David “Dadi” Barnea esteve à frente do Mossad, serviço de inteligência de Israel, nos últimos cinco anos. Foi um período marcado pela ameaça existencial representada pelo Irã e pelo seu “anel de fogo”, pela tragédia de 7 de outubro de 2023 e a luta pela libertação dos reféns sequestrados pelo Hamas. ao ser nomeado 13º diretor da agência, em junho de 2021, poucos, fora do círculo restrito da inteligência israelense, sabiam quem ele era. O público israelense desconhecia seu nome e conhecia, menos ainda, sua fisionomia. Hoje, no fim de seu mandato, Barnea É uma figura conhecida e admirada em Israel e na Diáspora.

A trajetória de David Barnea é singular.  Ex-soldado de uma unidade de elite, construiu carreira no mercado financeiro até que, aos 30 anos, decidiu mudar radicalmente de rumo. Extremamente abalado pelo assassinato do primeiro-ministro Yitzhak Rabin, ingressou no Mossad. Suas raízes familiares, profundamente ligadas à história de Israel, somadas à formação militar rigorosa e a um temperamento discreto, ajudariam a moldar sua carreira no serviço secreto israelense.

Pouco se sabe sobre sua vida pessoal, como seria de esperar de alguém formado no universo da inteligência. Sabe-se apenas que é casado, pai de quatro filhos e que vive com a família em uma comunidade na região de Sharon, no centro de Israel.

A caminho de Eretz Israel

Pode-se dizer que a biografia de David Barnea começa antes de seu nascimento. Em 1933, ano da ascensão de Hitler ao poder, seu avô paterno, o rabino Yehuda Brunner, deixou a Alemanha com a esposa, Bina, e o filho pequeno, Yosef.

A família seguiu para Eretz Israel, então Palestina sob Mandato Britânico. Como muitos judeus, mudou seu sobrenome para um nome hebraico, adotando Barnea.

Yosef, pai de David, cresceu em uma família religiosa e sionista. Formado na Yeshivat Hapoel HaMizrachi, em Bnei Brak, alistou-se ainda adolescente no Palmach, a força de elite da Haganá1 e uma das principais estruturas militares do Yishuv2, antes da criação do Estado. Combateu na Guerra da Independência, de 1948, e, mais tarde, serviu como oficial da Força Aérea Israelense, chegando à patente de tenente-coronel, antes de atuar no setor tecnológico.

A história da mãe de David remete a um dos episódios mais trágicos do período que antecedeu a fundação do Estado. Naomi, em 1940, estava a bordo do SS Patria, em meio ao drama dos refugiados judeus que tentavam alcançar a Palestina sob Mandato Britânico. Desde o Livro Branco de 1939, Londres restringira severamente a imigração judaica para Eretz Israel, justamente no momento em que os judeus da Europa buscavam desesperadamente escapar da perseguição nazista.

Em novembro de 1940, os britânicos decidiram usar o transatlântico SS Patria para deportar para as Ilhas Maurício cerca de 1.800 refugiados judeus que haviam chegado à Palestina britânica sem certificados de imigração, em navios da “imigração clandestina”. Antes da partida, a Haganá sabotou a embarcação para impedir a deportação. A intenção era danificá-la, não a afundar.

Mas a explosão, em 25 de novembro de 1940, teve consequências devastadoras: o navio afundou rapidamente no porto de Haifa, causando a morte de cerca de 267 pessoas. Naomi sobreviveu.

Os primeiros anos

David nasceu em 29 de março de 1965, em Ashkelon, cidade costeira do sul de Israel, a poucos quilômetros da Faixa de Gaza. Ainda criança, mudou-se com a família para Rishon LeZion, onde estudou na escola Ein HaKore. No início da adolescência, os pais o matricularam na Escola Militar de Comando de Tel Aviv, vinculada ao Ginásio Herzliya, instituição voltada à formação de futuros oficiais das Forças de Defesa de Israel (FDI). Desde cedo, demonstrou qualidades que mais tarde seriam fundamentais em sua carreira: inteligência, disciplina, discrição e autocontrole.

Em 1983, aos 18 anos, Barnea alistou-se nas FDI e foi inicialmente designado à Brigada de Paraquedistas. Em abril do ano seguinte, ingressou na Sayeret Matkal, uma unidade de elite dedicada à coleta de informações de inteligência além das linhas inimigas, ao contraterrorismo e a resgates de alta complexidade, sendo amplamente reconhecida como uma das mais seletivas e renomadas de Israel. Barnea assumiu responsabilidades importantes na unidade e decidiu prolongar seu serviço militar por mais um ano.  Seu comandante, Elad Magal, lembraria Barnea como um combatente excepcional, com um perfil discreto, pouco inclinado à autopromoção e capaz de manter a calma sob pressão.

O Mossad

Depois do serviço militar, Barnea seguiu um caminho distante da espionagem. Foi para os Estados Unidos, estudou no New York Institute of  Technology e concluiu um Mestrado em Administração de Empresas (MBA) na Pace University, em Manhattan. Ao retornar a Israel, ingressou no mercado financeiro. Aos trinta anos, construíra uma carreira promissora – confortável, previsível e muito diferente daquela que iria definir sua vida.

A ruptura veio na noite de 4 de novembro de 1995, quando o primeiro-ministro Yitzhak Rabin foi assassinado por Yigal Amir, um extremista israelense de direita, ao final de um comício pela paz na então Praça dos Reis de Israel, em Tel Aviv – hoje Praça Rabin. O impacto do assassinato levou Barnea a reavaliar a própria vida e a decidir ingressar no Mossad. Depois de passar pelos testes físicos, psicológicos e de aptidão exigidos pela agência, foi aceito, em 1996, no programa de formação do serviço secreto israelense.

Barnea tornou-se oficial da Divisão Tzomet, responsável pelo recrutamento e manejo de agentes no exterior.
A função exigia paciência, sensibilidade psicológica e habilidade para persuadir pessoas – muitas vezes em ambientes hostis – a colaborar clandestinamente com Israel. Seus superiores rapidamente perceberam nele atributos-chave: saber ouvir, ser capaz de avaliar com precisão potenciais colaboradores,  bem como estabelecer vínculos mesmo em contextos de alto risco.

Nos anos 1990, uma das prioridades centrais do Mossad era o terrorismo palestino. Além do hebraico, Barnea domina o inglês e o árabe – habilidade importante em seus primeiros anos, quando atuou no recrutamento e na condução dos informantes ligados à Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e a outras organizações terroristas palestinas. Com o passar do tempo, porém, a agenda estratégica de Israel se orientou cada vez mais a monitorar o Irã: seu programa nuclear, suas redes de influência regional e internacional e seus aliados armados, entre eles o Hezbollah.

Sua formação em Finanças tornou-se uma vantagem operacional. Barnea sabia ler movimentações de caixa, estruturas financeiras de fachada e mecanismos utilizados para disfarçar operações usados por grupos terroristas no exterior. Unia, assim, dois mundos raramente interligados: a análise fria dos números e a inteligência humana.

Ao longo de sua carreira, chefiou uma estação do Mossad na Europa e atuou em uma unidade técnica voltada à vigilância, penetração clandestina e instalação de escutas, ampliando sua experiência para além do recrutamento de agentes.

Ao assumir, em 2013, o comando da Divisão Tzomet, Barnea concentrou grande parte de seus esforços na ameaça iraniana, consolidando a reputação de operador discreto, metódico e voltado a resultados.

Desde 1979, a República Islâmica dos Aiatolás não poupava o uso de slogans como “Morte à América” e “Morte a Israel”. Um Irã nuclear representaria uma ameaça existencial para Israel.

Um dos episódios centrais de sua trajetória foi a participação na operação que levou à “extração” clandestina do arquivo nuclear iraniano, em Teerã, em 2018. Agentes do Mossad localizaram um depósito secreto onde o Irã guardava arquivos do programa nuclear, invadiram o local durante a noite, abriram dezenas de cofres e retiraram do depósito dezenas de milhares de documentos e arquivos digitais sobre o programa nuclear militar do país. Todo o material foi fisicamente retirado do Irã em questão de horas. Apresentado por Binyamin Netanyahu, o material foi usado por Israel como prova de que Teerã ocultara seus esforços para desenvolver armas nucleares.

Em 2019, Yossi Cohen, então diretor do Mossad, nomeou Barnea vice-diretor da agência, responsável por operações globais. A promoção o colocou no centro das decisões mais sensíveis do serviço secreto israelense, no momento em que se intensificava a guerra clandestina contra o Irã.

Em novembro de 2020, ainda como vice-diretor do Mossad, Barnea participou da operação que eliminou Mohsen Fakhrizadeh, físico e general da Guarda Revolucionária Islâmica, ligado ao programa nuclear iraniano. Após meses de vigilância, a agência israelense usou uma metralhadora de controle remoto, equipada com câmera e inteligência artificial, instalada em uma caminhonete nos arredores de Teerã. A operação foi acompanhada da sede da agência, ao norte de Tel Aviv, onde Barnea estava ao lado de Yossi Cohen.

Sete meses depois, em 1º de junho de 2021, David Barnea assumiu o cargo de 13º diretor do Mossad. Levou para a função sua vasta experiência operacional, expertise em inteligência humana, conhecimento financeiro e ampla familiaridade com operações técnicas.

Reestruturando o Mossad

Ao assumir o comando, Barnea encontrou uma agência lendária, mas pressionada por uma nova realidade. As ações do Mossad já não podiam mais depender apenas de agentes, informantes e redes humanas – embora essa continuasse sendo a espinha dorsal da agência. Para enfrentar inimigos cada vez mais sofisticados tecnologicamente, era preciso acelerar o uso de inteligência artificial, cibernética, vigilância eletrônica, câmeras inteligentes e reconhecimento facial.

A lógica era clara: o Mossad precisava estar pronto para agir de forma simultânea e coordenada em diferentes pontos do território inimigo. Não bastavam operações isoladas. Era necessário construir uma infraestrutura clandestina operável em larga escala, combinando agentes, colaboradores, intermediários e tecnologia avançada.

Barnea reorganizou divisões, criou novas estruturas e deslocou recursos para áreas tecnológicas nas quais via vantagem operacional para Israel. Enfrentou resistência interna, mas persistiu.

A ofensiva secreta contra o Irã

Sob Barnea, o Mossad intensificou sua campanha para conter o Irã, seus aliados regionais e as redes clandestinas mobilizadas por Teerã no exterior. O objetivo era impedir o avanço do programa nuclear iraniano e limitar a capacidade do Irã de cercar Israel por meio de seus “proxies” – Hezbollah no Líbano, Hamas e Jihad Islâmica em Gaza, milícias xiitas no Iraque e na Síria, além dos houthis no Iêmen – que compõem o chamado “anel de fogo” iraniano.

Em 2022, a imprensa israelense revelou o caso de Mansour Rasouli, membro da Guarda Revolucionária iraniana ligado a um plano para assassinar um diplomata israelense na Turquia, um general norte-americano na Alemanha e uma jornalista na França. Agentes do Mossad localizaram Rasouli dentro do Irã e o interrogaram em sua própria casa. A gravação, divulgada por canais israelenses, mostrava Rasouli admitindo participação no plano – uma demonstração da capacidade israelense de penetrar no território iraniano.

Em junho de 2023, o Mossad anunciou uma operação semelhante contra Yousef Shahbazi Abbasalilo, chefe de uma célula enviada para atacar empresários israelenses em Chipre. Segundo a agência, ele foi localizado e interrogado no Irã, e as informações obtidas ajudaram as autoridades cipriotas a desmantelar a rede. O recado era claro: Israel não se limitaria a defender seus cidadãos dentro de suas fronteiras; perseguiria também os responsáveis por ataques contra israelenses e judeus no exterior.

A pressão sobre a estrutura iraniana não se limitou ao território do Irã. Em dezembro de 2023, Sayyed Razi Mousavi, alto assessor da Guarda Revolucionária, foi morto em ataque atribuído a Israel nos arredores de Damasco. Em abril de 2024, Mohammad Reza Zahedi, comandante sênior da Força Quds, morreu em ataque contra o consulado iraniano na capital síria. Ambos os episódios faziam parte da mesma política: conter a capacidade de atuação de Teerã e elevar ao máximo o custo de sua guerra “por procuração” contra Israel.

Depois do massacre de 7 de outubro de 2023, essa política se ampliou. Naquela manhã, terroristas do Hamas, de outros grupos armados e civis palestinos invadiram o sul de Israel, atacando kibutzim, cidades, bases militares e o Festival Nova de música. Mais de 1.200 pessoas foram assassinadas e 251 sequestradas e levadas para Gaza. Para Israel, o ataque demonstrou que o “anel de fogo” montado por Teerã ao redor do Estado Judeu não era uma ameaça abstrata. Dali em diante, a estratégia israelense passou a mirar não apenas os executores, mas também os comandantes, financiadores,  redes externas e estruturas de apoio do eixo iraniano.

Em janeiro de 2024, após a morte de Saleh al-Arouri, vice-chefe político do Hamas, em Beirute, Barnea declarou que o Mossad alcançaria todos os envolvidos no ataque contra Israel, onde quer que estivessem. Em 31 de julho de 2024, essa determinação ganhou expressão simbólica com a morte de Ismail Haniyeh, chefe político do Hamas, em Teerã, poucas horas depois de participar da posse do novo presidente iraniano. Israel não reivindicou oficialmente a operação, mas a autoria israelense foi amplamente presumida. O impacto foi enorme: o principal líder político do Hamas fora eliminado no coração da capital iraniana.

Sob a direção de Barnea, o Mossad passou a atuar entre a inteligência clássica e a guerra tecnológica, entre o contraterrorismo e a campanha contra o Irã, entre ações silenciosas e mensagens públicas calculadas. Sua reforma procurou unir o velho Mossad – da infiltração, da paciência e do recrutamento humano – a uma nova arquitetura operacional, feita de agentes, dados, câmeras, algoritmos, empresas de cobertura usadas para dar aparência legítima às atividades de inteligência e operações de precisão.

A operação dos pagers e o Hezbollah

Em setembro de 2024, o Hezbollah sofreu um dos golpes mais duros de sua existência. Considerada uma das operações de inteligência mais sofisticadas das últimas décadas, a ação contribuiu para restaurar o prestígio da inteligência israelense, abalado pelos acontecimentos de 7 de outubro.

O Hezbollah havia adotado pagers para escapar da vigilância israelense sobre celulares. Em 17 de setembro, milhares desses aparelhos explodiram quase simultaneamente em redutos da organização, incluindo o sul de Beirute, o sul do Líbano e o vale do Bekaa. Segundo a Reuters, cerca de 5 mil pagers haviam sido encomendados pelo grupo, e cerca de 3 mil teriam detonado após o envio de uma mensagem codificada.

No dia seguinte, uma segunda onda atingiu walkie-talkies da organização. O ataque mergulhou o Hezbollah em desordem, expôs uma grave falha de contrainteligência e comprometeu suas comunicações. Centenas, possivelmente milhares de terroristas foram feridos e retirados de “circulação”, muitos com lesões graves – principalmente nas mãos e nos olhos. A operação demonstrou como Israel conseguia penetrar profundamente nas cadeias logísticas e operacionais de grupos terroristas.

Dez dias depois, em 27 de setembro, Hassan Nasrallah – secretário-geral do Hezbollah desde 1992 e uma das figuras mais influentes do eixo iraniano no mundo árabe – foi morto em um ataque aéreo israelense contra um subúrbio ao sul de Beirute. O golpe teve enorme peso simbólico e operacional. Aprofundou dramaticamente a crise da organização, já abalada pelas explosões dos pagers e pela exposição de suas vulnerabilidades. Nas semanas seguintes, o grupo foi obrigado a recompor sua cadeia de comando sob intensa pressão israelense. Desde então, Israel intensificou as ações contra a cúpula do Hezbollah, eliminando diversos membros do alto escalão e milhares de integrantes do grupo.

A luta pela libertação dos reféns

Paralelamente às operações ofensivas, Barnea assumiu uma das missões mais delicadas e importantes de sua carreira: representar Israel nas tratativas para libertar os reféns sequestrados pelo Hamas, por outros grupos terroristas e por civis palestinos da Faixa de Gaza. Era uma função muito diferente daquelas que haviam marcado sua trajetória. Em vez da ação clandestina, exigia paciência diplomática; em vez do efeito surpresa, dependia de mediação, concessões graduais e leitura cuidadosa das intenções do inimigo.

Em 9 de novembro de 2023, David Barnea reuniu-se em Doha, no Catar, com o diretor da CIA, William Burns, e o primeiro-ministro do país, Mohammed bin Abdulrahman Al Thani – este último atuando como mediador junto ao Hamas – para discutir um possível acordo de libertação de reféns e uma pausa nos combates em Gaza.

Barnea movia-se sobre uma corda bamba. De um lado estavam as famílias dos reféns que exigiam urgência. De outro, o Hamas, que transformara vidas humanas em instrumento de pressão política, militar e psicológica. Entre esses polos, pesavam ainda as decisões do gabinete israelense e as exigências operacionais das Forças de Defesa de Israel.

O acordo de novembro de 2023 permitiu a libertação de 105 reféns – 81 israelenses e 24 estrangeiros – em troca de uma trégua temporária nos combates em Gaza e da libertação, por Israel, de 240 prisioneiros palestinos detidos por razões de segurança. Para Barnea, foi uma missão incomum: negociar, por canais indiretos e sob enorme pressão pública, com uma organização terrorista.

Mesmo depois daquela primeira etapa, Barnea continuou envolvido nas negociações, ao lado do general da reserva Nitzan Alon e de outros representantes israelenses. Essa dimensão de seu mandato revelou uma face menos visível do chefe do Mossad: não apenas o planejador de operações secretas, mas também o negociador obrigado a lidar, por canais indiretos, com um inimigo.

Operação Leão Ascendente

Em junho de 2025, anos de preparação tecnológica, operacional e humana convergiram na Operação Leão Ascendente. Lançada em 13 de junho, a campanha israelense mirou instalações nucleares, bases militares, defesas aéreas e estruturas ligadas ao programa de mísseis balísticos do Irã. Durante 12 dias, a guerra clandestina entre Israel e a República Islâmica transformou-se em confronto direto.

O papel do Mossad foi decisivo na preparação do terreno. Segundo reportagens publicadas após o início da operação, agentes israelenses haviam introduzido no Irã drones, armas de precisão e equipamentos clandestinos, parte deles escondida em caminhões, contêineres, malas e veículos comuns. Quando os caças israelenses avançaram contra alvos como Teerã e Natanz, esses sistemas previamente posicionados foram acionados contra defesas aéreas, radares e lançadores de mísseis, abrindo caminho para a Força Aérea Israelense.

A operação combinou inteligência humana, tecnologia, análise de dados, drones e poder aéreo. Relatos posteriores indicaram que Israel também recorreu à inteligência artificial para processar grandes volumes de informação e identificar alvos ligados à Guarda Revolucionária e ao programa nuclear iraniano. Para Barnea, a Operação Leão Ascendente representou o ápice da transformação iniciada em 2021: um Mossad capaz de atuar, em escala, com agentes, sensores, drones, empresas de cobertura, inteligência artificial e coordenação militar em profundidade.

Operação Leão Rugidor

Em 28 de fevereiro de 2026, teve início a operação conjunta entre os Estados Unidos e Israel contra alvos no Irã – codinome Leão Rugidor, por Israel, e Fúria Épica, pelos Estados Unidos. Segundo relatos divulgados após o início da guerra, a ofensiva foi acelerada por uma informação decisiva: Ali Khamenei e seus principais assessores estariam reunidos em um local protegido em Teerã. O ataque – realizado pela Força Aérea israelense – deu início à primeira onda da operação, que matou não apenas Khamenei, mas também membros de sua família e altos líderes militares e de segurança. Diversos relatos indicam que a reunião – e seu momento exato – foi identificada ou confirmada pela CIA, em cooperação com o Mossad.

Os alvos militares foram divididos e coordenados entre os dois países. Israel ficou a cargo da “decapitação” da liderança iraniana – atingindo grande parte da cúpula política e militar da República Islâmica – e concentrou-se em alvos de alta precisão e de resposta rápida, como lançadores de mísseis, componentes específicos da infraestrutura nuclear, além de centros logísticos e depósitos de armas. Enquanto isso, os Estados Unidos focaram nas infraestruturas mais profundas, que exigiam maior capacidade militar – os alvos mais fortificados e de longo alcance. Para isso, empregaram seus recursos mais avançados contra a Marinha iraniana, instalações nucleares fortemente protegidas (bem como complexos subterrâneos como o de Fordow), sistemas de defesa aérea, infraestruturas de mísseis de longo alcance, além de centros de comando e controle militar e operações cibernéticas.

A enorme quantidade de informações obtidas pelo Mossad ao longo dos anos mostrou-se decisiva nessas operações. Segundo fontes da imprensa e da inteligência israelense, o Mossad teria inclusive hackeado, durante anos, câmeras de trânsito e sistemas de vigilância em Teerã para coletar dados em tempo real. Por meio dessas câmeras, Israel conseguiu mapear a cidade em detalhes, identificar padrões de movimentação de figuras do alto escalão e construir um quadro intrincado do que ocorria dentro da capital inimiga. Esse conjunto de informações permitiu gerar localizações precisas e definir alvos estratégicos.

Posteriormente, David Barnea afirmou que o Mossad operava com agentes no “coração de Teerã” e que havia penetrado “o núcleo dos segredos do inimigo”.

Sucessão e legado

Ao assumir a agência, Barnea procurou restaurar uma cultura de sigilo mais rígida, em contraste com o estilo mais público de Yossi Cohen. Para ele, a força do Mossad dependia não apenas de suas capacidades operacionais, mas da preservação de sua mística: a agência deveria falar pouco, aparecer menos ainda e deixar que seus inimigos sentissem sua presença apenas quando já fosse tarde demais.

Em dezembro de 2025, Binyamin Netanyahu anunciou a intenção de nomear o major-general Roman Gofman, então secretário militar do primeiro-ministro, para suceder Barnea. Gofman deve assumir em junho, ao término do mandato de cinco anos de Barnea.

Barnea chega ao fim do mandato como o último grande chefe da segurança israelense ainda no cargo desde o massacre de 7 de outubro de 2023. Ao contrário da Aman3 e do Shin Bet4, o Mossad não tinha responsabilidade direta sobre Gaza, o que o poupou das consequências institucionais mais imediatas das falhas de inteligência e segurança que permitiram o ataque do Hamas. Ainda assim, seu período à frente da agência foi profundamente moldado por aquela tragédia: pela necessidade de restaurar a dissuasão israelense, perseguir os responsáveis pelo massacre e reconstruir a confiança pública na capacidade do Estado Judeu de proteger seus cidadãos.

O legado de David Barnea não se limita a uma única operação. Ele conduziu o Mossad em um dos períodos mais intensos da história recente de Israel: a guerra contra o Hamas, a guerra contra o Irã e seu “anel de fogo” e a libertação dos reféns. Sob sua liderança, a agência procurou unir aquilo que sempre foi seu diferencial – recrutamento humano, audácia operacional e alcance global – a uma nova arquitetura baseada em tecnologia, dados, vigilância avançada e capacidades cibernéticas.

Yossi Fox, secretário do governo israelense, descreveu Barnea como “o melhor chefe do Mossad que Israel já teve”. Mesmo entre seus críticos há o reconhecimento de que Barnea comandou a organização em circunstâncias extraordinárias. Ao deixar o cargo, seu nome ficará associado a um feito ambicioso de reinventar o Mossad sem romper com sua essência: transformar a agência em uma máquina de inteligência do século 21, sem abandonar o antigo lema do Mossad: “Por meio do estatagema, farás a guerra”.

1 A Haganá foi a principal organização paramilitar judaica que atuou na Palestina sob Mandato Britânico (1920–1948), antes da criação do Estado de Israel.

2 Yishuv: termo hebraico usado para designar a comunidade judaica na Terra de Israel antes da criação do Estado de Israel, em 1948.

3 Aman é o órgão de inteligência military central das Forças de Defesa de Israel.

4 Shin Bet é o serviço de inteligência de segurança interna de Israel, enquanto o foco geral do Mossad é a inteligência estrangeira.