No dia 10 de fevereiro de 1896, pouco antes de seu livro O Estado Judeu ser publicado, Theodor Herzl escreveu em seu Diário sobre outro livro a respeito do qual só tivera conhecimento poucas semanas antes. Observou que o conteúdo do dito volume, assinado por um médico judeu russo chamado Leon Pinsker, era muito semelhante ao conteúdo de seu próprio trabalho.
Por Zevi Ghivelder
Escreveu: “Foi pena não ter lido este livro antes que o meu fosse impresso. Por outro lado, foi até bom, porque se eu o tivesse lido, talvez abandonasse meu próprio projeto”.
O pesquisador americano Aaron Schimmel escreveu um portentoso ensaio sobre Leon Pinsker, que procurei refletir no presente artigo. O historiador ficou tão empolgado pela figura e pelos sábios ensinamentos de Pinsker, que julgou plausível Herzl ter pensado em declinar de sua própria elaboração para a criação de uma nação judaica, indo ao extremo de cogitar em deixar de publicar seu O Estado Judeu. Isto se deveu ao impacto que lhe causara o livro de Pinsker, Autoemancipação: o chamado de um judeu russo para seus irmãos. Este livro impactou Herzl, assim como impactou seus contemporâneos judeus, devastados pelos sucessivos pogroms deflagrados na Rússia imperial. Mais de quinze anos antes do Primeiro Congresso Sionista, na Suíça, o conciso manifesto de Pinsker foi um vigoroso chamado pela reconstituição de uma vida judaica na Terra de Israel. Seu livro é tão essencial para a história da criação do Estado Judeu quanto o próprio trabalho de Herzl.
Embora Herzl e Pinsker se igualassem em termos visionários, ambos atravessaram suas trajetórias como se tivessem vivido em planetas diferentes, tanto por suas origens como pelo desdobramento de suas atividades políticas. Enquanto Herzl levou suas ideias para judeus e não-judeus nos maiores centros europeus, Pinsker ficou restrito ao mundo judaico da Europa Oriental.
Isto explica a razão pela qual a história do Sionismo começa primordialmente com o jornalista Theodor Herzl cobrindo para um jornal de Viena o julgamento do capitão Dreyfus1, em Paris. Os procedimentos no Tribunal Militar da França tinham um caráter antissemita tão indisfarçável que foram um alerta para o jovem jornalista judeu a propósito dos crescentes perigos que se avolumavam sobre seu povo. Os vícios preconceituosos contidos na acusação contra Dreyfus concorreram para que ele questionasse sua própria vivência como judeu. No entanto, há biógrafos de Herzl que afirmam que sua repulsa ao antissemitismo já havia se consolidado na Faculdade de Direito de Viena, onde se formou, e onde presenciou episódios de admoestação a estudantes judeus. Em suma, foi um turbilhão de considerações que moldaram seu ideário para a criação de uma nação judaica, a rigor uma ideia tão simples quanto revolucionária.
Quando Herzl entrou na cena pública da Europa Ocidental, os judeus da Europa Oriental já estavam emigrando para a Palestina Otomana em números pequenos, mas significativos. Essa migração resultou em assentamentos agrícolas cooperativos que se vincularam ao movimento pré-sionista Hovevei Sion2, do qual Pinsker viria a ser um destacado membro.
Este movimento, reverente a todos os preceitos litúrgicos e religiosos do Judaísmo, sustentava que a Torá e seus mandamentos estão necessariamente ligados à vida do Povo Judeu na Terra de Israel. Das 613 mitzvot (mandamentos da Torá), mais de 200 são ligadas à Terra Sagrada do Povo Judeu, principalmente por meio de leis agrícolas e de leis relacionadas ao Templo Sagrado de Jerusalém.
O Templo era tido como um lugar de espiritualidade e divindade palpáveis. Além das orações e serviços regulares, milagres aconteceram no Templo que, mesmo após sua destruição, continuou sendo o foco de atração de fervorosas e milenares devoções. O Talmud registra que a chuva nunca extinguiu o fogo no altar do Templo, simbolizando como fogo e água, dois opostos, podem coexistir em harmonia para maior alcance espiritual. O Talmud também afirma que o Monte do Templo, em Jerusalém, é chamado de Portão do Céu, o ponto para onde todas as orações ascendem rumo aos Céus. A ideologia do Hovevei Sion, absorvida e exaltada por Pinsker, baseava-se na ideia de que o Povo Judeu, após milênios de exílio, e superando todos os obstáculos, deveria continuar ansiando por retornar à Terra de Israel. Tanto assim que, ao final das orações na celebração do seder de Pessach, uma declaração foi sendo repetida com magnitude, ano após ano, perdura até nossos dias: “No ano que vem, em Jerusalém”.
Os imigrantes pioneiros na Palestina Otomana eram principalmente intelectuais e profissionais de diferentes atividades que lá chegaram despreparados para o trabalho agrícola que pretendiam implementar e para as condições insalubres que encontraram. Entre 1881 e 1905, cerca da metade deles voltou para a Rússia ou buscou nova vida na América do Norte. Nesta conjuntura, o livro de Pinsker desempenhou um papel crucial para a consolidação da teoria do retorno à pátria ancestral. Sua formulação básica era impecável: os judeus deveriam assumir total responsabilidade por seu destino. Apesar de todas as semelhanças existentes entre o livro de Herzl e o de Pinsker, o livro do médico russo tem a autoemancipação como tema central. Enquanto Herzl buscou legitimidade junto a personalidades influentes e mandatários externos, Pinsker procurou estabelecer conceitos mais pragmáticos, com ênfase num esforço coordenado para instituir com solidez a presença judaica na Terra de Israel.
Leon (Yehuda Leib) Pinsker nasceu em 1821 na cidade polonesa de Tomaszów. Sua família abraçava os ideais da Haskalá (Iluminismo judaico), um substancioso movimento intelectual e cultural. Seu pai, Menachem Mendel Pinsker, era um erudito versado no Talmud e na Torá. Na esteira do Hovevei Sion, propagava a profunda ligação que deveria ser mantida com a Terra de Israel e expressava essa crença através de palestras e orações pela reconstrução do Templo de Jerusalém e pela vinda do Messias. A angústia de Menachem Mendel com a situação do Povo Judeu influenciou profundamente e orientou os passos de seu filho.
Em novembro de 1884, o movimento Hovevei Sion, tendo alcançado intensidade, promoveu a Conferência de Katowice, então parte do Império Alemão, presidida por Leon Pinsker, ocorrida, portanto, 13 anos antes do Congresso Sionista Mundial organizado e presidido por Herzl, na Basileia. A reunião na Alemanha tinha como objetivo enfatizar a necessidade da implantação de um Estado Judeu. A conferência contou com a presença de 32 delegados e foi a primeira reunião pública de inspiração rigorosamente sionista. Compareceram à Conferência delegados da Rússia, seis da Alemanha, dois do Reino Unido, um da França e um da Romênia. Por proposta de Pinsker, a Conferência criou uma instituição chamada Agudat Montefiore para promover a agricultura entre os pioneiros judeus e apoiar os assentamentos judaicos na Terra de Israel. Foi decidido enviar, de imediato, 10 mil francos para as colônias pioneiras de Petach Tikvah e dois mil rublos para Yesud HaMa’ala3. Também foi resolvido o envio de um emissário confiável para a Palestina Otomana com a missão de investigar a situação dos assentamentos.
Leon era criança quando a família se mudou para a cosmopolita cidade russa portuária de Odessa. Menachem Mendel ali se afirmou como um erudito. Foi um dos ativistas, que, revoltados com as desigualdades sociais e econômicas impostas aos judeus na Rússia, se voltaram para o nacionalismo judaico. Sua angústia e empenho cívico tiveram profunda marca na formação de Leon.
Odessa era uma cidade cosmopolita com mentalidade aberta, que sofreu em escala menor com as políticas restritivas assinaladas pelo Império Russo. Os intelectuais judeus lá desfrutavam de mais liberdade em comparação com aqueles que viviam em áreas nas quais o conservadorismo e a ortodoxia religiosa eram predominantes nas comunidades judaicas.
A atmosfera da cidade de Odessa desempenhou um papel crucial na formação do caráter de Pinsker e em suas futuras iniciativas. Como muitos de seus contemporâneos, ele vinha de uma família com raízes na tradição rabínica. No entanto, recebeu uma educação secular moderna. Frequentou o ginásio russo em Odessa, onde estudou em russo e alemão. O foco de seus estudos não foi apenas os idiomas, mas também a cultura e a história russas. Após concluir o ginásio, prosseguiu os estudos na Universidade de Odessa, onde ingressou na Faculdade de Direito. Contudo, depois de formado, o fato de ser judeu o impediu de exercer a profissão. Dedicou-se, então, ao ensino e se tornou professor de língua russa na escola judaica da cidade de Kishinev. Nesse período, testemunhou uma série de medidas repressivas tomadas pelo czar Nicolau I, que se opunha a qualquer forma de livre pensamento, impondo rígidos controles sobre a literatura e o jornalismo.
Leon Pinsker apoiou a criação de uma rede de escolas judaicas modernas em diversas comunidades ucranianas. Após um ano como professor, sufocado pela atmosfera opressiva e o atraso cultural que prevaleciam em Kishinev, decidiu prosseguir num ambiente mais lúcido e estimulante. Mudou-se para Moscou e começou a estudar medicina. Na Universidade de Moscou, centro intelectual da Rússia na época, fez numerosos contatos com grupos de intelectuais russos envolvidos com os progressos da Ciência e com o Liberalismo ocidentais. Essas influências moldaram profundamente seu pensamento. Naquela época, havia uma sensação de otimismo no sentido de que essas novas ideias, associadas aos pensamentos liberais, acabariam por determinar transformações na estrutura da sociedade russa e talvez até viessem a aliviar os sofrimentos e as precárias condições de vida dos judeus.
Em 1848, Pinsker concluiu os estudos e passou a se dedicar à prática da Medicina, demonstrando talento para a profissão e para o cuidado com os mais necessitados.
Quase ao mesmo tempo, a Europa Ocidental vivenciava uma onda de revoluções nacionais conhecida como a Primavera dos Povos, marcada pelo triunfo do pensamento liberal. Em contraste, na Rússia, ganhavam espaço as forças que se opunham ao Iluminismo e ao Liberalismo. O czar Nicolau impôs censura rigorosa e reprimiu o estudo de História e de Filosofia. O uso de termos relacionados ao Liberalismo na literatura e no jornalismo foi proibido.
A morte de Nicolau I e o fim da Guerra da Crimeia marcaram a conclusão do primeiro ciclo da vida de Pinsker. Durante certo período, não se envolveu em assuntos públicos, mas sua vivência lhe serviu como um terreno fértil para seu crescimento espiritual e intelectual. A nova fase de sua vida coincidiu com a mudança de liderança no Império com a ascensão do czar Alexandre II, que adotou uma política mais liberal, cooperando com intelectuais e flexibilizando a censura. Esse período evidenciou melhorias em vários aspectos da vida no país, que cultivava o desejo de se aproximar dos padrões da Europa Ocidental.
Em 1860, um grupo de intelectuais judeus se reuniu em Odessa para fundar um novo jornal em língua russa, chamado Rassvet (“Aurora”), com foco em questões judaicas. O jornal, no entanto, fechou após um ano devido às restrições da censura que o impediram de abordar temas mais controversos. Pouco depois, Pinsker lançou um novo jornal chamado Sion, no qual expressava seus pontos de vista, perspectivas e abordagens sobre diferentes questões judaicas. O objetivo da publicação era fortalecer o espírito nacional entre os judeus que buscavam se assimilar à sociedade russa. Pinsker escreveu: “A história impôs duas obrigações aos judeus. Uma é a de estarem sempre atentos às suas condições no momento e ao reconhecimento à pátria onde tenham sido acolhidos; a outra é permanecerem judeus com absoluta integridade. Nossa missão é reviver a grande história do Povo Judeu e reafirmar esta grandeza no tempo presente”. Durante esse período de sua vida, ele se equilibrava numa perturbadora ambiguidade. Embora mantivesse a consciência de sua origem e se preocupasse com os preceitos essenciais do Judaísmo, falava russo, lia literatura russa e se integrava com russos não-judeus, certo de que os demais judeus deveriam seguir seu exemplo. O jovem médico e seu círculo mais próximo julgavam que o antissemitismo existia por causa da falta generalizada de melhor conhecimento da História Judaica e poderia ser atenuado à medida que os judeus se integrassem à sociedade russa e mostrassem sua lealdade ao czar.
Depois de servir como médico na Guerra da Crimeia (1853–1856), viu com otimismo o abrandamento das restrições aos judeus promovidas pelo czar Alexandre II. Junto com outros estudiosos do Iluminismo, acreditou que os judeus russos poderiam alcançar uma condição de vida semelhante à dos judeus que viviam nos países da Europa Ocidental.
A Odessa daquela época acolhia uma vida judaica tão intensa que a cidade chegou a ser chamada de Segunda Jerusalém. Pinsker passou a contribuir com artigos para jornais judeus em língua russa e foi um dos fundadores do ramal de Odessa da Sociedade para a Promoção da Cultura entre os Judeus da Rússia, que defendia a educação secular e o envolvimento cada vez mais estreito com o modo de vida e a cultura russa.
Entretanto, sua esperança e a de seus companheiros logo se converteria em desilusão. Em 1871, um pogrom incendiou Odessa com extrema violência. O pretexto para a matança era tão absurdo que os judeus até então predispostos à assimilação passaram a se questionar sobre o futuro de suas existências sob o domínio czarista.
Pouco se sabe sobre as atividades de Pinsker naqueles dias sombrios. Foi por conta de um novo e dramático acontecimento que ele voltou a se mobilizar. Em abril de 1881, radicais de um grupo revolucionário assassinaram o czar Alexandre II. O fato de haver uma mulher judia na célula responsável pelo ataque provocou uma onda de pogroms por toda a Ucrânia e as matanças continuaram no ano seguinte.
Para os maskilim – adeptos da Haskalá –, o que mais chocava nos pogroms não era somente a brutalidade e violência dos ataques, mas a indiferença dos russos instruídos, supostamente liberais e progressistas. Diante da violência, muitos deles não demonstraram solidariedade nem indignação: permaneceram passivos enquanto milhares de judeus eram atacados. Qualquer iniciativa para abrandar os sofrimentos dos judeus passava ao largo dos intelectuais e dos governantes czaristas e mais distante ainda das massas urbanas e camponesas. Assim, em vez de tentar se integrar ao mundo à sua volta, que na verdade nunca os aceitaria, os judeus começaram a adquirir a consciência de que era preciso trilhar seu próprio caminho.
No verão de 1882, Leon Pinsker colocou essa ideia no papel e argumentou que a única solução para a situação judaica era a criação de um Estado independente judaico. Este foi o conteúdo de seu livro Autoemancipação. Era um trabalho objetivo que começava com a famosa conceituação de Hillel, o Sábio, no Pirkei Avot: “Se não eu, quem será por mim? E se não agora, quando?”.
A partir dessa inquietante reflexão, Pinsker dissecou a situação dos judeus tanto na Europa Ocidental quanto na Oriental. Sua proposta não continha soluções imediatas, mas oferecia algo mais importante: uma reavaliação das glórias e conquistas pretéritas do Povo Judeu como motivação para voltar a alcançar uma posição de igualdade com os demais povos. Sua exposição no livro termina com um chamado superlativo: “Ajudem-se e D’us os ajudará!”.
Pinsker rejeitou a posição que ele mesmo anteriormente sustentara de que o antissemitismo desapareceria gradualmente com a integração judaica ao mundo não-judeu. Os pogroms o convenceram de que o antissemitismo correspondia a uma característica permanente incrustada na visão do mundo sobre os judeus e até poderia ser compreendida em termos médicos como “uma aberração psíquica”. (Herzl ignorava esta proposição, mas na mesma vertente anotou em seu Diário: “O antissemitismo é uma doença social; encaro-o sem ódio e sem medo”).
Pinsker cunhou o conceito da judeofobia, sua qualificação preferida para a repulsa aos judeus, acrescida por uma conotação de ordem médica: “Trata-se de uma condição hereditária, tal como uma doença incurável que vem sendo transmitida através dos séculos”. Pinsker sustentava que, onde quer que vivessem, os judeus tendiam a ser percebidos como estrangeiros – não apenas em um país específico, mas em todos os lugares da Diáspora. A seu ver, era comum que as nações desconfiassem de grupos considerados estranhos ao corpo nacional. No caso dos judeus, porém, essa hostilidade assumia uma forma particular: mesmo em terras onde viviam havia séculos, eram tratados como elementos externos, incapazes de ser plenamente aceitos como parte da sociedade local.
Pior: depois de tão longo exílio, os judeus se encontravam despojados do sentimento de nacionalidade. Ele contemplava seus contemporâneos como um povo sem unidade, nem organização e desprovido de “autoestima nacional”. Portanto, era natural que fossem desprezados pelos não-judeus.
Pinsker observou que os judeus eram vistos como o inverso do ideal de pertencimento nacional e social: “Para os vivos, o judeu é um morto; para os nativos, um estrangeiro; para os proprietários, um mendigo; para os pobres, um explorador; para os nacionalistas, um homem sem pátria; e, para todas as classes, um rival odiado”. Em suma, no seu entender, os judeus jamais poderiam esperar qualquer aceitação. Essa avaliação o levou a uma nova forma de pensar sobre a maneira pela qual os judeus poderiam superar suas adversidades. Escreveu: “Ao buscar assimilar-se a outros povos, os judeus renunciaram à sua própria nacionalidade. Em nenhum lugar vão obter o reconhecimento como cidadãos de igual nível”.
Enquanto escrevia Autoemancipação, ele estava ciente de que era importante uma migração pequena, mas constante, da Rússia e da Romênia para a Terra de Israel. Mas, julgou que o movimento em direção à Eretz Israel não era de todo aconselhável. Apesar de seu engajamento com o Hovevei Sion, literalmente Amantes de Sion, deixou Sion em segundo plano e passou a considerar que o território otomano era inóspito, desprovido de recursos naturais e com terras difíceis de serem cultivadas, sobretudo para os judeus da Europa Oriental não familiarizados com o clima do Oriente Médio e inexperientes na agricultura.
Em 1884, no entanto, durante uma palestra, em resposta a uma pergunta sobre onde achava que os judeus poderiam encontrar um endereço definitivo, respondeu: “Homens sábios respondem a essa pergunta encolhendo os ombros, mas as pessoas comuns respondem sem hesitação: migrando para Eretz Israel ”.
É curioso constatar que a momentânea incerteza de Pinsker referente à Terra de Israel também ocorreu com Theodor Herzl quando, no começo do século 20, o Movimento Sionista rejeitou a proposta do estabelecimento de um Estado Judeu em Uganda, na África.
A análise de Leon Pinsker sobre o antissemitismo apresenta um conteúdo que se estende até os dias atuais. Mesmo depois do ataque terrorista sofrido por Israel em 7 de outubro de 2023, o repúdio aos judeus foi magnificado no mundo inteiro e endossado de forma inusitada por grupos políticos que emergiram da 2a Guerra Mundial com ideologias voltadas para a solidariedade entre as nações e contra as ameaças à liberdade, à verdade e à justiça.
No capítulo final de Autoemancipação, Leon Pinsker escreveu: “O Judaísmo e o antissemitismo atravessaram a história por séculos como parceiros inseparáveis. Como o Povo Judeu, o verdadeiro judeu errante, o antissemitismo também parece que jamais deixará de existir. É preciso ser realmente cego para afirmar que os judeus não são o povo eleito para privilégios e, sim, o povo eleito para o ódio universal. Não importa o quanto as nações estejam em desacordo umas com as outras. Por mais diferentes que sejam, em instintos ou esforços, se integram no ódio aos judeus.
Neste ponto, todos concordam. A extensão e a maneira como essa intolerância se manifesta, dependem da condição cultural de cada povo. A intolerância em si, porém, existe em todos os lugares e em todos os tempos, quer se manifeste na forma de atos de violência, como inveja, ou sob a máscara da tolerância e da proteção. Ser saqueado por ser judeu, ou ser protegido por ser judeu, é igualmente humilhante, igualmente doloroso para a autoestima dos judeus”.
Leon Pinsker morreu em Odessa, no dia 9 de dezembro de 1891, aos 69 anos. Seus restos mortais foram levados para Jerusalém em 1934 e sepultados novamente junto ao Monte Scopus. Seu nome está eternizado em ruas de diversas cidades de Israel.
Zevi Ghivelder é jornalista e escritor.
1 No fim do século 19, o capitão Alfred Dreyfus foi injustamente condenado, com base em provas frágeis, por espionagem – acusado de transmitir segredos militares da França à Alemanha. Conhecido como Caso Dreyfus, o episódio foi marcado por forte antissemitismo e se tornou um dos maiores escândalos judiciais e políticos da França.
2 O Hovevei Sion (Amantes de Sion) foi um movimento judaico do final do século 19 que defendia o retorno dos judeus à Terra de Israel e a criação de colônias agrícolas. Surgiu sobretudo após os pogroms no Império Russo e é considerado precursor do Sionismo moderno.