A Abertura do Mar tornou-se o símbolo máximo da intervenção Divina na história judaica. Marca a culminação de sua libertação do cativeiro egípcio e os milagres que ocorreram – a salvação do Povo Judeu e a derrota definitiva de seus opressores – foram ainda maiores, em intensidade e impacto, do que os feitos portentosos das Dez Pragas.

Em Israel, essa festividade de nosso calendário dura uma semana e encerra-se no Yom Shevi’i shel Pessach, o Sétimo Dia de Pessach. Já na Diáspora – inclusive aqui no Brasil – ela se estende por oito dias, seguindo o mesmo princípio aplicado aos Yamim Tovim, os Dias Sagrados que, fora da Terra de Israel, são tradicionalmente observados durante um dia adicional (com exceção de Yom Kipur).

Dessa forma, em Israel, são Yamim Tovim (datas festivas) o primeiro e o sétimo dia de Pessach, enquanto, na Diáspora, são os dois primeiros e os dois últimos dias. Assim, por começar e terminar com um Yom Tov, Pessach é singular e distingue-se de Sucot, cujo último dia, Hoshana Rabá, não é uma dessas datas festivas. Isso se dá ao contrário de Shemini Atseret, festividade que ocorre logo a seguir, mas é uma comemoração independente.

Por que, então, a Torá nos ensina: “E o sétimo dia [de Pessach] será para vós uma santa convocação; nenhum trabalho será realizado nesse dia” (Êxodo 12:16)? E respondemos: porque a libertação do Egito se desenrolou ao longo de uma semana. O início da festa, em 15 de Nissan, quando, à noite, realizamos o Seder (o primeiro de dois Sedarim, na Diáspora, e o único em Israel), marca a saída da terra do Egito, nosso cativeiro. No entanto, conforme o segundo livro da Torá, Êxodo, só em 21 do mesmo mês (ou seja, sete dias depois) ocorreu a Abertura do Mar, que representou a salvação dos Filhos de Israel por selar a derrota final do Faraó e seus exércitos, que buscavam reconduzir nossos ancestrais à escravidão. Portanto, o Povo Judeu sempre atribuiu enorme importância histórica e espiritual ao 21 de Nissan, data de sua libertação definitiva do cativeiro egípcio.

Além disso, como ensina a Hagadá de Pessach, os acontecimentos extraordinários decorrentes da Abertura do Mar, a saber, a salvação de nossos ancestrais com a derrota definitiva de seus opressores, foram ainda maiores, em intensidade e impacto, do que os milagres e maravilhas das Dez Pragas. De fato, o relato grandioso em que Moshé Rabenu ergue seu cajado, o mar se abre, os Filhos de Israel atravessam em segurança e as águas se fecham, logo depois, sobre os egípcios, é um dos mais conhecidos da Torá, entre não judeus inclusive, além de ser um dos mais inspiradores e celebrados. Por isso, esse milagre tornou-se o símbolo máximo da intervenção Divina na história de nosso povo. Para comemorar esse acontecimento, as comunidades judaicas, tanto ashquenazitas quanto sefaraditas, dedicam a noite do sétimo dia de Pessach a um estudo prolongado da Torá. Alguns permanecem acordados a noite inteira enquanto outros seguem costumes locais específicos.

Para comemorar essa grande ocasião, exploraremos, neste ensaio, alguns ensinamentos da Torá sobre a Abertura do Mar, bem como suas lições atemporais e seu significado espiritual mais profundo.

A verdadeira definição de um milagre

Quase sempre nos referimos às Dez Pragas do Egito, que levaram à saída do Povo de Israel, como milagres. Estes, em geral, são definidos como acontecimentos sobrenaturais que violam as leis da natureza. No entanto, ao examinarmos a Torá com mais atenção, vemo-nos diante de um quadro surpreendente e, até certo ponto, contraintuitivo. Dentre aquelas ocorrências extraordinárias, só uma delas está totalmente além de qualquer explicação natural plausível: a transformação das águas em sangue. Ainda assim, a própria Torá relata que essa praga foi reproduzida pelos feiticeiros egípcios.

É curioso que, em todo o confronto entre Moshé e o Faraó, o acontecimento de caráter sobrenatural mais evidente, mas que, ironicamente, nem sequer é contado entre as Dez Pragas, foi o momento em que o cajado de Aharon se transformou em uma serpente e voltou à forma original. De fato, a conversão de um objeto inanimado em um ser vivo e, em seguida, sua volta à condição inicial é, segundo todo o conhecimento moderno, impossível. Não há nenhuma explicação científica para um fenômeno desses. Ainda assim, segundo a Torá, esse feito foi reproduzido pelos magos egípcios, que também transformaram cajados em serpentes e reverteram o processo.

Já as outras pragas (rãs, piolhos, animais selvagens, peste, chagas, granizo, gafanhotos, trevas e até mesmo a morte dos primogênitos) não são, em termos científicos, inconcebíveis e, em alguns casos, podem ser vistas como fenômenos naturais extremos. Ainda assim, paradoxalmente, a partir da terceira, piolhos, os feiticeiros já não conseguiram reproduzir tais ocorrências. Em outras palavras, os mestres em magia do Egito foram capazes de imitar feitos sobrenaturais, mas não aqueles que se davam por meio de processos naturais.

Isso nos obriga a reavaliar o caráter milagroso das Dez Pragas. Se a quase totalidade delas não necessariamente violava as leis da natureza, por que, então, são descritas como atos extraordinários de intervenção Divina? A própria Torá fornece a resposta. Ao anunciar a última, a morte dos primogênitos, Moshé diz ao Faraó, em nome do Onipotente: “Então saberás que D’us faz distinção entre o Egito e Israel” (Êxodo 11:7). Vê-se assim que essas ocorrências foram milagrosas porque só atingiram alguns. É extremamente difícil explicar como dez catástrofes afetaram só parte de uma população que vivia no mesmo local e sob as mesmas condições ambientais. A natureza não faz distinção entre povos. Assim, o aspecto extraordinário das Dez Pragas foi a precisão de seu direcionamento, demonstração inequívoca da Providência Divina. Com elas, D’us revelou não só Seu poder infinito, mas também Seu envolvimento ativo e individualizado na história e na vida humana.

O mesmo se aplica à Abertura do Mar, ocorrência maravilhosa não pelo fato em si, pois forças naturais intensas, como padrões incomuns de circulação atmosférica ou até atividade sísmica, podem, de fato, provocar mudanças drásticas em grandes massas de água. Esse acontecimento teve um caráter milagroso devido ao momento em que o mar se abriu (quando os Filhos de Israel precisavam escapar) e se fechou (durante a perseguição a nosso povo pelo exército egípcio). Dessa forma, um povo foi salvo, e seus opressores, destruídos. Nesse sentido, a Abertura do Mar demonstrou a intervenção Divina de forma ainda mais clara que nas Pragas. Não foi uma simples suspensão das leis da natureza, por mais extraordinário que tenha sido o fenômeno, mas teve uma perfeita sincronia e um desfecho providencial: a salvação dos judeus e a derrota das forças egípcias.

Conclui-se, então, que, para a Torá, milagre não é um fenômeno improvável ou impossível de acordo com as leis naturais, mas um ato Divino de salvação, um acontecimento que, a despeito dos processos nele envolvidos, se desenrole de modo a proteger, conduzir e redimir. O caráter sobrenatural é um aspecto secundário. Se o mar tivesse se fechado com os Filhos de Israel ainda a atravessá-lo, isso não teria sido maravilhoso, mas trágico.

É por isso que, na Amidá, a prece central da liturgia judaica, agradecemos a D’us por Seus milagres e maravilhas quotidianas, bem como Seus inúmeros atos de bondade a todo instante do dia. Assim, essas palavras não se referem apenas a ocorrências raras ou extraordinárias, mas aos incontáveis momentos em que a vida se desenrola com sentido, proteção e propósito, muitas vezes de forma aparentemente natural, mas sempre guiada por D’us.

A Providência Divina

Um dos princípios fundamentais do Judaísmo e das bases dos ensinamentos hassídicos, conforme transmitidos por seu fundador, Rabi Israel ben Eliezer, conhecido como o Baal Shem Tov, é o conceito de Hashgachá Pratit, a Providência Divina individual. Esse grande místico ensinou que tudo o que acontece no mundo é dirigido pela vontade de D’us, que determina, por exemplo, até mesmo a queda de uma folha de árvore em um momento exato porque isso faz parte de Seu plano maior. Explicou ainda que a criação do mundo por meio da fala do Altíssimo não foi um ato único, mas um processo contínuo, ensinamento esse desenvolvido e aprofundado posteriormente por Rabi Shneur Zalman de Liadi, o Rebe fundador do movimento Chabad-Lubavitch, em sua

obra-prima filosófica e cabalística, o Tanya. Em outras palavras, D’us não fez todas as coisas em um dado momento do passado remoto, mas as traz à existência a cada instante. Se esse fluxo criador cessasse por um instante sequer, todo o Universo retornaria imediatamente ao nada. Isso significa que o mar, o vento, a água e até as leis da natureza não funcionam de modo “automático”, mas só existem e atuam porque são sustentados e dirigidos de forma ininterrupta pela Vontade Divina. Assim, D’us seria o Artista Supremo, e o Universo, Sua tela: tudo o que Ele deseja se expressa dentro da Criação.

Isso permite compreender melhor o milagre de Keriat Yam Suf, a Abertura do Mar. As águas não agiram contra sua própria natureza, mas responderam ao comando do Onipotente, que as sustenta continuamente. Sua própria existência, mantida a cada instante pela palavra criadora de D’us, foi direcionada para servir ao propósito da redenção. Ou seja, o fato extraordinário não se deu em violação às leis da natureza, mas em obediência à verdadeira Fonte de tudo – a Vontade Divina – e demonstra, portanto, que todos os acontecimentos, grandes ou pequenos, são guiados pelo Altíssimo.

A Abertura do Mar ocupa um lugar central na memória coletiva judaica por mostrar o envolvimento de D’us em cada pormenor da vida: desafios, oportunidades e até as chamadas coincidências, tudo faz parte dos desígnios superiores. Logo, não foi um acontecimento pontual que se deu há mais de 3.300 anos, mas uma realidade espiritual atemporal.  Assim como as águas se abriram no exato momento em que era necessário, todas as barreiras, até as que parecem intransponíveis, podem ruir diante da Vontade de D’us. Nada está fora da Providência Divina. Por isso, o milagre do mar ainda fala a cada pessoa, em todas as gerações.

O Povo Judeu sempre segue adiante

Um conhecido Midrash descreve o momento em que os Filhos de Israel se viram encurralados entre o exército egípcio e o mar. Nessa situação desesperadora, o povo dividiu-se em quatro grupos, cada qual com uma proposta diferente. O primeiro defendia que se lançassem às águas, pois a morte por afogamento seria preferível ao massacre ou à volta ao cativeiro. O segundo sugeria a rendição e a volta à servidão, um destino melhor que a morte certa. O terceiro queria enfrentar os inimigos, pois mais vale perecer com honra do que viver como escravo. Por fim, o quarto não propunha nem suicídio, nem capitulação, nem combate, mas exortava todos à oração.

À primeira vista, poderíamos imaginar que ao menos a luta ou a prece seriam opções aceitáveis. No entanto, de forma surpreendente, D’us rejeitou as quatro propostas e diz a Moshé Rabenu: “Por que clamas a Mim? Fala aos Filhos de Israel e que sigam adiante” (Êxodo 14:15). E assim o fizeram. Assim que avançaram, a barreira aparentemente intransponível deu lugar ao maior milagre de toda a jornada, um que relembramos e comemoramos há mais de três milênios.

Esse Midrash transmite muitas lições profundas de caráter universal e atemporal, mas uma das mais poderosas é esta: a missão essencial do Povo Judeu é seguir em frente. Esse é o segredo de nossa sobrevivência e renovação ao longo dos tempos. De fato, não nos entregamos ao desespero e não ficamos paralisados pelo medo nem nos episódios mais sombrios de nossa história: a destruição dos dois Templos Sagrados de Jerusalém, o exílio e as inúmeras tragédias subsequentes que culminaram no Holocausto. Nem diante desse último, a catástrofe mais devastadora para nosso povo, perdemos a esperança. Pelo contrário, transformamos a tragédia em renovação e realizamos um sonho de dois mil anos: o retorno à nossa terra ancestral e a restauração de nossa soberania. Se nem Auschwitz foi capaz de quebrar o espírito dos judeus, nada mais o será.

Como disse o primeiro-ministro britânico Sir Winston Churchill, que ajudou a conduzir o mundo livre pelos dias mais sombrios da 2ª Guerra Mundial: “Se estiver passando pelo inferno, siga em frente” e “Nunca, nunca, nunca desista”. É exatamente isso que nós, os Filhos de Israel, sempre fazemos.

A ação que traz milagres

Segundo a leitura literal da Torá e a retratação mais comum da Abertura do Mar nos filmes, Moshé Rabenu ergueu seu cajado, e as águas imediatamente começaram a se abrir. O Midrash, porém, revela uma sequência muito mais dramática: o profeta de fato assim o fez, mas o mar permaneceu fechado. Na verdade, o milagre não foi apenas um ato de intervenção Divina, pois, antes dele, D’us pôs à prova a coragem e a fé do povo, expressas por meio da ação. Quando chegaram ao Mar de Juncos, os Filhos de Israel ficaram encurralados entre o exército do Faraó e as águas. Moshé ergueu o cajado, mas nada aconteceu. Foi então que Nachshon ben Aminadav, líder da tribo de Yehudá, sem esperar por milagre algum, deu um passo à frente e avançou até que a água chegasse às suas narinas. Só então o mar se abriu. A demonstração de coragem desse homem foi a expressão máxima de emuná, uma fé que não se restringe ao coração ou à mente, mas se transforma em ação concreta e decisiva.

Segundo o pensamento hassídico, não basta acreditar em D’us para ter fé, que, longe de ser uma postura passiva, exige a disposição de viver de acordo com essa crença e prosseguir a despeito de qualquer obstáculo. Nachshon não sabia como D’us salvaria o Povo de Israel, mas, confiante na ação do Altíssimo, avançou apesar do risco de vida. Essa é a diferença entre a fé teórica e a vivenciada. Aquela, que se limita ao plano das ideias, pode, inclusive, levar a uma paralisia, mas a emuná preenche o coração, chega aos pés e gera movimento.

O Baal Shem Tov ensinava que, em cada etapa da vida, todos se deparam com seu próprio “Mar de Juncos”: algo desconhecido, assustador ou aparentemente impenetrável, mas a única possibilidade é seguir adiante. Quando se dá esse passo com fé, D’us faz descer um fluxo de Sua luz – algo que não era vislumbrado anteriormente.

Na noite do sétimo dia de Pessach, aniversário da Abertura do Mar, cada um de nós é convidado a se perguntar: que obstáculo tenho diante de mim? Em que área da vida preciso de um milagre, e, quem sabe, talvez D’us só esteja aguardando o meu primeiro passo? Nada acontece enquanto ficamos parados à espera de que algo ocorra, mas, quando avançamos com fé e confiança no Onipotente, o mar se abre diante de nós.

Não por acaso, em primeiro de Nissan do ano seguinte ao Êxodo, quando o Povo Judeu ergueu o Mishkan, o Tabernáculo, morada de D’us na Terra, foi a tribo de Yehudá, chefiada por Nachshon ben Aminadav, que trouxe as oferendas no primeiro dia. De fato, esse homem de fé, também não por coincidência, foi antepassado do Rei David, valente guerreiro e o maior soberano de Israel, bem como, em última instância, do Mashiach. Esteve ainda, não por mera casualidade, à frente da tribo que a Torá associa à realeza e à liderança. Por fim, como, de acordo com nossos Sábios, os filhos muitas vezes refletem o caráter espiritual do tio materno, sua irmã Elisheva foi casada com Aharon HaCohen, irmão de Moshé Rabenu e primeiro Sumo Sacerdote, que desejava merecer descendentes com a grandeza de Nachshon, o que, de fato, ocorreu: suas gerações futuras, os Cohanim, tornaram-se símbolo duradouro de santidade, fé e serviço a D’us.

O poder do canto e da gratidão

Após o milagre da Abertura do Mar, todos os Filhos de Israel, com Moshé Rabenu à sua frente, irromperam em um cântico espontâneo e uníssono que, conforme a Torá, se iniciou com: “Az yashir Moshé…” – “Então Moshé cantará…” (Êxodo 15:1). Trechos desse hino, conhecido como Shirat HaYam (o Cântico do Mar), fazem parte das preces de Shacharit, recitadas todos os dias do ano. Assim, relembramos diariamente a Abertura do Mar e o poema por meio do qual o Povo Judeu expressou gratidão a D’us por tê-los salvado. O que chama a atenção nesse versículo inicial é que, embora se refira a um acontecimento passado, a palavra yashir está no futuro (“cantará”). Segundo nossos Sábios, o emprego inusitado desse tempo verbal prenuncia outro cântico a ser entoado nos dias do Mashiach.

O pensamento hassídico aprofunda ainda mais essa ideia: o Shirat HaYam foi tão elevado que implantou, na própria Criação, o potencial de um hino eterno, uma ressonância espiritual que pode ser despertada sempre que é revelada a verdade Divina. Nesse sentido, o canto é a linguagem da alma quando as palavras já não bastam. Brota de um nível além do intelecto, de bitul (anulação do ego e transcendência de si mesmo) e da alegria interior trazida pela percepção da realidade da Presença de D’us no mundo. Por isso, tem um papel central na vida judaica. Nas comunidades hassídicas, os nigunim (melodias sem palavras) são muito importantes por permitirem que o anseio, a alegria e o despertar espiritual da alma se elevem além dos limites da fala e se dirijam à Fonte Divina.

Como o Judaísmo dá grande ênfase ao canto, grande parte de nossa liturgia é entoada e não apenas recitada, sobretudo nos dias mais sagrados, como Shabat e Yom Kipur. Da mesma forma, uma das bases da vida judaica é a gratidão a D’us, e as expressões de louvor, tão presentes no Livro dos Salmos, têm enorme força espiritual. Assim, mais que um hino pela salvação, o cântico junto ao Mar foi um eco da Era Messiânica, a antecipação de um cantar muito maior, a ser entoado na hora da redenção final e completa.

As profundezas ocultas da Torá

A Abertura do Mar não foi apenas o ato final da libertação de nossos ancestrais, o último confronto com os opressores egípcios após o qual o Povo Judeu alcançou a autonomia definitiva. Foi também um momento de revelação espiritual extraordinária, um vislumbre de algo muito além da salvação física. De acordo com o Midrash, quando as águas se abriram, até mesmo uma simples serva percebeu a revelação de D’us em um nível mais profundo do que o profeta Ezequiel, que contemplou a Carruagem Divina, visão que mais tarde se tornaria um dos fundamentos do estudo da Cabalá. Ou seja, o acontecimento extraordinário foi uma experiência espiritual sem precedentes, vivenciada por todos os Filhos de Israel.

Segundo os Mestres Hassídicos, a Abertura do Mar ofereceu uma breve antecipação da Era Messiânica, quando aquilo que está oculto será revelado e a consciência da Divindade será tão evidente quanto a terra seca sob as águas. Assim como o mar se abriu para expor o que estava escondido, também no futuro a realidade espiritual oculta da Criação se tornará perceptível com clareza.

Um momento propício para o crescimento pessoal e a redenção universal

Como vimos, a libertação do Povo Judeu estendeu-se por sete dias. Nossos ancestrais não alcançaram a redenção completa logo no início de Pessach, a saída da terra estrangeira, pois, após o Êxodo, mudando de ideia, o Faraó mobilizou seu exército para forçá-los a voltar ao cativeiro. O processo só atingiu seu desfecho no sétimo dia, quando as águas se abriram, permitiram a passagem dos Filhos de Israel e, voltando a se fechar, afogaram as forças egípcias.

Essa sequência de acontecimentos extraordinários infundiu no Povo Judeu uma fé em D’us que nos sustenta há mais de três milênios. Mesmo nos momentos mais difíceis de nossa história, acreditamos que, assim como nos retirou do Egito, abriu o mar diante de nós e nos conduziu à Terra Prometida, algum dia o Altíssimo voltaria a nos propiciar salvação e redenção. Nunca duvidamos de nosso retorno a Israel e a Jerusalém, o que de fato aconteceu. Agora aguardamos a construção do Terceiro Templo Sagrado e a vinda de Mashiach, que inaugurará uma era de paz universal e o fim do sofrimento humano.

Ano após ano, Pessach é uma oportunidade de aperfeiçoamento e elevação interior, sobretudo no sétimo dia, que, com grande potencial espiritual, é muito propício para fortalecer a fé em D’us e na Torá. De fato, segundo nossos Sábios, aqueles que buscam crescimento recebem, dos Céus, nessa noite, uma assistência especial ainda maior que a habitual, o que lhes permite superar suas limitações e aproximar o mundo da salvação. Ademais, é esse o momento de preparar a humanidade para a Redenção Messiânica, que, de acordo com uma opinião no Talmud, também ocorrerá em Nissan, nome associado à palavra nissim (“milagres”).

Uma noite de milagres e proteção

Segundo nossos Sábios, os Filhos de Israel permaneceram em grande perigo ao longo de toda a noite da Abertura do Mar. Foram não só perseguidos pelo exército egípcio, mas também assediados por anjos acusadores que buscavam incriminá-los e causar-lhes dano. Ainda assim, D’us protegeu e resguardou Seu povo por todos os lados.

Nossos Sábios ensinam ainda que a energia espiritual dessa noite não pertence apenas ao passado. Nesse sentido, cabe observar que, para o Judaísmo, o tempo não é uma sequência histórica de acontecimentos, mas um ciclo espiritual recorrente. As influências Divinas atuantes em determinado momento se fazem presentes ano após ano, no mesmo ponto do calendário. Portanto, a noite do sétimo dia de Pessach carrega em si o mesmo potencial espiritual de milagres, salvação e proteção daquela que antecedeu a Abertura do Mar. Por isso, dedicar essa ocasião especial ao estudo da Torá e absorver a sabedoria de D’us é mais do que recordar um fato histórico. É trazer, para a própria vida, a mesma energia espiritual que envolveu nossos antepassados naquela noite, há milhares de anos. Ou seja, todo ano, não apenas relembramos, mas revivemos aquele episódio maravilhoso e temos a oportunidade de nos colocarmos sob o mesmo manto de proteção Divina que nossos ancestrais.

A redenção do mundo passa pela redenção do indivíduo

O sétimo dia de Pessach ensina que é dentro da alma de cada um que começa a redenção coletiva. Muitos imaginam que a Era Messiânica chegará de forma repentina ou graças ao mérito extraordinário de algum grande tzadik. Contudo, nossos Sábios e Profetas dizem o contrário: é por meio dos esforços acumulados de incontáveis pessoas, de todas as gerações, que advirá a redenção do mundo, aquela perfeição pela qual a humanidade anseia, há milênios. Nesse sentido, a analogia por eles apresentada é a de um grande cálice de vinho. A cada boa ação praticada, acrescenta-se uma gota ao recipiente, que acabará por se encher e transbordar. Só então começará a Era Messiânica. Logo, como ensina Maimônides (o Rambam), cada um de nós tem o poder de inclinar a balança e acelerar a salvação do mundo com cada boa ação que realizamos.

O sétimo dia de Pessach é, portanto, um momento especialmente propício para a transformação interior e a elevação espiritual. Sempre que, a exemplo de Nachshon ben Aminadav, avançamos com coragem, fé e confiança em D’us, nos abrimos à revelação Divina; respondemos com um cântico de gratidão e nos dedicamos ao estudo da Torá, estamos refinando nossa alma e trazendo a luz da redenção para o momento presente. Dessa forma, cada ato de confiança no Altíssimo, cada passo de crescimento espiritual e cada expressão jubilosa de gratidão aproxima o mundo da redenção universal e ajuda a revelar a Presença Divina que já se encontra no interior da própria Criação.

Segundo os Mestres Hassídicos, o despertar da dimensão interior da alma também acelera a redenção exterior e nos aproxima tanto da Abertura Final do Mar quanto da plena revelação da Luz Infinita, hoje oculta.

Que isso aconteça muito em breve, ainda em nossos dias. Amén veAmén.

BIBLIOGRAFIA

The Seventh Day of Passover, artigo de Eliyahu Kitov publicado no site https://chabad.org

Why Stay Up on the 7th Night of Passover?, artigo de Yehuda Shurpin publicado no site https://chabad.org