Morashá
Sir Nicholas Winton Algumas das 600 crianças de Winton

Sir Nicholas Winton

Morreu no dia 1 de julho último, aos 106 anos, sir Nicholas Winton, responsável, em 1939, pela organização do resgate de 669 crianças judias checas. Durante nove fatídicos meses, numa Checoslováquia sob ameaça de invasão alemã, ele e um pequeno grupo de voluntários estiveram numa frenética corrida contra o tempo para evacuar e levar para a Grã-Bretanha o maior número possível de crianças judias.

Edição 89 - Setembro de 2015


A intervenção desse “Schindler britânico”, como foi apelidado pela mídia inglesa, salvou esses menores do que, para quase todo o restante de suas famílias, seria o destino de internação e assassinato nos campos de concentração. Hoje em dia, acredita-se que são cerca de 60 mil os descendentes das chamadas “Crianças de Winton”.

Sir Winton jamais se considerou um herói e tampouco gostava quando se referiam a ele assim. Mas, por suas ações e para as milhares de pessoas que descendem das crianças que ele salvou, ele é um herói da mais alta estirpe.

O mundo e as próprias “Crianças de Winton” tomaram ciência das ações de sir Winton apenas 50 anos mais tarde. Em fevereiro de 1988, Esther Rantzen, apresentadora do programa da TV britânica, “That’s life”, convidou-o para participar do show sem revelar do que se tratava. Sir Winton não estava preparado para o que viria a seguir. A apresentadora revelou ao público como ele resgatara da Checoslováquia 699 crianças judias.  Mostrou um álbum contendo fotografias, documentos e cartas, e uma lista onde constava o nome das crianças, com detalhes e endereços das famílias que as acolheram. O álbum havia sido montado por um dos voluntários, W.M. Loewinsohn, em setembro de 1939, e entregue a Winton. Após a eclosão da 2ª Guerra, quando as atividades do grupo tiveram que ser interrompidas, pois não era mais possível organizar a partida dos trens, Loewinsohn reunira o máximo de informações possíveis sobre a frenética corrida contra o tempo executada pelo pequeno grupo de voluntários que se haviam juntado a Winton.  

Num dos momentos mais emocionantes do programa de TV, a apresentadora lhe disse: “Senhor Winton, tenho uma surpresa. Sentados ao seu lado estão duas das pessoas que o senhor salvou, em 1939”. Perguntou ainda se alguém na plateia devia a sua vida a Winton, e, em caso afirmativo, que ficasse em pé. Mais de vinte pessoas ao redor de Winton se levantaram e o aplaudiram.

Em 2014, a pedido do pai, sua filha Barbara Winton publicou sua biografia. “If It’s Not Impossible...” - The Life of Sir Nicholas Winton”. O título faz referência a seu lema: “Se algo não é impossível, então deve haver uma maneira de fazê-lo”, que o levou a seguir suas próprias convicções e assumir uma operação que outros haviam desconsiderado por julgar desnecessária ou muito difícil.

O livro, além de dar os pormenores da operação de salvamento que o tornaria conhecido, revela que as atitudes tomadas por sir Winton ao longo daqueles nove meses são reflexo de sua personalidade e da crença que norteou sua vida: cada um de nós pode e deve agir para fazer uma diferença na vida dos outros. Para ele, “há uma diferença entre a bondade passiva e a ativa, que, em minha opinião, é doar de seu tempo e energia para aliviar a dor e o sofrimento dos demais. Isso requer sair de sua zona de conforto, ir atrás e ajudar aqueles que sofrem e estão em perigo. Não basta levar uma vida exemplar, de forma meramente passiva, apenas não fazendo o mal”.

Sua vida

Nicholas George nasceu em Hampstead, Londres, em 19 de maio de 1909. Era o segundo filho de Rudolf e Babette Wertheim, judeus alemães que se haviam mudado para Londres dois anos antes. O lar dos Wertheim era semelhante a muitos outros de famílias da alta classe média britânica da época. A única diferença é que eles eram judeus. Rudolf e Babette, no entanto, não davam muita importância à sua herança religiosa: não frequentavam sinagoga e não mantinham nenhum ritual judaico em casa. Considerando-se acima de tudo pessoas “pragmáticas”, para facilitar a integração à sociedade britânica se converteram e converteram seus filhos ao cristianismo. Mudaram também de sobrenome, abandonando  “Wertheim” para adotar “Winton”.

Nicky, como ele era conhecido pelos mais próximos, começou a frequentar a escola aos sete anos, em 1916. Foi matriculado na University College School em Frognal, Hampstead. Aos 17 anos, deixou os estudos para iniciar um estágio no Japhet’s Bank, mas decidiu sair do setor bancário em 1937 para trabalhar como operador na Bolsa de Valores.

O ativismo político de Winton teve início em meados de 1930, quando, levado por sua visão de igualdade social, começa a participar de reuniões dos movimentos de esquerda. Nesse período fez novas amizades, entre as quais, Martin Blake, diretor da Westminster School, e responsável por sua ida para Praga, em 1938.

Winton seguia com preocupação os acontecimentos na Europa, pois estava ciente da atmosfera perigosa e violenta que permeava esse continente e da ameaça à paz representada por Hitler. Ele ficou abismado quando, em setembro de 1938, Inglaterra e França assinaram o Acordo de Munique que, praticamente, entregava a Checoslováquia aos alemães. Para ele, a política de apaziguamento de Chamberlain, sob o slogan “paz em nosso tempo”, não deteria Hitler, pelo contrário, apenas o fortaleceria. Ademais, sabia do grande perigo que a Alemanha nazista representava para os judeus. E os acontecimentos durante a Kristallnacht (Noite dos Cristais), em 9 de novembro de 1938, a seu ver, eram uma nítida indicação das intenções nazistas.

Salvando as crianças

O envolvimento de Winton da operação de salvamento começou no final de dezembro de 1938, quando recebeu uma ligação de seu amigo Martin Blake. Eles haviam planejado passar duas semanas esquiando na Suíça. Blake, que na época fazia parte da Comissão Britânica para Refugiados da Checoslováquia (CBRC), cancelara a viagem. Convidou-o a visitar a Checoslováquia. Queria que ele visse o que acontecia nesse país. Após a anexação dos Sudetos por tropas alemãs, em 10 de outubro, milhares de refugiados dessa região haviam-se deslocado para a parte central da Checoslováquia. Segundo dados da imprensa, eram mais de 250 mil, entre eles judeus, comunistas e democratas sudetos e alemães.

Winton tinha duas semanas de férias e não hesitou em alterar seus planos. Ao chegar a Praga foi levado ao Comitê Britânico para Refugiados onde foi apresentado a Doreen Warriner, o verdadeiro dínamo que dirigia o Comitê, que imediatamente o recrutou para ajudá-la.

Ela sugeriu que Winton visitasse um campo de refugiados nos arredores da capital, para que visse o que lá ocorria. Em meio a um duro inverno europeu, milhares de pessoas aglomeravam-se em barracões. As condições no campo eram terríveis, com instalações precárias, racionamento de alimentos, frio intenso. Como revelaria em sua biografia: “Quando vi todas aquelas pessoas, percebi que tinha que fazer algo para ajudá-las”...

Rapidamente percebeu que eram muitas as crianças refugiadas, e ninguém se preocupava com seu futuro. Ofereceu-se, então, para concentrar seus esforços nesses menores. Sem condições de fazer mais do que já fazia, Doreen encorajou-o a assumir a tarefa.

Após ouvir mães implorando para que seus filhos fossem enviados para a Inglaterra, começou a pensar que deveria haver uma forma de salvar as crianças, se as mandassem para outros países. Tinha apenas duas semanas de férias, o que sequer era uma fração do tempo necessário para iniciar tal empreitada. Mesmo assim, começou a agir.

Telefonou para sua mãe, em Londres, perguntando-lhe se ela poderia ir até o Departamento de Imigração e verificar quais as garantias exigidas para fazerem entrar crianças na Inglaterra. Em 10 de janeiro de 1939, Nicholas Winton escreveu ao escritório em Londres do Comitê Britânico de Refugiados da Checoslováquia, o BCRC, pedindo-lhes ajuda.

No momento em que se tornou público que alguém se estava dedicando a salvar as crianças, Winton se viu praticamente sitiado no hotel, de manhã à noite, por pais que, desesperados, vinham implorar-lhe que mandasse seus filhos para a Inglaterra. Ele passava grande parte do dia anotando nomes das crianças e inúmeros outros detalhes, e tirando fotos. No dia 12 de janeiro, um avião partiu rumo a Londres, com as primeiras 20 crianças a bordo.

Decidiu estender suas férias por mais uma semana, apesar da recusa de seus empregadores, que não ficaram sensibilizados com o trabalho humanitário que estava fazendo. Mas teve que retornar a Londres no dia 21 de janeiro. Retomou seu posto na Bolsa de Valores, mas sua mente estava concentrada nos esforços para trazer crianças para Inglaterra.

Alguns dias após sua chegada a Londres foi informado sobre as exigências do governo britânico para permitir a entrada dos menores refugiados: o preenchimento de um formulário por criança, com um atestado médico; o pagamento de 50 libras (valor equivalente atualmente a 2.500 euros) por criança para cobrir um eventual retorno, além de um lar adotivo ou alguém que se responsabilizasse pelo menor até completar 17 anos. Sem o cumprimento de tais requisitos os britânicos não concederiam o visto de entrada.

A partir daí Winton se dedicou a cumprir as exigências das autoridades. Ao término de sua jornada de trabalho escrevia cartas, artigos, fazia cartões com fotos das crianças e se mobilizava para obter os recursos financeiros necessários, além de procurar lares adotivos. Ele conseguiu encontrar pessoas interessadas em adotar os pequenos refugiados, bem como outros que lhe doassem os recursos necessários.

Enquanto isso, Doreen Warriner enviara uma carta à sede da CBRC, em Londres, solicitando que Winton fosse nomeado encarregado do Departamento de Crianças, até então inexistente. No entanto, isso só foi oficializado em 24 de maio, quando ele foi nomeado Secretário da Seção Infantil da Comissão. Mas, ele não esperaria a nomeação oficial para começar a agir. Conseguindo papel timbrado da CBRC, ele apenas adicionou seu nome e título, com o endereço de sua residência. Mandou imprimir uma resma de papel com esses dados e saiu em campo enviando relatórios para os jornais sobre a desesperadora situação das crianças checas, escrevendo a várias organizações relacionadas com refugiados e inúmeras tratativas junto ao Ministério do Interior.

O primeiro trem com as crianças partiu de Praga em 14 de março; outros sete deixariam a Checoslováquia ao longo dos seis meses seguintes. No dia seguinte, 15 de março, Hitler invadiu o resto da Checoslováquia. A Comissão Britânica para Refugiados em Praga teria que atuar de acordo com as determinações nazistas. Para poder sair do país tornara-se necessária a autorização da Gestapo.

Um dos voluntários, Trevor Chadwick, estava encarregado de negociar com a Gestapo as autorizações de saída para as crianças, que, em geral, eram concedidas sem dificuldade, apesar de os nomes serem cuidadosamente examinados. Contudo, apesar da atitude relativamente condescendente dos alemães, podia ocorrer uma interferência imprevisível, a qualquer momento, e o nível de tensão no escritório de Praga se intensificava. Por vezes, as licenças de entrada do Ministério do Interior do Reino Unido tardavam para chegar, significando que um trem estava pronto, mas ainda não havia os documentos de entrada na Inglaterra.

Para resolver o impasse, Trevor Chadwick arranjara uma gráfica que falsificava os documentos de entrada para que os alemães os carimbassem. Assim o trem podia partir. Quando chegavam à fronteira britânica, as falsificações eram substituídas pelos documentos verdadeiros do Ministério. O grupo sabia que estava se arriscando cada vez mais, mas também sabia que esperar não era uma opção. Chadwick se encarregaria de informar os pais assim que um lar adotivo fosse encontrado e a autorização de saída e os vistos de entradas estivessem em ordem.

Lembra Winton: “No dia da partida as crianças eram escoltadas até a estação Wilson, no centro de Praga, por um membro da Gestapo, com etiquetas penduradas no pescoço preparadas pelos meus assistentes. E eram embarcadas sob os olhares dos soldados nazistas espalhados pela plataforma”. Ao desembarcar em Londres, na estação de Liverpool, após uma longa viagem, elas eram recebidas por Winton e sua mãe, que ajudavam na entrega formal das crianças a suas famílias adotivas.

O nono transporte estava marcado para partir no dia 1o de setembro, com 250 crianças, o maior até então. Foi quando a guerra eclodiu. Todos os meios de transporte foram bloqueados. Não se soube mais nada dessas crianças; acredita-se que tenham sido enviados aos campos de concentração, sendo assassinadas pelos nazistas, como o foram milhões de outros judeus.

Declarada a guerra não havia muito mais que Winton pudesse fazer por elas. Ele passou, então, a trabalhar nas equipes de salvamento da Cruz Vermelha, em Londres.   

No final de 1941, ele se candidatou à Força Aérea inglesa, a RAF, mas foi recusado para piloto e para serviço de tripulação pelo fato de usar óculos. Serviu como instrutor da RAF.

Após a 2a Guerra

Ao término da 2a Guerra Mundial, em meio a uma Europa destroçada e tendo dado baixa da Real Força Aérea, Winton começou a pensar em seu próximo passo. Lembrando-se daquelas crianças que tinha ajudado a salvar, sua prioridade passou a ser o destino dos milhões de refugiados espalhados por toda a Europa. Começa a trabalhar no Fundo para Refugiados Checos, com o objetivo de ajudá-los a retornar ao seu lar ou a reconstruir uma nova vida em qualquer outro lugar.

Tempos depois, passa a atuar no Comitê Internacional para Refugiados, em Londres. Fazia parte de uma equipe pequena, cerca de uma dúzia de pessoas, que trabalhavam pela repatriação dos refugiados. O grupo foi, depois, integrado à Organização Internacional de Refugiados (International Refugee Organisation - IRO), parte da nova Organização das Nações Unidas, criada no final da guerra. O trabalho de Winton com o IRO terminou na primavera de 1948.

A seguir, assume um cargo em Paris, no International Bank for Reconstruction and Development. Para ele, esse trabalho era uma espécie de continuação do empenho mundial de tentar reerguer a Europa após os traumas da guerra. Ao chegar ao Banco, no dia 1o de abril de 1948, as duas primeiras pessoas que encontrou foram o diretor e sua secretária, Grete Gjelstrup, uma jovem dinamarquesa de 28 anos.  A jovem, quieta e reservada, tinha opiniões fortes sobre a vida e valores parecidos aos do Nicholas. Embora fosse, às vezes, retraído e circunspecto, Nicholas era autoconfiante e divertido. Os dois se casaram e tiveram 3 filhos, Nick, Robin e Barbara. Robin, que nasceu com Síndrome de Down, faleceu na infância. Nicholas e Greta Winton passaram a vida em Maidenhead, perto de Londres.

Aos 62 anos, ainda cheio de energia e motivação, mas já aposentado, Winton estava pronto para dedicar o tempo que lhe restava e sua atenção para o que mais gostava de fazer desde a década de 1950: ajudar o próximo.

Sobre o trabalho voluntário que sempre fez parte de sua vida, Winton disse em sua biografia: “O tipo de ajuda ao próximo a que me dediquei sempre cruzou o meu caminho fortuitamente. Nunca foi uma escolha pessoal planejada. O trabalho com os refugiados, em 1938, aconteceu porque um amigo me pediu que me unisse a ele em Praga, aonde tinha sido enviado pela Comissão Britânico para Refugiados na Checoslováquia, após a ocupação alemã. O envolvimento com pessoas com necessidades especiais aconteceu quando nosso filho nasceu com Síndrome de Down e percebemos que as autoridades britânicas não tomavam conhecimento das famílias nessa situação. Por sua vez, envolvi-me no trabalho com pessoas da Terceira Idade quando o Secretário Geral do Lar de Idosos de Abbeyfield pediu a um dos membros do nosso Rotary que um voluntário presidisse um comitê na cidade de Maidenhead”.

Sir Nicholas Winton recebeu inúmeros prêmios por seu trabalho humanitário. No aniversário da rainha Elizabeth II, em 1983, foi nomeado membro da Ordem do Império Britânico por seu trabalho na instalação de lares de idosos. Em 2002, foi elevado a cavaleiro, pela Rainha, em reconhecimento por seu trabalho no salvamento das crianças e, em 2010, recebeu o título de “Herói britânico do Holocausto”.

Foi agraciado com a Ordem de Tomáš Garrigue Masaryk, (uma das mais altas distinções checas) pelo presidente checo, em 1998, e ano passado, recebeu a Ordem do Leão Branco, das mãos do presidente checo Milos Zeman. Também foi indicado pelo governo checo para o Prêmio Nobel da Paz de 2008. Devido ao fato de seus pais serem  judeus (apesar de se terem convertido), Winton não foi agraciado com o título de Justos entre as Nações – uma honraria somente prestada a não judeus.

Sua morte foi comentada por líderes de vários países. “O mundo perdeu um grande homem. Não podemos esquecer jamais a humanidade demonstrada por Sir Nicholas Winton ao salvar tantas crianças do Holocausto”, afirmou o primeiro-ministro britânico David Cameron. “Ele sempre será um símbolo de coragem, profunda humanidade e incrível humildade”, declarou, por sua vez, o primeiro-ministro checo Bohuslav Sobotka.