“Os sionistas estiveram por trás do ataque americano ao nosso país”. Assim discursou a presidente da Venezuela ao assumir o poder um dia depois da deposição do presidente Maduro. Esta declaração nitidamente antissemita reflete e sintetiza a opressão imposta à comunidade judaica da Venezuela ao longo de mais de uma década. Esses judeus enfrentaram as adversidades e intimidações com bravura, preservando as suas identidades e impondo sólida dignidade.

Por Zevi Ghivelder

CONJUNTURA

A situação dos judeus na Venezuela no início de 2026 é extremamente delicada e incerta, refletindo o caos político que o país atravessa. A segurança da comunidade judaica está diretamente ligada à instabilidade institucional e à queda recente do regime chavista.

A Venezuela vive este momento de ruptura após uma operação militar dos Estados Unidos, realizada no dia 3 de janeiro, que resultou na captura e destituição do presidente Maduro. Por causa dessa queda, o país enfrenta um período de transição. A pequena comunidade judaica remanescente em Caracas e Maracaibo tem adotado um perfil discreto, evitando manifestações públicas para não se tornar alvo de retaliação por parte de apoiadores do antigo regime que permanecem no poder. Durante os governos de Chávez e Maduro, o antissemitismo era alimentado pela retórica oficial, muitas vezes disfarçada de antissionismo, ou seja, críticas arrasadoras e reiteradas a Israel. O regime deposto mantinha laços estreitos com o Irã e o Hezbollah. O colapso dessas alianças ainda pode gerar episódios de violência contra sinagogas e escolas judaicas. A rigor, os judeus na Venezuela atualmente sofrem com os mesmos problemas que o restante da população: escassez de recursos, inflação e criminalidade urbana. A comunidade judaica mantém, portanto, uma postura de cautela, pois o futuro político do país permanece incerto e, sobretudo, sujeito ao desdobramento de sua relação institucional com o governo republicano dos Estados Unidos.

HISTÓRIA

Não se sabe ao certo quando os judeus chegaram pela primeira vez à Venezuela, mas a maioria dos relatos sugere que havia conversos vivendo em Caracas e Maracaibo em meados do século 16. Embora não existissem comunidades judaicas estabelecidas durante esse período, as interações com comerciantes de colônias holandesas próximas, como Curaçao, provavelmente trouxeram alguns judeus para o país. Nos séculos seguintes, quase não há vestígios da vida judaica na Venezuela.

No início do século 19, os nativos lutaram contra os colonizadores espanhóis em busca da independência. Durante as guerras de libertação, vários judeus lutaram no exército de Simón Bolívar e, em determinado momento, judeus de Curaçao lhes deram abrigo e auxílio militar. Quando a Venezuela conquistou sua independência em 1811, as relações entre a nova república e os judeus foram amistosas, como evidenciado pela adoção de uma constituição, em 1821, que afirmava a liberdade religiosa no país. Isso, juntamente com o fortalecimento dos laços com as colônias holandesas nas ilhas do Caribe, que possuíam populações judaicas, permitiu o estabelecimento de uma comunidade judaica permanente na Venezuela. O século 19 também testemunhou um fluxo constante de imigração judaica para esse país, com alguns judeus portugueses e holandeses de Curaçao chegando à cidade de Coro por volta de 1827, e um grupo de judeus marroquinos mais tarde ali se estabeleceu. Embora muitos desses imigrantes judeus tenham conseguido alcançar certo nível de destaque em diversos setores, não foram aceitos em todo o país. A assimilação também se tornou um problema para muitos membros da comunidade, particularmente aqueles oriundos de Curaçao. Naquela época, os judeus holandeses que viviam na Venezuela praticamente desapareceram, absorvidos pela parcela não judaica da sociedade venezuelana. Mesmo assim, muitos judeus prosperaram e conseguiram alcançar certo nível de destaque em diversos setores. A chegada de judeus do Norte da África e, posteriormente, da Europa Oriental e Central, após a 1a Guerra Mundial e ao longo da década de 1920, fortaleceu a comunidade judaica venezuelana e ajudou a estabelecer instituições comunitárias.

Houve um fluxo de imigração judaica da Europa após o Holocausto, apesar das restrições à imigração. A população judaica na Venezuela continuou a crescer na década seguinte, particularmente após a queda do ditador Pérez Jiménez, em 1958. Durante a Guerra dos Seis Dias, em 1967, alguns voluntários judeus venezuelanos foram para Israel. A comunidade judaica foi ainda mais fortalecida com a chegada de judeus de países como Egito, Líbano, Síria, Turquia e até mesmo de Israel na década de 1960, e de judeus de outros países da América Latina durante a década de 1970.

Os judeus venezuelanos ocuparam muitos cargos de destaque no país durante a segunda metade do século 20. Uma cidadã judia – Ruth Osterreicher de Krivoy – presidiu o Banco Central de 1992 a 1994. Henrique Capriles, um judeu não assumido, foi governador de Miranda de 2008 a 2017.

A comunidade está hoje organizada sob a égide da Confederação de Associações Israelitas da Venezuela (Caiv), que a representa perante organizações nacionais e internacionais. A comunidade judaica venezuelana se divide igualmente entre sefardim e ashquenazim e a vida religiosa é geralmente tradicionalista, existindo cerca de 16 sinagogas no país.

As relações entre a Venezuela e Israel têm sido tensas nos últimos anos, deteriorando-se devido à política externa implantada por Hugo Chávez. Após o conflito entre Israel e Gaza em 2008-09, a Venezuela rompeu todos os laços diplomáticos com Israel.

Em janeiro de 2009, o presidente Chávez expulsou o embaixador de Israel como forma de protesto contra a ofensiva em Gaza. Em abril, o então ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Nicolás Maduro, reuniu-se com o ministro das Relações Exteriores da Autoridade Nacional Palestina, em Caracas, onde foram estabelecidas suas relações diplomáticas formais.

OPRESSÃO

Durante um Shabat relativamente tranquilo, no final de dezembro de 2025, os judeus da Venezuela não sabiam que Donald Trump havia acabado de intensificar a pressão sobre o regime de Maduro. Nas redes sociais, o presidente americano havia publicado um aviso inequívoco: “A todas as companhias aéreas: considerem o espaço aéreo sobre e ao redor da Venezuela totalmente fechado”. O anúncio representava mais uma escalada na campanha que Washington vinha travando nos últimos meses contra o governo de Caracas. O que mais assustava a comunidade judaica da Venezuela, cada vez menor, era a incerteza sobre o que viria a seguir. “Os Estados Unidos vão invadir ou não? Se decidirem atacar, será uma operação com um alvo definido? Ou algo maior que possa colocar em risco qualquer pessoa andando na rua?”, questionou angustiado o rabino Oshri Arguane, da comunidade Tiferet Israel del Este, de Caracas, naquela ocasião, em conversa com a revista argentina Mishpachah: “As pessoas ainda tentam levar uma vida normal, as escolas estão abertas, os comércios também. Mas é inegável que há muita tensão”.

O rabino Arguane observou que muitos judeus venezuelanos estavam lidando com as consequências do crescente isolamento do país. Apenas alguns dias antes, a Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos havia emitido um alerta de segurança, recomendando que companhias aéreas evitassem o espaço aéreo venezuelano. Em resposta, o país revogou as autorizações de operação de seis grandes companhias aéreas internacionais. Essa decisão desencadeou duas sérias complicações. Por um lado, intensificou a sensação de que algum tipo de ataque americano poderia ser iminente, levando muitos venezuelanos a se mobilizarem para deixar o país. Como resultado, os preços dispararam. As passagens que custavam cerca de 700 dólares não eram compradas por menos de 4 mil dólares. Ao mesmo tempo, pessoas que haviam viajado e pretendiam voltar para casa ficaram retidas no exterior. Enquanto conversava com a revista, o rabino aguardava um telefonema da esposa, detida na Espanha sem poder retornar a Caracas. O desespero era tamanho que membros da comunidade começaram a contratar motoristas para levá-las até a fronteira com a Colômbia, de onde tentariam chegar aos destinos mais desejados, Miami ou Madri.

Desde 2007, a Venezuela era governada pelo Partido Socialista: primeiro sob Hugo Chávez e, após sua morte, sob o vice-presidente Nicolás Maduro, que começou a governar em 2013. As eleições no país eram amplamente consideradas uma farsa, e o partido governista conseguia se manter no poder às custas dos venezuelanos comuns, que foram empobrecidos a níveis alarmantes. A Venezuela era a quarta maior economia da América Latina e havia descido para a décima primeira posição.

Os judeus venezuelanos passaram a admirar o presidente da Argentina, Javier Milei, eleito em 2023, que tinha revelado um entusiasmo pelo Judaísmo jamais visto em quaisquer outros governantes contemporâneos. Milei fez sua primeira viagem oficial tendo Israel como destino. Na viagem seguinte, aos Estados Unidos, participou de uma celebração do Shabat em Nova York e gostava de recitar trechos da Parashá (trecho da leitura semanal da Torá) em discursos oficiais. Inspirado pelos “Acordos de Abraão”, Milei anunciou que a Argentina poderia liderar o que ele chamou de “Acordos de Isaac”, um paralelo latino-americano aos acordos de normalização assinados com Israel por diversos estados árabes. Ele vislumbrou uma coalizão regional de líderes que apoiam abertamente Israel, exortando que combatam o antissemitismo e rejeitem ideologias intolerantes.

As elogiosas alusões feitas pelos judeus venezuelanos a Milei vazaram os limites comunitários, provocando irritação em Maduro e em membros do primeiro escalão de seu governo que, através de declarações públicas, intensificaram as hostilidades contra os judeus. Mas, a rigor, a progressão do antissemitismo na Venezuela era recorrente, vindo desde o governo de Hugo Chávez.

Foi uma escalada que avançou no curso do antissemitismo clássico, evoluindo para o “antissemitismo de Estado”, tal como aconteceu na União Soviética a partir do início da década de 50 do século passado. A exemplo da ação do Kremlin, também em Caracas a admoestação aos judeus era camuflada sob a retórica do antissionismo político.

Na Era Hugo Chávez, de 1999 a 2013, o antissemitismo tornou-se visível por conta de iniciativas do governo, engajado à esquerda no plano doméstico e na política externa do país. Chávez utilizava chavões antissemitas em seus discursos. Em um famoso pronunciamento de Natal, em 2005, afirmou que “descendentes daqueles que fizeram a crucificação tomaram posse das riquezas do mundo”. Foi uma afirmação obviamente interpretada como um ataque frontal aos judeus. Em 2004 e 2007, a polícia secreta venezuelana realizou batidas na escola judaica Centro Hebraico de Caracas, alegando buscar por armas e documentos subversivos. Nada foi encontrado, mas foi devastador o impacto psicológico na comunidade.

Após o conflito em Gaza, em 2009, Chávez expulsou o embaixador de Israel e rompeu relações diplomáticas. No mesmo período, a sinagoga Tiferet Israel foi profanada por um grupo armado, com a inclusão de policiais, que pichou mensagens de ódio e roubou registros da comunidade. Sua intenção, na verdade, era fazer um levantamento dos judeus residentes na capital do país, uma espécie de censo, como aquele que havia sido feito pelos nazistas depois da ocupação de Paris, em 1940.

Maduro herdou e intensificou a retórica de Chávez, integrando-a em sua narrativa de “guerra de resistência contra o imperialismo”, um slogan em desuso há mais de cinquenta anos. Durante as campanhas contra o adversário Henrique Capriles, a mídia estatal e o próprio Maduro se valeram de insultos antissemitas, chamando-o de sionista com clara conotação pejorativa. O presidente Maduro se empenhava em culpar o “sionismo internacional” pelos protestos contra seu governo ou pela crise econômica, resultante, como dizia, de “conspirações globais orquestradas por judeus”. A estreita relação militar e política com o Irã e o apoio a grupos como o Hezbollah aumentaram a sensação de insegurança e, a par da vigilância sobre os judeus venezuelanos, estes passaram a ser vistos como “agentes estrangeiros”.

O resultado direto dessa progressão foi a redução drástica da população judaica na Venezuela: de 25 mil no começo do governo de Chávez para cerca de 5 a 7 mil na atualidade.

DISCURSOS

Assim como seu mentor, Fidel Castro, o presidente venezuelano Hugo Chávez gostava de denunciar seus críticos como fascistas e nazistas, fossem quem fossem, desde alguém insignificante até a mais destacada personalidade de qualquer país. Mas, na verdade, a militarização da sociedade venezuelana e seu exacerbado nacionalismo, a par de uma persistente demagogia antissemita, envolveram a Venezuela numa moldura totalitária, tal como aquelas que caracterizaram a Itália fascista e a Alemanha nazista.

Um dos alvos prediletos de Chávez foi Henrique Capriles, candidato à presidência da Venezuela pela coalizão Movimento Unidade Democrática (MUD). Capriles, então com 40 anos, tinha sido governador do estado de Miranda. Era católico praticante, mas não negava que seus avós eram judeus que haviam escapado do nazismo e que seus bisavós tinham sido assassinados no campo de concentração de Treblinka. Após Capriles vencer a votação primária do MUD, a mídia estatal, controlada por Chávez, começou a atacá-lo com uma avassaladora propaganda antissemita.

Líderes proeminentes da comunidade judaica denunciaram o preconceito e exigiram uma ação reparadora por parte do governo de Caracas: “Instamos o presidente Chávez a pôr fim a esta campanha que certamente se tornará mais ameaçadora à medida que a data das eleições se aproxima”. Esta manifestação foi assinada por Shimon Samuels, diretor de relações internacionais do Centro Simon Wiesenthal. Outro líder judeu, Abraham Foxman, diretor da instituição americana Anti-Defamation League, divulgou uma nota: “O povo da Venezuela deve rejeitar com firmeza as táticas do regime de Chávez de reciclar os clássicos artifícios antissemitas que rotulam os judeus como desleais, como ameaças aos valores do país, como capitalistas responsáveis pelas dificuldades econômicas e como parte de um lobby sionista internacional”.

Chávez não emitiu uma retratação pública, mesmo porque tinha derrotado Capriles na eleição e, em seguida, havia declarado: “Os judeus estão minando os esforços e os progressos da nossa Revolução Bolivariana”. Essas e muitas outras investidas antissemitas, revestidas de caráter oficial, fizeram com que milhares de judeus começassem a abandonar a Venezuela, num verdadeiro êxodo, desfazendo-se de suas propriedades e abandonando posições proeminentes dentre os profissionais liberais do país.

O jornalista Matthew Fishbane escreveu na revista Tablet: “Muitos se mudaram para Bogotá, Colômbia, uma cidade que durante décadas foi marcada pela violência, mas que agora parece uma ilha de segurança e paz em comparação com Caracas”. O jornalista acrescentou: “A capital venezuelana costumava abrigar dezenas de milhares de residentes judeus, mas os números despencaram. O êxodo de Caracas reflete uma tendência nacional à medida em que a durabilidade de Chávez é imprevisível. Metade da comunidade judaica venezuelana fugiu do caos social e econômico que o presidente desencadeou, junto com a angustiante sensação de que estava sendo especificamente sufocada pelo regime”.

A insegurança dos judeus venezuelanos era mais do que justificável. O discurso feito por Chávez na véspera de Natal de 2005, quando associou os judeus à crucificação, alcançou significativa repercussão junto à população, assim como haviam sido absorvidos pelos alemães os pronunciamentos hitleristas.  Em outra reportagem, escreveu Fishbane: “Em dezembro de 2007, a polícia estadual invadiu o clube social judaico mais importante de Caracas. Não por acaso, eles realizaram essa operação no mesmo dia em que os venezuelanos votavam um referendo nacional sobre limite do mandato presidencial que favorecia Chávez. Policiais mascarados e armados se posicionaram de forma agressiva, enquanto crianças judias do ensino fundamental chegavam para as aulas”.  Cerca de um ano depois, Chávez descreveu que a guerra de Israel contra o Hamas, em 2009, era “um Holocausto genocida contra o povo palestino”. Poucas semanas após a expulsão do embaixador de Israel, intrusos armados vandalizaram uma sinagoga em Caracas, deixando para trás várias mensagens antissemitas em grafite, incluindo “judeus fora daqui”. Em junho de 2010, após a marinha israelense bloquear uma flotilha turca com destino a Gaza, Chávez criticou “a natureza terrorista e criminosa do governo israelense”. Falando na televisão estatal, lançou um ataque feroz: “Aproveito esta oportunidade para condenar mais uma vez, do fundo da minha alma, o Estado de Israel”. Naquele mesmo mês, Chávez se reuniu com o ditador sírio Bashar al-Assad na Venezuela e, mais uma vez, aludiu ao governo israelense como genocida.

A emigração em massa de judeus da Venezuela é tragicamente semelhante ao que aconteceu no Caribe, no início da década de 1960. Segundo o historiador Irving Louis Horowitz, impressionantes 90% dos judeus cubanos fugiram da ilha logo após Castro assumir o poder. Por décadas, Havana instituiu um fluxo constante de propaganda antissemita, emanada de Moscou. Como explica Horowitz, os soviéticos forneceram a Cuba o modelo para atacar atividades e organizações de direitos humanos por serem “uma extensão da conspiração sionista judaica”. Castro sediou a Conferência Tricontinental de 1966, depois da qual estreitou relações com a OLP de Yasser Arafat.

O antissemitismo da chamada Revolução Bolivariana foi inspirado não apenas por Fidel Castro, mas também pelo Irã que, por conta de Maduro, tem uma aliança robusta com a Venezuela. Esta situação de proximidade vai perdurar? Somente a Casa Branca guarda uma resposta para essa indagação.

Zevi Ghivelder é escritor e jornalista