Por Tânia Tisser Beyda Contudo, a resposta pública aos acontecimentos revelou que o que se via nas ruas não era um mero clamor por trégua humanitária: a retórica continuou a reforçar slogans que evocam a eliminação do Estado de Israel, como o grito “From the river to the sea, Palestine will be free” (“Do rio […]

Por Tânia Tisser Beyda

Contudo, a resposta pública aos acontecimentos revelou que o que se via nas ruas não era um mero clamor por trégua humanitária: a retórica continuou a reforçar slogans que evocam a eliminação do Estado de Israel, como o grito “From the river to the sea, Palestine will be free” (“Do rio ao mar, a Palestina será livre”), e a propagar discursos impregnados de antissemitismo. Assim, ficou evidente que a mobilização popular não se pautava na compaixão pelos civis palestinos nem na busca por ajuda humanitária, mas em um objetivo político mais radical – o de negar a legitimidade da existência do Estado de Israel e dos próprios judeus.

Essa distorção de propósitos ajuda a compreender por que, diferentemente das atrocidades e massacres genocidas ocorridos na Turquia, no Iraque, em Ruanda, Srebrenica e Kosovo, que despertaram a indignação e condenação internacional, o pogrom do Hamas em 7 de outubro de 2023 recebeu outro tipo de reação. Marcado por maus-tratos violentos, abuso sexual, execuções e sequestro de reféns, esse ataque foi racionalizado e até celebrado nas universidades ocidentais e manifestações pró-Palestina em cidades americanas e europeias. Essas demonstrações de apoio fortaleceram a legitimidade internacional do Hamas, sustentaram sua permanência no poder e prejudicaram o prestígio global de Israel, seus esforços de guerra e a segurança dos reféns.

Compreender essa situação sem precedentes exige reconhecer que o conflito entre Israel e o Hamas vai além do campo militar, pois há uma batalha paralela travada no terreno simbólico da comunicação e da manipulação ideológica. Ao longo da história, a propaganda tem moldado opiniões, reforçado ideologias e justificado a violência. A análise das campanhas de propaganda antissemita do Regime Nazista e de propaganda antissionista e antissemita promovida pelo Hamas revela mecanismos semelhantes, ainda que em contextos históricos, políticos e geográficos distintos. Ambos os discursos desumanizam o “outro”, constroem uma narrativa moral dicotômica e disseminam o medo e o ódio como instrumentos de mobilização social e política.

O Hamas tem conquistado vitórias decisivas na guerra de propaganda ao moldar a opinião pública internacional e enfraquecer o apoio das instituições e governos a Israel. Suas ações se estendem da produção de conteúdo no campo da batalha à mobilização da sociedade civil e à batalha jurídica.

O Ministério da Propaganda e seus Tentáculos

A estratégia do Hamas se apoia em um contexto de crescente antissionismo e antissemitismo e em uma rede de apoio ideológico e político profundamente enraizada no Ocidente, que inclui o Comitê de Solidariedade à Palestina, os Estudantes pela Justiça na Palestina (SJP), o movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) e o Boicote Acadêmico Palestino a Israel. Essas organizações formam a mais expressiva rede pró-Palestina presente em campi universitários, na sociedade norte-americana e em suas ramificações na Europa e Oceania. Elas impulsionaram a proliferação e propagação de narrativas e acusações falsas sobre Israel e seus objetivos de guerra, e ampliaram a divulgação de conteúdos produzidos pelo Hamas em Gaza.

Assim como o Ministério da Propaganda do Terceiro Reich comandado por Joseph Goebbels, o Hamas estruturou um poderoso aparato de comunicação liderado por Abu Obeida, porta-voz das Brigadas Izz ad-Din al-Qassam, braço armado do grupo. Segundo o jornalista israelense Doron Kadosh, foi criado um dos maiores dispositivos de comunicação, influência e terrorismo psicológico já montados por uma organização terrorista, envolvendo cerca de 1.500 militantes especializados.

Esse aparato, implementado e ampliado a partir de 2014, integra todos os batalhões e brigadas da organização, cada um com um gerente de comunicações e uma equipe de filmagem, documentação e edição. As equipes vão a campo equipadas com câmeras GoPro e transmitem imagens em tempo real para as células de mídia. Abu Obeida determinava que a documentação importava mais que a própria ação: mesmo uma operação malsucedida seria um êxito psicológico se bem registrada. Centenas de homens de mídia monitoravam as comunicações israelenses e analisavam o discurso público sugerindo ações de impacto psicológico. Essa mesma rede produziu os vídeos dos reféns, escolhendo os prisioneiros, roteiros e formas de transmissão, sob orientação direta de Abu Obeida.

Durante as cerimônias de libertação dos reféns, no acordo de novembro de 2024, Abu Obeida estava presente e deu instruções em hebraico aos cativos antes da encenação pública. Foi dele a ideia dos “certificados de libertação” e dos presentes cínicos. Em uma fase posterior, Obeida liderou uma campanha de terror psicológico centrada na questão dos reféns, a fim de criar pressão popular e governamental, em Israel, para dissuadir a entrada das forças israelenses na Cidade de Gaza. Abu Obeida foi morto após três tentativas fracassadas de captura, visto que se protegia junto aos reféns.

Estratégias e Táticas Legadas

À semelhança do Regime Nazista, o Hamas constrói a imagem de um inimigo absoluto: o sionista como invasor cruel e genocida. Essa representação, considerada a fonte de todo o mal, cria uma polarização extrema e justifica a violência como mecanismo de sobrevivência ou redenção. O grupo também explora a condição de vítima do povo palestino como oprimido e subjugado. E assim como na Alemanha do Terceiro Reich, instrumentaliza essa narrativa para justificar ações violentas e absolver os agressores de qualquer responsabilidade moral.

Os métodos seguem a mesma linha: simplificação do discurso, apelo emocional, repetição incessante de slogans, uso de crianças em materiais de propaganda e exclusão de complexidades históricas e políticas.

Desde o início do conflito, o grupo jihadista explora a comoção causada por imagens de sofrimento em Gaza, enquanto restringe o acesso da imprensa a locais que revelem suas ações militares. Ao controlar a narrativa visual e emocional, apresenta-se como vítima, mesmo após perpetrar atos de extrema violência contra civis israelenses. Tal manipulação é amplificada por veículos de imprensa ocidentais, que frequentemente falham na checagem dos fatos ou evitam rotulá-lo como organização terrorista, contribuindo, assim, para o enfraquecimento da legitimidade de Israel.

Essa hegemonia narrativa mostra-se particularmente eficaz entre jovens esquerdistas ocidentais e nos ambientes acadêmicos. O Hamas aparece como símbolo de resistência anticolonialista, enquanto Israel é retratado como Estado opressor, alimentando uma onda crescente de Israelofobia e antissemitismo, disfarçados de solidariedade à causa palestina. Neste cenário, a organização que governa Gaza conquista uma vitória simbólica já que quanto maior o sofrimento em Gaza – ainda que provocado por sua própria estratégia militar – maior a aceitação do grupo como herói da causa anti-imperialista global.

A estratégia de comunicação do Hamas adapta sua mensagem a dois públicos distintos: o mundo muçulmano árabe e o Ocidente. Ao se definir como organização religiosa de “resistência”, justifica seus ataques, como o de 7 de outubro, com base nos princípios islâmicos da jihad, entendida como oposição à soberania judaica em Dar al-Islam (território do Islã, onde a lei islâmica ou sharia se aplica), conforme estabelece claramente seu Pacto de 1988.

O “marketing religioso” da organização retoma a estratégia de Hitler de projetar uma imagem de futuro sem espaço para os judeus ou para o Estado de Israel. Dá continuidade à tradição de Haj Amin al Husseini (1895-1974), figura central do nacionalismo árabe-palestino e líder religioso e político, e da Irmandade Muçulmana, ao acusar os judeus de buscar o controle do Monte do Templo. Com esse simbolismo ideológico-religioso, justifica sua visão de futuro. Essa tática marcou a “Intifada de Al-Aqsa”, em 2000, promovida pela Autoridade Palestina, e reapareceu no massacre do “Dilúvio de Al-Aqsa”, em 7 de outubro de 2023.

Lideranças palestinas reforçam essa narrativa. Em 10 de outubro de 2023, Khaled Mashal, também membro do bureau político do Hamas, conclamou todos os muçulmanos a se unir à batalha “para derramar seu sangue puro na terra da Palestina”, afirmando que quando “o mundo, os Estados Unidos, o Ocidente e os sionistas vissem os comboios dos mujahidins (guerreiros santos) a caminho da Palestina, o campo de batalha e o equilíbrio de poder mudariam”. Em dezembro de 2023, Fathi Hamad, membro do bureau político do Hamas e ex-ministro do Interior, declarou na televisão Al-Aqsa que os palestinos se preparavam para estabelecer um califado islâmico tendo Jerusalém como capital. O Hamas procura convencer o mundo árabe de que age de forma ética e dentro dos preceitos islâmicos, em contraste com a brutalidade atribuída ao ISIS, e, assim, legitimar-se como um ator político e militar na região.

Para o Ocidente, o grupo se apresenta como “movimento de liberdade” contra um regime “colonialista opressivo”. Essa narrativa não apenas molda a opinião pública, mas também influencia a percepção global do conflito. Ao exibir seus combatentes como defensores de uma causa justa e humanitária, busca consolidar apoio e neutralizar críticas, mesmo diante de atos violentos. Dessa forma, aplica o legado de Hitler, em que o poder da narrativa transforma atos terroristas em supostamente justificáveis e culpabiliza as próprias vítimas.

Assim como na Alemanha do Terceiro Reich, o Hamas e a Autoridade Palestina promovem a doutrinação de crianças nas escolas dos territórios que controlam. A ONG IMPACT-se, entidade sem fins lucrativos dedicada a pesquisar como diferentes países educam os jovens sobre religiões, sociedades, culturas, valores democráticos e o Outro (seus vizinhos, minorias e até mesmo inimigos), analisou em 2009 o site Al-Fateh, revista digital infantil ligada ao Hamas.

O relatório concluiu que o conteúdo do site difundia a ideologia do grupo com propaganda, doutrinação e incentivo à violência. A mensagem política central defendia a destruição de Israel e a criação de um Estado islâmico em seu lugar, além de promover a jihad, o martírio e o terrorismo como formas legítimas de luta. O site prepara crianças para se tornarem combatentes e mártires suicidas, transformando-as em instrumento da luta contra Israel. Seguem alguns exemplos de textos antissemitas que propagam ódio e violência encontrados nessa revista:

“Os muçulmanos e seus filhos, em todos os lugares, estão sob um cerco de injustiça – na amada Palestina aprisionada, no Afeganistão ferido, na Caxemira, na Chechênia e em outras partes do mundo que são controladas pela mais desprezível das criaturas de D’us: os judeus e seus agentes na América cruzada.” (Edição 4, dezembro de 2002).

“...Refiro-me aos judeus e aos cruzados, que recebem ordens dos judeus, para que seus corações se encham de ódio sagrado por essas pessoas desprezíveis e que vocês passarão para seus filhos e netos, até a hora da vingança que será mais terrível.” (Edição 30, junho de 2004).

“Al-Quds (Jerusalém) permanecerá como um patrimônio em nossas mãos e nas mãos de todos os muçulmanos, e eles devem se unir e se reunir para sua libertação e a libertação da terra da Palestina da impureza dos sionistas, descendentes de macacos e porcos.” (Edição 129, agosto de 2008).

Um relatório da IMPACT-se, divulgado em novembro de 2024, sobre as práticas educacionais nas escolas da UNRWA (Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Próximo) durante o ano letivo de 2023–24, comprovou vínculos entre a liderança escolar e operativos do Hamas. O documento revelou que doze administradores da UNRWA integravam o Hamas ou a Jihad Islâmica Palestina. A análise atualizou descobertas de relatórios anteriores ao examinar conteúdos produzidos e ensinados nas escolas da UNRWA e nos currículos da Autoridade Palestina, identificando materiais que glorificam a violência, incitam ao antissemitismo e negam o reconhecimento de Israel. Textos que elogiam o martírio e a jihad como “os significados mais importantes da vida”. Esse material nega repetidamente a existência de Israel, utilizando mapas que rotulam todo o território israelense como “Palestina” e apresentam exercícios de gramática e compreensão que vilificam os israelenses e incentivam ao conflito.

Guerra jurídica para deslegitimação de Israel

Na tentativa de legitimar a causa palestina e deslegitimar Israeldiante da comunidade internacional, o Hamas se beneficia também da “guerra jurídica” iniciada pela OLP, na década de 1970, e continuada pela Autoridade Palestina, a partir de 2009. Essa estratégia inclui petições internacionais levadas à Corte Internacional de Justiça (CIJ), ao Tribunal Penal Internacional (TPI) e à ONU. Em 1974, Arafat, então presidente da OLP – na época considerada uma organização terrorista – discursou na plenária da ONU, com o apoio da União Soviética e seus aliados. No ano seguinte, o bloco soviético, comunista, árabe e do Terceiro Mundo aprovaram a Resolução 3379 da ONU, que declarava o sionismo uma forma de racismo, revogada apenas em 1991. Apesar disso, em uma campanha crescente de “condicionamento linguístico”, a Autoridade Palestina deslegitimou a história judaica, suas raízes na terra e seu direito à autodeterminação – narrativa que o Hamas e movimentos pró-Palestina retomaram após 7 de outubro de 2023.

Em dezembro de 2023, a África do Sul,  visando a apoiar o Hamas e alinhada ao seu patrocinador militar, o Irã, ingressou  com uma ação na Corte Internacional de Justiça, acusando Israel de genocídio. Essa acusação exemplifica a tática de “inversão do Holocausto” contra o Estado de Israel, usada há décadas pela Autoridade Palestina. Em maio de 2024, o Procurador-Chefe do Tribunal Penal Internacional (TPI), Karim Khan, solicitou mandados contra líderes de Israel e do Hamas, acusando ambos de crimes de guerra. Esses processos demonstram, de um lado, como a retórica anti-Israel defendida por líderes da Autoridade Palestina penetrou nas mais altas cortes internacionais e, de outro, como o Hamas e Israel passaram a ser colocados no mesmo patamar, embora representem respectivamente uma organização terrorista e um Estado democrático.

Narrativas para a deslegitimação de Israel

Na sociedade civil, a cruzada dos movimentos pró-Palestina isolou Israel globalmente e favoreceu sua deslegitimação, abrindo caminho para a tentativa de legitimar o massacre perpetrado em 7 de outubro de 2023. O grupo terrorista encontrou apoiadores fiéis entre públicos da esquerda radical, no Ocidente, por meio das campanhas e manifestações do BDS e de outras instituições pró-palestinas. Essas organizações buscaram justificar a violência do Hamas com narrativas que descrevem os judeus como colonizadores e racistas. O BDS incorporou à propaganda antissemita a alegação de que os judeus não são nativos de Israel, mas parte de uma “classe opressora branca”, e que o sionismo representa “colonialismo de assentamento” e “apartheid”. Esses movimentos passaram a apresentar os atos terroristas como “resistência contra a ocupação” em protestos nas ruas, em campi universitários e nas redes sociais.

Essas narrativas não são novas. De 2015 a 2020, quando atuava como secretário-geral da Autoridade Palestina, Saeb Erekat tornou-se um dos representantes palestinos mais influentes nas redes sociais, publicando quase diariamente em árabe e inglês. Em seus discursos, entrevistas, postagens e reuniões, ele lançou acusações amplas e falsas contra Israel e sua liderança, como “colonialismo, apartheid, limpeza étnica, ocupação ilegal e política de assentamentos ilegítimos”. Esses termos, aplicados a Israel com base em distorções jurídicas e factuais, perderam seu contexto histórico original para servir como palavras-chave de deslegitimação moral. O processo se assemelha à linguagem burocrática usada pelos nazistas para justificar a perseguição aos judeus. Trata-se do uso de jargões como ferramenta de propaganda que busca desumanizar o outro com aparente neutralidade técnica. Entre eles, destacam-se:

Apartheid: a narrativa tenta estabelecer um paralelo entre Israel e a política de segregação racial e opressão institucionalizada da África do Sul (de 1948 a 1994). Nesse regime, havia várias leis que negavam direitos básicos às populações não-brancas e garantiam o controle político, econômico e legal pela minoria branca. O Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional das Nações Unidas define “apartheid” como “Qualquer ato desumano análogo a [extermínio, tortura, estupro, agressão sexual, deportação ou transferência forçada de uma população], praticado no contexto de um regime institucionalizado de opressão e domínio sistemático de um grupo racial sobre um ou outros grupos nacionais e com a intenção de manter esse regime”.

Israel não se encaixa nessa definição, pois não se compõe de um único grupo racial e não comete nenhum dos graves crimes descritos no Estatuto. Suas leis são aplicadas a todos os cidadãos, independentemente de raça, religião ou gênero. Cerca de 21% da população de Israel é formada por árabes israelenses, plenamente integrados à sociedade israelense, com participação em diversos setores – inclusive em cargos de destaque na medicina, tecnologia, educação, comunicação, tribunais, governo e no Knesset (Parlamento Israelense).

A narrativa de “apartheid” visa deslegitimar Israel como Estado-membro da comunidade internacional e defender sua dissolução e substituição, a exemplo do regime sul-africano.

Colonialismo: acusar Israel de colonialismo, ainda que seja uma acusação sem fundamento, difama o país ao associá-lo a um fenômeno universalmente condenado, identificando-o como um regime que deveria se tornar ilegal, além de contribuir para a narrativa de deslegitimação. Na região, apenas os otomanos (de 1517 a 1917) e os britânicos (de 1917 a 1948) foram colonizadores. Os sionistas do século 19, vindos da Europa e de países árabes para se juntar à antiga população judaica já presente, jamais foram considerados “colonialistas”. Nenhuma população étnica que retorna à sua terra natal ancestral pode receber esse rótulo. Israel também não é um “Estado colonialista branco”, já que mais da metade dos israelenses são considerados “não-brancos” – de origem não-europeia e com grande diversidade étnica. Historicamente, os judeus europeus nunca foram considerados “brancos” por seus vizinhos árabes, mas apenas “judeus”.

Territórios Palestinos Ocupados (OPT): essa expressão, aceita como terminologia oficial da ONU desde a década de 1970, tem sido amplamente usada em resoluções e relatórios. O termo carece de base legal, histórica ou factual. Não há resoluções vinculativas da ONU, nem acordos ou arranjos entre as partes envolvidas no processo de negociação de paz, que determinem que os territórios são palestinos, que pertencem aos palestinos, ou que tenham feito parte de alguma entidade soberana palestina – algo que nunca existiu.

“Ocupação” é um termo jurídico reconhecido no Direito Internacional dos conflitos armados. Trata-se de uma situação legal aceita, à qual o Direito Internacional Humanitário dedica diversas convenções e normas que estabelecem os comportamentos esperados tanto da potência ocupante quanto da população ocupada. As ocupações existem – e existiram – ao longo da história, mas o uso condenatório direcionado exclusivamente a Israel distorce a realidade e ignora que a lei internacional não define os territórios como palestinos nem tampouco os reconhece como pertencentes a uma soberania palestina.

Bloqueio ilegal de Gaza: Frequentemente citado em relatórios e resoluções da ONU e por propagandistas palestinos, é um termo incorreto que visa reforçar a percepção de que Israel seria um violador recorrente do Direito Marítimo internacional. Em 2010, após um incidente com uma flotilha turca, um painel de investigação da ONU presidido por Sir Geoffrey Palmer, ex-primeiro-ministro da Nova Zelândia, concluiu que o bloqueio marítimo israelense é uma medida legítima de segurança, plenamente justificada diante da natureza terrorista da administração do Hamas em Gaza.

Violência desproporcional: A acusação reaparece sempre que Israel se defende de ataques massivos em seu território, tentativas de violar sua fronteira ou de infiltração. Tais alegações manipuladoras, muitas vezes acompanhadas de estereótipos como “assassinato de crianças”, inevitavelmente encontra eco em setores da comunidade internacional, na mídia e em organizações como a ONU, o Conselho de Direitos Humanos da ONU e inúmeras organizações governamentais e não governamentais envolvidas na defesa dos Direitos Humanos. Essas entidades buscam impor a Israel padrões que não são aplicados a nenhum outro país diante de agressões semelhantes.

O conceito jurídico de proporcionalidade não significa que o número de vítimas de ambos os lados deva ser semelhante, mas considera se os civis são alvos intencionais dos ataques – como foram os civis israelenses em 7 de outubro de 2023 – ou se são, ou não, resultado não-intencional de ataques a alvos militares legítimos. Segundo o Protocolo Adicional I às Convenções de Genebra, Art. 57, um ataque pode ser considerado legítimo mesmo quando resulta em mortes de civis, desde que os alvos ofereçam vantagem militar significativa. As Forças de Defesa de Israel (FDI) adotam sistematicamente medidas para minimizar baixas civis, como renunciar ao elemento surpresa e alertar previamente a população sobre evacuações temporárias de áreas de combate.

Genocídio: As ações de defesa de Israel têm sido falsamente rotuladas de genocídio, banalizando o significado jurídico do termo. A Convenção das Nações Unidas para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio de 1948, estabelecida em reação ao Holocausto, define genocídio como a intenção comprovada de destruir, total ou parcialmente, um grupo nacional, étnico ou religioso por meio de atos como assassinato, atos que resultem em danos graves, imposição de condições destrutivas e impeditivas de nascimentos ou transferência forçada de crianças. A acusação de “limpeza étnica” também tem sido usada de forma indevida contra Israel. O termo, originalmente associado a práticas oficialmente patrocinadas pelo governo da Iugoslávia, na década de 1990, contra a sua população muçulmana, foi também utilizado para algumas situações na África.

Diferentemente do Hamas, que deliberadamente visa assassinar civis, Israel não tem a intenção deliberada de cometer esses crimes contra a população civil de Gaza. As Forças de Defesa de Israel selecionam alvos militares de forma cirúrgica, dimensionam adequadamente suas armas e promovem campanhas de aviso prévio para evacuação dos civis – mais de 150 mil ligações já foram feitas e mais de 10 milhões de panfletos já foram distribuídos nesta guerra. O slogan pró-Palestina “Do rio ao mar, a Palestina será livre” expressa claramente a exigência de limpeza étnica judaica.

Israel também enfrenta acusações infundadas de usar a fome como arma de guerra. Em conflitos, a ajuda humanitária é responsabilidade institucional da ONU. Para suprir falhas logísticas da organização, Israel e os Estados Unidos criaram a Gaza Humanitarian Foundation (GHF), que realiza entregas diretas de suprimentos à população. Israel já facilitou a entrada de mais de 100 mil caminhões de suprimentos, instalou 13 hospitais de campanha, manteve o funcionamento de 12 padarias e realizou reparos em tubulações de água danificadas pelo Hamas. São ações que comprovam a ausência de intenção de cometer genocídio. Mesmo assim, fontes ligadas ao Hamas divulgam imagens manipuladas de suposta desnutrição, muitas vezes mostrando crianças doentes ao lado de familiares bem alimentados. Parte da mídia divulga essas cenas sem a devida verificação dos fatos, desconsiderando dados oficiais e deixando de responsabilizar o Hamas pelas condições desumanas impostas aos reféns israelenses, evidenciadas nas próprias imagens que o grupo tornou públicas.

Essas narrativas colocam Israel como alvo exclusivo, negando-lhe o direito, internacionalmente reconhecido, de defender suas fronteiras, cidades, vilarejos e cidadãos. Tal negação reforça a conotação negativa e a tentativa de deslegitimar Israel no cenário internacional. O conjunto dessas narrativas, carregadas de vieses e usadas para retratar Israel como violador das normas internacionais, busca criminalizar e excluir o país da comunidade de Estados civilizados.

A amplificação dessas generalizações e difamações contra o Estado Judeu, aliada ao uso de estereótipos, alimenta o antissionismo, o antissemitismo e a Israelofobia, culpabilizando todos os judeus – independentemente de sua cidadania – pelos atos legítimos de defesa de um país.

Negacionismo, apesar das evidências

Enquanto o Terceiro Reich se esforçava para ocultar suas atrocidades – a ponto de novas levas de deportados acreditarem, até o último instante, que iam apenas “tomar banho” antes de serem levados às câmaras de gás – o Hamas exibiu, quase em tempo real, os crimes cometidos em 7 de outubro. Os assassinos registraram seus próprios atos hediondos com câmeras GoPro presas ao corpo e às motos, e divulgaram vídeos e relatos orgulhosos em suas redes sociais e nas de suas vítimas, alcançando tanto seus familiares quanto os familiares das pessoas massacradas. Criaram assim um rastro de provas incontestáveis, espalhadas pelo mundo virtual, que provocou repulsa e condenação internacional nos primeiros dias após o pogrom. Mas logo a atenção global se dissipou: o mundo escolheu esquecer, negar e até questionar a veracidade dessas evidências.

Organizações como a ONU, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, a Anistia Internacional, movimentos feministas e diversas entidades humanitárias permaneceram em silêncio, negaram ou acabaram por censurar a reação de Israel ao tentar proteger sua população. Como observou o filósofo e escritor Bernard-Henri Lévy, “(O pogrom), que atingiu a consciência mundial como um raio, estava sendo relegado à condição de ‘um detalhe’, contestado em um conflito antigo e intratável, no qual ambos os lados eram igualmente culpados. E o planeta inteiro tentou esquecer que, vários meses, semanas ou dias antes, havia oscilado em seu eixo, visto os portões do inferno se abrirem e ouvido o grito que, na câmara de eco dos séculos, é o som do terror humano diante do mal absoluto”.

Esse processo de negar, relativizar ou inverter fatos não é um fenômeno isolado. Ele se insere em uma tradição sombria em que a manipulação narrativa transforma as vítimas em culpados e os crimes em meros “conflitos”. Assim como no passado, a distorção deliberada da realidade abre espaço para a normalização da violência e para a erosão do senso moral coletivo.

É nesse ponto que a história recente se conecta à do século 20, quando as palavras, instrumentalizadas por ideologias, pavimentaram o caminho para atrocidades em escala inimaginável.

Tânia Tisser Beyda é consultora em Gestão Empresarial, Doutora e Mestre em Administração e Arquiteta.

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