Ao longo da década de 2010, o antissemitismo no Canadá registrou crescimento expressivo, sobretudo na segunda metade do período. Entre 2023 e 2025, os incidentes antissemitas e a deterioração da segurança tornaram-se as principais preocupações dos judeus canadenses. Pesquisas recentes indicam que muitos canadenses – judeus e não judeus – consideram o antissemitismo um problema real e crescente no país.
Em 2011, viviam no Canadá cerca de 391,6 miljudeus (aprox. 1,2% da população), concentrados principalmente nos grandes centros urbanos – Toronto, Montreal e Vancouver. Trata-se de uma comunidade integrada e instruída. Há pluralidade religiosa e cultural, forte vida comunitária e grande engajamento filantrópico. Mantém níveis muito altos de escolaridade e participação expressiva nas profissões liberais, no comércio, nas finanças, na mídia, na educação e na tecnologia. Os laços com Israel são sólidos – familiares, culturais e filantrópicos –,somados a uma participação ativa na vida cívica canadense. Apesar das contribuições dos judeus à vida do país, o antissemitismo voltou a se manifestar com força.
Durante o governo Stephen Harper (Partido Conservador, 2006–2015), o Canadá adotou uma linha abertamente pró-Israel, mantendo alinhamento firme em fóruns multilaterais e votando sistematicamente contra resoluções críticas a Israel na ONU. Em janeiro de 2014, Harper discursou no Knesset – o primeiro premiê canadense a fazê-lo – e firmou um Memorando de Parceria Estratégica Canadá-Israel. No plano da ajuda internacional, em 2010 seu governo interrompeu o financiamento canadense à UNRWA (Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Próximo).
A política pró-Israel mudou com a chegada de Justin Trudeau (Partido Liberal) ao poder, em 2015, marcando um claro afastamento do tradicional alinhamento automático com o Estado Judeu. No ano seguinte, o governo restaurou o financiamento à UNRWA (houve uma pausa no início de 2024 e retomada em março, apesar de denúncias graves de envolvimento da agência com o Hamas). Em 2019, o Canadá quebrou o padrão de votos pró-Israel na ONU ao apoiar uma resolução sobre autodeterminação palestina. A Corte Federal do Canadá determinou ser “enganoso” rotular como “Produto de Israel” bens oriundos de assentamentos na Cisjordânia.
Em 2024, o governo congelou novos licenciamentos de exportação de material militar para Israel – decisão considerada por muitos como extremamente punitiva a um aliado democrático em guerra.
Paralelamente à mudança das posições de Ottawa em relação a Israel, registrou-se no Canadá uma onda crescente de crimes de ódio contra judeus. As auditorias anuais da B’nai Brith apontam que, desde o início dos anos 2020, o país enfrenta uma escalada sem precedentes do antissemitismo. Relatórios comunitários e dados policiais indicam que, em 2023, cerca de 70% dos crimes de ódio por motivação religiosa tiveram como alvo a comunidade judaica.
A ofensiva antissemita se intensificou após o ataque terrorista do Hamas, em 7 de outubro de 2023, contra o sul de Israel – que matou cerca de 1.200 pessoas e resultou no sequestro de outras 251 –, deflagrando a guerra em Gaza.
No Canadá atual, o antissemitismo se manifesta em múltiplas vertentes: extrema direita e supremacismo branco, militância anti-Israel à esquerda (especialmente nos campi), ativismo antissionista nas ruas e extremismo islâmico.
O ativismo anti-Israel passou a deslegitimar a existência de Israel e a recorrer a retórica e calúnias antissemitas. Em março de 2024, por exemplo, o jornal quebequense La Presse publicou uma charge retratando o premiê israelense Binyamin Netanyahu como Nosferatu, figura vampiresca historicamente utilizada em propaganda antissemita. Em maio, na Universidade de Toronto, um aluno fez a saudação nazista a um estudante judeu e afirmou desejar que os nazistas “tivessem assassinado todos vocês”. No mesmo mês, um homem tentou atear fogo à sinagoga Schara Tzedeck, em Vancouver, e tiros foram disparados contra uma escola judaica para meninas em Toronto (alvo de outros dois ataques em 2024). Em junho, um homem de motocicleta lançou pedras contra duas sinagogas na região de Toronto, quebrando painéis de vidro; também em junho, um nacionalista fez violentas ameaças a judeus. Em julho, um homem e seu filho foram presos por um plano, inspirado no ISIS, para assassinar judeus na Grande Toronto. Em agosto, ameaças de bomba miraram sinagogas, centros comunitários e escritórios da B’nai Brith em todo o país.
De setembro a dezembro de 2024, membros do movimento neonazista russo Maniac Murder Cult (MKY) cometeram atos antissemitas em Winnipeg – com grafites (inclusive suásticas) e outras depredações. Em novembro, manifestantes entoaram slogans antissemitas diante de uma sinagoga em Montreal; ao fim do mês, uma mulher fez a saudação nazista e disse que uma “Solução Final” estava por vir. Em dezembro, um coquetel molotov atingiu a Congregation Beth Tikvah, em Dollard-des-Ormeaux (Montreal) – o segundo ataque ao local desde 7 de outubro de 2023.
As mídias sociais têm sido um vetor central dessa escalada. Nas universidades, multiplicaram-se assédios on-line, campanhas e protestos contra Israel; intimidações e boicotes passaram a impedir palestras e atividades judaicas, e entidades comunitárias criaram programas específicos para os campi universitários.
Os indicadores nacionais mostram que os níveis “sem precedentes” de antissemitismo se mantiveram em 2025, e os judeus continuam sendo o grupo religioso mais visado nos crimes de ódio no país.
Em 12 de agosto de 2025, a comunidade judaica canadense e judeus ao redor do mundo ficaram atônitos quando o Festival Internacional de Cinema de Toronto (TIFF) retirou de sua programação, sob a justificativa de “questões jurídicas de direitos autorais”, o documentário The Road Between Us: The Ultimate Rescue, dirigido pelo canadense Barry Avrich. O filme acompanha o maj.-gen. (res.) Noam Tibon em sua corrida para resgatar o filho, o jornalista Amir Tibon, e sua família, enquanto eram atacados por terroristas do Hamas em sua casa no Kibutz Nahal Oz. O documentário inclui trechos captados pelas próprias câmeras dos terroristas durante os massacres nas comunidades israelenses. Naquele dia, mais de um quarto dos cerca de 400 moradores de Nahal Oz foram assassinados ou sequestrados.
A decisão do TIFF – amparada em supostas “preocupações de direitos autorais”, por não haver “permissão” dos terroristas cujos clipes aparecem no filme – provocou forte reação de organizações judaicas. Exigir “consentimento” de terroristas que perpetraram crimes terríveis foi apontado como um retrocesso moral e uma forma de silenciamento das vítimas. Após a repercussão negativa, o festival reverteu a decisão, e o documentário foi exibido no TIFF em 10 de setembro de 2025.
Em 27 de agosto, uma mulher judia foi esfaqueada dentro de um supermercado em Ottawa – o episódio chocou o país, e lideranças canadenses condenaram o ataque antissemita. O CIJA (braço das Federações Judaicas do Canadá) relatou que o supermercado já havia sido alvo de protestos anti-Israel. Em 15 de fevereiro, o Temple Emanu-El-Beth Sholom, em Westmount (Montreal), amanheceu com uma suástica em uma parede externa. Em meados de setembro, sinagogas e instituições judaicas de Halifax foram alvo de pichações antissemitas, levando entidades comunitárias a pedir reforço de segurança.
Em 21 de setembro de 2025, o Canadá foi um dos países a reconhecer o Estado da Palestina. Israel condenou a decisão como “recompensa ao terrorismo”, enquanto entidades judaicas no Canadá e na Diáspora (como o Board of Deputies, o CIJA e a ECAJ) expressaram grave preocupação por considerarem que o gesto fortalece extremistas.
Hoje, vivem no Canadá cerca de 400 mil judeus. O clima de tensão e insegurança levou ao reforço da segurança em sinagogas, escolas e eventos comunitários. Lideranças como a ex-enviada federal contra o antissemitismo, Deborah Lyons, declararam-se “desalentadas” com a dificuldade de mobilizar respostas claras do governo ao problema.