Em sua segunda visita ao Brasil, Bernard-Henri Lévy concedeu, à revista Morashá, uma entrevista exclusiva na qual respondeu a perguntas sobre o antissemitismo atual e seus desdobramentos no debate contemporâneo.

Entrevista conduzida por Vicky Safra e Clairy Dayan

Conhecido como um dos principais “intelectuais públicos” da França, o filósofo, ensaísta, jornalista e cineasta Bernard-Henri Lévy nasceu em 5 de novembro de 1948 na Argélia, então sob controle da França, mas mudou-se ainda criança para Paris. Formado na École Normale Supérieure, tornou-se presença frequente na vida cultural francesa. Começou a ganhar destaque em 1971, quando atuou como correspondente durante a Guerra de Independência de Bangladesh. A experiência na frente de batalhae no recém-criado Estado bengali forneceu-lhe material para seus primeiros livros.

Em meados dos anos 1970, Lévy tornou-se um dos líderes dos nouveaux philosophes (novos filósofos), corrente que ganhou notoriedade ao romper com a ortodoxia marxista dominante em certos meios intelectuais e denunciar as várias formas de totalitarismo, sobretudo o stalinismo. Ao longo das décadas, publicou dezenas de obras nas quais mantém um diálogo constante com temas como genocídio, direitos humanos, antissemitismo, identidade europeia e a responsabilidade das democracias diante de guerras e regimes autoritários.

Figura polarizadora, é admirado por sua disposição de sempre “ir a campo”. Também envolvido em causas humanitárias, é citado entre os fundadores da Action contre la Faim (Ação contra a Fome), criada em 1979 no contexto da crise no Afeganistão. Como cineasta, realizou documentários ligados a frentes de conflito e às chamadas “guerras esquecidas”. Em trabalhos recentes, debruçou-se sobre a invasão da Ucrânia pela Rússia e defendeu a manutenção do apoio ocidental ao país atacado. Em setembro de 2024, publicou o livro A solidão de Israel (Israel Alone), no qual retoma sua reflexão sobre o Estado Judeu e a política internacional. Conhecido simplesmente como “BHL” na França, intervém em debates contemporâneos com grande frequência e visibilidade.

Morashá – Conforme o senhor costuma dizer, o antissemitismo é como um vírus que sofre mutações constantes. Em sua opinião, que forma tem hoje em dia, sobretudo após os acontecimentos de 7 de outubro?

BHL – O antissemitismo tem que sofrer modificações para parecer aceitável. Ou seja, a cada período histórico, precisa de um novo discurso que lhe permita apresentar-se como uma ideia admissível. Por exemplo, na época em que o Cristianismo se tornou dominante, dizia-se: “Os judeus devem ser odiados porque mataram Jesus”. No auge do Iluminismo, afirmava-se: “Não! São execrados não porque o mataram, mas porque o geraram”. Já no fim do século 19, no contexto da obsessão generalizada com a “biologia científica”, explicavam: “Na verdade, são odiados porque constituem uma raça impura que corrompe as puras”. A próxima mudança deu-se com os socialistas e comunistas, que, para justificar sua aversão a nós, nos acusavam de sermos aliados da plutocracia, do cosmopolitismo e do capitalismo internacional.

Hoje, a última mutação, isto é, a estratégia mais recente que o antissemitismo encontrou para tornar-se aceitável, é dizer que os judeus são execráveis ​​porque estão ligados a um Estado detestável chamado Israel. Assim, a nova forma do vírus é o antissionismo. Costuma-se perguntar: “O antissionista é sempre antissemita?”. Acredito que sim, mas há outra dúvida: “É possível ser antissemita hoje sem ser antissionista?”. Essa é a questão mais relevante. Na verdade, a resposta é não. A única maneira “eficaz” de exercer o ódio aos judeus e mobilizar multidões é disfarçar esse sentimento sob a aparência de antissionismo. Essa é a maneira pela qual o antissemitismo opera hoje, e é com ela que nós, assim como nossos amigos e todos os que acreditam na democracia, temos que lidar.

Morashá – O mundo aprendeu alguma coisa com o Holocausto?

BHL – Sim. Acredito que os judeus da Europa, dos EUA ou do Brasil não perderam a batalha, principalmente porque, nesses países, ainda existem pessoas que se lembram da Shoá e sabem que o antissemitismo, além de trazer consigo essa barbárie, é a única forma de racismo que carrega consigo uma brutalidade dessa magnitude.

A memória do Holocausto ainda proporciona uma salvaguarda contra o ódio aos judeus, uma resistência não para todos, longe disso, mas para alguns. Sim, ainda acredito, mesmo que o Holocausto se distancie no tempo e os sobreviventes desapareçam, a lembrança do genocídio permanece como uma espécie de linha vermelha.

Morashá – Infelizmente, de acordo com pesquisas e entrevistas recentes, muitos jovens sabem cada vez menos sobre o Holocausto.

BHL – É verdade. E o que é ainda pior: quando o conhecem, não acreditam nele. Isso se chama negacionismo, uma das doenças do nosso tempo que se manifesta de duas formas: a radical, segundo a qual: “O Holocausto nunca existiu”, e aquela aparentemente mais “branda”, que diz: “Ocorreu, mas não da forma descrita pelos sobreviventes”. Essa atitude tornou-se uma ideologia poderosa na Europa e nos EUA, sobretudo entre os jovens. Isso é ainda pior do que a ignorância sobre o assunto, que pode ser corrigida. No entanto, como sua incompreensão se baseia em supostos livros e “estudos” acadêmicos, o negacionista fanático é muito mais refratário, pois acredita em algo terrível: que “existem duas verdades, duas narrativas conflitantes…”. A redução do Holocausto a apenas uma narrativa entre várias é uma das ideias mais perigosas do nosso tempo, ainda mais do que a falta de conhecimento. Sei como falar com a pessoa ignorante, mas, diante de quem crê na existência de duas narrativas concorrentes, igualmente válidas, ambas com “direito” de serem ouvidas, eu, assim como todos nós, me sinto mais indefeso e incapaz. É esse o nosso verdadeiro adversário.

Morashá – Como podemos combater o negacionismo?

BHL – É preciso enfrentar sua fonte: a ideia de que não existe “uma única realidade”, apenas narrativas. Essa crença, tanto na direita quanto na esquerda, remonta a Nietzsche. Ambos pensam: “Você tem seus fatos; eu, os meus. Você tem sua narrativa; eu, a minha”. Essa visão precisa ser combatida ideologicamente e desmantelada. Devemos insistir que tanto os fatos quanto a realidade existem, que nem tudo é apenas narrativa. Uma vez vencida essa batalha filosófica, vem o aprendizado do que é a realidade. E é aí que entra a educação.

Morashá – Onde o negacionismo está mais presente hoje e qual é o seu papel na expansão do antissemitismo contemporâneo?

BHL – O negacionismo tem seus principais centros nos EUA, com bases fortes na Costa Oeste, e na França, onde nasceu nas décadas de 1950 e 1960. Lá existem organizações, departamentos universitários, institutos e plataformas que, sob um verniz “acadêmico”, promovem essa ideia e contam com amplos recursos financeiros, nacionais e estrangeiros, além de, evidentemente, serem objeto de manipulação.

O negacionismo também está presente no mundo muçulmano. Veja Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina, que se apresenta no Ocidente como a personificação moderada do nacionalismo palestino. Ele publicou, há algumas décadas, um livro – uma tese sobre o Holocausto – de caráter negacionista. O negacionismo existe entre os palestinos, no mundo muçulmano e no Ocidente. Trata-se de um câncer em metástase, um terreno fértil para o novo antissemitismo – o antissionismo.

Na verdade, o negacionismo é um dos dois pilares do ódio aos judeus. Entre na mente de um estudante antissemita em Harvard ou em uma universidade no Brasil. Imagine que esse jovem pensa: “Espere: aqui está um povo, o Povo Judeu, capaz de inventar – ou exagerar – o seu próprio martírio e sofrimento. Esse povo merece desprezo, aversão, ódio”. Portanto, o negacionismo também é combustível para o antissemitismo.

O ódio aos judeus sustenta-se em três bases: antissionismo, negacionismo e uma terceira que chamo de “competição entre as vítimas”.

Morashá – O que seria a “competição entre as vítimas”?

BHL – É uma ideia muito presente nos campi universitários dos EUA. Os antissemitas dizem: “Vocês falam tanto do sofrimento dos judeus que não sobra espaço para o de outros povos”, um raciocínio obtuso e insustentável. Nos últimos 50 anos, todo grande massacre ou genocídio, como em Ruanda ou em Darfur, foi denunciado ao mundo, em primeiro lugar, quase sempre por pessoas marcadas pela Shoá (não necessariamente judeus), que, com o Holocausto em mente, conheciam as possíveis consequências do extermínio. Portanto, nossa experiência dolorosa, longe de impedir que se pense e se tome partido em favor de outros povos martirizados, é, ao contrário, um alerta, um catalisador.

Morashá – Qual é a culpa da mídia e das redes sociais na disseminação desses discursos de ódio?

BHL – É grande, mas não devemos confundir o mensageiro com a mensagem. A verdadeira responsabilidade reside no discurso de ódio que acabamos de descrever, que a imprensa dissemina indiscriminadamente e cuja propagação é por ela acelerada. Já as redes sociais o espalham e multiplicam. Lidamos hoje com uma infâmia que se viralizou graças a essas novas mídias, às quais seria muito fácil atribuir a culpa dessa situação, porém, há algo que me preocupa ainda mais do que elas: os métodos e as ferramentas de inteligência artificial.

Como serão alimentados os mecanismos de busca, os ChatGPTs do futuro? Com os dados disponíveis, obviamente de sites, como, por exemplo, a Wikipédia. Essa enciclopédia colaborativa, se assim se pode chamar, é um dos veículos que podem levar a absurdos e, sobretudo, ao antissemitismo. Se observarmos todos os artigos sobre os tópicos que discutimos aqui, o viés é, frequentemente, negativo, pois os voluntários que publicam materiais na plataforma não distinguem entre verdade e mentira. Quando 50 textos dizem que Israel conduz um genocídio em Gaza e apenas um afirma o oposto, aquele que busca introduzir moderação tem muito pouco peso em comparação com os outros repetitivos que afirmam que “há um genocídio em Gaza”. Portanto, há um perigo real, terrível, nesses agregadores, sejam os tradicionais, sejam os do futuro, que produzirão conhecimento por meio de mecanismos de inteligência artificial.

Sonho, sonho mesmo, com alguém, não sei quem, um Bill Gates ou um Mark Zuckerberg, que se conscientize desse problema e crie uma “Wikipédia” diferente, que faça uma seleção e uma filtragem das fontes, sem colocar as tóxicas e as confiáveis, de boa qualidade, no mesmo nível.

Morashá – O ChatGPT também tem todos esses problemas?

BHL – As ferramentas de inteligência artificial não conseguem distinguir entre o verdadeiro e o falso. Segundo os filósofos clássicos, como Spinoza, “a verdade é autoevidente”, ou seja, mostra-se, é tão óbvia quanto o nariz no meio do rosto, porém não é assim. Ela exige escrutínio. Uma vez que não tem como examinar cada fonte individualmente, a inteligência artificial trata todas da mesma forma. Entretanto, esse problema já existia antes da internet. Por exemplo, há 30 ou 40 anos, as revistas de destaque costumavam julgar cientistas, estudiosos e pesquisadores com base no número de publicações de sua autoria. Era a primazia da quantidade sobre a qualidade. Foi o início de um declínio cujos efeitos finais vemos hoje.

Morashá – As universidades e certos círculos intelectuais, antes bastiões do pensamento crítico, passaram, ao que parece, a propagar uma visão tendenciosa de Israel. Como se explica essa tendência?

BHL – Em primeiro lugar, as universidades nem sempre foram bastiões do pensamento crítico. Lembro-me do marxismo em seu auge, nas décadas de 1960 e 1970. Não era pensamento crítico. No entanto, o marxismo-leninismo dominava a academia. Em uma turnê de palestras que fiz no México, no fim dos anos 1970, lembro-me de falar em universidades nas quais Fidel Castro era “o herói”, um grande democrata na visão de auditórios inteiros para quem falei.

É terrivelmente preocupante que o ódio a Israel esteja, muitas vezes, no cerne do radicalismo político hoje em dia. A questão é a bandeira do Hamas estar-se tornando a bandeira de grande parte da esquerda, dos liberais.

Esse é o verdadeiro problema: este tipo de extremismo estar, agora, no centro de tudo.

Em 2024, fiz, por campi universitários norte-americanos, uma turnê que durou cerca de duas semanas e acabou alguns dias após a eleição de Donald Trump. Comecei em Toronto; passei pela Universidade da Califórnia, pelo Pomona College, por Harvard e terminei em Princeton. Publiquei um breve relato dessa experiência no Wall Street Journal, em novembro de 2024. Dirigi-me a auditórios lotados de islamistas e pró-palestinos, que consideravam o 7 de outubro um “ato de resistência” e apoiavam o Hamas. Às vezes, tentavam me impedir de falar. A situação chegou a transformar-se em um confronto bastante intenso, mas nunca me deixei intimidar. Mantive todas as minhas convicções, porém consegui fazer uma constatação: o antissionismo caminhava para tornar-se a posição dominante nos campi norte-americanos e em alguns europeus. Essa tendência é ainda mais evidente nos EUA.

Morashá – Como resistir a isso?

BHL – Vou compartilhar o método que adotei nessa turnê e está no Wall Street Journal. Vou ao território deles e digo: “Sei o que é genocídio porque os cobri durante a minha carreira como repórter. Sei o que é apartheid porque fiz campanha contra ele na África do Sul. Sei o que é colonialismo porque escrevi livros filosóficos sobre colonialismo e anticolonialismo, sobre imperialismo e anti-imperialismo. Em nome desses mesmos conceitos, dessas ideias que vocês afirmam defender, explico por que o que Israel faz não tem nada a ver com genocídio e porque é o oposto de um Estado baseado no apartheid”.

Além disso, se pensarmos em termos de colonialismo e descolonização, Israel seria o produto de uma guerra de libertação bem-sucedida. Talvez seja isso que devamos fazer: levar esses ativistas literalmente. “Vocês dizem que Israel é um Estado apartheid. Sabem o que é o apartheid? Sabem que, em Israel, 20% a 25% dos cidadãos são árabes, com plenos direitos civis, com representantes no Knesset, que têm três partidos políticos, que às vezes são decisivos na política israelense, que muitas vezes são antissionistas e mesmo assim são tratados com igualdade por todo o governo, tanto pela esquerda quanto pela direita? Então, se realmente consideram o apartheid algo desprezível, observem o que ocorre no Estado Judeu, como os árabes são tratados e verão que Israel é o próprio exemplo de sociedade antiapartheid”. Isso também vale para o colonialismo. Portanto, acredito que, nesses campi universitários, este é o método correto de agir: confrontar os opositores com argumentos baseados em suas próprias opiniões.

Morashá – E os professores?

BHL – Esses, de fato, têm uma imensa responsabilidade. Conheço alguns dos EUA que, depois de 7 de outubro, com Israel ainda em choque, antes da retaliação, publicaram na Internet vídeos em que comemoravam tanto o massacre quanto o estupro das mulheres e diziam que aquele tinha sido o melhor dia de sua vida. São citados no meu livro A solidão de Israel.

Morashá – Será que Israel e os judeus da Diáspora perderam a guerra midiática? Como podemos nos mobilizar agora?

BHL – Já dizia o general Charles de Gaulle, em 1940: “Nunca se tem certeza de ter perdido uma guerra. Perde-se uma batalha”. E nós, judeus, de Israel e do mundo todo, saímos derrotados de várias batalhas, talvez da mais decisiva, mas não da guerra! Disso, estou convencido. A história nunca está escrita. Em minha vida, tenho muitos exemplos de histórias que se pensava estarem encerradas, mas, na verdade, não estavam e foram completamente transformadas. Karl Marx dizia: “A história tem mais imaginação do que os homens”. Então, veremos. Sim, é verdade que, por ora, perdemos a batalha das palavras, das narrativas, porém, mais do que nunca, temos que retornar à luta.

Como dizia, precisamos combater no terreno do nosso oponente. Em um programa de televisão daqui do Brasil, em dezembro de 2025, apontei a um jornalista algo muito simples: “Há muitos critérios que definem uma democracia (falávamos de Israel). Um deles é muito importante: o comportamento diante da guerra. Como regra geral, quando uma democracia entra em guerra, entra-se no chamado estado de emergência, o que significa que se suspendem as liberdades civis”. É assim que funciona. A França, quando travou a Guerra da Argélia, suspendeu, depois de alguns anos, a liberdade de imprensa e o direito de reunião, entre outros. Assim que o Reino Unido entrou na 2a Guerra Mundial, Winston Churchill mandou prender suspeitos de serem lenientes com o inimigo. Alguns meses após o ataque das torres gêmeas, em 11 de setembro de 2001, os EUA declararam estado de emergência. Foi chamado de Ato Patriota. Observei ao jornalista brasileiro: “Israel está em guerra, em estado de guerra. Não por alguns meses, não por alguns anos. Israel está em guerra há 77 anos, desde o dia em que foi fundado. Pode-se gostar mais de um governo do que de outro, mas as liberdades democráticas nunca foram suspensas. Por mais de direita ou de esquerda que fosse, nenhum governo proibiu ou exigiu, sob o pretexto de uma guerra, a instauração do estado de emergência em Israel”. Atualmente, por exemplo, há, todos os sábados, manifestações de protesto sob as janelas do gabinete do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu. Um grande jornal, o Haaretz, é muitíssimo hostil às políticas atuais. Há os partidos árabes, que, naturalmente, exercem um poder considerável no Knesset. Mesmo assim, nem hoje, nem ontem, nem anteontem, Israel decretou estado de emergência. Esse é o tipo de coisa que precisamos lembrar aos que nada sabem e são movidos pelo ódio.

Morashá – A seu ver, como os jovens judeus ao redor do mundo devem responder a todas essas acusações e defender Israel?

BHL – Eles têm uma tarefa muito árdua. Com frequência, são assediados em universidades, excluídos de espaços de debate e impedidos de expressar ou cultivar seus próprios valores. Vivem uma situação difícil que precisa ser enfrentada com sabedoria e orgulho, ambos indispensáveis. Como disse recentemente, no Brasil, na França ou nos EUA, o jovem judeu precisa aprender a conciliar a força e a sabedoria. Deve ter, em referência à cultura grega, a robustez de Aquiles e a astúcia de Ulisses ou, à tradição judaica, a força de Gideão, grande líder e guerreiro de Israel, e a sabedoria de Salomão. Essas duas qualidades não se opõem, mas, ao contrário, se complementam. É isso que tento transmitir a meus filhos e netos. Segundo a Torá, ao ver a aproximação dos exércitos de Esaú, Jacob sentiu-se vulnerável e armou-se de dois recursos: força e astúcia, ou seja, inteligência, prudência e, ao mesmo tempo, a determinação de não ceder terreno. Essa é, a meu ver, a complexa tarefa que, até onde sei, os jovens judeus de hoje, mais bem preparados que os das gerações anteriores, têm assumido, tanto que avançam com orgulho e sabedoria.

Uma das grandes calamidades da década de 1930 foi que, quando passou a ser alvo de movimentos nacionalistas e antissemitas, bem como dos regimes fascistas e nazistas, os judeus estavam desarmados, pois haviam se esforçado tanto para integrar-se à população geral, à sociedade da qual eram cidadãos, que se esqueceram do que sua condição significava na França e na Alemanha. Assim, enfrentaram a perseguição espiritualmente frágeis e tragicamente vulneráveis. O mesmo ocorria nos anos 1970 e 1980, quando entrei no cenário intelectual. O antissionismo e o negacionismo, entre outras tendências, começaram naquela época. Indefesos quando o raio do antissemitismo caiu sobre eles, os jovens judeus na casa dos 20 anos em 1968 não souberam como reagir porque não entendiam que eles próprios eram o alvo daquele ódio. Os de hoje sabem e muito bem. Estão armados e preparados porque têm uma base intelectual e espiritual sólida. Essa é uma grande vantagem em comparação com as gerações anteriores.

Morashá – Que mensagem o senhor quer transmitir à comunidade brasileira?

BHL – Não se desencorajem, não percam de vista seus valores e não cedam à intimidação. Permaneçam fiéis ao universalismo que está no coração do Judaísmo e não se isolem porque existe uma tentação real para isso. Obviamente, quando se é atacado por todos os lados, nossa tendência é recuar. Talvez meu conselho mais importante é que não caiam na armadilha do isolamento e do comunitarismo. O jovem judeu brasileiro, ao que me parece, assim como o francês, deve ser capaz de mobilizar-se com a mesma energia não só por Israel e pelos judeus em outras partes do mundo, mas também, por exemplo, pelo Sudão e pela Ucrânia. Deve mostrar que os valores da Torá e do Talmud são universais. Que essa é a genialidade do Judaísmo. Não se devem fazer concessões a esse respeito. Se cedermos nesse sentido, talvez entreguemos ao nosso adversário a vitória mais crucial de que ele tanto necessita.