O Talmud ensina que o Povo Judeu não conheceu dias mais felizes do que Yom Kipur e Tu b’Av - o décimo–quinto dia do mês hebraico de Menachem Av (Talmud Bavli, Taanit 26b). A inclusão de Yom Kipur nesse ensinamento não deveria causar surpresa. Embora seja um dia em que os judeus se abstenham de comer e beber por mais de 24 horas e observem outras formas de aflição, trata-se também de um momento de perdão Divino e de reconciliação entre D’us e o Povo de Israel.

Yom Kipur marca o ápice dos Dez Dias de Teshuvá, iniciados em Rosh Hashaná. É o ponto culminante espiritual do ano judaico – a data mais reverenciada de nosso calendário. Foi também em Yom Kipur que Moshé Rabênu desceu do Monte Sinai trazendo as segundas Tábuas da Lei, sinal de que o pecado do Bezerro de Ouro havia sido perdoado e de que a aliança entre D’us e o Povo de Israel permanecia intacta. Muito mais surpreendente, porém, é a afirmação do Talmud de que o outro dia mais feliz do calendário judaico é Tu b’Av – uma data que não constitui uma festividade bíblica nem rabínica. Ainda assim, o Talmud associa o 15 de Av a diversos acontecimentos jubilosos e marcantes de nossa história.

O que torna Tu b’Av singular, porém, não são apenas os acontecimentos felizes associados a essa data – por mais importantes que tenham sido para a História Judaica –, mas aquilo que o próprio dia passou a simbolizar, sobretudo em razão de sua proximidade com o dia mais triste do calendário judaico: Tishá b’Av, o dia 9 de Av. Assim como Yom Kipur, o 9 de Av é observado por meio de um jejum de mais de 24 horas. Mas, enquanto Yom Kipur é uma das datas mais felizes do ano judaico – marcada pelo perdão Divino e pela elevação espiritual – Tishá b’Av é a mais triste: o dia nacional de luto do Povo Judeu.

E, no entanto, antes mesmo de transcorrer um período completo de sete dias, chega o 15 de Av: ou seja, em apenas seis dias, o Povo Judeu passa do dia mais triste ao dia mais feliz do calendário judaico.

Essa transição de um extremo a outro expressa um dos ensinamentos mais profundos do Judaísmo: o de que as maiores quedas são seguidas pelas maiores elevações, a destruição pela reconstrução e o luto pela alegria. Assim, da mesma forma que Tishá b’Av passou a estar ligado à destruição e ao luto, Tu b’Av tornou-se um símbolo de renovação e reconstrução após a devastação.

Por que Tu b’Av se tornou o dia mais feliz do ano?

O Talmud associa Tu b’Av a diversos acontecimentos alegres e de grande importância nacional para o Povo de Israel. Acima de tudo, porém, a data passou a estar associada ao amor e à formação da família judaica.

A Mishná descreve como, nesse dia, as jovens de Jerusalém saíam vestidas de branco e dançavam nos vinhedos, enquanto os rapazes buscavam entre elas suas futuras esposas.

Embora a Mishná não o declare explicitamente, seu texto sugere uma conexão mais profunda entre Yom Kipur e Tu b’Av. A própria Mishná que identifica essas datas como os dois dias mais felizes do ano judaico cita um versículo do Cântico dos Cânticos:

“Saí, ó filhas de Tsión, e contemplai o rei Salomão, com a coroa com que coroou sua mãe no dia do seu casamento e no dia do júbilo do seu coração” (Shir HaShirim 3:11).

Comentando essa passagem, o Talmud explica que “o rei Salomão” é uma referência alegórica a D’us – “o Rei a Quem pertence a paz” – enquanto “sua mãe” se refere ao Povo de Israel. “O dia de seu casamento” é entendido como uma alusão à Outorga da Torá, enquanto “o dia da alegria de seu coração” alude à construção do Templo Sagrado.

Rashi explica que a referência à Outorga da Torá aponta especificamente para Yom Kipur – como vimos acima, o dia em que Moshé Rabênu desceu do Monte Sinai trazendo as segundas Tábuas da Lei, após o perdão do pecado do Bezerro de Ouro. Ao longo do Tanach, a aliança entre D’us e o Povo Judeu é retratada como um casamento. A entrega das segundas Tábuas, em Yom Kipur, simbolizou a renovação da aliança entre D’us e o Povo de Israel.

Assim, da mesma forma que Tu b’Av passou a estar associado à promoção de casamentos judaicos, Yom Kipur representa – em um sentido espiritual mais profundo – o “casamento” entre D’us e o Povo de Israel.

Vista sob essa perspectiva, a conexão entre os dois dias mais felizes do ano judaico se torna ainda mais profunda. Ambos celebram a aliança, a reconciliação e o amor duradouro. Um reflete o casamento entre marido e mulher; o outro, o vínculo entre D’us e o Povo de Israel.

O fato de Tu b’Av ocorrer tão próximo de Tishá b’Av – menos de uma semana depois – está longe de ser acidental. Isso reflete a convicção judaica de que, mesmo em meio à destruição, sempre existe a possibilidade de renovação.

Tu b’Av não é apenas um alívio após o luto de Tishá b’Av, mas a afirmação de que a própria redenção pode emergir da devastação.

De fato, uma das lições mais profundas de Tu b’Av é que a resposta judaica à destruição é a reconstrução – sobretudo por meio da criação de lares e famílias judaicas.

Os Três Tipos de Noivas

Como vimos acima, a Mishná descreve como, em Tu b’Av, as jovens de Jerusalém saíam vestidas de branco e dançavam nos vinhedos, enquanto os rapazes solteiros ali buscavam suas futuras esposas.  O Talmud preserva os apelos dos diferentes grupos de jovens. As mais belas dentre essas moças diziam: “Volta teus olhos para a beleza, pois a mulher é, acima de tudo, para a beleza”. As de linhagem ilustre proclamavam: “Volta teus olhos para a família, pois a mulher é, acima de tudo, para gerar filhos”. E aquelas que não se destacavam nem pela beleza nem pela linhagem diziam: “Escolhe teu casamento por  amor aos Céus”.

À primeira vista, a passagem parece descrever apenas diferentes qualidades buscadas em um casamento – beleza, linhagem ilustre ou o cumprimento de um mandamento religioso. Sob essa narrativa simples ocultam-se verdades espirituais bem mais profundas.

Esses três grupos de jovens podem ser entendidos como símbolos de diferentes arquétipos espirituais

e formas distintas pelas quais o Povo Judeu se relaciona com D’us. Ao longo do Tanach – sobretudo no Cântico dos Cânticos – a aliança entre D’us e o Povo de Israel é expressa por meio da linguagem do amor e do casamento.

As jovens belas representam as almas espiritualmente elevadas – aquelas naturalmente distinguidas pela sabedoria, pela retidão, pelo refinamento e pelas boas ações.

As de linhagem ilustre simbolizam os judeus cuja força reside em seu profundo vínculo com a grande corrente de continuidade do Povo Judeu – almas ligadas aos ensinamentos e tradições das gerações que as precederam.

Mas o terceiro grupo – daquelas que não possuíam nem beleza nem linhagem ilustre – simboliza as almas simples, cuja grandeza não reside em realizações espirituais extraordinárias nem em uma origem prestigiosa, mas na humildade, na sinceridade e no temor aos Céus: almas que têm pouco a oferecer além de sua fidelidade e devoção. Diferentemente das demais, elas pedem para ser escolhidas “por amor aos Céus”. Não buscam admiração por sua grandeza espiritual nem reconhecimento por méritos herdados, mas apenas proximidade com D’us.

Isso reflete um tema central do Judaísmo – especialmente do Chassidismo: o de que a humildade e a pureza do coração podem alcançar uma profundidade ainda maior do que o brilho intelectual ou a herança de grandeza espiritual.

Como ensina o Livro de Provérbios: “Passageira é a graça e vã a formosura, mas a mulher que teme ao Eterno por todo o sempre será louvada”  (Mishlei 31:30).

Em um sentido mais profundo, o versículo de Provérbios não fala apenas do caráter humano, mas da própria vida espiritual. Mesmo os maiores seres humanos são insignificantes diante de D’us Infinito; o que verdadeiramente permanece é a humildade diante d’Ele e o apego firme à Sua vontade.

Essa ideia também reflete a história espiritual do Povo de Israel ao longo das gerações. Houve gerações iluminadas por Profetas e Sábios de extraordinária grandeza. Gerações posteriores, embora já diminuídas em sua estatura espiritual, ainda viviam suficientemente próximas desses gigantes do passado para sentir a força duradoura de sua influência.

Mas existem também gerações – como a nossa – marcadas pelo ocultamento Divino, pela fragmentação espiritual e pela distância de uma era de milagres manifestos.

Houve um tempo em que a Terra de Israel transbordava de Profetas, Sábios e milagres. O Templo Sagrado erguia-se no centro da vida judaica, e a Presença Divina manifestava-se aberta e visivelmente.

Hoje, embora o Povo de Israel tenha retornado à sua terra ancestral, o mundo continua marcado por um profundo ocultamento espiritual.  A profecia cessou há dois milênios; os milagres permanecem ocultos dentro da própria natureza, e a verdadeira grandeza espiritual tornou-se mais rara.

E, no entanto, o Judaísmo ensina que é justamente em meio ao ocultamento que pode emergir o vínculo mais profundo com D’us.

As jovens “sem beleza” – aquelas desprovidas de distinção exterior, incluindo a nossa própria geração – acabam expressando uma verdade atemporal: aquilo que une o Povo Judeu a D’us não é o brilho intelectual, a linhagem ou mesmo a grandeza espiritual, mas a humildade, o amor e a perseverante devoção a Ele.

É por isso que Tu b’Av – o dia que simboliza amor, reconciliação e um vínculo duradouro – surge imediatamente após Tishá b’Av, o dia da destruição e do ocultamento.

Pois o Judaísmo ensina que, mesmo após a mais profunda escuridão, a aliança entre D’us e o Povo Judeu permanece intacta.

Bibliografia:

The Dancing Maidens of Jerusalem, baseado nos ensinamentos do Lubavitcher Rebbe. Publicado em MeaningfulLife.com

https://www.chabad.org/library/ article_cdo/aid/53684/jewish/The- Dancing-Maidens-of-Jerusalem.htm