Morashá
A Mesa do Seder Foto Ilustrativa

A Mesa do Seder

A noite do Seder de Pessach é permeada por uma aura de santidade e da memória coletiva dos Filhos de Israel. Trata-se de um ritual realizado geração após geração. O formato básico dessa noite, que marca o início da festa de Pessach, é uma reunião de família, ou de várias famílias e amigos próximos, para contar a história antiga do Povo Judeu.

Edição 79 - Março de 2013


O destaque da Hagadá é, obviamente, o Êxodo do Egito: como fomos escravizados e como D’us, e não um Anjo, e não um Agente Seu, veio resgatar-nos, libertando-nos da escravidão e nos escolhendo para receber a Torá e para herdar, para todo o sempre, a Terra Santa.

O Seder é uma noite mágica e mística. No entanto, consegue ser, ao mesmo tempo, uma festa familiar comum. Foi assim, em termos gerais, a primeira noite de Pessach, horas antes de Israel deixar o Egito. Assim foi, também, em termos gerais, nos dias do profeta Isaías, que falou “da noite em que se santifica a celebração” (30:29).

E essa foi a sua essência na época do Segundo Templo Sagrado, quando Hillel “combinou a oferenda de Pessach, Matzá e ervas amargas, e as comeu juntas”. O Seder de Pessach foi realizado nos dias difíceis após a destruição do Templo, quando Rabi Eliezer, Rabi Yehoshua e seus colegas sentaram “a noite inteira” em Bnei Brak. Foi celebrado durante a Inquisição, a despeito do grande perigo que corriam seus oficiantes. Foi celebrado, até mesmo, durante o Holocausto, nos campos de morte.

O Seder de Pessach é o mais frequentado de todos os rituais judaicos. É maior o número de judeus em Israel que frequentam um Seder de Pessach do que o dos que jejuam em Yom Kipur ou vão à sinagoga em Rosh Hashaná. Até mesmo na Casa Branca, em Washington, realiza-se um Seder, do qual participam o Presidente dos Estados Unidos e sua família.

Por que o Seder é tão apreciado e cultivado pelo Povo Judeu e por tantos não judeus, que se sentem fascinados pela Matzá e por seus rituais? Porque celebra o nascimento de nosso povo enquanto nação. No Egito, éramos uma família – filhos de Avraham, Itzhak e Yaakov. Quando nos postamos no Monte Sinai, 50 dias após o Êxodo, tornamo-nos uma nação singular – um povo escolhido por D’us, cuja nacionalidade é diferente de todas as demais, pois é definida por um Código de Leis Divinas.

O Seder de Pessach nos faz lembrar quem somos – de onde viemos e para onde planejamos seguir como nação – e transmite nossa identidade e herança às futuras gerações. Um judeu que não jejua em Yom Kipur continua sendo judeu, mas aquele judeu que não participa de um Seder de Pessach arrisca-se de se esquecer de quem ele é, em sua essência. Talvez mais do que qualquer outro ritual, até mesmo o Brit Milá, a circuncisão, o Seder seja a forma mais eficaz de transmitir aos nossos filhos que eles são parte de uma antiga corrente histórica de três milênios. Pois o Seder de Pessach é uma repetição, a cada geração, dos atos de nossos pais. Por meio do Seder, conectamo-nos com nossos antepassados, remontando-nos aos dias de Moshé Rabenu.

Uma glória ancestral paira sobre a cerimônia estilizada e embelezada do Seder de Pessach. Cada detalhe é repleto de lembranças e significado. O Seder é uma das cerimônias mais antigas que o Povo Judeu vem observando ininterruptamente através de gerações, mesmo em seus momentos mais atribulados. Diferentes comunidades têm diferentes costumes, mas os elementos centrais são os mesmos. São inúmeras as versões da Hagadá, mas o formato de todas é basicamente o mesmo.

Cada item da mesa do Seder tem sua razão de ser. Cada detalhe do ritual é místico e profundamente significativo. O Seder de Pessach pode parecer um simples jantar que oferece a oportunidade de reunir a família e os amigos, ou um ritual peculiar em virtude de sua antiguidade. No entanto, na realidade, cada um de seus elementos é carregado de grande força espiritual. Mas, para acessar esse poder, precisamos realizar o Seder de acordo com suas leis. Comer Matzá e beber vinho durante esse jantar cerimonial é completamente diferente do que comer e beber em qualquer outra época do ano. Tudo o que comemos e bebemos durante o Seder – desde que feito de acordo com as leis da Torá – constitui um cumprimento da Vontade Divina. E, ao fazê-lo, nos vinculamos com D’us Infinito.

D’us é o Anfitrião de todos os Sedarim. Ele é o protagonista da história, e Ele nos ordenou contar a nós mesmos e a nossos descendentes a história da escravidão e da libertação de nossos antepassados no Egito. Por ser uma história verdadeira, fortalece nossa identidade judaica e nossa fé n’Ele. Essa história vem sendo contada há milhares de anos, ano após ano. Mas é uma história singular pelo fato de ser narrada não apenas por leitura e discussão, mas também por meio de um método não verbal: os alimentos que constam no Seder também narram sua história, pois seu propósito não é apenas servir como alimento e sustento. Cada um dos alimentos da Mesa do Seder cumpre também um mandamento Divino e reforça o tema central da festa de Pessach.

O principal tema de Pessach é a escravidão e a liberdade: a servidão e o sofrimento, as Dez Pragas, o Êxodo, a divisão do mar. Acredita-se que Pessach seja uma época de celebração da liberdade, pois que um dos nomes da festa é Zman Cherutenu – “época de nossa liberdade”. Mas isso não é totalmente exato. Pessach celebra a transição do cativeiro para a libertação, pois a verdadeira liberdade somente foi adquirida pelo Povo Judeu 50 dias após o Êxodo, quando eles se postaram no Monte Sinai e finalmente se depararam com seu Criador e Libertador.

Como o tema da transição da escravidão para a liberdade é expresso eloquentemente através dos alimentos da Mesa do Seder, analisaremos aqui algumas de suas leis básicas e significados.

Vinho

Durante o Seder, todos os participantes têm que tomar quatro taças de vinho. Não está incluído o vinho tomado no decorrer da refeição. Esse vinho deve ser casher para Pessach. Apesar de a maioria dos vinhos casher o serem, de qualquer maneira isso deve ser cuidadosamente verificado. Garrafas porventura abertas antes de Pessach não podem ser usadas durante o Seder nem durante os dias da festividade.

Pode-se usar qualquer tipo de vinho para cumprir o mandamento das quatro taças, mas dá-se preferência ao vinho tinto. Na Idade Média, os judeus usavam o vinho branco no Seder devido a um nefasto libelo antissemita de sangue.

Aqueles que não podem beber bebidas alcoólicas ou que podem apenas consumir pequena quantidade de vinho, podem beber suco de uva também casher para Pessach. Como no caso do vinho,
dá-se preferência à uva de cor escura.

Dá-se preferência, por costume, usar o vinho tinto por ser da cor do sangue e suas óbvias associações com o cativeiro. No Egito, nossos antepassados eram espancados e sangravam. Muito sangue judeu foi derramado em virtude da tirania e opressão egípcia. Conta-se que o Faraó literalmente se banhava no sangue das crianças judias.

Ao mesmo tempo, no relato do Êxodo, o sangue simboliza a liberdade: na noite que precedeu a libertação do Povo Judeu, D’us instruiu Moshé a transmitir a nossos ancestrais que eles deveriam matar um carneiro ou um bode e espalhar seu sangue nos umbrais das portas de suas casas. Isso serviria de sinal de que a praga da morte de todos os primogênitos egípcios não afetaria os lares judeus. Esse sangue protegeu os judeus e, como decorrência da décima e última praga, eles puderam deixar o Egito.

Quanto vinho deve conter cada uma das quatro taças? Um Reviit: aproximadamente 90 mililitros. A pessoa deve beber quase todo o conteúdo de cada taça.

Carpás  e água salgada

Pode-se usar praticamente qualquer legume como Carpás. As exceções são os legumes que podem ser usados como Maror (V. abaixo). A palavra Carpás denota uma espécie de aipo, mas em algumas comunidades usam-se batatas, cebolas ou rabanetes.

A água salgada usada para molhar o Carpás deve ser preparada antes do cair da noite. Essa água salgada usada durante o Seder recorda as lágrimas derramadas por nossos antepassados: o sofrimento que tiveram que suportar enquanto escravos. Ao mesmo tempo, simboliza o Mar de Juncos,– em hebraico, Yam Suf – e sua milagrosa divisão ao meio. Quando nossos antepassados deixaram o Egito, eles não eram completamente livres, pois ainda havia a possibilidade de que os egípcios fossem em seu encalço.

E isso de fato ocorreu. Foi somente depois de nossos ancestrais terem cruzado o Mar e o exército egípcio se ter afogado que essa liberdade
se concretizou. O mar, simbolizado pela água salgada usada para
molhar o Carpás, foi instrumental para a permanente libertação dos judeus do cativeiro egípcio.

Ademais da água salgada, o Carpás, por si só, é um símbolo de escravidão e de liberdade, a um só tempo. O formato do aipo, comprido como uma vara, lembra-nos o chicote usado contra nossos
irmãos, escravizados. Contudo, o Carpás é também, um símbolo de realeza. Em tempos antigos, iniciavam-se os banquetes com aperitivos imersos em algum molho. Portanto, iniciamos o Seder imergindo um legume: trata-se de um sinal de conforto e gratificação dos sentidos, um luxo que simboliza o status do Povo Judeu como nação livre e plena de realeza.

Matzá

Após comer o Carpás imerso na água salgada, quebramos a Matzá do meio. A Matzá é o alimento que nossos antepassados comeram durante sua longa escravidão no Egito.

Ao visitar o Museu Britânico, em Londres, vê-se fatias do pão egípcio preservadas na tumba de algum rei ou nobre. O pão muito se assemelha à Matzá arredondada, assada à mão, que muitos usam no Seder. Mas percebe-se logo que o pão das tumbas é grosso e a razão para tal é que as classes ricas e poderosas, no Egito, comiam pães grossos. Já os escravos, comiam pão semelhante à Matzá que nós comemos no Seder: fina e sem substância. Esse pão leva pouco tempo para assar e para ser comido. Assim os feitores egípcios obtinham o máximo do serviço da mão de obra judaica. A Matzá era, pois, o pão dos escravos – o “pão da pobreza”, como afirmamos no início da narração da Hagadá.

Mas a Matzá é, também, o pão da liberdade. E o Zohar, livro fundamental da Cabalá, a denomina de “pão da fé”. Após a morte dos primogênitos egípcios, o Faraó e seu povo ficaram tão ansiosos por expulsar os judeus do Egito que nossos ancestrais não tiveram tempo de assar pães grossos.

Ao partir do Egito, eles se viram comendo o mesmo tipo de Matzá – fina, que não teve tempo para crescer – que eles comeram quando eram escravos. Somente naquele então era o pão da liberdade, que era assado fino não para ganhar tempo para o seu trabalho escravo, mas para que pudessem deixar o Egito com rapidez e se tornar um povo livre. A Matzá, que havia simbolizado opressão e cativeiro, tinha-se tornado símbolo de sua salvação, milagrosa e apressada.

A Matzá se tornou o principal símbolo de Pessach. Na noite do Seder, há um mandamento explícito da Torá sobre comer Matzá. Este se aplica em qualquer lugar e em todas as gerações, mesmo quando o Templo não existe e o Corban Pessach, o sacrifício de Pessach, não pode ser cumprido.

Começando pela manhã que precede o primeiro Seder e durante toda a festividade, é proibido comer e mesmo ter em casa qualquer tipo de alimento fermentado, Chametz, ou qualquer produto que contenha Chametz. No dia que precede o Seder, tampouco se deve comer Matzá.

Há cinco espécies de grãos com os quais é permitido fazer a Matzá, mas, atualmente, costuma-se fazê-la de farinha de trigo. A maioria das Matzot são feitascom farinha comum e assadas em máquinasespeciais para esse propósito. Estas têm a capacidade de funcionar em tal velocidade que o período transcorrido entre a adição da água à farinha para fazer a massa e o real cozimento da Matzá é inferior a 18 minutos, tempo após o qual se considera que a fermentação tenha sido iniciada.

Recomenda-se usar nas noites de Seder a Matzá Shmurá (“Matzá guardada, cuidada”). Há quem tenha o costume de apenas comer Matzá Shmurádurante toda a festa de Pessach. A Matzá Shmurá é feita com uma farinha especial, com um trigo que foi observado desde o momento de sua colheita, para assegurar que não foi tocado por umidade. Em geral, a Matzá Shmuráé feita à mão: totalmente amassada e assada manualmente, sem se utilizar máquinas. A Matzá feita à mão é, em geral, redonda e mais grossa do que a feita à máquina.

Quanta Matzá deve-se comer durante o Seder? A quantidade mínima a ser consumida para cumprir a obrigação prescrita pela Torá é de, no mínimo, um “kazayit” por pessoa. Várias grandes autoridades rabínicas ofereceram diferentes opiniões sobre o volume exato dessa medida em termos modernos, mas o costume mais difundido, segundo a prática de Jerusalém, está em torno de 26 gramas.

A lei rabínica ordena que se deve comer dois kazayits após a bênção do Hamotsí e Al Achilat Matzá, um kayazit adicional para fazer o Korech (o “sanduíche”) e ainda outro kazayit como o Aficoman (V. abaixo). Segundo alguns Sábios, cumpre-se a obrigação de comer o Aficoman ingerindo dois kazayits de Matzá.

Como é praticamente impossível distribuir a todos os participantes a quantidade suficiente de Matzá apenas das Matzot usadas pelo condutor do Seder para fazer as bênçãos do Hamotsíe do Al Achilat Matzá, deve haver outras Matzot para completar a quantidade necessária. No entanto, cada participante deve receber um pedaço de cada uma das duas Matzot usadas para fazer as bênçãos citadas.

Naturalmente, também deve haver suficiente Matzá para que todos os participantes possam fazer o Korech e para comer o Aficoman. Este, a sobremesa, é um pedaço de Matzá que é quebrada e escondida no início do Seder. Este pedaço, no entanto, não é suficiente. Assim sendo, é necessário que haja Matzot adicionais para completar a quantidade necessária.

Maror (ervas amargas)

O Talmud (Tratado Pessachim) lista várias espécies de verduras amargas que podem ser usadas para cumprir o mandamento de se comer Maror no Seder. Considera-se que a melhor opção para o cumprimento desse mandamento é utilizar-se Chazeret (alface). Nesse caso, a alface deve ser a do tipo que é ligeiramente amarga.

Na Europa Oriental, onde era mais difícil encontrar-se alface, costumava-se usar a raiz forte, o chrain, como Maror. Essa raiz não é na verdade amarga, mas é muito picante. Quando se usa a raiz forte ralada, deve-se atentar para que seu ardor não desapareça. Muitas pessoas usam alface e raiz forte para o mandamento do Maror – usando a alface quando somos ordenados especificamente a comer ervas amargas; e a raiz forte no Korech, o sanduíche – quando comemos Matzá, Maror e Charosset juntos.

De acordo com um costume bastante disseminado em Jerusalém, basta comer 19 gramas de ervas amargas, independentemente se for alface ou raiz forte.

Como os demais alimentos na Mesa do Seder, o Maror simboliza tanto a escravidão quanto a liberdade. Comemos Maror para recordar a amargura sofrida em mãos de nossos algozes egípcios. Contudo, esse sofrimento teve uma qualidade redentora, já que nos conduziu à liberdade. D’us havia anunciado a Avraham que seus descendentes ficariam exilados por 400 anos. Mas, considerando a excessiva opressão dos egípcios e, consequentemente, o grande sofrimento do Povo Judeu, D’us abreviou o exílio, que durou 210 anos. A amargura assim precipitou a redenção. A inimizade dos egípcios ajudou a unir nosso povo e isso levou a uma metamorfose – eles se assentaram no Egito enquanto família, mas partiram como uma nação, que, apenas 50 dias mais tarde, seria coroada como o Povo Escolhido por D’us para receber Sua Torá Sagrada.

Charosset

O uso do Charosset na noite do Seder é mencionado no Talmud. Diferentemente de comer Matzá e Maror e beber vinho,há controvérsias quanto ao fato de ser mandamento ou costume o comer-se Charosset durante o Seder. Nossos Sábios explicam que essa deliciosa pasta adocicada simboliza a argamassa usada pelos judeus para fazer os tijolos, no Egito, e, assim, recordar o período de servidão.

O Charosset simboliza a lama que nossos ancestrais usavam na olaria. No Museu Britânico, já citado, pode-se ver um tijolo de lama, com a palha ainda embutida no mesmo e o selo real de Ramsés II, o Faraó que nos escravizou.

A aparência do Charosset claramente nos remonta ao árduo trabalho a que eram sujeitos nossos antepassados. Portanto, representa a escravidão. Mas, se por um lado sua aparência relembra o cativeiro, seu doce sabor nos traz à liberdade, tal sua doçura. Seu gosto doce tem uma conotação positiva: traz à mente as palavras do Cântico dos Cânticos (um dos livros do Tanach, composto pelo Rei Salomão como uma alegoria sobre o amor entre D’us e o Povo Judeu): “Debaixo de uma macieira te despertei, ali tua mãe te produziu com dores” (8:5). Em outras palavras, o Charosset, que representa o cativeiro, representa, também, a formação do Povo Judeu como o Povo Escolhido por D’us.

São vários e diferentes os costumes acerca dos ingredientes usados para fazê-lo, mas, na maioria das comunidades, usa-se a polpa de várias frutas mencionadas no Cântico dos Cânticos– maçãs, romãs, figos, tâmaras e nozes – às quais são adicionadas várias especiarias, especialmente canela e gengibre, a fim de se parecer com a palha que era misturada à argamassa. Adiciona-se um pouco de vinho à mistura, para misturar bem os ingredientes e torná-los fluídos.

Não há quantidade mínima de Charosset a ser ingerida, pois devemos usá-lo apenas para molhar o sanduíche. Costuma-se não comê-lo antes do Korech, mas depois se pode fazê-lo à vontade.

Zeroá e Ovo

A Mesa do Seder inclui ainda o Zeroá e o Beitzá – um ovo duro. O Zeroá é um osso de carne de carneiro ou galinha, tostado, que celebra o Corban Pessach, o sacrifício ofertado no Templo Sagrado de Jerusalém. Não nos é permitido comer o Zeroá, pois se o fizéssemos, estaríamos substituindo o sacrifício de Pessach – algo impossível de ser feito, pois o único lugar na Terra em que os judeus podem oferecer sacrifícios a D’us é no Templo Sagrado.

O ovo celebra o outro sacrifício ofertado no dia que antecede a noite do Seder – o Corbán Chaguigá. Um ovo obviamente não é carne animal, portanto, diferentemente do Zeroá, é costume comê-lo, pois não pode ser confundido com o Corbán Chaguigá.

O Templo Sagrado de Jerusalém, a Morada de D’us na Terra, é o símbolo máximo da liberdade judaica. Quando o Templo Sagrado caiu, seguiu-se o exílio. A Era Messiânica, o fim do exílio judeu e de todo o sofrimento no mundo, ocorrerá em paralelo com a construção do Terceiro Templo. Assim sendo, não podemos celebrar a liberdade sem recordar o Templo e os sacrifícios nele realizados.

Enquanto existia o Templo, os judeus ofereciam o Corbán Chaguigá e o Corbán Pessach no dia 14 de Nissan, durante o dia, e naquela noite, de 15 de Nissan – pois o novo dia no calendário judaico se inicia ao cair
da noite – eles realizavam o Seder, no qual tomavam quatro taças de vinho e comiam a carne dos sacrifícios, a Matzá e o Maror.

Na ausência dos sacrifícios de Pessach, apenas comemos Matzá e Maror, mas colocamos na Mesa do Seder tanto o Zeroá quanto o Beitzá para nos recordar que mesmo que a vida no exílio ou em Israel possa ser confortável, a Morada de D’us na Terra ainda não foi reerguida.

Concluímos, pois, o Seder com as palavras “No próximo ano em Jerusalém”, como expressão de nossa esperança de que o Terceiro Templo seja reconstruído, de que a Era Messiânica logo se inicie, de que todo o Povo Judeu retorne à Terra de Israel e de que toda a humanidade seja abençoada com a utopia com a qual vimos sonhando há milhares de anos: a era em que a morte e o sofrimento cessarão e toda a humanidade será abençoada com a paz, a abundância e o júbilo.

Na Hagadá usada por muitas comunidades sefarditas, o Seder é concluído com as seguintes palavras: “A ordem de Pessach foi agora concluída de acordo com sua Halachá, de acordo com todas as suas leis e estatutos. Assim como cumprimos com os mandamentos de Pessach (neste Seder), possamos, pois, merecer cumprir os mandamentos de Pessach (em sua totalidade) no futuro. Ó, Todo Poderoso, o Puro, que habitas nas Alturas, alça a numerosa comunidade de Israel. No futuro próximo, lidera os teus rebentos, que Tu plantaste em  Tzion, redimidos, em júbilo”.

De fato, que esse dia possa logo vir – prontamente, em nossos dias. Amén, Ken Yehi Ratsón.

Bibliografia:
The Pessach Hagadá – Rabbi Adin (Even Israel) Steinsaltz – Keterpress Enterprises, Jerusalem
The Sephardic Heritage Hagadá – The Sutton Edition – Rabbis Elie Mansour and David Sutton; edited by Rabbi Hillel Yarmove. Artscroll-Mesorah Publications.
http://www.chabad.org/holidays/Pessach/pesach_cdo/aid/1774/jewish/Seder-Plate-Kabbalah.htm