Morashá
As sete Sefirot emocionais Foto Ilustrativa

As sete Sefirot emocionais

O tópico das Sefirot é um dos pilares do estudo da Cabalá. As Sefirot são a forma básica do poder criativo de D-us. Constituem a estrutura e configuração internas do Universo e servem de ponte entre o Criador e toda a Sua criação.

Edição 69 - Setembro de 2010


Existem basicamente dez Sefirot1, que são os dez componentes da realidade – das forças Divinas que criam e sustentam o Universo. A alma humana também possui esses dez atributos Divinos e esta é uma das explicações para o fato de o homem ter sido criado "à imagem" de D’us.

Sefer Yetzirá (o Livro da Formação), considerado a obra mais antiga sobre a Cabalá, divide as Dez Sefirot em três matrizes e sete múltiplos. As três matrizes são as três Sefirotbásicas, que são os fundamentos da realidade: são os três componentes da mente que nos permitem perceber as coisas. São conhecidas como as três "Sefirot intelectuais", mas, na realidade, são mais do que ferramentas usadas pelo ser humano para a concepção e compreensão intelectual: elas representam a capacidade da alma de perceber, assimilar e se relacionar com todas as coisas e situações. Essas três Sefirotbásicas são Chochmá (Sabedoria), Biná(Compreensão), e Daat(Conhecimento).
Os sete múltiplos são conhecidos como as "Sefirotemocionais". São também chamados de os "sete dias de construção" por serem os blocos de construção da Criação, incorporados pelos sete dias nos quais D’us criou o mundo. De fato, a razão para que a semana seja formada por sete dias é que cada um destes incorpora uma das sete Sefirot2 emocionais.

Similarmente às três Sefirot intelectuais, as sete emocionais também são atributos da alma humana. Elas são as sete forças básicas que motivam o comportamento humano e provocam, dentro de nós, uma resposta emocional. São, também, um reflexo das qualidades que D’us usa para fazer funcionar Seu Universo. É importante observar aqui – e isto é discutido no artigo desta edição, "A Cabalá de Sucot" – que essas sete qualidades por si sós não são positivas nem negativas: cada uma delas, dependendo de como é utilizada, pode se prestar a expressões de bondade e santidade, ou de profanação e maldade.

Os cabalistas descrevem as Sefirot como correspondentes a vários membros e funções do organismo humano. O corpo humano, padronizado a partir do conjunto das Sefirot, serve como um paradigma de forças variadas e mesmo opostas que funcionam em equilíbrio e harmonia sincronizados. De fato, no corpo humano, todos os sentidos e sistemas biológicos são diferenciados, mas, ainda assim, interdependentes. De modo similar, cada Sefirá é um poder ou modo específico pelo qual D’us governa e sustenta Seu universo. Cada Sefirá funciona em perfeita harmonia com as outras Sefirot e contém dentro de si aspectos de todas as demais.

A obra fundamental sobre a Cabalá, Tikunei Zohar, abre com uma introdução e descrição das sete Sefirot emocionais, que são também chamadas de Midot (Atributos): Chessed (Amor) é o braço direito; Guevurá (Contenção) é o braço esquerdo;Tiferet (Harmonia) é o tórax; Netzach (Domínio) é a perna direita; Hod (Submissão) é a perna esquerda; Yessod(Fundamento) é o sinal do pacto sagrado (o órgão sexual); eMalchut (Realeza) é a boca.

Neste ensaio, introduziremos, com breve explicação, cada uma das sete Sefirot emocionais.

ChessedGuevurá e Tiferet

A primeira das sete Sefirot emocionais é Chessed, que é comumente traduzida por Amor ou Bondade. Esta tem a conotação de altruísmo – a doação incondicional, que nada espera em troca. Esta Sefirá engloba as emoções do amor, atração, generosidade e expansividade, bem como suas várias derivações e ramificações. É Chessed o que nos impele a nos aproximarmos do outro, a dar de nós mesmos e de nossas posses.

Sendo a primeira dos sete múltiplos, esta Sefirá faz um paralelo com o primeiro dia da Criação, o domingo. Como está descrito na Torá, a principal criação no primeiro dia foi a luz. Uma das propriedades da luz é o fato de brilhar indiscriminadamente e de ser expansiva, em geral sem limites bem definidos.

A segunda Sefirá da emoção é Guevurá, traduzida como Contenção ou Poder. Guevurá é essencialmente o oposto de Chessed: traz em si a restrição, o distanciamento. A Guevurá também se manifesta através do uso da disciplina, justiça, força e reverência. O conceito desta Sefirá é intimamente ligado a barreiras e fronteiras e é também interpretado como Poder porque se manifesta sempre que há concentração de força. Um feixe de raios laser, por exemplo, é muito potente porque concentra luz.

O segundo dia da Criação, segunda-feira, quando foi criado o Firmamento, incorpora a Guevurá. Um firmamento, que é uma barreira, um limite, é o símbolo desta Sefirá.

A Cabalá ensina que Chessed Guevurá são as duas emoções humanas básicas. A primeira delas nos aproxima das pessoas, das coisas, das situações, ao passo que a segunda faz o oposto. Uma pessoa que é basicamente caracterizada pela Sefirá de Chessed é propensa a ser mais carinhosa e generosa. É alguém que se doa; dá de seu tempo, de seu dinheiro, de seu patrimônio. É alguém que busca os demais e com eles se preocupa. Por outro lado, aquele que se caracteriza pela Sefirá de Guevurátende a ser esquivo e muito contido. É alguém que não ama facilmente nem busca ser amado. Não compartilha com facilidade e lhe é difícil ser generoso, mesmo consigo próprio. Ademais, é uma pessoa que crê piamente na lei, na ordem e na justiça. Não é muito tolerante nem consegue perdoar erros e pecados alheios. Aquele cuja alma está ligada primordialmente à Sefirá de Guevurá tende a ser disciplinado: é alguém geralmente centrado e organizado e esta disciplina extraordinária geralmente resulta em torná-lo eficiente e poderoso, ajudando-o a dominar qualquer assunto ou empreitada a que se dedique.

Claramente, dependendo de como é empregada, a Sefirá de Guevurá pode ser um ponto extremamente positivo ou extremamente negativo. O mesmo se pode dizer de cada uma das outras Sefirot emocionais, inclusive deChessed. A primeira Sefirá emocional não é necessariamente boa, assim como a segunda não é necessariamente má.

É verdade que o amor é o maior e mais nobre dos sentimentos, e que deve ser a força que guia nossa vida. Sua importância é destacada pelo fato de ser a primeira das Sefirot emocionais. De fato, o principal mandamento no judaísmo é a prática de atos de generosidade, caridade e bondade – todos estes, manifestações de Chessed. Somos, também, ordenados a amar a D’us e a servi-Lo e cumprir Seus mandamentos com júbilo. No entanto, para viver uma vida equilibrada e produtiva, é preciso também utilizar-se a Sefiráde Guevurá. Aquele que é quase que praticamente guiado pela Sefirá deChessed irá viver uma vida indisciplinada, desorientada, irresponsável e, talvez, não produtiva. Tentará fazer mais do que consegue e, mais tarde ou mais cedo, estará esgotado física e mentalmente. Poderá distribuir mais dinheiro do que suas reservas permitem e, em troca, ter que depender da generosidade alheia. Pode preocupar-se muito com que os outros pensam, e, ao tentar agradar a todos, acabará não agradando ninguém. E pode tentar envolver-se com atividades em excesso e ver-se "em toda parte" – desconcentrado, exausto, sem jamais conseguir fazer algo bem feito e até o fim. Ademais, como se sente atraído por todos e por tudo, ele pode deparar-se em meio a situações perigosas e se envolver em relacionamentos e com pessoas destrutivas. Neste mundo, é preciso viver-se com limites – comGuevurá. Quem desrespeita as restrições e os limites o faz por sua própria conta e risco.

No entanto, viver uma vida praticamente governada pela Sefirá de Guevurátampouco é aconselhável. Aqueles que não dão muito não se devem surpreender de não receberem muito – nem dos homens nem de D’us. Aquele que não ama não deve contar com o amor de ninguém. E aqueles que crêem que a lei deve ser aplicada sempre ao pé da letra devem ter em mente que o Altíssimo julga o homem "medida por medida": a dizer, quem julga os demais com severidade e rigor será julgado desta forma pelo Juiz do Universo.

modus vivendi ideal é o do equilíbrio entre as Sefirot de Chessed eGuevurá. A mistura dessas duas constitui a terceira Sefirá emocional –Tiferet. Esta Sefirá é definida como Beleza, Compaixão e Harmonia. SeChessed é branca e Guevurá é vermelha, então Tiferet é rosa. A terceiraSefirá da emoção representa a capacidade de harmonizar e mesclarChessed com Guevurá. Uma pessoa que age com Tiferet tende a levar uma vida equilibrada e harmoniosa. Não doa com exagero nem com mesquinhez. Não é muito expansivo nem muito retraído.

O terceiro dia da Criação, terça-feira, é associado a Tiferet. Ainda que a Luz tenha sido criada no primeiro dia e o Firmamento no segundo, no terceiro dia, D’us separou os mares da terra seca. No terceiro dia da Criação, terça-feira – o dia mais auspicioso da semana judaica – um equilíbrio harmonioso foi estabelecido entre os mares e a terra, ambos necessários para a manutenção da vida. Ademais, a vegetação também foi criada nesse terceiro dia. Uma planta que brota, nítida manifestação de Chessed, tem também sua parte embutida na terra, servindo de barreira entre o novo ser e o mundo exterior – um elemento de Guevurá. A planta, portanto, combinaChessed com Guevurá, resultando em Tiferet.

A esta altura desta nossa análise, é importante enfatizar que a Sefirá deTiferet não é uma substituta para Chessed e Guevurá. (Se tal fosse o caso, D’us teria criado apenas a Sefirá de Tiferet, e não as outras duas). O emprego de Tiferet pode parecer uma escolha segura, mas nem sempre é a ideal. Na vida, com freqüência temos que agir com Chessed, doando incondicionalmente, enquanto em outros momentos, temos que agir comGuevurá, com total auto-contenção. Mas a vida de uma pessoa, em sua plenitude, deve ser caracterizada pela Sefirá de Tiferet, pois deve ser harmoniosa. O grande desafio da vida é que esta requer uma sabedoria extraordinária e um agudo senso de percepção para se saber quando agir com Chessed, com Guevurá ou com Tiferet. Nossos erros na vida ocorrem, em geral, quando empregamos uma Sefirá ao invés de outra.

Netzach, Hod e Yessod

A quarta Sefirá da emoção, Netzach, é definida de várias maneiras: como Dominância, Vitória, Eternidade e Ambição. A palavra Netzach advém deMenatzeach, conquistar e superar, ou vencer. Na Árvore das Sefirot,Netzach, assim como Chessed, fica do lado direito; como ensina o Tikunei Zohar, este Atributo corresponde à perna direita do corpo humano. Assim sendo, Netzach deriva do Amor: quanto mais um ser se doa a outro (Chessed), mais essa pessoa influencia e talvez subjugue o outro.

Netzach é simbolizado por uma perna humana por ser a Sefirá emocional que "nos leva a lugares". É o que inspira o ser humano a ter ambições e o que o compele a ir atrás de seus objetivos e sonhos: a vencer os desafios, a conquistar seus oponentes. Netzach significa estabelecer sua vontade e, não raro, tentar dominar os outros para que seu objetivo seja atingido. O treinador de um time esportivo geralmente emprega Netzach: sua ambição e objetivo são ser vitorioso e vencer a equipe oponente; e, para tanto, ele precisa impor sua vontade sobre seus jogadores para que estes ajam de acordo a seus planos e estratégia.

Sefirá de Netzach corresponde ao quarto dia da Criação, a quarta-feira, quando as estrelas e os corpos astronômicos foram criados. D’us os criou e os dispôs onde estão sem qualquer reciprocidade de parte dos mesmos. D’us impôs Sua Vontade sobre eles para que O servissem e a Seus propósitos. E assim foi.

A quinta Sefirá da emoção é Hod. Assim como Guevurá é o oposto deChessedHod é o oposto de Netzach. Se o conceito de Netzach é afirmar a vontade ou identidade de alguém, Hod se manifesta quando alguém se anula perante outrem. Com efeito, a palavra hebraica Hod tem a conotação deHoda’a, submissão; ou também a capacidade de "agradecer" mesmo em caso de infortúnio, ou seja, "admitindo" e aquiescendo em face de um obstáculo.

Um soldado que segue ordens de um superior, sem questionar, se vale daSefirá de Hod, da mesma forma que um jogador que confia em seu treinador age exatamente conforme sua orientação. Na Árvore das Sefirot,Hod fica ao lado esquerdo, assim como GuevuráHod deriva, portanto, de Contenção: quanto mais alguém se contém (Guevurá), mais ele abre espaço para as necessidades do outro e, assim, mais ele permite que o outro afirme sua própria individualidade (Hod).

Para oferecer uma analogia que explique a diferença entre Netzach e Hod, se a vida fosse um jogo de xadrez, sempre que D’us, Mestre Enxadrista supremo, impusesse a ordem – não apenas movendo Suas peças do tabuleiro, mas nos forçando a mover nossas peças segundo Sua Vontade – Ele estaria praticando Netzach. No entanto, sempre que Ele espera que nós movamos as peças segundo nossa própria vontade, é Hod que se manifesta.

Esta Sefirá é representada pelo quinto dia da Criação, quinta-feira, quando foram criadas as primeiras criaturas vivas, os peixes. Estes foram os primeiros seres que se puderam mover livremente.

Assim como a pessoa necessita empregar tanto Chessed quanto Guevurá, de igual maneira terá que agir com Netzach e Hod. Para andar de forma adequada e, em especial, para correr, são necessárias as duas pernas – que simbolizam a quarta e a quinta Sefirot emocionais. Para funcionar adequadamente no mundo, para se "chegar ao destino", é preciso ser, ao mesmo tempo, assertivo e submisso; às vezes, é preciso liderar; em outras, ser liderado. É preciso saber quando insistir em nós mesmos e em nossas idéias, mas também ter a humildade de aceitar a colaboração do outro, especialmente quando esse outro é mais qualificado ou capacitado do que nós. Para viver efetiva e produtivamente, é preciso fazer uso de Netzach, formulando objetivos e metas e se esforçando para vencer limitações e obstáculos – mas é preciso, também, utilizar Hod no conselho pedido a um terceiro e na consideração com os que nos cercam.

Às vezes, é preciso utilizar apenas Netzach, fazendo valer sua própria identidade e vontade; outras vezes, é preciso agir com Hod, concordando com os demais. Na maioria das situações, o ideal é um equilíbrio harmonioso entre essas duas Sefirot. Tal harmonia ocorre quando a sextaSefirá emocional, Yessod, se manifesta. Assim como Tiferet é a combinação de Chessed e GuevuráYessod é a mistura de Netzach e HodYessod denota um equilíbrio entre a agressividade de Netzach e a aquiescência passiva deHod.

Yessod, traduzida como "Fundamento", é basicamente um relacionamento recíproco. A sexta Sefirá emocional é a média perfeita entre Netzach e Hod. Não se trata apenas de uma amálgama física, mas de uma mescla da psique, da emoção e do espírito. Em outras palavras, a medida perfeita para se manter a identidade própria sem abrir mão da mesma. O paradigma deYessod é o íntimo relacionamento entre um homem e uma mulher. O relacionamento ideal, segundo o judaísmo, é o casamento onde há uma parceria, onde um cônjuge completa o outro, e não quando um sempre domina e o outro sempre se submete. A parte do corpo humano que corresponde a Yessod é o órgão sexual, que, se usado propriamente, pode unir duas pessoas na mais íntima de todas as uniões. Yessod representa o vínculo mais potente que pode existir entre dois indivíduos – um vínculo tão forte que dá a dois seres humanos a oportunidade de se tornarem, à semelhança de D’us, criadores da vida. A Sefirá de Yessod é também a ligação suprema do ser humano com o Divino.

O sexto dia da Criação, sexta-feira, é associado com Yessod, pois foi o dia em que o homem foi criado. O homem é o fundamento e propósito da Criação. Em nossa vida, D’us está constantemente nos dando algo (Netzach), pois Ele está constantemente recriando e sustentando toda a existência. Mas, ao mesmo tempo, fazendo uso do livre arbítrio que Ele nos deu, nós podemos dar-Lhe algo em troca (Hod): podemos trabalhar para aperfeiçoar o Seu mundo e viver de acordo com Sua Vontade, cumprindo, assim Seu objetivo ao criar o Universo. Desta forma, por assim dizer, nós Lhe damos prazer. Yessod, portanto, é um relacionamento de reciprocidade. A relação ideal de Yessod é aquela de um Tzadik com D’us. O Tzadik, o homem justo, é aquele que está constantemente ligado a D’us: ele dedica sua vida a cumprir a Vontade Divina e D’us atende praticamente todos os seus pedidos.

Segundo um antigo Midrash, os primeiros seis dias da Criação podem ser vistos como dois blocos de três dias, sendo que o segundo deles aperfeiçoa e completa o primeiro. Esse Midrash afirma que no primeiro dia (Chessed), D’us criou a luz. No quarto dia (Netzach), três dias mais tarde, Ele criou as luminárias. No segundo dia, Guevurá, D’us criou os oceanos ao dividir as águas. No quinto dia, Hod, Ele criou os peixes, que são a perfeição da água. No terceiro dia, Tiferet, D’us criou a terra seca. No sexto dia, Yessod, Ele criou o homem, senhor da terra seca.

Malchut

As seis primeiras Sefirot emocionais, de Chessed aYessod, constituem uma estrutura única, unificada, que é chamada, na Cabalá, de Ze’ir Anpin ("Rosto Pequeno").

A sétima e última Sefirá emocional é Malchut, traduzida como Realeza. Enquanto as seis primeiras Sefirot emocionais são "masculinas", Malchut é uma Sefirá "feminina". As seis primeiras, Ze’ir Anpin, são vistas como os poderes básicos de dar e criar, ao passo que a feminina, Malchut, representa o poder de receber. Em linguagem cabalística, Malchut é também chamada de Nukvá de Ze’ir Anpin (o feminino de Ze’ir Anpin). Nukvá é o termo em aramaico para a palavra hebraica para feminino, Nekevá, e se refere à noiva de Ze’ir Anpin.

A Criação do universo ocorreu através da Sefirá de Malchut. Esta última de todas as Sefirot, intelectuais e emocionais, é comparada ao útero feminino: representa o poder de receber Ze’ir Anpin, abrigá-lo e, em algum momento futuro, devolver algo mais completo e perfeito. O dia da semana que corresponde a Malchut é o sétimo, o dia sagrado: ShabatMalchut relaciona-se ao sétimo dia da Criação, que é o dia que nos dá o poder de recebermos a energia de todas as Sefirot e integrá-las em nossa vida. As primeiras seisSefirot emocionais, além de se relacionarem aos seis dias da Criação, representam as seis direções básicas do universo físico tridimensional: Norte-Sul, Leste-Oeste, para cima-para abaixo. Representam, também, os modos fundamentais de se alcançar as seis direções da Criação. Malchut, por outro lado, é o eixo ou ponto focal que reside no centro das seis direções, e de onde, ao invés de olhar para fora, a pessoa olha para dentro de si, absorvendo iluminação espiritual sobre si própria.

Malchut é a idéia de receber: é a idéia de ser um Keli, um "receptáculo". Esta Sefirá é o poder que D’us nos dá para que possamos ter condições de receber d’Ele. E, mais importante, é em Malchut que se realiza o propósito de doar: o relacionamento em que o receptor pode retribuir, tornando-se, assim, doador. Por esta razão, Malchut é vista como uma Sefirá feminina. Por outro lado, Malchut é o "receptáculo" mais sublime, que foi criado para conter a Luz Divina. Representa a epítome do ato de receber, sendo, portanto, caracterizada como a Sefirá que "não possui nada de seu". Malchutliteralmente precisa receber tudo o que possui das Sefirot que a precedem. Mas, por outro lado, representa o poder que, em última instância, unifica todos os diferentes poderes das Sefirot, mantendo-os todos unidos. SemMalchut, a Criação estaria incompleta.

Sefer Yetzirá ensina que os seis dias da semana, que são masculinos, são as seis direções que apontam para o exterior. O Shabat, por sua vez, que é feminino, é o pólo que atrai todos os seis pontos, unindo-os. Durante toda a semana, em nosso empenho para adquirir a espiritualidade, permanecemos no nível "masculino". No Shabat, chegamos ao nível "feminino" porque conseguimos absorver os frutos de todo o empenho da semana que transcorreu. Sem o Shabat, não teríamos condições de receber a espiritualidade: isto pode ser comparado a uma situação em que nos empenhamos por algo, sem nunca atingi-lo. Daí a importância suprema doShabat para o judaísmo. Ensinam-nos, pois, que este dia é a fonte de todas as bênçãos: é o dia que recebe o trabalho espiritual realizado durante os dias da semana, gerando, assim, ainda mais bênçãos para a semana vindoura. O Shabat pode ser comparado ao solo onde se planta uma semente. Sem o solo, a semente não poderá virar uma planta.

A dinâmica entre as seis primeiras Sefirot emocionais (Ze’ir Anpin) e Malchut(Nukvá) pode ser comparada ao relacionamento biológico entre um homem e uma mulher que geram a vida: o homem é o doador, mas é a mulher quem recebe e acalenta, e, ao gerar um ser humano, acaba doando muito mais do que o início plantado pelo homem.

Malchut é, pois, não apenas um vaso contentor, que apenas recebe: para ser perfeita, precisa também dar daquilo que recebe. O receptor precisa se transformar em doador. Em termos monárquicos, por exemplo, Malchutpoderia representar a aceitação pelo povo da soberania do rei, bem como do fato de ele ser o seu provedor. Eles seriam dependentes de seu rei, mas se este quisesse que seus súditos interagissem com ele, teria que dar-lhes alguma forma de liberdade e autonomia. Tornar-se-iam, assim, seus parceiros na condução do reino.

Nosso Rei verdadeiro e eterno é D’us. Como Ele é a Origem de tudo, estamos constantemente recebendo tudo d’Ele. Mas somos, também, obrigados a fazer nossa parte na obra de aperfeiçoar o Seu mundo. Se tomarmos o que D’us nos dá – recursos, talentos e oportunidades que nos são ofertados – e os utilizarmos para nos aperfeiçoarmos, bem como ao mundo, estaremos fazendo bom uso de Malchut.

Malchut é associada à boca, pois, para verdadeiramente liderar, é preciso comunicar-se bem para servir de inspiração a seus adeptos. A Realeza está intimamente ligada às palavras, como se comprova no fato de que D’us, Rei do Universo, criou e continua a recriar o Universo através da Fala Divina. Ademais, o homem é rei na Terra porque ele, mais do que qualquer outra criatura, pode, de fato, comunicar-se de forma efetiva e sofisticada.

Concluímos aqui este estudo introdutório ao assunto das sete Sefirotemocionais. Alguns trechos desta discussão podem parecer técnicos ou esotéricos, mas, na realidade, além de ser um pilar para o estudo da Cabalá, o estudo das Sefirot é um manual para uma maior auto-conscientização e aperfeiçoamento de nosso caráter e comportamento. No artigo "A Cabalá de Sucot", analisamos algumas das aplicações práticas e cotidianas das sete Sefirot emocionais.

Referências:
1 Há uma décima-primeira Sefirá, ou seja, Keter. Mas, quando é contada como Sefirá, ela substitui a terceira Sefirá intelectual, Daat. Keter e Daat são mutuamente excludentes. As Sefirot são, portanto, consideradas como sendo dez, e não 11.

2 É compreensível a razão pela qual um mês se constitui de aproximadamente 30 dias: ele segue o ciclo lunar. É claro, também, por que o ano se baseia no ciclo solar: mesmo o calendário judaico, que é baseado nos ciclos lunares, leva em consideração o ciclo solar. Mas, por que a semana é composta de sete dias? Por que um mês não tem apenas três semanas de dez dias? A Torá estabeleceu a semana com sete dias porque cada dia da Criação incorpora uma das sete Sefirot emocionais.

Bibliografia:

  • Rabbi Aryeh Kaplan – Inner Space: Introduction to Kabbalah, Meditation and Prophecy. Moznaim Pub. Corp.
  • Rabbi Adin Steinsaltz - Opening the Tanya: Discovering the Moral and Mystical Teachings of a Classic Work of Kabbalah - Jossey-Bass
  • Rabbi Simon Jacobson – Counting the Omer. Meaningful Life Center