Morashá
O profeta Yoná Foto Ilustrativa

O profeta Yoná

Nas últimas horas de Yom Kipur, antes do início da Neilá, lê-se nas sinagogas o Sefer Yoná que relata a missão do profeta Yoná – uma história que nos re­vela como a Misericórdia Divina se estende sobre toda a terra, sobre todos os homens.

Edição 73 - Setembro de 2011


A história relatada no 5º livro dos Doze Profetas é curta – apenas 42 versos divididos em quatro capítulos e, aparentemente, simples. O Eterno ordena a um profeta, Yoná ben Amitai, que vá para Nínive – cidade assíria inimiga de Israel – para advertir seus habitantes que a violência e a maldade ali reinantes haviam che­gado aos “olhos de D’us”. O profeta, no entanto, surpreende-nos, não se dirige a essa cidade, mas embarca num navio querendo afastar-se, ao máximo, da Terra de Israel. Ele não quer levar a mensagem Divina a Nínive e ser o instrumento para um possível arrependimento de seus habitantes. Sua fuga, porém, tem curta duração.

Uma terrível tempestade se abate sobre a embarcação e, para se salvar, os marinheiros são obrigados a lançá-lo ao mar. O profeta é salvo por um peixe grande, que o engole. Nas profundezas do mar, prisioneiro no ventre do peixe, ele apela a D’us por Sua Misericórdia. O Eterno ouve sua súplica e o perdoa, ordenando ao peixe que o cuspa em terra firme.

Yoná, então, recebe, pela segunda vez, a ordem Divina de ir a Nínive. Dessa vez, obedece. Suas palavras provocam o arrependimento em massa dos habitantes de Nínive e D’us revoga Seu decreto de destruição. Todos se rejubilam, exceto ele. O profeta considera “injustificável” a Misericórdia Divina em relação à cidade. Não concorda com a forma como o Eterno dirige o mundo, preferindo um mundo onde o mal é imediatamente punido e o bem imediatamente recompensado. No último capítulo do livro, D’us ensinará a Yoná a importância da misericórdia.

A história – simples e dramática – é repleta de aventuras, milagres e um final feliz. Aparenta ser uma espécie de conto popular que encanta as crianças, principalmente a parte sobre “Yoná e a Baleia”. Por que, então, nossos Sábios a escolheram para ser lida em Yom Kipur, Dia do Perdão Divino, na Haftará da tarde, quando nossas orações finais batem às portas dos Céus?

Na realidade, a simplicidade do Sefer Yoná é apenas aparente. A obra, com múltiplos níveis de interpretações e ensinamentos, é uma das mais profundas dentre todos os livros proféticos. O livro revela a essência compassiva de D’us e trata de questões centrais  que o homem enfrenta no decorrer de sua vida. Pois, o que é a vida além de uma série de encontros e desencontros entre D’us e o homem?

Yoná, o profeta

Quem é o protagonista de nossa história? A única informação que consta no Sefer Yoná é seu nome, Yoná ben Amitai. Precisamos recorrer ao Midrash e ao Talmud para traçar um perfil desse profeta que, por amor ao Povo de Israel, tenta protegê-lo, ainda que isso lhe custasse o exílio, seus dons proféticos e sua vida.

Acredita-se que Yoná tenha vivido no Reino de Israel no século 7 antes da Era Comum (aEC). Na época, a Terra de Israel estava dividida entre os reinos de Israel, ao norte, e Judá, ao sul, e a idolatria e desconsideração com os profetas eram comuns. O pai de Yoná, Amitai, da tribo de Zevulun, era um profeta mencionado em Reis II, e sua mãe era a “mulher de Tzorfat”, a quem D’us incumbiu de alojar o profeta Eliahu durante a seca que se abateu sobre o Reino de Israel, no reinado de Ah’av. (V. Morashá 34).

Desde sua infância, a vida de Yoná foi marcada por milagres. Vivia em Tzorfat, com sua mãe, uma viúva pobre, e estavam prestes a morrer de fome quando chega à cidade Eliahu Hanavi. Ao ver a extrema pobreza em que viviam, nosso profeta Eliahu abençoou a viúva com um inexaurível abastecimento de comida, impedindo, assim, que morressem de fome. Algum tempo depois, o profeta Eliahu já estava instalado no ático cedido pela mãe de Yoná, quando o menino adoece e morre. Desesperada, ela apela para o profeta pedindo-lhe ajuda. Este, então, implora ao Eterno pela vida da criança e a ressuscita. Yoná se torna a prova viva de que o Eliahu era o profeta da verdade, assim como verdadeira era a Palavra de D’us. Esse conceito ficou incorporado ao seu nome: Yoná “ben Amitai”, o homem da verdade. Ele se torna discípulo de Eliahu Hanavi e, quando este sobe aos Céus, de seu sucessor – o profeta Elisha.

O Talmud descreve Yoná como um indivíduo notável, chegando a mencionar o fato de que era rico. De acordo com a Mishná Rabi Eliezer, ele era um profeta da estatura de Eliahu Hanavi e nossos Sábios atestam sua retidão e grandeza. Afirmam que era um Justo, um Tzadik Gamur, citando como prova disso o fato de D’us perseverar em querer utilizá-lo, apesar de sua relutância.

Sua grandeza espiritual torna ainda mais difícil entender suas ações. Por que foge ao receber a ordem Divina de ir a Nínive? Teria realmente acreditado poder fugir da Vontade Divina? Por que não queria levar a seus habitantes Sua advertência? Afinal, ele era um profeta, um mensageiro de D’us e sua missão era transmitir aos homens a Palavra Divina. Poucos chegaram a merecer servir de emissários de D’us. Por que, então, ele estava disposto abrir mão de tudo? Ele sabia que teria que enfrentar as consequências, inclusive a morte, pois um profeta que suprimisse uma profecia era passível de morrer pelas mãos dos Céus.

Tampouco era a primeira vez que era encarregado de servir como emissário da Vontade Divina. O profeta Elisha o enviara para ungir Jehu, rei de Israel, e tinha sido Yoná quem profetizara que dele descenderiam quatro reis. Quando Jeroboão II, neto de Jehu, sobe ao trono do Reino de Israel, é também Yoná quem leva ao recém-empossado rei a Palavra de D’us de que ele reconquistaria o território perdido, restaurando as fronteiras de Israel (Reis 2: 14-25). Essas conquistas serão o último vislumbre de glória do Reino de Israel e, 52 anos após o término do reinado de Jeroboão, as Dez Tribos são exiladas pelos assírios.

Acredita-se que Yoná tenha recebido a ordem de ir a Nínive algum tempo após sua missão em Jerusalém, quando fora enviado pelo Eterno para advertir seus habitantes que seus pecados causariam a destruição da cidade. O povo de Jerusalém arrependeu-se de suas ações e a cidade foi poupada. O populacho, no entanto, incapaz de compreender por que Jerusalém fora poupada, acusa-o de ser um falso profeta. O fato marcou-o profundamente, não por orgulho próprio, mas por considerá-lo uma profanação do Nome de D’us. Sua total devoção e fidelidade a D’us só podiam ser comparadas à sua devoção ao Povo Judeu. Seu próprio nome, “pombo” em hebraico, reflete a lealdade do profeta com Israel. Assim como o pombo é eternamente leal a seu par, assim era a fidelidade do profeta em relação ao Povo Judeu.
 
A missão

O Sefer Yoná inicia-se quando a Palavra do Eterno chega ao profeta: “Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive e clama contra ela, porque sua maldade subiu até Minha Presença”. Segundo o Talmud Yerushalmi, era Sucot e o profeta estava em Jerusalém.

 O texto não especifica qual era a “maldade” cometida pelos habitantes de Nínive, poderosa cidade assíria, mas o Tanach em inúmeras ocasiões fala dessa perversidade. Em relação a Israel, eles nutriam um ódio ancestral. Ademais, o profeta Yoná pressentira que os assírios seriam os responsáveis por conquistar e esvaziar o Reino de Israel, as tribos judaicas da Transjordânia e parte da Judeia. Nínive, portanto, nada mais era que um inimigo, um temido e odiado inimigo de Israel.

Yoná sabia que sua missão a Nínive não era uma simples advertência, e sim um chamado ao arrependimento. De acordo com o Pirkei do Rabi Eliezer, o profeta declarou: “As nações se arrependem rapidamente. Se isso acontecer, o Eterno mandará sua ira contra Israel”. D’us enviara,
sem resultado, inúmeros profetas para advertir o Povo Judeu, tentando levá-lo a modificar suas ações. Quais seriam as consequências para Israel se um único profeta fosse suficiente para fazer com que o povo de Nínive o se arrependesse?

Yoná se recusava a servir de instrumento para a condenação de Israel. Ademais, ele também sabia que D’us é Misericordioso, assim sendo, um arrependimento dos ninivitas O levaria a revogar Seu decreto. E, se a cidade não fosse destruída, o profeta temia que seus habitantes dissessem que D’us não tinha o poder de puni-los, ou que o acusassem de ser um falso profeta. Em ambos os casos, o nome de D’us seria profanado.

Perante tão graves consequências, sua decisão é imediata. Ele era, sim, um profeta fiel e ansioso por servir a D’us. Mas, vendo-se forçado a escolher entre o Eterno e Israel, entre o Pai e o filho, ele escolheu o filho, Am Israel, o povo de Israel. Assim, ao invés de seguir para Nínive, opta por fugir “da Presença do Eterno”, da Voz da Profecia.

Imediatamente segue para Yaffo para embarcar no navio que o levaria o mais longe possível. Acreditava que no mar, fora da Terra de Israel, a Voz da Profecia não pousasse sobre os profetas. O destino do navio era Tarshish. Alegrou-se ao tomar conhecimento  de que a embarcação fora forçada a aportar em Yaffo devido a uma tempestade, pois interpretou o fato como uma aprovação dos Céus sobre seus atos. Enganava-se. D’us tinha outros planos para o profeta rebelde. O Eterno enviara a tempestade para mostrar que Sua Glória (também) está no mar. Em sua fuga, Yoná não se estava afastando de D’us, mas ia em Sua direção.
 
Logo após a embarcação deixar o porto, relata o Sefer Yoná, “soprou um grande vento, e fez surgir no mar uma grande tempestade, e o navio corria o risco de se despedaçar’’. Dizem nossos Sábios que, enquanto o navio era sacudido pela fúria do vento, os marinheiros viam as demais embarcações navegar incólumes. Apavorados, clamaram a seus deuses por ajuda.Yoná, no entanto, havia descido para a parte mais baixa do navio e caíra num sono profundo. Todas as teorias, racionalizações e ilusões do profeta haviam caído por terra diante da força da tempestade e de Quem a enviara. O sono era a morte, e a morte era a única saída que lhe restava. Não queria que sua presença a bordo causasse a morte dos marinheiros e calculara que, estando na parte mais baixa do navio, seria o primeiro a se afogar quando a água invadisse a embarcação e, assim, os demais poderiam salvar-se.

Ao perceber que a tempestade era diferente de todas as que já haviam enfrentado, os marinheiros decidiram tirar a sorte para saber quem era a causa do mal que enfrentavam. A sorte recaiu sobre Yoná. Sua presença a bordo era a causa da tempestade. Eles, então, questionam-no: “Quem é o teu povo?”. O profeta responde: “Eu sou hebreu e temo o Eterno, D’us dos Céus, e que fez o mar e a terra”. Perguntaram-lhe o que havia feito, e ele lhes contou que fugia da presença do Eterno. Perguntaram-lhe o que podiam fazer para o mar se acalmar e Yoná lhes disse: “Levem-me para cima e me joguem no mar. Assim o mar se acalmará, pois sei que sou a causa desta grande tempestade”.

Os marinheiros não queriam jogá-lo ao mar e tentam, inutilmente, alcançar a terra, mas vendo que o mar enfurecia-se cada vez mais, percebem que a única saída era seguir as instruções do profeta.
O Pirkei de Rabi Eliezer descreve o drama vivido: “Quando Yoná era posto no mar, este se acalmava; quando era retirado, voltava a se enfurecer. Após três tentativas, os marinheiros lançam-no ao mar e a fúria do mar cessa”.

Os acontecimentos e milagres que os marinheiros vivenciaram provocaram neles uma profunda mudança, e, diz o texto que “temeram o Eterno extremamente”. O primeiro capítulo se encerra com sua conversão ao judaísmo.

O reencontro com D’us

O segundo capítulo inicia-se com a intervenção do Eterno para salvar Seu profeta. Este parece condenado à morte certa, mas assim que é lançado ao mar é tragado por um “grande peixe” – nada indica que tenha sido uma baleia. O Zohar chega a afirmar que a experiência foi tão traumática que Yoná literalmente morreu de medo, mas voltou à vida. Prisioneiro do oceano, dentro do ventre do peixe durante três dias e três noites, ele vê suas teorias e certezas despedaçadas pelo sofrimento. Começa, então, a perceber o quão importante para o homem é a Misericórdia Divina, pois lhe permite se arrepender de suas ações e voltar ao Eterno.

No terceiro dia, Yoná roga pela Misericórdia Divina: “Na minha aflição, clamei ao Eterno e Ele me respondeu. Do ventre do Sheol gritei, e Tu ouviste a minha voz... Quando dentro de mim desfalecia minha alma, lembrei-me do Eterno e chegou a Ti, no Teu santo Templo, minha oração. (...) Os que observam vaidades mentirosas abandonaram Aquele que lhes é Misericordioso; eu, porém, oferecerei a Ti sacrifícios com voz da gratidão, e cumprirei o que prometi. A salvação pertence ao Eterno!”

As palavras de Yoná revelam sua angústia e seu desespero e, ao mesmo tempo, sua exaltação por ter reencontrado o Eterno. Sua súplica reverbera até hoje em nossas orações quando rogamos a D’us: “Anenu – Responde-nos, ó D’us, como respondeste a Yoná quando se encontrava no ventre do peixe grande”.

Uma segunda chance

O Eterno atende ao apelo de misericórdia de Seu profeta e este recebe uma segunda chance. O peixe o expele na praia e, mais uma vez, D’us lhe ordena: “Levanta-te e vai à grande cidade de Nínive e faz-lhe a pregação que Eu te ordeno”. Dessa vez Yoná obedece, ainda que com relutância.

Ao lá chegar, ele adverte seus habitantes: “Daqui a 40 dias Nínive será subvertida”. Como previra, o povo da cidade, inclusive o rei, acredita em suas palavras e se atemoriza. Ocorre um arrependi­mento coletivo, sem precedentes. Nossos sábios o usam como exemplo quando conclamam o Povo de Israel a se arrepender.

Todos – habitantes e animais – desde o maior até o menor “jejuaram e se vestiram com sacos” para clamar a D’us. O rei ordena que cada um retorne “de seu mau caminho e da violência que se acha em suas mãos. Quem sabe D’us Se volte e Se arrependa”. Vendo o arrependimento do povo de Nínive, D’us revoga Seu decreto. A cidade é salva. A profecia de Yoná se havia cumprido, a cidade fora de fato “subvertida”, não através de sua destruição física, mas por uma total reviravolta no comportamento de seus habitantes.

No entanto, tal comportamento foi passageiro e superficial. Pois, apesar da abrupta mudança de rumo, eles não tinham modificado suas crenças e modo de vida, e, alguns anos mais tarde, retomam seus atos desprezíveis. Mas D’us julga a pessoa em seu estado atual e, naquele momento, o arrependimento dos ninivitas havia sido o suficiente para merecer o Perdão Divino.

A angústia de Yoná

O fato de D’us não haver punido Nínive abala Yoná, e ele revela toda sua angústia a D’us: “Ah! Eterno, não foi esta a minha palavra quando ainda estava em meu país? Por isso me apressei em fugir para Tarshish, porque sa­bia que Tu és D’us, Clemente e Mi­sericordioso, tardio em irar-Te, de grande benevolência, e que Te arrependes do mal. E agora, Eterno, tira-me a vida porque melhor me é morrer do que viver”.

O profeta Yoná prefere a morte a testemunhar a destruição de Israel. Ele se via como o instrumento de sua condenação, sabia que o arrependi­mento dos ninivitas seria um dedo de acusação apon­tado para Israel, que não ouvia o chamado dos profetas. Ele sabia que Israel acabaria sendo conquistada pelo Império Assírio, cuja capital era Nínive.

Uma questão ainda mais profunda estava por trás de suas ações. Yoná se debatia com uma das duas grandes perguntas da filosofia; mas não como Jó, perguntando por que os bons sofrem, mas sim por que os perversos prosperam. Para ele, o mundo deveria ser regido de acordo com o Atributo da Justiça, e não da Bondade e Misericórdia.

O Midrash nos oferece um entendimento da questão através de supostas perguntas dirigidas à Profecia e ao Eterno. Perguntou-se à Profecia: “Como deve ser punido o pecador?”. E esta respondeu: “Aquele que pecou, deve morrer”. (Ezek 18:4). Perguntou-se ao Eterno, Abençoado seja Ele: “Como deve ser punido o pecador?”. E o Eterno respondeu: “Deixem-no arrepender-se e Eu aceitarei seu arrependimento, como está escrito 'Bom e Justo é o Eterno, e Ele ensinará o caminho aos pecadores' ”. (Yerushalmi Makot, 2:6, Versão Guenizá).

Ansioso para saber qual seria o destino de Nínive, Yoná decide ir para o deserto, a leste da cidade, para ver o que aconteceria. Constrói, então, um abri­go para enfrentar o sol, calor e vento do deserto, onde vai sentar-se sozinho e observar. Talvez a súbita mudança de atitude de seus habitantes não durasse 40 dias. Tinha esperanças de que a ruína de Nínive – caso seus habitantes não se arrependessem – salvaria seu povo, para sempre, de um de seus piores inimigos.
 
Ele ainda acreditava que o mal devia ser extirpado, mas suas convicções tinham sido abaladas pela tolerância de D’us diante de sua própria rebeldia e por Seu Perdão ao lhe enviar uma milagrosa salvação dentro do interior do peixe. E,  sujeito às intempéries da natureza ele agora se via como um ser humano, limitado e fraco, que necessita e depende da Misericórdia Divina para existir e sobreviver. Mas, ainda não está totalmente convencido. O profeta terá que vivenciar mais revelações e sofrimento e, novamente, a Bondade Divina para entender a importância de Sua Misericórdia.

Quem ensinará ao profeta essa lição será uma simples planta, o kikayon que D’us faz cres­cer em apenas um dia. A planta protege-o do sol escaldante, dando-lhe sombra. Yoná se alegra, pois a planta significava que D’us ainda se importava com ele, vindo em seu socorro. Ele viu o kikayon também como a aprovação Divina por ele estar aguardando para testemunhar a justa punição dos perversos. Mais uma vez ele se engana, o intuito do Eterno era outro.

O Todo Poderoso envia um verme para matar a planta. Yoná fica arrasado e, não suportando o calor, desmaia, “pedindo para si a mor­te”. É quando D’us intervém: “É correta a tua ira por causa de uma planta?”. Yoná responde estar profundamente abalado por essa morte. O Eterno, então, lhe diz: “Tu tiveste compaixão da planta, pela qual não trabalhaste, nem fizeste crescer, que nasceu em uma noite e em outra pereceu. Não hei Eu de ter compaixão da grande cidade de Nínive, onde há mais de 120 mil pessoas...?”

O Sefer Yoná assim termina, de uma forma abrupta e sem outras explicações. Terá Yoná finalmente entendido importância da Misericórdia Divina? O que vai acontecer com nosso profeta? Teria sido, de alguma forma, castigado por sua rebeldia, por não ter obedecido a Palavra Divina?

Um midrash nos revela que, assim que ouviu as Palavras de D’us, Yoná “prostrou-se no chão e disse: ‘Conduz Teu mundo segundo o Atributo da Misericórdia, como está escrito: Ao Eterno, Nosso D’us, pertence a misericórdia e o perdão’ ”. (Dan, 9:9 - Midrash Yoná).

Não se sabe, no entanto, se ele foi castigado por sua rebeldia; muitas são as opiniões. O que sabemos é que ele viveu até os 120 anos e que, após sua missão a Nínive, nunca mais profetizou (Yevamot, 98).

A Mensagem

Voltando à nossa pergunta principal: por que nossos Sábios escolheram o Sefer Yoná para ser lido em Yom Kipur, na Haftará antes da oração de Neilá? Por que no Dia da Misericórdia e do Perdão, no qual o homem tem condições espirituais para Dele se aproximar, devemos nos lembrar, ano após ano, de Yoná e sua missão?

Ë difícil resumir a mensagem contida no Sefer Yoná, pois seus ensinamentos e níveis de significado são incontáveis, assim como as interpretações de sábios e comentaristas. Para o Zohar, a história de Yoná representa a jornada de uma alma aqui na Terra, pois, em linguagem cabalista, “Yoná” é um dos nomes dados à alma. Assim como o profeta, os homens tentam fugir da Presença Divina. Como ele, temos em nossas mãos a opção de resistir e tentar não cumprir nossa missão. Podemos tentar escapar, fugir ou aceitar, participar, crescer e assim nos aproximar de D’us.

A história de Yoná é, acima de tudo, uma história de redenção e esperança que revela tanto a eficácia do arrependimento como a contingência da Ira Divina. Mostra-nos que ninguém jamais é privado da Misericórdia e Bondade Divina, que se estendem sobre toda a terra, sobre todos os homens.

Ensina-nos que nunca é tarde de­mais para um arrependimento sin­cero, para o retorno a D’us. Diz o Talmud que “Sete elementos foram criados antes do Universo, entre os quais o arrependimento, a Teshuvá” (Nedarim, 39b), pois sem a possibilidade do arrependimento o mundo não poderia existir.

Ensina a Cabalá que se o homem fosse julgado unicamente pelas Leis de Justiça que regem a Criação, não teria como remover os danos espirituais já causados por seus erros. Não teria, portanto, como voltar a se aproximar de seu Criador. Por isso, antes mesmo de criar o Universo, D’us criou “o Mundo da Misericórdia”.

Se o homem clamar sinceramente por D’us e pedir Seu perdão, será ouvido, pois D’us ama todas as Suas criaturas e deseja que os homens mudem, voltem a Ele, para que sejam anulados os decretos negativos.

Nossos Sábios escolheram o Sefer Yoná para ser lido antes da Neilá, quando os Portões dos Céus ainda estão abertos e, ainda que nossa consciência não o possa alcançar, estamos face a face com o Eterno para nos ensinar que através do verdadeiro arrependimento, Teshuvá, podemos chegar a D’us e fazer com que a Justiça Divina se transforme em Misericórdia. Pois, como disse Yoná no final de sua jornada, “Ao Eterno, Nosso D’us, pertencem a misericórdia e o perdão”.

Bibliografia
Rabi Zlotowitz, Meir, Yonah, a new translation with a commentary anthologized from Talmudic, Midrashic and Rabbinic sources, Ed. ArtScroll / Mesorah
A Bíblia Hebraica, tradução David Gorodovits e Jairo Fridlin , Ed.Sefer
Wiesel, Elie, Five Biblical Portraits, Ed. University of Notre Dame Press