Em 8 de maio de 1972, o voo 571 da Sabena – um jato belga com destino a Israel – decolou de Viena, na Áustria. Vinte minutos após a decolagem, quatro terroristas armados tomaram a aeronave, que transportava 87 passageiros e 10 tripulantes. Dois homens, portando pistolas e granadas, invadiram a cabine de comando e assumiram o controle do avião, enquanto duas mulheres, carregando cinturões com explosivos plásticos, permaneceram na cabine de passageiros.
Foi durante a era dos sequestros de aviões. Entre 1968 e 1972, 305 sequestros foram registrados em diferentes partes do mundo, a maioria com o objetivo de extorquir grandes quantias como resgate. A segurança nos aeroportos era falha – até 1973, por exemplo, nos Estados Unidos, não havia inspeção obrigatória de passageiros nem de bagagens de mão antes do embarque.
O Sabena 571 não foi o primeiro avião a ser sequestrado em nome da causa palestina. Em 23 de julho de 1968, a Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP) sequestrou o voo 426 da El Al, que seguia da Itália para Israel, e desviou a aeronave para a Argélia. Os sequestradores libertaram os passageiros não israelenses e negociaram a libertação dos 12 passageiros israelenses e 10 tripulantes em troca de 16 prisioneiros árabes condenados. Esse sequestro durou 39 dias.
Após esse episódio, a El Al se tornou a única companhia aérea do mundo a embarcar agentes armados em todos os seus voos e a reforçar as portas da cabine de comando com aço. Em 1970, houve uma nova tentativa de sequestro contra um voo da El Al. Dessa vez, o piloto – que havia servido na Força Aérea Israelense – realizou um mergulho abrupto, desestabilizando os terroristas e permitindo que o agente de segurança a bordo os neutralizasse.
Membros do Setembro Negro
Em 1972, Ali Taha Abu Snina, Abed al-Aziz Atrash, Rima Tannous e Theresa Khalsa – que haviam se conhecido apenas no dia anterior – se passaram por dois casais jovens. Eles viajaram do Líbano para Roma, depois para Frankfurt, para Bruxelas e, por fim, para Viena, onde embarcaram no voo 571, utilizando diversos passaportes falsificados ao longo do trajeto.
No dia 8 de maio de 1972, antes da decolagem, a polícia de Bruxelas recebeu uma denúncia anônima por telefone, informando que haveria uma tentativa de sequestro quando o avião chegasse a Tel Aviv. Agentes de segurança chegaram a inspecionar três passageiros árabes e revistar suas bagagens, mas nada suspeito foi encontrado.
Os quatro sequestradores eram membros da Organização Setembro Negro, um grupo terrorista palestino cujo nome faz referência ao conflito ocorrido na Jordânia, em setembro de 1970, entre a OLP (Organização para a Libertação da Palestina) e as forças do rei Hussein. O exército jordaniano lançou uma ofensiva de grande escala contra a OLP, resultando na morte de milhares de palestinos e na expulsão de muitos outros do país. Como consequência, a liderança da OLP se transferiu para o Líbano.
O Setembro Negro ganhou notoriedade principalmente por seus ataques contra alvos israelenses. Em setembro de 1972, foi responsável pelo terrível massacre da delegação israelense nos Jogos Olímpicos de 1972, no qual foram assassinados 11 atletas israelenses.
O Sequestro
O piloto do voo 571 era Reginald Levy, um judeu britânico. Ele ingressou na Força Aérea Real Britânica (Royal Air Force – RAF) aos 18 anos, participando de missões na Alemanha durante a 2a Guerra Mundial. Em 1952, passou a pilotar aviões comerciais para a Sabena. Naquele dia, Levy completava 50 anos, e sua esposa estava a bordo – um fato que ele nunca revelou aos sequestradores. O casal planejava comemorar o aniversário em Tel Aviv.
“Ouvi um grito na entrada da cabine de comando. Uma das aeromoças que estava em frente à porta foi empurrada e, de repente, dois homens de aparência árabe invadiram a cabine. Um deles apontou uma pistola para minha cabeça, enquanto o outro retirou o pino de uma granada e jogou o pino no chão”, relatou o capitão Levy. “Os dois estavam extremamente nervosos e a mão que segurava a pistola apontada para minha cabeça tremia violentamente. Meu único pensamento era: como faço para acalmá-los?”. Os dois terroristas que assumiram o controle da cabine também eram pilotos e acredita-se que já haviam participado de sequestros bem-sucedidos.
Apesar da tensão, Levy manteve a calma e tentou tranquilizar tanto os sequestradores quanto os passageiros. Pelo sistema de som da aeronave, anunciou: “Como vocês podem ver, temos ‘amigos’ a bordo”. Os “amigos” ameaçavam explodir o avião caso 315 palestinos condenados por terrorismo não fossem libertados das prisões israelenses. Segundo uma reportagem do The New York Times, publicada dois dias após o sequestro, Mor Weiss, um americano que viajava com a esposa para Israel, lembrou-se das palavras dos sequestradores: “Se os prisioneiros não forem soltos, tudo aqui vai pelos ares, incluindo nós mesmos”.
Como em sequestros anteriores – e nos que viriam a ocorrer – os terroristas separaram os passageiros judeus e israelenses dos demais. “Eu estava sentado com dinamite entre os pés, no fundo do avião, porque eles separaram os judeus dos outros passageiros. Eles cismaram comigo logo no início porque eu usava uma kipá”, relatou Weiss.
Patricia Stern, que na época tinha apenas seis anos e viajava sozinha, também recordou o terror da situação: “Não tínhamos comida nem água, e me lembro que, quando fui ao banheiro, uma das terroristas apontou a arma para mim quando viu que eu estava usando um Maguen David (Estrela de David)”.
Enquanto distraía os sequestradores, o capitão Levy conseguiu enviar secretamente um sinal de socorro para Israel. A mensagem chegou ao ministro da Defesa, Moshe Dayan. Os sequestradores ordenaram que Levy pousasse no Aeroporto de Lod (atual Aeroporto Internacional Ben-Gurion, em Tel Aviv). Caso suas exigências fossem atendidas, planejavam transportar os prisioneiros libertados para o Cairo; caso contrário, estavam determinados a explodir o avião.
O Avião aterrissa em Israel
Cinquenta anos depois, em 2022, o Ministério da Defesa de Israel divulgou registros detalhando a sequência dos acontecimentos dos dias 8 e 9 de maio de 1972.
De acordo com os documentos oficiais, o avião sequestrado pousou em Israel às 17h15. Pouco depois, o ministro da Defesa, Moshe Dayan, o ministro dos Transportes, Shimon Peres (que mais tarde se tornaria primeiro-ministro e presidente), o chefe do Estado-Maior, David Elazar, e outros altos funcionários da Defesa chegaram ao local para supervisionar as negociações. Dayan imediatamente começou a planejar uma operação secreta de resgate, posteriormente batizada de “Operação Isótopo”. Enquanto isso, decidiu ganhar tempo e enganar os sequestradores, fazendo-os acreditar que suas exigências estavam sendo atendidas.
Os terroristas usaram um alto-falante para ler em voz alta os nomes dos prisioneiros que exigiam libertar. “Eles continuam a ler os nomes dos terroristas detidos. Até agora, já mencionaram 130 nomes”, relatou Eli Zeira, chefe da Diretoria de Inteligência Militar na época, às 19h40.
Os sequestradores exigiram que os prisioneiros fossem levados até o avião antes de libertarem os passageiros. Caso contrário e, se houvesse demora, ameaçavam explodir a aeronave.
Moshe Dayan telefonou para a primeira-ministra Golda Meir: “Eles dizem que têm explosivos e, se não fizermos o que querem, vão detonar tudo. Além disso, alertaram que ninguém deve se aproximar do avião”.
A comunicação entre Dayan e os sequestradores era feita principalmente através do piloto, capitão Reginald Levy. Após ouvirem as exigências dos terroristas, os israelenses ganharam tempo, recusando-se inicialmente a reabastecer a aeronave e alegando que precisavam de mais tempo para libertar os prisioneiros. Enquanto isso, Levy manteve os sequestradores distraídos, conversando durante toda a noite. “Falei sobre tudo que se possa imaginar”, recordaria ele mais tarde.
Na madrugada entre 8 e 9 de maio, forças especiais israelenses, com a ajuda de técnicos da El Al, sabotaram o avião. Agindo silenciosamente sob a fuselagem da aeronave estacionada, esvaziaram os pneus e desativaram os sistemas hidráulicos. Os terroristas acreditaram que o avião havia sofrido uma falha técnica após o pouso. O capitão Levy conseguiu convencê-los de que a única solução era solicitar que os israelenses enviassem uma equipe de técnicos para consertar a aeronave.
Às 2h20, o chefe do Estado-Maior, David Elazar, apresentou a Moshe Dayan o plano para a invasão da aeronave. Minutos depois, Dayan ligou para a primeira-ministra Golda Meir para obter sua aprovação. Shimon Peres se opôs à operação, mas afirmou que não vetaria a decisão.
Por volta das 12h15 do dia seguinte, os sequestradores permitiram que o capitão Levy saísse do avião para se encontrar com Dayan e finalizar as negociações. De alguma forma, ele conseguiu persuadi-los a deixá-lo ir até o terminal para conversar com os israelenses. Os sequestradores enviaram Levy com uma amostra do explosivo plástico que tinham a bordo, como prova de que suas ameaças eram reais.
“Quero dizer que a situação é grave”, relatou Levy a Moshe Dayan. “Eles têm dois pacotes de explosivos. Minha impressão é que estão totalmente comprometidos com sua missão. Não voltarão para casa sem a concluir.”
Levy aproveitou o encontro para fornecer aos israelenses detalhes essenciais sobre a situação dentro do avião: a posição dos sequestradores, a localização dos explosivos e o tipo de bolsas usadas para escondê-los. Revelou ainda um detalhe crucial: os terroristas haviam esquecido de bloquear as saídas de emergência.
O capitão então retornou ao avião e informou aos sequestradores que Israel havia concordado com suas exigências. Com essa nova informação, Moshe Dayan prometeu que enviariam comida, técnicos para reparar a aeronave e trariam os prisioneiros libertados até o aeroporto.
Os terroristas também exigiram que um representante do Comitê Internacional da Cruz Vermelha participasse das negociações para mediar a “troca de prisioneiros”.
Operação Isótopo
Os israelenses informaram aos sequestradores que os prisioneiros terroristas estavam esperando em um ônibus e, à distância, permitiram que vissem alguns supostos prisioneiros, cuidadosamente escolhidos para convencê-los de que a promessa estava sendo cumprida.
Às 16h20, dois caminhões se aproximaram do avião transportando 16 homens vestidos como mecânicos, com macacões brancos e caixas de ferramentas nas mãos. Eram, na verdade, soldados da Sayeret Matkal, a unidade de elite das forças especiais de Israel. Entre eles estava Binyamin Netanyahu, então um jovem soldado da tropa de elite, que décadas depois assumiria o cargo de primeiro-ministro de Israel.
Às 16h23, o general Rehavam Ze’evi, que participou do planejamento da missão, comunicou via rádio: “Os jovens estão sobre as asas do avião”, um codinome para os comandos. Logo depois, a equipe invadiu a aeronave por cinco pontos simultaneamente: a porta principal, a porta traseira, a porta de emergência e as duas asas do avião. De acordo com testemunhas, ao perceberem a ação, os sequestradores começaram a disparar de forma descontrolada. Em apenas 90 segundos, os dois terroristas homens foram mortos, enquanto as duas terroristas foram capturadas antes que pudessem detonar explosivos ou lançar granadas.
No documentário de 2015, O Sequestro de Sabena: Minha Versão, Netanyahu relembrou que um dos passageiros apontou para onde uma das sequestradoras estava escondida. “Estávamos procurando as duas terroristas, e nosso maior medo era que detonassem os explosivos e explodissem o avião”, contou. “Eu a encontrei, puxei-a pelos cabelos, arranquei sua peruca e exigi saber onde estavam os explosivos.” Enquanto isso, outro soldado, Marco Ashkenazi, decidiu ajudar. Aproximou-se com a arma engatilhada para pressionar a terrorista e, ao bater nela com a arma, um disparo acidental ocorreu. O tiro atingiu a sequestradora, atravessou seu corpo e acertou o bíceps de Netanyahu. O mesmo projétil feriu a terrorista e o soldado israelense.
A Operação Isótopo foi um sucesso absoluto. Todos os passageiros foram resgatados com vida, com exceção de uma jovem de 21 anos, grávida, que havia sido ferida durante a operação e faleceu algumas horas depois no hospital. Emocionados, passageiros e tripulantes desceram pelas asas do avião e foram levados de ônibus ao terminal, onde reencontraram seus familiares. Ao saírem pelas portas de emergência, muitos choravam, riam e gritavam “Louvado seja Dayan!”.
A operação foi a primeira desse tipo realizada pelas forças israelenses e exigiu que a equipe planejasse uma missão inédita em poucas horas, sem qualquer experiência em situações semelhantes. Após quase 21 horas de sequestro, os comandos israelenses conseguiram libertar os reféns e neutralizar os terroristas.
Uma das sequestradoras, Theresa Khalsa, tinha 18 anos na época. Em uma entrevista para o documentário, confessou: “Eu queria explodir o avião. Essa é a verdade”. Até a Guerra dos Seis Dias, em 1967, Khalsa, que nasceu em uma família cristã, vivia no norte de Israel, na cidade de Acre.
Em uma entrevista ao jornal Haaretz, contou que sua família mantinha boas relações com os vizinhos judeus. “Vivíamos muito próximos aos judeus. Eu tinha amigos judeus”, disse Khalsa. “Entrávamos e saíamos de suas casas como se fôssemos família”.
No entanto, após 1967, ela se juntou ao grupo terrorista Setembro Negro. Questionada se estava arrependida do que fez, sua resposta foi direta: “Sim. Eu gostaria de ter explodido o avião”. As duas terroristas foram condenadas a 220 anos de prisão em Israel, mas acabaram sendo libertadas em acordos de troca de prisioneiros. Uma foi solta em 1979 e a outra em 1983.
Uma decisão difícil
Durante as 21 horas do primeiro sequestro de um avião comercial em território israelense, a primeira-ministra Golda Meir e seu gabinete enfrentaram um dilema angustiante. A vida de pessoas inocentes estava em jogo, mas ceder às exigências dos sequestradores poderia abrir um precedente perigoso e incentivar novos ataques. “Não foi uma decisão fácil”, admitiu a primeira-ministra visivelmente exausta, uma hora após a operação de resgate. Em resposta às críticas de que a ação teria colocado os reféns em risco, declarou: “Quando uma chantagem como essa é bem-sucedida, ela apenas leva a novas chantagens”.
Desde o sequestro do voo da Sabena, diferentes governos israelenses adotaram estratégias variadas, resultando na troca de centenas ou até milhares de terroristas por reféns israelenses ou pelos corpos de soldados mortos em combate.
Alguns dias após o resgate, Golda Meir organizou um jantar em homenagem à equipe envolvida na operação. Durante o evento, beijou o capitão Reginald Levy, agradeceu e disse: “Nós amamos você”. Com sua impressionante calma sob pressão e a precisão das informações que forneceu, Levy desempenhou um papel fundamental no sucesso da missão.
No entanto, após o resgate dos reféns, Levy foi acusado pela OLP de ter ajudado os israelenses e precisou ser realocado com sua família por razões de segurança. A companhia aérea Sabena inicialmente os enviou para a Espanha e, posteriormente, para a África do Sul. Sua filha, Linda Levy, mais tarde faria aliá e se estabeleceria em Israel.
Levy e Shimon Peres desenvolveram uma amizade duradoura. Em 2003, Levy esteve entre os 400 convidados de honra do aniversário de 80 anos de Peres, um evento que também contou com a presença de Bill Clinton e Mikhail Gorbachev.
BIBLIOGRAFIA
Sabena flight 571 hijacking, artigo publicado em 30 de outubro de 2017 na seção “Wars and Operations” do site https://www.idf.il
Four hijackers and three Israeli PMs: the incredible story of Sabena flight 571, artigo publicado por Stuart Jeffries em 11 de novembro de 2015 no site https://www.theguardian.com
4 armed arab hijackers hold jet and 101 hostages in Israel, artigo publicado em 9 de maio de 1972 no site https://www.nytimes.com/1972/05/09/archives
The men in white were all crack shots, artigo publicado no site https://www.nytimes.com/1972/05/2014/archives