Entre imagens do horror, testemunhos e memoriais, Israel constrói a memória de uma tragédia cuja história continua sendo contada pelos sobreviventes do massacre, pelos reféns libertados, por suas famílias e pela sociedade israelense como um todo.

Na manhã de 7 de outubro de 2023, Israel despertou para o dia mais trágico de sua história desde sua criação em 1948 – e o maior assassinato de judeus desde o Holocausto. Em poucas horas, milhares de terroristas do Hamas e da Jihad Islâmica, além de civis, invadiram o sul do país a partir da Faixa de Gaza.

O saldo desse ataque sangrento: cerca de 1.200 mortos, 251 sequestrados – homens, mulheres e crianças – e mais de quatro mil feridos. Famílias inteiras assassinadas dentro de suas casas. Jovens que dançavam ao amanhecer surpreendidos pela violência brutal e desumana. Relatos de estupros usados como arma de guerra, mutilações e assassinatos de crianças marcaram o dia que se tornaria um divisor profundo na memória de Israel e dos judeus ao redor do mundo. E também de todas as pessoas de bem.

Desde então, Israel empenha-se em transformar um trauma pessoal e nacional em memória. Essa memória não nasce organizada. Ela surge em fragmentos – em imagens gravadas às pressas em celulares, em objetos deixados para trás, em depoimentos interrompidos, em nomes que jamais serão esquecidos. Essa memória aparece no cinema, nas exposições, nos memoriais improvisados e nos livros escritos por sobreviventes.

Os filmes

No cinema, o esforço é o de capturar o impacto imediato. O documentário We Will Dance Again (em tradução livre, Voltaremos a Dançar), dirigido por Yariv Mozer, reconstrói o massacre do Festival Nova a partir de vídeos gravados pelas próprias vítimas e sobreviventes. As imagens acompanham a transformação de uma festa em fuga desesperada, registrando decisões tomadas em segundos, tentativas de esconderijo e despedidas ao telefone. Não há distância entre o espectador e o acontecimento – o filme se aproxima do limite entre registro e vivência.

Em Screams Before Silence (em tradução livre, Gritos Antes do Silêncio), documentário de 2024 dirigido pela empresária americana Sheryl Sandberg, o foco recai sobre um dos aspectos mais difíceis de se documentar: a violência sexual durante os ataques. Baseado em entrevistas com sobreviventes, ex-reféns e profissionais envolvidos no resgate, o documentário busca dar visibilidade a relatos que muitas vezes encontram resistência, silêncio ou negação.

Já em October 7th: Through Their Eyes (em tradução livre, 7 de Outubro: Através de Seus Olhos), produzido pela PBS a partir de postagens, mensagens e vídeos feitos no próprio dia, o filme mostra como o ataque também foi registrado em tempo real, nas redes sociais – um arquivo fragmentado, disperso, mas essencial para se compreender a barbárie que aconteceu.

Em outra dimensão, Bearing Witness to the October 7th Massacre (em tradução livre, Testemunhando o Massacre de 7 de Outubro), uma compilação da Unidade de Porta-vozes das Forças de Defesa de Israel reúne imagens brutas captadas por câmeras corporais dos próprios terroristas, celulares e sistemas de segurança. Produzido para exibições restritas, o material funciona como documento – uma tentativa de preservar evidências diante do risco de distorção ou esquecimento.

As exposições

Se os filmes registram o impacto, as exposições começam a dar forma à memória.  Em Tel Aviv, o ANU – Museu do Povo Judeu, apresentou a exposição Sete de Outubro, uma das primeiras respostas institucionais no campo da arte. Inaugurada em fevereiro de 2024, a mostra reuniu obras de 25 artistas cujas trajetórias foram diretamente afetadas pelo ataque e pela guerra – alguns deles mortos no próprio 7 de outubro ou durante o conflito subsequente. Sem buscar uma narrativa cronológica, a exposição constrói um espaço de dor, ausência e ruptura, transformando a criação artística em testemunho imediato de um trauma ainda em curso.

Também em Jerusalém, a Autoridade de Antiguidades de Israel apresentou a exposição Ressurgindo das Cinzas: Arqueologia em uma Crise Nacional, que revela um outro tipo de resposta: a científica. A mostra documenta como arqueólogos aplicaram técnicas de escavação, perícia forense e modelagem digital para localizar vítimas desaparecidas e registrar a destruição nas áreas atingidas. Ao utilizar ferramentas normalmente voltadas ao estudo do passado para documentar uma tragédia contemporânea, a exposição transforma evidência em memória.

Na Biblioteca Nacional de Israel, o projeto permanente Dando Testemunho: O Arquivo de 7 de Outubro reúne vídeos, áudios, documentos e testemunhos coletados desde os primeiros dias após o ataque. Ao lado desse material, um memorial com nomes e imagens das vítimas.

Fora das instituições, a memória se manifesta de forma mais crua. A Praça dos Reféns tornou-se um dos principais símbolos do país. Cadeiras vazias, mesas interrompidas e fotografias de sequestrados formaram um espaço onde luto e mobilização se misturavam – um memorial vivo que acompanhou o país até o retorno do último refém da Faixa de Gaza, em janeiro de 2026.

No Sul, o Memorial do Festival Nova preserva o local do massacre. Objetos pessoais, flores e mensagens deixadas por familiares compõem um espaço onde o tempo parece suspenso. Não há curadoria formal – apenas a tentativa de manter viva a presença de quem não voltou. Neste local o Keren Kayemet LeIsrael tem plantado árvores em lembrança às vítimas.

A tragédia do Festival Nova ganhou projeção internacional na exposição imersiva 7 de Outubro, 6h29 – O Momento em que a Música Parou, que recria o ambiente do festival a partir de objetos encontrados no local, depoimentos e recursos sensoriais. Após sua estreia em Israel, a mostra passou a circular por cidades como Londres e Chicago, transformando memória em experiência e levando o impacto do 7 de outubro a públicos ao redor do mundo.

Outras iniciativas exploram a dimensão individual da perda. Na exposição Os Rostos de 7 de Outubro, o artista Benzi Brofman, ele mesmo um sobrevivente do Nova, reúne retratos de vítimas e reféns, muitos desenvolvidos em diálogo com suas famílias. Ao dar rosto às histórias, a mostra desloca o foco da estatística para o indivíduo, transformando números em presença.

Já a exposição Momentos de Sobrevivência, no Museu Eretz Israel, em Tel Aviv, preserva fragmentos da vida cotidiana do Kibutz Nir Oz. A partir das fotografias de Yocheved Lifshitz, sobrevivente do ataque e ex-refém, a mostra reconstrói um mundo interrompido. Muitas das imagens sobreviveram por acaso – guardadas fora do país ou recuperadas digitalmente – e hoje funcionam como vestígios de uma realidade que deixou de existir.

O Ministério das Relações Exteriores de Israel, por meio da Rede de Mulheres Diplomatas (Women Diplomats Network), organizou a exposição Speak Out (em tradução livre, Quebrando o Silêncio), dedicada à violência sofrida por mulheres no 7 de outubro. Ao reunir obras de artistas israelenses com esse recorte, a mostra transforma arte em instrumento de denúncia e memória, levando essa narrativa ao cenário internacional. A exposição contou com a participação de Geffen Rafaeli, Hagit Frenkel, Keren Shpilsher, Marian Boo, Merav Shinn, Ben Alon, Noa Kelner, Omer Zimmerman, Or Yogev, Oren Fischer, Orit Magia Schwalb, Reut Asimani, Sigal Rak Viente, Tamar Kharitonov e Zoya Cherkassky.

Outras iniciativas seguem caminhos distintos. O Centro Educacional 7 de Outubro, localizado na região de Sderot, utiliza tecnologia, realidade virtual e registros sonoros para contextualizar o ataque, especialmente para as novas gerações. Mais do que um museu tradicional, o Centro propõe uma experiência educativa imersiva, conectando testemunhos individuais à compreensão histórica do evento.

A fotografia também ocupa um espaço central. A exposição Testemunhos Locais 2024, no Museu Eretz Israel, trata da principal mostra anual de fotojornalismo e fotografia documental de Israel. A edição de 2024 foi profundamente marcada pelos acontecimentos de 7 de outubro de 2023 e pela guerra subsequente. As imagens expostas mostram não apenas o ataque às comunidades do sul de Israel e ao Festival Nova, mas também seus desdobramentos: luto, deslocamentos, famílias de reféns, operações militares, mobilização civil e o impacto da guerra sobre a sociedade israelense.

Os Livros

Ao lado das imagens e dos espaços físicos, surgem os livros que foram publicados – talvez o registro mais íntimo dessa memória. São relatos que transformam o trauma em documento.

Em Hostage (Refém, em tradução livre), Eli Sharabi narra sua experiência como refém em Gaza e relata uma história profundamente pessoal de perda e sobrevivência. Sequestrado no Kibutz Be’eri, permaneceu 491 dias em cativeiro sem saber que sua esposa, Lianne, e suas duas filhas, Noiya e Yahel, haviam sido assassinadas no dia do ataque. Seu irmão Yossi, que também fora sequestrado, morreu em cativeiro. Hostage tornou-se um fenômeno  em Israel, vendendo mais de 100 mil exemplares e tornando-se o livro de venda mais rápida da história editorial em língua hebraica. A edição em inglês também alcançou a lista de best-sellers do The New York Times, chegando à quarta posição.

Em When We See You Again (em tradução livre, Quando Nos Virmos Novamente), Rachel Goldberg-Polin relata a experiência de uma mãe cujo filho foi sequestrado e, após cerca de 11 meses em cativeiro, assassinado por terroristas. Após o sequestro de Hersh Goldberg-Polin, ela se tornou uma das principais vozes da campanha pela libertação dos reféns mantidos pelo Hamas. O livro alcançou o primeiro lugar na lista de best-sellers do The New York Times.

Em Mufawadat505 Dias no Cativeiro do Hamas, Eliyá Cohen descreve mais de 500 dias de cativeiro em túneis subterrâneos, sob fome, medo e isolamento. O livro foi publicado no Brasil pela editora Maayanot em 2026. Em Coming to Light (Saindo para a Luz, em tradução livre), Maxim Herkin baseia seu relato em um diário que escreveu secretamente durante o período em que esteve refém em Gaza.

Outros títulos ampliam esse registro. The Gates of Gaza: A Story of Betrayal, Survival, and Hope in Israel’s Borderlands (em tradução livre, Os Portões de Gaza: Uma História de Traição, Sobrevivência e Esperança na Fronteira de Israel), de Amir Tibon, combina relato pessoal e reportagem. Surviving October 7: The Nova Festival Massacre (em tradução livre, Sobrevivendo ao 7 de Outubro: O Massacre no Festival Nova) traz a experiência da sobrevivente do festival Shahar Horovitz. Coletâneas como October 7: Voices of Survivors and Witnesses (em tradução livre, 7 de Outubro: Vozes de Sobreviventes e Testemunhas) e 10/7: 100 Human Stories (em tradução livre, 7/10: 100 Histórias de Vida), de Lee Yaron, reúnem múltiplas vozes.

O que emerge desse conjunto é uma memória que ainda não encontrou forma definitiva. Diferentemente de eventos históricos consolidados, o 7 de outubro está sendo narrado enquanto suas consequências continuam a se desdobrar. Não se trata apenas de lembrar o passado, mas de tentar compreender um presente que ainda não terminou no coração e na mente da sociedade israelense e da Diáspora judaica.