A mobilização de manifestantes mal informados, manipulados por ativistas com interesses próprios, soma-se à omissão de informações e à impossibilidade de que ambos os lados do conflito se expressem.

Por Tânia Tisser Beyda

As imagens do sofrimento da população de Gaza provocam um impacto imensurável. Além dos porta-vozes das Forças de Defesa de Israel (FDI), poucas instituições denunciam a falsidade e o uso manipulativo de imagens divulgadas pela mídia. Recentemente, o fotojornalista Anas Fteiha, na Faixa de Gaza, teve a autenticidade de seu trabalho questionada. O diário Süddeutsche Zeitung (SZ)1, de Munique, publicou uma foto de Fteiha com a manchete: “Quão autênticas são as fotos de Gaza?”, levantando dúvidas sobre as imagens que mostravam pessoas segurando potes vazios, aparentemente posando para o fotógrafo em vez de esperar em um local de distribuição de alimentos. Logo depois, em agosto de 2025, o jornal alemão Bild2 publicou um artigo intitulado “Este fotógrafo de Gaza encena propaganda do Hamas”, utilizando a mesma foto de Fteiha. O artigo acusava esse fotojornalista de dramatizar o sofrimento real dos palestinos para beneficiar a propaganda anti-Israel. O Bild publicou fotos de Fteiha registrando pessoas aguardando comida em um suposto ponto de distribuição, sugerindo que se tratava de encenação.

Na verdade, as imagens foram feitas a pedido da agência de notícias estatal turca Anadolu, que, segundo Fteiha, contratou vários fotógrafos para documentar “o sofrimento dos palestinos deslocados em sua luta pelo acesso a alimentos”.  A agência Anadolu, alinhada ao governo de Recep Tayyip Erdoğan, apresenta histórico de viés anti-Israel. Em julho de 2025, Erdogan comparou Netanyahu a Adolf Hitler, acusando Israel de ser uma das principais fontes de instabilidade global.

Apesar do viés anti-Israel, as fotos dessa agência circularam em veículos como CNN, BBC e Reuters. A Embaixada de Israel em Berlim alertou para o uso de imagens encenadas, conhecidas como “Pallywood”, com o objetivo de manipular a opinião pública internacional.

Uma investigação do Der Spiegel3, baseada em Inteligência de Código Aberto (OSINT) – utiliza o exame de fontes publicamente disponíveis, incluindo aquelas disponíveis na internet, e geolocalização), concluiu que Fteiha registrava as cenas em frente a uma cozinha operada por uma organização de ajuda palestina. Entretanto, são pertinentes as críticas aos fotógrafos, agências e veículos de notícias sobre o uso de técnicas que promovem a narrativa seletiva com o objetivo de manipular os fatos. Algumas técnicas utilizadas são: a cuidadosa seleção de closes e ângulos para criar a ilusão de caos e fome, evitando deliberadamente mostrar a distribuição ordenada de alimentos, e o registro de cenas emocionantes de crianças, mulheres e homens segurando potes vazios antes que a comida lhes seja entregue. Nunca mostram o momento de alívio, priorizando filas, rostos famintos e tigelas vazias.

Outra imagem que gerou controvérsia semelhante foi publicada na capa do jornal The New York Times, em julho de 2025. A foto mostrava uma criança palestina de 18 meses, Mohammed Al-Mutawaq, visivelmente debilitado, nos braços da mãe. A legenda original afirmava que ele havia nascido saudável e fora diagnosticado com desnutrição severa. A imagem rapidamente ganhou repercussão internacional, reproduzida por veículos como CNN, BBC, The Guardian e Sky News, despertando intensa comoção.

Alguns dias depois, o Times corrigiu a legenda e publicou uma nota discreta, após divulgação de informações conflitantes. A retificação ocorreu quando o jornalista investigativo independente David Collier revelou um relatório médico da Basma Association for Relief, organização humanitária atuante em Gaza, segundo o qual a criança sofria de paralisia cerebral e hipoxemia, possivelmente relacionada a um distúrbio genético.

O historiador alemão Gerhard Paul, especialista em História Visual que utiliza imagens como fontes históricas para compreender eventos, ideologias e narrativas, declarou ao SZ que o Hamas controla totalmente a produção de imagens no sul de Gaza, buscando gerar simpatia no Ocidente e inflamar a raiva contra Israel. Segundo Paul, essas imagens cumprem uma “função adicional”: substituir as imagens brutais do ataque de 7 de outubro de 2023, cujos detalhes já caíram no esquecimento da população ocidental. Fotos de crianças desnutridas, mulheres com panelas vazias e homens idosos em aparente desespero deveriam levar jornalistas, analistas e o público a questionar se as imagens realmente contam toda a história: qual é o contexto, o que foi deixado de fora de quadro, quem contratou a imagem, quem decide o que é publicado, o que é omitido e qual é a narrativa que a outra parte apresenta. Esse enquadramento seletivo não apenas engana, mas transforma uma imagem em uma arma de guerra.

Bibliografia

Photographing the suffering in Gaza: A Palestinian photojournalist finds himself at the center of controversy. Artigo publicado por Nikolai Antoniadis, Susanne Koelbl e Dunja Ramadan na edição de 30/08/2025 do jornal Der Spiegel

Erdogan acusa Israel de responsável pela instabilidade mundial e compara Netanyahu a Hitler. Artigo publicado por Natasha Bowler em 21/06/2025 na Euronews e AP

www. https://honestreporting.com

BILD Exposé: Gazan Photographers Stage “Famine” Images For Hamas Propaganda. Artigo publicado 06/08/2025 no The Yeshiva World. https://www.theyeshivaworld.com/news/israel-news

A newspaper called his Gaza photos “Hamas propaganda”. Artigo publicado por Hanno Hauenstein em 14/09/2025 no The Intercept. https://www.theintercept.com

NY Times admits emaciated Gazan boy on front page had ‘pre-existing health problems’. Artigo publicado em 30/07/2025 no jornal Times of Israel. https://www.timesofisrael.com

1  Süddeutsche Zeitung é um dos jornais mais respeitados e influentes da Alemanha e também da Europa. Tradicionalmente é de centro-esquerda, com foco em jornalismo investigativo, política, cultura e economia. É conhecido por sua cobertura crítica e aprofundada de temas políticos e sociais e goza de reputação de ter independência editorial.

2  Bild é uma das publicações de Axel Springer SE, considerada uma das maiores editoras digitais da Europa, com marcas influentes como Bild, Welt, Business Insider, Politico e Morning Brew. Seu posicionamento editorial defende valores como liberdade de expressão, democracia e jornalismo independente.

3 Der Spiegel é uma das revistas de notícias mais influentes e respeitadas da Alemanha e da Europa, conhecida por seu jornalismo investigativo, análises políticas e cobertura internacional profunda.

Tânia Tisser Beyda é consultora em Gestão Empresarial, Doutora e Mestre em Administração e Arquiteta.