Uma das fases mais letais do Holocausto começou em 22 de junho de 1941, quando a Alemanha invadiu a União Soviética, na Operação Barbarossa. A campanha no Leste abriu caminho para uma escalada sem precedentes de assassinatos em massa. Nos territórios ocupados, a matança sistemática de judeus tornou-se um dos alicerces da política nazista, com a aceleração e consolidação da chamada “Solução Final” – a aniquilação dos judeus da Europa.
Ao atacar a URSS, Berlim rompe o Pacto Germano-Soviético (Molotov–Ribbentrop), assinado em agosto de 1939. Para Hitler, aquele acordo fora uma pausa calculada: desde o início, ele concebia a conquista do Leste Europeu como objetivo estratégico e ideológico, em busca de Lebensraum (“espaço vital”), de submissão colonial de povos eslavos e de uma guerra contra o suposto “judeo-bolchevismo”. A guerra na frente oriental seria travada como uma de aniquilação (Vernichtungskrieg), na qual normas de guerra foram deliberadamente relativizadas ou abandonadas.
Após a invasão, as forças nazistas avançaram com rapidez por vastas áreas da Ucrânia, Bielorrússia, partes do oeste da Rússia e os Estados Bálticos (Lituânia, Letônia e Estônia), além das regiões da Polônia incorporadas à URSS em 1939. Ordens e diretrizes de comando incentivavam as forças alemãs a empregar extrema violência: as tropas eram orientadas a tratar os inimigos “ideológicos” do Reich (comissários políticos, comunistas e, sobretudo, judeus) com brutalidade e “sem piedade”.
Logo atrás das linhas de frente do exército nazista, vinham os Einsatzgruppen, unidades móveis de extermínio da SS cuja missão era “limpar” as áreas conquistadas de judeus, comunistas e outros alvos do regime. Comunidades judaicas inteiras foram cercadas, reunidas, levadas a locais afastados e fuziladas em massa, tendo seus corpos lançados em covas coletivas. Sinagogas foram destruídas, incendiadas ou profanadas.
Segundo estimativas, entre 1,5 e 2 milhões de judeus foram mortos no que se tornou conhecido como o “Holocausto por balas”. Assim, no território soviético, o genocídio sistemático começou antes mesmo das câmaras de gás, criadas entre o fim de 1941 e o início de 1942. No entanto, os líderes nazistas perceberam que, devido à complexidade logística, à lentidão da execução e ao alto consumo de munição, os fuzilamentos em massa eram pouco “eficientes” para levar a cabo a “Solução Final da Questão Judaica”. Além disso, alguns comandantes passaram a se preocupar com o “impacto psicológico” desses massacres sobre parte dos executores. Em busca de um procedimento mais rápido e “industrial”, o regime nazista aproveitou os conhecimentos, técnicas e pessoal já empregados no programa de “eutanásia” do Reich, ampliando o uso do gás para assassinar pessoas, e avançou para o estabelecimento de campos de extermínio. Assim, o genocídio nazista evoluiu de uma combinação de “morte por desgaste” – fome, doença e privação – e de assassinatos nos guetos da Polônia; passou pelos fuzilamentos sistemáticos em massa no território soviético; e chegou, por fim, a um método “industrial”, centralizado e mecanizado, implementado nos centros de extermínio.
A historiografia do Holocausto destaca tanto a centralidade do projeto ideológico antissemita quanto a forma de radicalização do assassinato, na prática, dentro de um aparelho estatal no qual órgãos e dirigentes não apenas concordavam com a “Solução Final da Questão Judaica”, mas também se digladiavam por competências e “soluções”.
Não há dúvida de que Hitler inspirou, autorizou, sustentou e legitimou politicamente o genocídio dos judeus da Europa; no entanto, ele não agiu sozinho. O regime nazista não conduziu a “Solução Final” como um plano único, minucioso e linear redigido pelo Führer e apenas executado. A efetivação do massacre exigiu a coordenação e a cooperação de órgãos governamentais em toda a área sob controle do Eixo.
A política genocida, com a transformação do crime em rotina administrativa, foi desenvolvida e aplicada por meio de decisões sucessivas, diretrizes e iniciativas de diferentes centros de poder do Estado nazista. A coordenação e a implantação do assassinato em massa, bem como sua transformação em procedimento burocrático, ficaram a cargo de dirigentes do regime, entre os quais Hermann Göring, Heinrich Himmler, Reinhard Heydrich e, no plano administrativo e logístico das deportações, Adolf Eichmann.
O Holocausto também dependeu de uma vasta rede de perpetradores, colaboradores e beneficiários, além de uma multidão de observadores passivos. Milhões de alemães, franceses, poloneses, ucranianos, lituanos e outros europeus sob ocupação envolveram-se, em graus variados, na formulação de políticas ou na gestão burocrática da vigilância, da expropriação de bens, das denúncias, do policiamento, da guarda de guetos e campos, até nas execuções diretas. Sem essa participação, o genocídio dos judeus não teria alcançado a mesma escala, nem a mesma macabra eficiência.
Que papel desempenhou o rótulo “judeo-bolchevismo” na propaganda nazista?
De caráter ideológico e conspiratório, o termo “judeo-bolchevismo” (em alemão, Jüdischer Bolschewismus) foi difundido pela propaganda antissemita – sobretudo a nazista – para demonizar, ao mesmo tempo, judeus e comunistas. Nessa narrativa, o marxismo e o bolchevismo eram “criações judaicas”, parte de um suposto plano de dominação mundial e estavam por trás da Revolução Russa de 1917 e do regime soviético. O objetivo do termo era fundir dois “inimigos” – um racial e outro ideológico – em um só, convertendo-os numa ameaça totalizante – interna e externa ao mesmo tempo. Com isso, a propaganda nazista buscava desumanizar os judeus, alimentar o medo de um inimigo “infiltrado” e justificar a extrema violência no Leste Europeu como parte da reação a um suposto complô judaico para destruir a Alemanha. Essa construção ideológica ajudou a “legitimar” moral e politicamente tanto a guerra de aniquilação no Leste quanto as políticas de perseguição e extermínio.
Quem eram os Einsatzgruppen (“grupos de ação”)?
Eram forças-tarefas vinculadas ao aparato do regime, sobretudo à Polícia de Segurança (Sipo) e ao Serviço de Segurança da SS (SD), subordinados ao RSHA (Reichssicherheitshauptamt). Na prática, por seu papel central no assassinato sistemático de judeus e outros grupos, tornaram-se conhecidas como “unidades móveis de extermínio”. Entravam em ação logo atrás das linhas de frente da Wehrmacht, o Exército alemão, sobretudo no Leste Europeu, a partir de 1941.
Na campanha contra a União Soviética, os nazistas organizaram quatro grandes grupos (Einsatzgruppen A, B, C e D), um total de apenas 3 mil homens, que, subdivididos em unidades menores, foram fundamentais para a escalada genocida no Leste Europeu. Essas formações acompanhavam o avanço militar e iniciavam rapidamente operações de “segurança” e “pacificação”, eufemismos da administração nazista para prisões, terror e assassinatos em massa. Contavam com o apoio de unidades da SS e da polícia, com a cooperação de setores da Wehrmacht e o apoio, muitas vezes entusiástico, de colaboradores locais (ucranianos e lituanos, entre outros) mobilizados como forças auxiliares, milícias ou efetivo policial.
Assim que uma região era ocupada, as operações dos Einsatzgruppen costumavam ser rápidas, organizadas, metódicas e letais. Em muitas áreas, sobretudo em aldeias e pequenos vilarejos, a identificação da população judaica era facilitada por informantes e forças policiais locais. Os judeus eram reunidos mediante ordens ou por meio de pretextos administrativos (cadastros, “realocações” ou “trabalho”) e conduzidos a locais afastados como florestas, pedreiras, campos abertos ou ravinas. Uma vez ali, eram obrigados a entregar seus pertences e a se despir. Então, sob gritos, golpes e tiros, grupos sucessivos eram levados à borda de valas ou barrancos e executados a tiros. Os corpos caíam nas covas, que, ao final, eram cobertas com terra. As propriedades judaicas eram então confiscadas, redistribuídas ou saqueadas, não raro com a participação de autoridades e antigos vizinhos. Sinagogas eram profanadas, destruídas ou incendiadas – em alguns casos, conforme registros, com pessoas presas em seu interior. Em certos locais, foram convertidas em depósitos ou até estábulos.
A partir de meados de 1941, os massacres de judeus em todos os territórios soviéticos ocupados pela Alemanha – e, em certas zonas, por seus aliados, incluindo a Romênia – atingiram escala sem precedentes. Em Kamianets-Podilskyi, Kiev, Kovno, Minsk, Riga, Odessa e nas cidades da Galícia Oriental (então parte do Governo Geral), entre muitos outros lugares, judeus eram assassinados aos milhares, às vezes, às dezenas de milhares, em cada Aktion (operação). Alguns comandantes locais chegaram a “destacar-se” pela eficiência na execução da tarefa.
Há extensa documentação sobre esses massacres, com fotografias e inclusive algumas filmagens. Os relatórios encaminhados aos centros de comando, com sua “linguagem” padronizada para descrever prisões e execuções, evidenciam a transformação do assassinato em massa em “rotina burocrática”.
Ainda em 1941, os dirigentes nazistas passaram a considerar esses fuzilamentos “ineficientes”, do ponto de vista logístico, e psicologicamente “desgastantes” para os executores. Isso, somado à busca por métodos mais “industriais”, contribuiu para a adoção de furgões de gás: caminhões com compartimentos vedados nos quais o monóxido de carbono, direcionado para o interior, asfixiava as vítimas durante o trajeto até valas comuns.
Por que a ravina de Babi Yar se tornou um símbolo do “Holocausto por balas”?
Não foi apenas pelos 33.771 judeus assassinados a tiros, em dois dias (conforme o relatório alemão), que o cenário de um dos maiores massacres da 2ª Guerra Mundial, Babi Yar (Babyn Yar, em ucraniano), se tornou um símbolo do “Holocausto por balas”, mas também porque reuniu, em um único lugar, os principais elementos desse modo de extermínio: a escala, a rapidez do massacre; o método padronizado (convocação, reunião, marcha e execução); a coordenação entre diferentes forças alemãs, com apoio de auxiliares locais; e, por fim, um rastro documental excepcional de violência transformada em rotina administrativa, registrada e contabilizada.
A cidade de Kiev (Kyiv, em ucraniano) foi ocupada pelos alemães em 19 de setembro de 1941. Poucos dias depois, em 28 de setembro, os judeus foram convocados para um suposto “reassentamento”. Deveriam comparecer na manhã seguinte, com documentos, roupas e valores, sob ameaça de execução em caso de ausência. Nos dois dias subsequentes, às vésperas de Yom Kipur (que se iniciava em 30 do mesmo mês), homens, mulheres e crianças foram conduzidos à ravina de Babi Yar, nos arredores da cidade.
A multidão era imensa, e a farsa da “realocação” foi tão bem organizada que muitos só perceberam a matança iminente quando já era tarde demais. Grupos sucessivos foram forçados a se alinhar à beira de um precipício, a cerca de 25 metros de altura, e metralhados. Em seguida, vinham os próximos, e repetia-se o “procedimento”. No fim, os corpos foram cobertos com as paredes da própria ravina. A terra foi vista mover-se por algum tempo, pois alguns foram soterrados ainda com vida.
O massacre é emblemático sobretudo por ter sido muito bem documentado. Como visto acima, o relatório enviado a Berlim aponta 33.771 judeus mortos em dois dias. O Museu Yad Vashem, em Israel, destaca que a matança foi executada por unidades ligadas ao Einsatzgruppe C, com a participação de forças alemãs e de colaboradores locais (a polícia ucraniana, inclusive), que reuniam e escoltavam as vítimas. Essa combinação de extermínio em massa e contabilidade burocrática caracteriza o “Holocausto por balas”: um assassinato em larga escala, porém executado “no terreno”, em plena luz do dia, com armas de fogo, por unidades móveis e policiais.
O massacre de Babi Yar também se destaca por ter sido o episódio em que a população judaica de uma grande cidade europeia foi praticamente exterminada, em pouquíssimo tempo, numa demonstração brutal de que a “solução” nazista não era só deportação ou guetização, mas aniquilação pura e simplesmente.
Nos meses e anos seguintes, a ravina voltou a ser usada como local de execução de judeus, prisioneiros de guerra soviéticos, Roma1 e civis. É provável que nunca se saiba o número exato de mortos, mas a maior parte da historiografia trabalha com cerca de 100 mil vítimas.
Por fim, Babi Yar tornou-se símbolo tanto da memória do Holocausto quanto do silenciamento, por parte da URSS, sobre as vítimas judias. No pós-guerra, sobretudo após a libertação de Kiev (6 de novembro de 1943) pelo Exército Vermelho, as autoridades em Moscou não queriam que o massacre fosse lembrado como uma barbárie dirigida especificamente aos judeus, preferindo enquadrá-lo como um crime contra a população de Kiev e o “povo soviético”. Apesar de muitos esforços, o primeiro monumento instalado no local, em 1976, evitava explicitar a centralidade das vítimas judias. Foram necessárias décadas de luta para nomear, de forma inequívoca, os judeus assassinados e reconhecer Babi Yar como parte das barbáries do Holocausto. Somente em setembro de 1991, no contexto do colapso da URSS, ergueu-se no local um memorial judaico em forma de menorá, sendo realizadas grandes cerimônias públicas em Kiev em memória dos judeus massacrados naquela ravina.
Quando Hitler tomou a decisão final de exterminar os judeus da Europa?
Em primeiro lugar, convém distinguir entre o embasamento ideológico e a cronologia das decisões. Na visão conspiratória de Hitler, o Reich travava uma guerra contra a suposta “ameaça judaica mundial” e o “judeo-bolchevismo”. Nessa retórica, a “questão judaica” era apresentada como um problema existencial para a Alemanha. Já o timing das medidas concretas – deportações e, por fim, o assassinato sistemático – variaram conforme as circunstâncias militares e diplomáticas da guerra, sobretudo após a invasão da União Soviética em 1941, quando a política antijudaica se radicalizou rapidamente.
Desde os anos 1930, Hitler e o regime nazista sustentavam a necessidade de “resolver” a chamada “questão judaica”. Em 30 de janeiro de 1939, antes da eclosão da 2a Guerra Mundial, Hitler declarou perante o Reichstag: “Quero, mais uma vez, assumir o papel de profeta: se o judaísmo financeiro internacional, dentro e fora da Europa, conseguir lançar os povos do mundo novamente em uma guerra mundial, o resultado não será a bolchevização do mundo e, com isso, a vitória do judaísmo, mas a aniquilação da raça judaica na Europa”. Para muitos historiadores, isso não era uma “previsão”, mas uma ameaça pública para legitimar e preparar a escalada da violência.
No entanto, cabe acrescentar que até o momento não se encontrou nenhum documento assinado por Hitler que determinasse, de maneira explícita, o extermínio dos judeus da Europa. Isso se relaciona, em parte, ao modo de governar do líder nazista, que frequentemente preferia diretrizes orais (em alemão, mündlicher Führerbefehl) e delegava a execução a subordinados, mas também ao sigilo e à linguagem cifrada que cercavam os assassinatos em massa. Assim, os historiadores precisam reconstruir o processo decisório a partir de evidências indiretas – discursos, diários, memorandos, ordens de subordinados, testemunhos em julgamentos – e, sobretudo, da implementação concreta e progressiva das políticas genocidas.
Apesar das divergências quanto ao “momento exato” dessa decisão, muitos estudos a situam no último trimestre de 1941, quando a perseguição se transforma em um programa de assassinato sistemático, em escala continental. Segundo uma linha de interpretação, a decisão teria sido tomada entre o fim de setembro e o início de outubro de 1941: a intensificação das deportações, a ampliação dos métodos de assassinato em massa e a definição de estruturas e locais para centros de extermínio indicariam que o genocídio já se consolidara como prática sistemática. Nesse sentido, destaca-se a medida de 23 de outubro de 1941, quando, por ordem de Himmler e via aparato do RSHA, a emigração judaica foi proibida, sinalizando a passagem para a fase final da política antijudaica nazista.
Outra corrente situa a decisão em dezembro de 1941, no contexto da entrada dos EUA na guerra e da radicalização do discurso antissemita dos líderes do regime. O conflito passa, então, a ser concebido como guerra total e mundial, o que favorece a reconfiguração de “soluções” baseadas em deportação para uma política de extermínio em escala continental.
O que foi a Conferência de Wannsee?
Foi uma reunião de 15 altos funcionários do regime, realizada em 20 de janeiro de 1942, em uma vila à beira do lago Wannsee, em Berlim. Convocada e presidida por Reinhard Heydrich, chefe do Escritório Central de Segurança do Reich (Reichssicherheitshauptamt, RSHA), a conferência teve como pauta coordenar a implementação da chamada “Solução Final da Questão Judaica” – isto é, a deportação e o assassinato em massa dos judeus europeus. Heydrich, subordinado ao Reichsführer-SS Heinrich Himmler (que não participou da reunião), conduziu o encontro para assegurar a cooperação entre órgãos decisivos do Estado. Entre os participantes, havia dirigentes das SS, dos Einsatzgruppen, e das forças policiais, além de representantes de ministérios e repartições civis – como Interior, Justiça e Relações Exteriores – cuja colaboração era indispensável para executar essas “medidas” em escala continental.
Ao abrir os trabalhos, Heydrich afirmou agir por delegação do Reichsmarschall Hermann Göring, que o encarregara de conduzir os “preparativos” para a chamada “Solução Final”. O objetivo do encontro não era, como muitos supõem, “decidir dar a partida” ao genocídio, já em curso, sobretudo no Leste, mas coordená-lo. Era necessário alinhar competências entre as SS e os ministérios, padronizar a linguagem administrativa (repleta de eufemismos, como “evacuação para o Leste”), discutir categorias legais (quem seria considerado judeu) e consolidar a cooperação indispensável para as deportações rumo aos campos de extermínio em construção na Polônia.
Heydrich revelou ainda que, no continente, mais de 11 milhões de judeus se enquadravam nas “disposições” da “Solução Final”. Incluíam-se aí não só os que viviam em áreas sob controle do Eixo, mas também as populações judaicas do Reino Unido e de países neutros (como Suíça, Irlanda, Suécia, Espanha, Portugal e Turquia europeia). Para os que viviam no Grande Reich Alemão, as Leis de Nuremberg serviriam de base para a caracterização como judeu.
Nenhum dos presentes contestou a política apresentada. Pelo contrário, a reunião expôs o grau de adesão ao genocídio e sua normalização administrativa. Nunca um Estado moderno havia se comprometido de forma tão explícita e sistemática com o extermínio de todo um povo.
Para evitar repercussões internas e externas, o encontro deveria permanecer secreto. A ata, o chamado Protocolo de Wannsee, foi redigida por Adolf Eichmann, então responsável, no âmbito do RSHA, pela seção encarregada dos “assuntos judaicos” e das deportações. O documento só veio à luz em 1947, quando se encontrou uma cópia do mesmo entre os arquivos do Ministério das Relações Exteriores alemão, durante a coleta de provas do pós-guerra.
A Operação Reinhard (1942–1943)
Um dos principais arquitetos da “Solução Final”, Reinhard Heydrich, foi encarregado por Göring, em 31 de julho de 1941, de preparar um plano geral, com medidas administrativas, materiais e financeiras, para uma “solução total” da chamada “Questão Judaica” nos territórios sob domínio alemão. Muito citado como uma etapa de coordenação burocrática do genocídio, esse documento complementava uma diretriz anterior, de 24 de janeiro de 1939, ainda vinculada à política de emigração e evacuação das populações judaicas nas áreas sob controle do Reich.
No outono de 1941, antes da Conferência de Wannsee, o regime começou a pôr em prática, no Governo Geral (a parte da Polônia ocupada pela Alemanha), um plano para assassinar os cerca de dois milhões de judeus que ali viviam. Esse “empreendimento” ficou conhecido como Operação Reinhard (Aktion/Einsatz Reinhard), conduzida entre 1942 e 1943, e marcou a fase mais letal do genocídio na Polônia, com a criação de três centros de extermínio – Bełżec, Sobibór e Treblinka – para os quais judeus foram deportados em massa após a liquidação de guetos. Esses locais foram concebidos primordialmente para o extermínio, não para o trabalho. Neles, imensa maioria das vítimas era assassinada logo após a chegada; o trabalho forçado ficou restrito a contingentes reduzidos e temporários, ligados ao funcionamento do sistema e à triagem de bens. A Operação incluiu ainda a pilhagem sistemática de dinheiro, joias, roupas e outros ativos das vítimas.
Odilo Globocnik, chefe das SS e da polícia no distrito de Lublin, foi encarregado de organizar as deportações em massa e a construção de três centros de morte. Um contingente expressivo do pessoal alemão destacado para esses locais vinha do programa de “eutanásia” do Reich (Aktion T4), já treinado em técnicas de assassinato por gás e na eliminação de corpos; ao mesmo tempo, guardas auxiliares compunham a vigilância e o aparato de coerção nos campos de morte.
A maioria das vítimas da Operação Reinhard foi formada por judeus deportados dos guetos da Polônia. À medida que os centros de morte entravam em funcionamento, as SS intensificavam a “liquidação” dos guetos – a evacuação violenta dos judeus, seguida de deportações para “tratamento especial”, eufemismo para envio ao extermínio. Estimativas amplamente aceitas indicam que cerca de 1,5 milhão de judeus foram assassinados em Bełżec, Sobibór e Treblinka. Somadas a operações correlatas (incluindo fuzilamentos ligados às deportações e às “liquidações”), muitos estudos chegam a aproximadamente 1,7 milhão de mortes, e algumas pesquisas apontam para pelo menos 1,8 milhão, conforme os critérios adotados e a lacuna decorrente de registros destruídos.
Encerrada em 1943, a Operação Reinhard foi seguida por um esforço deliberado de ocultação de vestígios. Bełżec foi o primeiro a parar de receber deportações (fim de 1942) e teve seu local arado e disfarçado como fazenda; Sobibór foi desmontado após o levante de 14 de outubro de 1943 e o terreno foi plantado com pinheiros; Treblinka foi liquidado em novembro de 1943, tendo o solo arado e plantado e uma casa rural construída para dar ao local aparência “normal”.
Campos de concentração ou campos de extermínio?
Essas instalações cumpriam “funções” distintas no sistema de perseguição característico do regime. Os campos de concentração foram criados como instrumentos de detenção, terror e exploração, sobretudo por meio do trabalho forçado. Apesar da altíssima letalidade (motivada por fome, doenças, violência, punições e exaustão), esses campos não foram criados para matar imediatamente os deportados. Já os campos de extermínio ou centros de morte, estabelecidos como parte da “Solução Final”, destinavam-se ao assassinato em massa de judeus, de forma padronizada e contínua. Funcionavam, assim, como verdadeiras “linhas de montagem” dedicadas à morte.
No uso corrente, o termo “campo de concentração” costuma ser empregado de forma ampla para se referir a quase todo o sistema nazista de encarceramento. Em sentido mais estrito, porém, Konzentrationslager (KZ) – campo de concentração, em alemão – era um campo de detenção nazista usado para encarceramento e repressão. Os KZ eram apenas um tipo de instalação dentro de uma rede muito mais ampla de detenção e repressão, que incluía campos e subcampos, locais de trabalho forçado, centros de trânsito para deportações e instalações para prisioneiros de guerra. Os guetos também integraram esse sistema, funcionando como espaços de confinamento, fome e coerção.
Segundo estudos do projeto Encyclopedia of Camps and Ghettos, a Alemanha nazista criou cerca de 42.500 locais de perseguição, exploração e assassinato (campos, guetos e estruturas correlatas). Naqueles administrados pelas SS, sobretudo os Konzentrationslager (KZ) e seus subcampos, a desumanização começava na chegada: cabeça raspada, uniformes, substituição do nome por um número e classificação por insígnias (muitas vezes, triângulos coloridos) que ajudavam a organizar hierarquias internas e punições. O cotidiano dos presos era marcado por disciplina rígida e violência constante. Fome crônica, trabalho extenuante e brutalidade sistemática, com espancamentos, torturas e abusos, produziam mortes em massa, embora em teoria não fosse essa a principal finalidade desses locais.
Além disso, tanto nos campos de concentração quanto – em alguns casos – nos de extermínio, prisioneiros foram submetidos a experimentos médicos brutais, conduzidos por médicos e cientistas alemães. Alguns tinham finalidade militar direta; outros se vinculavam à ideologia racial do regime ou a interesses acadêmicos e carreiras individuais. Em Dachau, por exemplo, foram realizados testes de hipotermia e de baixa pressão/alta altitude. Em nome de uma suposta “ciência racial”, médicos nazistas também promoveram esterilizações e outros procedimentos cruéis – com destaque para Auschwitz e Ravensbrück –, além dos notórios “estudos” de Josef Mengele com gêmeos, em Auschwitz.
Os centros de extermínio, por sua vez, foram criados sobretudo entre 1941 e 1942 para assassinar judeus com a máxima eficiência. Na Polônia, os nazistas estabeleceram Chełmno, Bełżec, Sobibór e Treblinka, bem como Auschwitz-Birkenau (parte do complexo de Auschwitz), que foi, ao mesmo tempo, campo de concentração, campo de trabalhos forçados e centro de extermínio. Ao chegar, a grande maioria dos deportados era assassinada em câmaras de gás vedadas. O monóxido de carbono era utilizado em alguns locais, mas em Auschwitz-Birkenau preferia-se o Zyklon B.
A deportação de judeus para esses centros de morte seguia uma logística ferroviária e procedimentos burocráticos que ocultavam o crime por meio de eufemismos como “evacuação” ou “reassentamento para o Leste”. O funcionamento dessas instalações era deliberadamente “industrial”: trens chegavam lotados, a maioria das vítimas era enviada diretamente às câmaras de gás e outros prisioneiros eram forçados a retirar os corpos para a cremação.
Muitos deportados vinham de guetos próximos, alguns já no fim de 1941. A “liquidação” desses enclaves intensificou-se em 1942, quando o envio para a morte atingiu seu ápice. Estima-se que cerca de 2,7 milhões de judeus tenham sido assassinados nos cinco centros de morte, uma fração enorme do Povo Judeu morta no Holocausto.
Por tratarem esses locais como assunto ultrassecreto, os nazistas tentaram destruir provas, com o desmonte de instalações e a camuflagem de certas áreas, mas o sistema começou a ruir com o avanço aliado e a libertação progressiva dos campos, que expôs ao mundo as condições extremas produzidas por anos de encarceramento, fome, doença e assassinatos em massa.
Com a coordenação burocrática da “Solução Final”, o genocídio dos judeus da Europa deixa de ser apenas o delírio assassino de Hitler e se transforma em política de Estado: uma rotina administrativa e técnica que mobiliza lideranças nazistas, quadros burocráticos, colaboradores locais e, em diferentes graus, setores das sociedades sob ocupação.
A criação dos campos de extermínio e as ordens de liquidação dos guetos (Ghettoauflösung / Auflösung des Ghettos) na Polônia – e, mais tarde, nos territórios soviéticos ocupados (Lituânia, Letônia, Bielorrússia, Ucrânia e Rússia ocidental) – elevam o número de judeus assassinados. Aos poucos, notícias do plano de extermínio chegam aos guetos e também aos países Aliados. Poucos acreditam – ou conseguem acreditar – no que ouvem. “O que fazer?” torna-se a pergunta recorrente. Nesse contexto, para os judeus que ainda restavam nos guetos, a resistência ativa passa a ser considerada uma possibilidade.
Enquanto isso, a Alemanha combate os Aliados; mas, mesmo quando se torna cada vez mais claro que perderá a guerra, os nazistas permanecem decididos a não “perder” a guerra que travavam contra o Povo Judeu – levando a política de extermínio adiante até os últimos meses do regime.
Bibliografia
Dawidowicz, Lucy, The War Against the Jews: 1933-1945
Marrus, Michael R., The Holocaust in History
Gilbert, Gustave M, The Nuremberg Diary