Morashá
KOL NIDREI Foto Ilustrativa

KOL NIDREI

Na véspera de Yom Kipur, em todas as sinagogas ao redor do mundo, a Arca Sagrada é aberta e os rolos de Torá são retirados. Em seguida, o chazan e a congregação entoam o Kol Nidrei. Um prelúdio marcante que durante séculos transmite a gerações de judeus o espírito do Dia do Perdão.

Edição 34 - Setembro de 2001


Kol Nidrei, que em aramaico significa “todos os votos” ou “todas as promessas”, apesar de tocar o fundo da alma judaica, infundindo em cada um dos presentes temor e esperança, na realidade não é uma oração e o texto sequer menciona o tema arrependimento. É uma declaração coletiva que permite aos que estão presentes anular promessas, votos ou juramentos feitos a D’us e não cumpridos. No Yom Kipur, na hora do Kol Nidrei, somos lembrados que a palavra é sagrada e que promessas assumidas devem ser escrupulosamente respeitadas.

Para o judaísmo, votos e juramentos são compromissos de extrema importância e a Torá é explícita neste ponto. Um mandamento bíblico afirma que uma promessa proferida não deve ser quebrada. Esta proibição é tão grave que o Talmud diz que o mundo treme diante dela e, portanto, não podemos nos aproximar de D’us para implorar Seu perdão sem antes nos termos livrado do grave pecado de ter violado nossa palavra a Ele. O Talmud aconselha evitar juramentos ou votos.

Nossos sábios estavam cientes da fragilidade da natureza humana. Sabiam também que, em momentos difíceis, ao nos dirigirmos ao Todo-Poderoso, podem ser pronunciadas promessas precipitadas ou juramentos difíceis de cumprir. Por isto, anteviram uma forma de nos absolver de culpas derivadas de palavras proferidas impetuosamente. Apesar de colocar sérias limitações, o Talmud afirma que um tribunal composto por três pessoas (Bet Din) pode anular votos ou juramentos feitos por uma pessoa, se esta declarar perante eles que se arrependeu.

Por ter provocado mal-entendidos ao longo de séculos, é muito importante lembrar que, assim como o Yom Kipur só absolve as transgressões do homem em sua relação com D’us, o Kol Nidrei nos libera somente de votos ou juramentos pessoais feitos a D’us e só a Ele. Em hipótese alguma nos libera de promessas, juramentos ou votos que envolvam outras pessoas; estes só poderão ser anulados quando, na presença de todos os envolvidos, todos estiverem de acordo com a anulação.

A Cabalá tem mais uma interpretação: o Kol Nidrei é uma forma de pedir a D’us que anule todo os Seus próprios juramentos de afastar Sua presença de Seu povo. Em várias ocasiões o povo de Israel provocou a Ira Divina e D’us jurou punir-nos com o exílio. Mas na véspera de cada Yom Kipur, no Kol Nidrei, pedimos que Ele considere nulas todas as palavras que afastam ou escondem Sua Presença Divina de Israel.

As origens

Há várias teorias sobre as origens do texto do Kol Nidrei. Há historiadores que supõem ter sido composto nos séculos V ou VI, após o rei Ricardo da Espanha (586-601 da era comum) ter iniciado uma campanha que obrigou todos os judeus de seu reino a se tornarem cristãos. Acuados, muitos tiveram que renegar sua fé, mas, apesar das aparências, permaneciam judeus em segredo. Foi o início do cripto-judaísmo. Mas os marranos – como passaram a ser chamados estes judeus secretos – não queriam abandonar sua fé e tentavam manter secretamente as Leis de seus ancestrais.

Yom Kipur era uma data particularmente importante para eles e, mesmo arriscando suas vidas, reuniam-se em segredo. No entanto, antes de iniciar as orações, o líder da congregação era incumbido de se levantar e renunciar, em nome de todos os presentes, a juramentos e promessas formuladas sob coação. Declarava nulos todos os juramentos que haviam sido impostos e, só então, com o coração mais leve, iniciavam as orações pedindo perdão a D’us pelos pecados cometidos.

Provavelmente, as inúmeras perseguições e as conversões forçadas que marcaram a história dos judeus na Europa fizeram com que o Kol Nidrei se enraizasse cada vez mais na liturgia do Dia do Perdão. Com a migração dos marranos para vários países da Europa é provável que o costume tenha sido incluso, em muitas comunidades, na liturgia de Yom Kipur. Vários Gaonim do período mencionam em seus escritos o fato de o texto ser recitado em inúmeros países, inclusive em Eretz Israel. No século IX já fazia parte do primeiro livro de orações completo, o Seder do Rav Amram Gaon.

Alguns sábios chegaram a se pronunciar contra a inclusão do Kol Nidrei em Yom Kipur, pois temiam que a possibilidade de anular juramentos de forma coletiva diminuísse aos olhos dos judeus a importância e gravidade dos juramentos. Até o final do século X, a maioria das comunidades européias já o havia incluído em sua liturgia de Yom Kipur. Somente na Babilônia, onde estavam as academias de Sura e Pumbedita, o texto não foi adotado. Provavelmente, como estas comunidades viviam em paz, o costume lhes parecia estranho.

O Kol Nidrei adquiriu um significado ainda maior quando, em 1391, reiniciaram-se na Espanha as perseguições aos judeus. Estas culminaram em 1492 com o Édito de Expulsão. As opções dadas aos judeus ibéricos era conversão ao cristianismo, exílio ou morte. Para os judeus que ficaram na Península Ibérica a única saída era esconder seu judaísmo do olho atento da Inquisição. Apesar do grave perigo, em Yom Kipur muitos destes marranos se reuniam secretamente para anular juramentos e pedir o perdão Divino por não terem ainda voltado à fé judaica, apesar de suas promessas.

Durante séculos o Kol Nidrei foi causa de interpretações enganosas que levaram a acusações malévolas contra os judeus. Estes eram acusados de usar o ritual para se desfazer de todo tipo de encargos e compromissos. Se os juramentos podiam ser anulados, di-ziam seus perseguidores, então não se podia confiar na palavra de um judeu.

Em 1240, Rabi Yechiel, de Paris, desafiou o bispo da cidade, na presença do rei da França e da rainha de Castilha, a um debate sobre o assunto. Venceu-o demonstrando publicamente que o Talmud afirmava que um judeu não pode quebrar uma promessa feita ao próximo. Mas isto não foi suficiente para impedir que o Kol Nidrei fosse usado nos séculos seguintes para acusar judeus de má fé. Em 1656, Cromwell discutiu o assunto do Kol Nidrei novamente com o Rabi Menasse Ben Israel. Este último havia encaminhado ao governante da Inglaterra uma petição através da qual os judeus pediam permissão para voltar para a Inglaterra, de onde haviam sido expulsos em 1290. Cromwell recusou a petição.

O ritual

O Kol Nidrei tem início com o chazan posicionando-se à frente da Arca Sagrada. Ele se coloca no papel de Shaliach Tzibur – mensageiro da congregação – para “defender” a causa de seus “clientes” perante D’us, nosso Juiz. Dois homens ou mais da congregação, cada um com um rolo de Torá em suas mãos, posicionam-se ao seu lado. É um tribunal simbólico onde todos agem de acordo com o “processo legal” para a anulação de votos estabelecidos por nossos sábios.

De maneira solene, envoltos em talit, os três representantes da congregação declaram:

“Pela autoridade que nos foi dada pela Corte Superior e pela autoridade que nos foi dada pela Corte Inferior, com a permissão de D’us – Abençoado seja Ele – e com a permissão desta sagrada congregação, consideramos lícito rezar com os transgressores”.

Após estas palavras o chazan entoa o Kol Nidrei. “Todos os votos, as proibições, os juramentos, as anátemas, as interdições, os empenhos e os compromissos que a nós mesmos impusermos, seja por voto solene, juramento, anátema ou auto-proibição, a partir deste Yom Kipur até o próximo Yom Kipur, que vem a nós em paz – todos eles são declarados sem valor e considerados completamente nulos, não ocorridos e inexistentes. Nossos votos não são votos, nossos compromissos não são compromissos e nossos juramentos não são juramentos.”

O texto revela a inquietação do ser humano ao se dar conta dos votos que não foram cumpridos, das obrigações quem sabe esquecidas, de valores e lealdades traídas. Mas a melodia parece afirmar o desejo de refazer seu caminho e reparar o mal feito.

O texto deve ser repetido três vezes, pois importantes orações são repetidas três vezes para dar ênfase às palavras. Segundo o Rabi Saadia Gaon, o Kol Nidrei deve ser repetido três vezes por causa da forma como deve ser pronunciado: primeiramente é entoado com a voz de um servo que se aproxima pela primeira vez do trono de seu soberano, a quem teme; na segunda vez, ele já reúne confiança e fala mais forte; na terceira, sua voz é mais forte, por já estar familiarizado com a presença do Rei.Machzor de Yom Kipur, Editora Sêfer

Apesar do texto do Kol Nidrei ser sempre o mesmo, tanto o ritual como sua antiga melodia variam de acordo com as tradições de cada comunidade. Nas comunidades asquenazitas o tom é grave e sério. Leon Tostoi, quando ouviu o Kol Nidrei pela primeira vez, numa sinagoga da Rússia, ficou profundamente tocado e a descreveu como a mais triste, mas também a mais elevada de todas as melodias que já ouvira. “Era uma melodia que ecoava a história do grande martírio de uma nação atingida pelo sofrimento”. O músico Beethoven usou um trecho melódico do Kol Nidrei nos oito compassos iniciais de um de seus últimos quartetos (Mi Menor opus 131), para dar uma atmosfera mais grave à sua obra.

As comunidades sírias costumam retirar todos os sefarim da Arca Sagrada levando-os ao redor da sinagoga. Rabi Yitzhak Luria, o Arizal, salientava a importância da tradição de retirar os sefarim para que todos as pessoas presentes pudessem ter a oportunidade de beijá-los. É considerado uma grande honra e privilégio segurar os rolos da Torá durante o Kol Nidrei. Privilégio ainda maior segurar o primeiro, chamado de Sefer Kol Nidrei.

Conclusão

O Kol Nidrei tem ensinado a gerações de judeus o poder da palavra. Nos primeiros instantes do Dia do Perdão, ao iniciar nossa “limpeza espiritual”, somos lembrados que a palavra é uma arma poderosa. Se bem usada, pode reconfortar, construir; mas usada de forma inadequada ou leviana pode destruir. Esta atinge sua maior força, seu maior poder quando o próprio homem se oferece como “garantia” de sua palavra.

Ao entoar o Kol Nidrei somos levados a perceber, mais uma vez, que a palavra de um homem é sagrada. E mais ainda, que ao respeitá-la estaremos respeitando tanto os outros em nossa volta como a nós mesmos.

Kol Nidrei nos ensina também o poder do arrependimento. Se nos lamentarmos e pedirmos perdão com sinceridade, D’us perdoará nossas falhas e nos livrará do peso opressivo de nossa culpa.

Bibliografia:

Yom Kipur - Its Significance, Laws and Prayers - Art Scholl Mesorah Series
Rabbi Nosson Schaman