Vindos da Baviera, sem fortuna nem plenos direitos, os Straus reconstruíram a vida duas vezes, transformaram a Macy’s em um símbolo da América e converteram sua prosperidade em filantropia, tanto em Nova York quanto na Terra de Israel.

No coração de Manhattan, na esquina da 34th Street com a Broadway, ergue-se um edifício de onze andares de vidro e aço que recebe mais de 20 milhões de visitantes por ano. A Macy’s Herald Square é hoje a maior loja de departamentos dos Estados Unidos.

Poucos sabem que, por trás de tudo isso, está a história de uma família judia que deixou a Baviera sem recursos, perdeu tudo o que havia conquistado durante a Guerra Civil americana e precisou recomeçar do zero. A partir de uma modesta banca de louças no porão de uma loja de terceiros, construiu um dos impérios comerciais mais emblemáticos da história dos Estados Unidos. Esta é a história da família Straus.

Da Baviera ao Novo Mundo

Lazarus Straus nasceu em 1809, em Otterberg, uma pequena cidade bávara então integrante da Confederação Germânica. Como grande parte da população judaica da região, viveu sob restrições legais que limitavam o acesso a determinadas profissões, bem como a se fixarem em certas localidades e a terem plena participação na vida política.

A onda revolucionária de 1848, que percorreu a França, os estados alemães, o Império Austríaco e partes da Itália, despertou entre muitos judeus germânicos a esperança de alcançar a emancipação civil. O refluxo conservador que se seguiu, porém, frustrou essas expectativas e restabeleceu grande parte das limitações anteriores.

Foi nesse contexto que Lazarus Straus, cansado de viver sem direitos plenos, decidiu emigrar. Em 1852, partiu sozinho para a América, deixando temporariamente para trás a esposa, Sara, e os filhos pequenos – Isidor, então com sete anos, além dos mais novos, Nathan e Oscar –, com a promessa de mandar buscá-los assim que estivesse estabelecido.

Em vez de se fixar nas grandes cidades do Norte, onde se concentrava a maioria dos judeus alemães, Lazarus foi aconselhado a buscar oportunidades no Sul. Estabeleceu-se inicialmente em Talbotton, na Geórgia, onde passou a trabalhar como mascate, percorrendo plantações e propriedades rurais com uma carroça de mercadorias. Esse percurso era bastante comum entre imigrantes judeus nas Américas do século 19: o comércio ambulante frequentemente constituía a etapa inicial de uma trajetória que poderia levar, posteriormente, à abertura de um negócio próprio.

Em apenas dois anos, Lazarus Straus havia prosperado o suficiente para mandar buscar Sara e os filhos. Em 1854, a família reuniu-se em solo americano. Isidor tinha então nove anos ao chegar ao país que se tornaria sua pátria.

Primeiro em Talbotton e depois em Columbus, Geórgia, Lazarus abriu uma loja de secos e molhados que aos poucos se expandiu.

A Guerra Civil Americana, contudo, representou uma ruptura dramática. Em abril de 1865, nos últimos dias do conflito, Columbus foi devastada pelas forças da União. A loja, os estoques e as economias acumuladas ao longo de anos de trabalho foram destruídos.  Aos 56 anos, Lazarus viu-se obrigado, mais uma vez, a recomeçar do zero. Foi então que decidiu tentar a sorte em Nova York.

Do porão ao topo

A família chegou a Manhattan em 1866, onde Lazarus fundou a L. Straus & Sons, empresa dedicada à importação de louças, porcelanas e cristais. Tratava-se ainda de um negócio modesto, mas os Straus já revelavam as qualidades que os distinguiriam ao longo de sua trajetória: disciplina, visão comercial e notável habilidade para construir relações duradouras de confiança com fornecedores e clientes.

Em 1873, surgiu a oportunidade que mudaria o destino da família. Rowland Hussey Macy, fundador da loja que levava seu nome e que foi inaugurada em 1858 na 14th Street, concordou em ceder aos Straus um espaço no porão do estabelecimento para a venda de suas louças e cristais. À primeira vista, era algo modesto: apenas um pequeno balcão num subsolo comercial.

O êxito, porém, foi quase imediato. Em menos de um ano, a seção dos Straus já respondia por cerca de 10% do faturamento da Macy’s. Muitos clientes passaram a frequentar a loja atraídos justamente pelos produtos da família. Em 1884, Lazarus e seus filhos haviam se tornado sócios parciais do negócio. Em 1896, com os herdeiros de Macy desinteressados em prosseguir à frente da empresa, Isidor e Nathan Straus assumiram o controle da loja e, nos anos seguintes, por meio de um processo progressivo de aquisição de ações, tornaram-se os únicos proprietários da Macy’s. A jornada do porão ao topo levara 23 anos.

Os três filhos de Lazarus ajudariam não apenas a transformar a Macy’s na maior loja de departamentos dos Estados Unidos, mas também a deixar marcas profundas na vida americana e em Eretz Israel.

Isidor Straus: o arquiteto da Macy’s

Entre os filhos de Lazarus, foi Isidor quem exerceu a influência mais decisiva na transformação da Macy’s e deixou a marca mais profunda na vida comercial de Nova York. Nascido em 1845, na Baviera, ele cresceu no sul dos Estados Unidos, onde desde cedo aprendeu tanto a importância da disciplina do trabalho quanto os riscos da instabilidade da vida comercial. Aos 17 anos, durante a Guerra Civil, o pai o enviou à Inglaterra como agente comercial.  Quando regressou, trazia consigo uma formação singular, moldada tanto pelo rigor europeu quanto pelo pragmatismo empreendedor americano.

Sob sua liderança, a Macy’s deixou, em 1902, a 14th Street e se transferiu para a Herald Square, na 34th Street – uma aposta ousada, que muitos à época consideraram temerária. O novo edifício, com oito andares, era então o maior prédio de varejo do mundo. Isidor compreendeu antes de muitos outros que o futuro comercial de Nova York se deslocava para Midtown, região central de Manhattan.

Foi também sob sua direção que a loja introduziu práticas inovadoras no varejo americano: a adoção de preços fixos claramente marcados nas mercadorias, com a abolição da barganha e a garantia de tratamento igual a todos os clientes; a implementação de uma política de devolução sem restrições; e a criação de um dos primeiros programas de benefícios trabalhistas dos Estados Unidos, com atendimento médico e de enfermagem no local, refeições subsidiadas e a distribuição de perus no Dia de Ação de Graças para todos os funcionários.

Sua projeção levou-o também à vida pública. Eleito deputado federal pelo estado de Nova York em 1894, Isidor renunciou ao cargo após pouco mais de um ano, alegando que suas responsabilidades familiares exigiam sua presença. Recusou igualmente o convite do presidente americano Grover Cleveland para assumir o posto de Postmaster General (chefe do serviço postal dos Estados Unidos).

Preferiu dedicar seu tempo e sua energia a causas judaicas. Presidiu por 19 anos a Educational Alliance, instituição do Lower East Side –  bairro no sudeste de Manhattan – que auxiliava imigrantes judeus do Leste Europeu em seu processo de integração à vida americana, oferecendo aulas de inglês, formação cívica e assistência jurídica. Para Isidor, ajudar os recém-chegados não era mera caridade, mas um dever – Kol Yisrael arevim zeh bazeh: todo o povo de Israel é responsável uns pelos outros.

Isidor também contribuiu para a constituição do fundo patrimonial do Jewish Theological Seminary1 e esteve entre os membros fundadores do American Jewish Committee, criado em 1906 para defender os direitos dos judeus e combater o antissemitismo em diferentes partes do mundo.

Em sua vida pessoal, Isidor encontrou em Rosalie Ida Blun sua grande companheira. Os dois haviam-se conhecido em 1863, durante uma viagem de navio para a Inglaterra, e se casaram em 1871. Tiveram sete filhos. Ao longo de 41 anos de casamento, tornaram-se inseparáveis de uma forma que impressionava a todos que os conheciam.

Em abril de 1912, Isidor e Ida regressavam de uma temporada de inverno na Europa. Nathan e Lina os haviam acompanhado até lá, mas Nathan quebrara a perna durante uma visita à Eretz Israel e não pôde fazer a viagem de volta com o irmão. Isidor e Ida embarcaram então, em Southampton, no navio mais célebre de seu tempo: o RMS Titanic.

Na noite de 14 para 15 de abril de 1912, o navio colidiu com um iceberg no Atlântico Norte. Quando se tornou claro que o Titanic afundaria, a cena vivida por Isidor e Ida no convés transformou-se em um dos episódios mais lembrados da tragédia.

Ida recusou-se a entrar no bote salva-vidas sem o marido. Quando amigos se ofereceram para interceder junto a um oficial, a fim de garantir que Isidor embarcasse com ela – afinal, era um homem de 67 anos e uma das figuras mais respeitadas da América –, ele respondeu com firmeza: “Não embarcarei enquanto ainda houver mulheres e crianças a bordo. Não serei tratado de modo diferente dos demais homens”. Ida então pronunciou as palavras que atravessariam o tempo: “Onde você for, eu irei. Como vivemos, assim morreremos – juntos”.

Em seguida, entregou seu casaco de pele à sua funcionária, Ellen Bird, e ordenou que ela entrasse no bote. Depois voltou para permanecer ao lado do marido. Sobreviventes afirmaram ter visto o casal sentado em espreguiçadeiras no convés, de mãos dadas, enquanto o navio se inclinava.

O corpo de Isidor foi recuperado; o de Ida jamais foi encontrado. Mais tarde, a família recolheu água do local do naufrágio e a depositou em uma urna no mausoléu dos Straus, no cemitério Woodlawn, no Bronx. Na lápide externa, gravou-se um versículo do Shir HaShirim, o Cântico dos Cânticos (8:7): “Muitas águas não podem apagar o amor, nem as torrentes afogá-lo”.

Nas semanas que se seguiram, jornais em iídiche e em alemão publicaram extensas homenagens ao casal. Rabinos falaram sobre os dois em sinagogas de todo o país. Em Manhattan, uma escola pública recebeu o nome de Isidor e Ida Straus. Um pequeno parque na esquina da Broadway com a West End Avenue – o Straus Park – perpetua sua memória com uma fonte e um monumento. Na entrada principal da Macy’s, na 34th Street, uma placa de bronze também os recorda, preservando para sempre a memória de ambos.

Nathan Straus: filantropia e Eretz Israel

Nascido em 1848, na Baviera, Nathan era mais extrovertido e ainda mais idealista que o irmão. Compartilhou com Isidor a propriedade da Macy’s e a direção da Abraham & Straus, outra grande loja de Nova York. Seu coração, porém, estava menos nos balcões do comércio do que nas ruas, nos hospitais e, mais tarde, numa estreita faixa de terra à beira do Mediterrâneo: Eretz Israel.

Em 1892, após a morte de dois de seus filhos ainda pequenos, Nathan passou a se dedicar à disseminação de uma descoberta científica então cercada de controvérsia: a pasteurização do leite. A morte súbita de sua vaca levou Straus a pensar que poderia haver uma relação entre o leite cru e a mortalidade infantil. Após a autópsia revelar tuberculose no animal, ele passou a cogitar que a doença pudesse ter sido transmitida à sua família.Louis Pasteur demonstrara que o aquecimento controlado do leite podia reduzir significativamente a presença de microrganismos patogênicos, incluindo os associados à tuberculose, uma das principais causas de mortalidade infantil, à época. Em visita ao laboratório de Pasteur em Paris, ele compreendeu a dimensão daquela descoberta e retornou a Nova York com uma missão.

Do próprio bolso, financiou o primeiro laboratório de pasteurização de leite dos Estados Unidos. Em seguida, abriu postos de distribuição de leite – as milk stations – por toda a cidade, onde famílias pobres podiam comprar leite pasteurizado por um preço simbólico, ou recebê-lo gratuitamente quando não tinham como pagar. Em 1920, já havia 297 postos em 36 cidades americanas. Nas cidades em que o programa operava, os índices de mortalidade infantil caíram drasticamente.

Nathan foi processado por fazendeiros que alegavam que a pasteurização difamava seus produtos. Foi condenado e recebeu pena suspensa. Não parou sua luta, continuou até que a pasteurização se tornasse amplamente adotada e regulamentada em diversas partes do país. Diz-se que Nathan Straus salvou mais crianças do que qualquer outro americano de sua geração.

Mas foi uma viagem em 1904 o que mudaria sua vida para sempre. Nathan e sua esposa, Lina, visitaram como turistas a Palestina então sob domínio otomano. O que viram em Jerusalém os transformou. Anos depois, Nathan recordaria esse momento em palavras carregadas de emoção: ao chegar à cidade, escreveu, desistiram de seguir para outros destinos, tão profunda fora a impressão causada pela Terra Santa. Ver os lugares sagrados dos quais ouvira falar desde a infância e contemplar paisagens ligadas à Torá lhes tocara a alma. Desde então, sentiriam um desejo intenso de retornar àquela terra.

Nathan e Lina tornaram-se sionistas fervorosos. Voltaram à Eretz Israel em 1912 – foi nessa viagem que Nathan quebrou a perna e não pôde acompanhar o irmão no Titanic. Convencido de que fora poupado para cumprir uma missão, dedicou os últimos vinte anos de sua vida à Terra de Israel.

Abriu cozinhas comunitárias gratuitas em Jerusalém, que serviam cerca de duas mil refeições por dia a idosos, cegos e pessoas com deficiência. Financiou a vinda das primeiras enfermeiras da Hadassah para Jerusalém, em 1913 – embrião do que se tornaria o sistema de saúde Hadassah. Construiu o Centro de Saúde Nathan e Lina Straus, em Jerusalém, e um segundo centro, em Tel Aviv. Em ambos, a pedra fundamental trazia uma inscrição em inglês, hebraico e árabe: “Para o benefício de todos os habitantes da terra – cristãos, muçulmanos e judeus”. Lina doou suas joias à Hadassah para ajudar a financiar o centro de saúde de Jerusalém. Estima-se que Nathan e Lina tenham destinado dois terços de sua fortuna à Terra de Israel.

A cidade de Netanya, fundada em 1927 na Palestina sob Mandato Britânico, foi batizada em sua homenagem – Natan, em hebraico, para Nathan. A Rua Straus, em Jerusalém, também carrega seu nome.

Oscar Straus: um judeu no governo

O terceiro filho de Lazarus, Oscar Solomon Straus, escolheu o caminho da diplomacia. Foi embaixador americano na Turquia em três mandatos distintos, sob os presidentes Grover Cleveland, William McKinley e Theodore Roosevelt. Em 1906, Roosevelt o nomeou Secretário do Comércio e Trabalho, tornando-o o primeiro judeu a integrar um gabinete presidencial americano.

Oscar também foi fundador e primeiro presidente da American Jewish Historical Society (Sociedade Histórica Judaica Americana), além de autor de obras sobre liberdade religiosa na América. Sua trajetória sintetizava algo então ainda raro: a presença de um judeu no coração do poder americano.

O legado

A família Straus comandou a Macy’s por três gerações. Jesse, filho de Isidor, dirigiu a loja de 1919 a 1933, quando o presidente Franklin D. Roosevelt o nomeou embaixador dos Estados Unidos na França. Seu filho Jack presidiu a Macy’s de 1939 a 1956.

Ao longo desse século de história familiar, a Macy’s deixou de ser apenas uma loja para se tornar uma instituição americana.

Mas o legado mais duradouro da família Straus não está nos andares de mercadorias nem nos números de faturamento. Está nas crianças americanas que não morreram de tuberculose porque Nathan Straus insistiu em pasteurizar o leite. Está nos centros de saúde que ajudou a erguer em Jerusalém e Tel Aviv.

Está também nas inúmeras instituições comunitárias que Isidor liderou e financiou, as quais transformaram a vida judaica americana. Está no Straus Park, em Manhattan, onde a água da fonte corre incessantemente em homenagem a um amor que nem o fundo do Atlântico conseguiu apagar.

Na entrada da Macy’s, em Nova York, uma placa de bronze passa quase despercebida pela multidão.  “L. Straus & Sons: a família que começou vendendo louças no porão de uma loja alheia e terminou ajudando a construir um pedaço de Eretz Israel.”

A placa permanece ali para lembrar que, sob toda aquela grandeza comercial, existe a história de imigrantes judeus que chegaram sem nada, perderam tudo e recomeçaram duas vezes. E que, quando finalmente alcançaram o topo, decidiram usar sua riqueza para fazer o bem.

1 O Jewish Theological Seminary (JTS) é uma das principais instituições de ensino judaico dos Estados Unidos, localizada em Nova York.