo não ritualmente puro – foi um sinal Divino, uma confirmação celestial do caráter extraordinário do triunfo no campo de batalha.
Há fatos sobrenaturais cujo propósito não é atender a uma necessidade física imediata, mas revelar a mão da Providência Divina. É esse o caso do azeite. Os Macabeus travaram uma guerra longa e árdua por cerca de três anos. Aqueles que presenciaram a vitória ou as gerações seguintes poderiam facilmente tê-la atribuído só à coragem, à habilidade ou até mesmo à sorte dos combatentes. Assim, D’us realizou o milagre do azeite para demonstrar que o triunfo das armas não resultou apenas da bravura humana ou da estratégia militar, mas diretamente de Sua Providência.
E por que, para transmitir essa mensagem, o Altíssimo escolheu uma ocorrência relacionada ao azeite? A resposta é simples: a luz produzida pelo óleo de oliva simboliza a Torá, cuja preservação fazia parte dos objetivos dos Macabeus, ao lado da independência política. Por isso, o milagre manifestou-se por meio da substância que, por iluminar, representa a própria Torá e simboliza a Sabedoria Divina.
Há, entretanto, um significado mais profundo. O Midrash descreve o Império Selêucida como uma “era de escuridão” e o Romano, que mais tarde destruiu o Templo, como “perverso”. No entanto, só o domínio helênico é caracterizado como algo tenebroso.
Embora tenham causado a nosso povo uma destruição física muito maior que a dos selêucidas, os romanos eram, ao menos, cruéis, bárbaros e maldosos de forma explícita. Já o Helenismo apresentava-se como iluminação, beleza e progresso, mas, na realidade, representava a negação da verdadeira luz. A imposição violenta dessa cultura e as atrocidades cometidas tanto por Antíoco IV quanto por suas tropas revelaram que, sob o verniz de “humanismo”, escondia-se uma ideologia sombria e intolerante. O Helenismo promovia o politeísmo, o materialismo extremo, o relativismo moral e o egoísmo, todos em oposição direta à Divindade, à espiritualidade, à moralidade e aos valores absolutos e eternos da Torá.
O milagre do azeite simboliza, portanto, a mensagem central de Chanucá: a Luz Divina sempre prevalece sobre a escuridão da confusão espiritual, da assimilação, da falsidade e da distorção dos valores morais.
A guerra atual pela preservação do Estado Judeu
Chanucá e Purim, as duas festividades rabínicas de nosso calendário, foram instituídas por nossos Sábios porque, entre outras razões, não comemoram acontecimentos pontuais da história judaica, mas refletem uma realidade permanente. A guerra pela existência do Povo Judeu nunca cessou. Em nossos dias, essa verdade tornou-se ainda mais patente nos dois anos que se seguiram a 7 de outubro de 2023.
O Povo Judeu sempre foi pouco numeroso. Hoje, representa cerca de 0,2% da população mundial, ou seja, dois em cada mil seres humanos. Em termos territoriais, Israel também é minúsculo: ocupa menos de um terço de um por cento do Oriente Médio e por volta de 0,015% da superfície do planeta, área menos extensa que a de qualquer Estado brasileiro, exceto o menor deles: Sergipe. Com aproximadamente dez milhões de habitantes, dos quais em torno de sete milhões são judeus, tem menos de um quarto da população do estado de São Paulo.
Um povo tão pequeno em um território diminuto e árido não deveria sequer ser notado pelo restante da humanidade. No entanto, os judeus e, em nossos dias, o Estado de Israel enfrentaram, ao longo da história, inimigos implacáveis, entre os quais alguns dos maiores vilões da humanidade, todos obcecados com sua destruição.
Expulsa por invasores estrangeiros, a maioria do nosso povo viveu, por dois milênios, fora de sua pátria ancestral e sob a ameaça constante de extermínio, um perigo que atingiu seu auge com o assassinato de seis milhões de judeus durante o Holocausto. Ainda hoje, apesar da força militar do Estado de Israel, a guerra pela nossa sobrevivência prossegue não só nos campos de batalha, mas também no terreno das ideias e da legitimidade.
Dos 195 países reconhecidos pela ONU, Israel é o único cujo direito de existir é questionado o tempo todo. Desde sua fundação, foi atacado por nações árabes que, de maneira expressa, buscavam sua destruição por meios bélicos. Desde 1979, tornou-se alvo declarado da República Islâmica do Irã e seus grupos aliados, que também pregam a sua aniquilação.
É absurdo e obsceno não só que Israel precise defender seu direito de existir, mas também que se questione o posicionamento tanto de políticos quanto de figuras públicas nesse sentido. Ninguém questiona se Japão, França e EUA (ou mesmo regimes autoritários como Coreia do Norte, Rússia, Irã ou Síria) têm esse direito. Mesmo em tempos de guerra, os beligerantes buscam derrotar exércitos ou governos inimigos, não apagar nações inteiras do mapa.
Em todo o mundo, só se debate a existência de um país: o único Estado Judeu. Está claro, portanto, que a luta dos Macabeus há mais de dois mil anos, o esforço para preservar nossa nação em sua própria terra, ressurge sob nova forma em nossos dias.
Em 7 de outubro de 2023, a nação de Amalek, os herdeiros espirituais de Haman e de Hitler, lançou a partir de Gaza, um ataque bárbaro contra o Estado Judeu. Seu objetivo, compartilhado pelos demais integrantes do “anel de fogo” do Irã ao redor de Israel, era cometer um duplo crime: genocídio e policídio, a destruição, respectivamente, de um povo e de seu Estado.
No entanto, em paralelo ao conflito físico, destinado a aniquilar os judeus em sua pátria ancestral, travou-se outra batalha, uma guerra de Chanucá contemporânea: a luta para deslegitimar e, por fim, apagar do mapa o Estado de Israel.
Assim como Antíoco IV tentou extirpar o Judaísmo ao forçar nossos ancestrais a abandonar sua fé e identidade nacional, muitos ainda hoje – inclusive no Ocidente – buscam dissolver o Estado de Israel, promovendo a ideia de que ele deveria tornar-se uma entidade binacional sob domínio árabe e abdicar de seu caráter judaico. Essas vozes deixam cada vez mais explícitos seus objetivos: não se trata de propor “dois Estados”, mas de eliminar Israel.
Nas ruas da Europa e dos EUA, bem como nas redes sociais, milhões de pessoas entoam o grito: “From the river to the sea, Palestine will be free” “Do rio ao mar, a Palestina será livre”, muitas vezes sem sequer saber a que acidentes geográficos se referem. Contudo, os criadores desse lema sabem muito bem que o rio é o Jordão, e o mar é o Mediterrâneo, ou seja, referem-se a todo o território do nosso Estado-nação.
A frase tem origem em uma divisa anterior, “Do rio ao mar, a Palestina será árabe”, cujo sentido é inequívoco: para dar lugar ao vigésimo terceiro membro da Liga Árabe, Israel deve deixar de existir. Em outras palavras, vivemos em um mundo que considera natural a existência de vinte e dois Estados árabes, mas excessiva a de um único país judeu.
Os amalequitas da nossa geração, como os terroristas responsáveis pelas atrocidades de 7 de outubro, buscam destruir fisicamente o nosso povo. Outros, no entanto, entre eles políticos, jornalistas e acadêmicos influentes de países ocidentais, seguem a estratégia de Antíoco IV:não aniquilar diretamente os judeus, mas negar-lhes o direito de existir como nação. Esses inimigos empregam armas mais sofisticadas que as dos terroristas: difamação, boicotes, calúnias e falsas narrativas, todas com o mesmo propósito: isolar o Estado de Israel e conduzi-lo, gradualmente, à asfixia e à dissolução.
Esses “progressistas” modernos, verdadeiros herdeiros de Antíoco IV,disfarçam seu antissemitismo sob a linguagem do universalismo e o verniz de um discurso acadêmico sofisticado. Afirmam opor-se a todos os Estados “etnonacionais” e, com isso, classificam o caráter judaico de nossa terra ancestral como uma forma de racismo. Expressam indignação diante da Lei do Estado-nação de Israel, que nada mais faz do que afirmar o óbvio: Israel é a pátria nacional do Povo Judeu. É gritante a hipocrisia desses críticos, sob a qual se oculta, de forma inequívoca, o antissemitismo. Dos cinquenta países de maioria muçulmana, vinte e três declaram explicitamente o Islã como religião oficial. Observa-se o mesmo, em vários casos, no mundo cristão.
A Dinamarca, muito admirada e descrita, com frequência, como uma sociedade quase perfeita, confere um caráter estatal à Igreja Evangélica Luterana. O Reino Unido, há séculos considerado um dos pilares da democracia ocidental, estabelece por lei a Igreja Anglicana. Entretanto, os mesmos que condenam a Lei do Estado-nação de Israel e o acusam de discriminação por definir-se como Judeu nada dizem sobre esses países.
Nós que, por dois milênios e sob as mais diversas formas, suportamos o antissemitismo, reconhecemos esse fenômeno pelo que realmente é. O clamor para que nosso Estado-nação deixe de se definir como Judeu não passa de um eco moderno do ataque que enfrentamos, nos dias dos Macabeus, por parte de uma ideologia perversa que buscou obliterar nossa religião ancestral e identidade nacional. É lamentável que, assim como muitos de nosso povo se aliaram aos helenistas naquela época, também hoje, sobretudo nos EUA, judeus influentes alinhados a nossos inimigos repitam e amplifiquem falsidades contra o Estado de Israel. Por isso, a luta de Chanucá não pertence apenas ao passado: continua viva, como uma batalha pela alma e pela sobrevivência do nosso povo e nossa pátria.
O triunfo da luz sobre a escuridão
Em muitos aspectos, os dois anos do conflito iniciado em 7 de outubro de 2023 remetem à guerra de Chanucá. Da mesma forma que os Macabeus enfrentaram uma esmagadora desvantagem numérica diante das forças de Antíoco IV, o Exército de Israel, cercado, também lutou em múltiplas frentes contra países com população muito maior.
Assim como a guerra de Chanucá se estendeu por cerca de três anos e se baseou, em grande medida, em táticas de guerrilha, o conflito atual já é o mais longo e árduo da história do Estado Judeu, forçado a travar duras batalhas urbanas na Faixa de Gaza.
Ao reverberar em todo o mundo e desencadear um verdadeiro tsunami de antissemitismo, o conflito demonstrou que voltamos a enfrentar as duas formas de inimigos históricos. Este confronto, ao contrário dos anteriores, não se trava apenas no campo de batalha: Israel também enfrenta uma guerra de palavras e de ideologias, uma campanha orquestrada com cuidado para deslegitimar sua existência.
Como prossegue a luta contra as forças mentirosas e malévolas que buscam desacreditar, isolar, boicotar e, por fim, desmantelar o Estado Judeu, o milagre do azeite permanece atual. Em Chanucá, acendemos a Chanuquiá para proclamar a vitória da luz sobre a escuridão, e essa mesma batalha continua em nossos dias: a guerra contra as trevas das mentiras, da inversão moral e da manipulação da verdade. As justificativas apresentadas para as atrocidades de 7 de outubro, bem como as grotescas narrativas que retratam Israel como vilão e os terroristas como vítimas ou até como heróis, são expressões dessa mesma escuridão moral e espiritual.
O mandamento de acender a Chanuquiá nunca foi tão relevante. Sua mensagem é hoje tão urgente quanto há dois mil anos: inspirar-nos com coragem e esperança de que a luz há de triunfar sobre as trevas, a verdade sobre a mentira, o bem sobre o mal e a justiça sobre a corrupção.
Em face da vitória de Israel nessa guerra de dois anos, podemos compreender com maior profundidade o propósito do milagre do azeite que se seguiu ao triunfo militar dos Macabeus. É lamentável que, em nossos tempos, não tenha havido nenhuma ocorrência claramente sobrenatural, pois algo assim tornaria inegável que o triunfo militar do Estado Judeu não se deveu apenas à bravura de seus soldados, à força de seu exército e a seus serviços de inteligência, mas também – e sobretudo – à Providência Divina.
Seja como for, o resultado desse conflito – a maior vitória militar da história do Estado de Israel, mais significativa que a da Guerra dos Seis Dias – é, em si mesmo, um milagre oculto. Um explícito, como o do azeite, caso ocorresse hoje, apenas tornaria patente o que já é verdadeiro: o êxito militar atual, assim como o dos Macabeus, foi fruto direto da Providência Divina. No entanto, assim como nos dias de Chanucá, Siata DiShmaia, a ajuda dos Céus, não significa que a guerra tenha ocorrido sem dor ou sacrifício.
A dos Macabeus, assim como a atual, foi longa e amarga. Nenhuma vitória no campo militar pode apagar o sofrimento das vítimas: aqueles que foram assassinados, torturados, violentados e sequestrados pelos amalequitas em 7 de outubro. Mais de quatrocentos soldados israelenses que entraram em Gaza para resgatar reféns e combater o mal encarnado não voltaram com vida. Muitos outros retornaram com membros amputados ou ferimentos devastadores.
Ao longo desses dois anos, a população civil de Israel também suportou ataques constantes em múltiplas frentes, sobretudo o poderoso bombardeio balístico vindo do Irã, além de incontáveis foguetes lançados do Líbano, de Gaza e do Iêmen.
Nós, o Povo Judeu, principalmente aqueles que vivemos na Diáspora, só podemos expressar nossa mais profunda gratidão aos soldados de Israel e suas famílias, que pagaram o preço supremo para que a nação continuasse a existir. Esses heróis foram à guerra dispostos a dar a própria vida, se necessário, porque, assim como nós, compreendem que, se a História Judaica ensina uma lição, é que a vida em Israel, por mais perigosa que seja, é muito mais segura que no exílio.
Embora tenha sido indescritivelmente trágica, a matança de 7 de outubro ceifou 1.200 vidas – o que representa apenas um décimo do número de judeus assassinados por dia, no auge do Holocausto – dia após dia, semana após semana, ano após ano – até que seis milhões foram exterminados, entre eles um milhão e meio de crianças.
Apesar de todas as guerras e ondas de terrorismo que Israel enfrentou ao longo de quase oitenta anos, o total de soldados caídos e de civis mortos em atentados equivale ao número de judeus assassinados em apenas dois dias durante o auge do Holocausto. É a conscientização dessa realidade que leva os soldados de Israel a lutar com tanta bravura e abnegação: eles sabem que, para o Povo Judeu, o único destino mais perigoso que a guerra é não ter uma pátria – como ocorreu por quase dois mil anos.
Omrim Yeshna Eretz (“Dizem que há uma terra”), composta por Shaul Tchernichovsky e eternizada na voz de Naomi Shemer, é uma canção muito querida em Israel. Nela, o poeta imagina aqueles que chegam à nossa terra, com a qual sonhamos por dois milênios de exílio, e, ao encontrarem Rabi Akiva, o maior dos Sábios e um dos mártires mais venerados do Judaísmo, perguntam a ele: “Onde estão os Kedoshim, os sagrados? Onde estão os Macabeus?”
E Rabi Akiva responde: Kol Yisrael Kedoshim. Atah ha-Macabi (Todo o Povo de Israel é sagrado. Você é o Macabeu.).
De fato, o corajoso povo de Israel é sagrado, e os soldados de nosso Estado-nação são os Macabeus de nossa geração, tão heroicos quanto a família dos Hashmonaim, que derrotou os exércitos de Antíoco IV.Nós, que vivemos na Diáspora, devemos a eles nossa eterna gratidão. Podemos viver em segurança como judeus graças a eles. Podemos dormir tranquilos, cientes de que, se algum dia nossa existência for ameaçada, teremos sempre um lar que nos acolherá de braços abertos, protegido pelos soldados mais corajosos e dedicados do mundo.
Este ano, quando milhões acenderem a Chanuquiá, rememoremos não só os Macabeus de dois milênios atrás, mas também aqueles de nossos dias. Que nos lembremos de nossos heróis caídos e honremos esta extraordinária geração de guerreiros judeus que deu tudo, inclusive a própria vida, para defender nosso povo e nossa pátria.
Também agradeçamos a D’us Seus milagres, não só bayamim hahem (“naqueles dias”, no tempo dos Macabeus), mas também bazman hazeh (“nesta época”), quando a Providência Divina permitiu que o Estado de Israel se erguesse das cinzas do 7 de outubro de 2023 e alcançasse o que será lembrado para sempre como um dos maiores triunfos militares e espirituais da história da humanidade.