Os esforços de Israel para atrair a instalação de embaixadas em Jerusalém receberam nos últimos meses relevantes estímulos oriundos de países latino-americanos. Os presidentes Laura Fernández, da Costa Rica, e Javier Milei, da Argentina, vocalizaram intenções de implementar a mudança, num cenário no qual sete países já contam com representações diplomáticas principais na capital israelense.

Por Jaime Spitzcovsky

Em dezembro de 2017, primeiro ano do mandato inicial, o presidente Donald Trump anunciou a transferência da embaixada norte-americana de Tel Aviv para Jerusalém, promessa de campanha. A 14 de maio do ano seguinte, aniversário da independência de Israel, foi celebrada a inauguração das novas instalações diplomáticas.

Intensificava-se então a ofensiva da diplomacia israelense para estimular a mudança das embaixadas de Tel Aviv para a capital israelense, a fim de corrigir a distorção histórica. Países refratários à alteração argumentam que o status de Jerusalém deve ser definido em negociações com a liderança palestina, a reivindicar a parte oriental da cidade como centro político de um Estado palestino.

A resolução 181, aprovada pela ONU a 29 de novembro de 1947, estabelecia a partilha da Palestina sob Mandato Britânico, para a criação de dois Estados, um judeu e o outro árabe. Jerusalém, segundo o texto aprovado por 33 votos a 13, ficaria sob supervisão internacional das Nações Unidas.

Liderado pelo trabalhista David Ben-Gurion, o lado judaico aceitou e comemorou a decisão internacional, embora ela implicasse abrir mão da soberania da capital milenar do Povo Judeu. Os países árabes rejeitaram a partilha e, logo após a declaração de independência israelense a 14 de maio de 1948, o nascente Estado judeu foi atacado pelos exércitos de cinco países.

Eclodiu a Guerra de Independência de Israel, com a ofensiva deslanchada por Egito, Líbano, Síria, Jordânia e Iraque. O conflito se alastrou até 1949 e terminou com uma vitória israelense. A fracassada agressão árabe, portanto, inviabilizou a implementação da decisão das Nações Unidas.

Em outra consequência da rejeição política e militar à partilha, Jerusalém emergiu da guerra dividida entre controle de Israel na porção ocidental e domínio jordaniano na área oriental, a incluir a chamada Cidade Velha, onde se encontra o Muro das Lamentações.

A divisão não impediu a chegada de diversas embaixadas a Jerusalém Ocidental nos anos 1950 e 1960. Enquanto algumas missões diplomáticas se instalavam em Tel Aviv, para evitar a polêmica sobre o destino da cidade dividida, outras, quase 40% das 54 sedes estrangeiras, optaram pela capital do Estado judeu, em grande parte, de países latino-americanos e africanos, com quem Israel mantinha relevantes programas de ajuda e intercâmbio.

Em junho de 1967, a Guerra dos Seis Dias modificou intensamente fronteiras da região. Israel impôs derrotas ao Egito, à Síria e à Jordânia. E alcançou um objetivo histórico: a reunificação de Jerusalém. Imagens de soldados israelenses chegando finalmente ao Muro das Lamentações percorreram o mundo.

A história registrou mais um momento indelével em 1980, quando a Knesset (Parlamento) aprovou a Lei de Jerusalém, declarando-a capital única e indivisível. Naquele momento, em plena Guerra Fria, a correlação de forças na ONU havia se transformado em comparação com 1947, resultado do amplo domínio conquistado pelo bloco terceiro-mundista, liderado pela União Soviética e influenciado pela presença de nações árabes. A resolução 478 das Nações Unidas exortava os países-membro com embaixadas em Jerusalém a transferi-las para Tel Aviv e seu entorno.

O êxodo diplomático se instalou. No entanto, Costa Rica e El Salvador, respectivamente em 1982 e em 1984, retornaram as missões diplomáticas a Jerusalém, para retirá-las de lá de novo em 2006, devido à intensa pressão de países árabes.

“Não há nenhuma base no direito internacional para apoiar o status de corpus separatum (entidade separada) para a cidade de Jerusalém”, apontou o Ministério de Relações Exteriores de Israel, numa declaração de 1999. Na visão da chancelaria, o conceito de corpus separatum se tornou irrelevante depois de os Estados árabes rejeitarem o plano de partilha para a Palestina e invadirem o recém-criado Estado de Israel, em 1948.

Jerusalém abriga as principais instituições governamentais, como naturalmente ocorre nas capitais pelo planeta. E o Estado de Israel, após a rejeição da Resolução 181 pelos países árabes, entendeu ser exercício de soberania a escolha de sua capital.

Em 2017, Donald Trump inaugurou a nova fase da história diplomática de Jerusalém. A abertura da embaixada norte-americana facilitou a decisão de outros países, ainda que não na amplitude desejada.

Atualmente, além dos EUA, mais seis países contam com embaixadas na capital: Honduras, Guatemala, Paraguai, Kosovo, Papua-Nova Guiné e Fiji. A lista de países com intenção declarada se amplia com Argentina, Costa Rica, República Tcheca, Samoa, entre outros.

A partir de 2018, Guatemala e Honduras despontaram entre os primeiros a responder à iniciativa capitaneada por Donald Trump. Outro integrante da lista, o Paraguai, apresentou um vaivém, com o presidente Mário Abdo Rodríguez anulando a iniciativa do antecessor, Horácio Cartes, para seu sucessor, Santiago Peña, eleito em 2023, reabrir a missão diplomática na capital israelense.

Entre as ilhas do Pacífico, o pioneirismo coube a Papua-Nova Guiné, dona da quinta embaixada em Jerusalém, aberta em 2023. Na inauguração, com a presença do premiê Binyamin Netanyahu, o chefe de governo da nação da Oceania, James Marape, declarou: “Várias nações optam por não abrir suas embaixadas em Jerusalém, mas fizemos uma escolha consciente”. E continuou: “Para nós, para nos considerarmos cristãos, seguir o respeito à vontade de D’us não será completo sem reconhecer que Jerusalém é a capital universal do povo e da nação de Israel”.

Netanyahu apontou o papel da nova representação diplomática no aprofundamento de projetos de desenvolvimento agrícola, de saúde, hídricos e tecnológicos. O premiê prosseguiu: “Isso nos permitirá cultivar não apenas o passado, mas também conquistar o futuro”.

Fiji inaugurou a embaixada em setembro passado, com a visita do primeiro-ministro e chanceler Sitiveni Rabuka. O governo das ilhas também conta com importante apoio de grupos cristãos.

Um dos casos mais interessantes e simbólicos é o de Kosovo, o primeiro país de maioria muçulmana a abrir embaixada em Israel. Sua independência, movimento intensamente apoiado pelos Estados Unidos, veio em 2008, após uma guerra sangrenta em 1998-99 para se separar da Sérvia. O governo kosovar, em sua bússola diplomática, busca acompanhar as principais movimentações de seus aliados na Casa Branca.

Ao receber o homólogo israelense, Isaac Herzog, quando das cerimônias de posse em maio passado, a presidente costa-riquenha Laura Fernández Delgado enfatizou o plano de transladar a embaixada para Jerusalém, onde já há um escritório, com status diplomático, comercial e de tecnologia do país centro-americano.

A lista de futuros embaixadores na capital israelense pode incluir representante argentino, como repetiu Javier Milei em sua última visita a Israel, e também da República Tcheca. Seu ministro das Relações Exteriores, Petr Macinka, numa festa de Chanucá realizada em Praga no ano passado, foi perguntado sobre a mudança diplomática.

“Eu pessoalmente vejo com muita expectativa...estar presente quando um dos símbolos de solidariedade se transforme no fato de a República Tcheca finalmente mudar sua embaixada para Jerusalém”, afirmou o chanceler tcheco. Seu colega israelense, Gideon Sa’ar, havia publicado antes numa rede social: “Nós vemos a República Tcheca como um de nossos maiores amigos na Europa e no mundo, um parceiro natural”.

Enquanto tchecos e argentinos ensaiam a mudança, o mais novo anúncio de abertura de uma embaixada em Jerusalém veio da Somalilândia, país africano cuja independência foi reconhecida por Israel em dezembro de 2025, o primeiro país a fazê-lo.

E a abertura da representação diplomática da Somalilândia, empenhada em se separar da Somália desde 1991, reflete a “crescente amizade, o respeito mútuo e a cooperação estratégica entre nossos dois povos”, postou numa rede social Mohamed Hagi, embaixador do mais novo parceiro diplomático de Israel.

Em resposta à postagem, o ministro Sa’ar qualificou o plano de instalar a embaixada em Jerusalém de “um passo significativo”. E, passo a passo, Israel consegue avançar na estratégia de instalar embaixadas em Jerusalém, o coração diplomático do país.

Jaime Spitzcovsky, colaborador da Folha de S. Paulo, foi correspondente do jornal em moscou e em pequim.