Morashá
BRIT MILÁ Foto Ilustrativa

BRIT MILÁ

O nascimento de uma criança é uma experiência emocional para todos que dela participam. É um verdadeiro milagre que se reproduz a cada nascimento e transforma a vida dos pais.

Edição 33 - Junho de 2001


É um dos instantes singulares no qual se tem consciência da grandiosidade Divina. E a mãe, que passou 40 semanas apreensiva, enfrentando o desconforto do final da gravidez, esquece todas as dores, vivenciando apenas essa experiência única.

Esse milagre, obra do poder de D’us, está presente no relato da Bíblia sobre a imensa alegria de Eva após ter dado à luz seu primeiro filho. Ao segurar em seus braços “carne de sua própria carne”, sente uma alegria que jamais sentira e percebe que D’us participou nesse processo de criação. Um midrash explica que há três parceiros no nascimento de uma criança: o pai, a mãe e D’us. O pai é o responsável pela matéria branca, como os ossos, cavidades, unhas, cérebro e a parte branca dos olhos. A mãe é quem dá a matéria vermelha, que forma a carne, o cabelo, o sangue, a pele e a parte escura dos olhos. D’us oferece o espírito, o hálito, a beleza dos traços, a capacidade de ver, ouvir, pensar, falar e andar.

Desde os primórdios do judaísmo as crianças são consideradas algo precioso, que deve ser protegido, merecedor de tempo e energia. Esta visão não era comum nas civilizações antigas. Estudos arqueológicos e documentos antigos revelam que o infanticídio era aceito como forma mais efetiva de controle de natalidade, tanto na antiga Grécia quanto em Roma. Recém-nascidos eram abandonados nas ruas e nos campos.

Para o judaísmo, as crianças são os depositários de nossa tradição milenar, a garantia da continuidade do povo judeu. Sem nossos filhos não há judaísmo e é dever dos pais cuidar deles e protegê-los física e espiritualmente. As tradições para se receber e proteger a criança variam de comunidade a comunidade e de época a época. Nos tempos bíblicos, em Israel, era costume celebrar o nascimento plantando uma árvore – cedro para homens e pinheiro para mulheres. A criança iria crescer assim como a árvore. No dia do casamento, os pais dos noivos construíam com estas árvores o aposento nupcial. Em algumas comunidades, são colocados perto da cabeça do bebê livros com os Salmos de David, para protegê-lo. Em outras, fitas vermelhas ou pedras azuis utilizadas para evitar o ayn raá – mau olhado.

Os meses que antecedem o nascimento são cheios de feliz expectativa. Os pais estão ansiosos para que tudo esteja pronto para receber seu filho. Mas, apesar da ansiedade, alguns casais têm o costume de adiar os preparativos até o bebê nascer.

Algumas diferenças marcam as tradições do brit milá nas diversas comunidades sefaradim. Na comunidade síria, por exemplo, costuma-se fazer na noite que antecede o brit uma reunião religiosa festiva chamada Shadd-il-Asse. Os convidados – parentes, amigos e rabinos – lêem em aramaico trechos do Zohar visando a proteção do recém-nascido. Segundo os ensinamentos cabalísticos, um menino passa a ser judeu “por completo” somente após o brit, quando se torna parte da Aliança de D’us com o povo judeu, através de Abrahão. Assim que a leitura termina, são cantadas músicas típicas sefaradim, enquanto são servidos doces e refrescos.

O brit milá é realizado, em geral, logo cedo pela manhã. A avó costuma ser a madrinha e entregar o bebê a alguém a quem se queira homenagear. Em seguida, o bebê passa para os braços do irmão mais velho (ou de outro membro da família), que terá a honra de colocar a criança sobre a almofada ou a cadeira de Eliahu Hanavi. Na comunidade síria não há cadeira especial para Eliahu Hanavi, mas sim um parochet – tecido que cobre a arca para a cerimônia – especial no qual está inscrito o nome do profeta. Este é colocado em uma cadeira que simboliza a de Eliahu e na qual ninguém se senta.

Geralmente o sandak – padrinho do primeiro filho varão de um casal é o avô paterno; e, do segundo, o materno, e assim por diante. Pela tradição da maioria dos sefaradim os nomes são dados em homenagem aos pais vivos, da mesma forma como era feito desde o período Mishnaico até a Idade Média. A ordem de prioridade é a seguinte: o primeiro filho homem recebe o nome do avô paterno e o segundo, do avô materno. Procede-se da mesma forma com as meninas, que recebem os nomes de suas avós. A comunidade síria segue até hoje este costume. Algumas vezes os pais escolhem nomes de outros membros da família a quem querem homenagear.

Significado da circuncisão

De acordo a Aliança Sagrada selada entre D’us e Abrão, há 3.700 anos, se o bebê for do sexo masculino, deve ser feito o brit milá, um evento que movimenta toda a família. Mas o que significa brit milá? Em hebraico, brit (bris, na pronúncia ídiche) significa “pacto” e milá, circuncisão.

D’us ordenou a Abrãao o seguinte mandamento: “E vós sereis circuncidados na carne de vosso prepúcio. E será o símbolo de uma aliança entre Mim e vós...” (Gênese, 17:11). “E vós mantereis Minha aliança, vós e todos os vossos descendentes, por todas as gerações” (Gênese, 17:9-12). Desde então, os meninos de todas as nossas gerações são circuncidados no oitavo dia após o nascimento – e nunca antes.

A circuncisão simboliza o elo do novo filho do povo judeu com o seu passado, bem como sua lealdade com o seu legado futuro. Durante o ritual, são feitas preces que expressam a gratidão dos pais e pedem a bênção divina para o recém-nascido. Nesse momento, a criança recebe seu nome hebraico.

É o mandamento mais respeitado e observado em toda a história e a tradição judaica, seguido fielmente geração após geração, até mesmo durante períodos de perseguição religiosa. Todos aqueles que tentaram eliminar o judaísmo tentaram, sem sucesso, abolir a circuncisão. Quando os selêucidas governavam a Terra de Israel, o rei Antíoco IV determinou que a prática da circuncisão fosse punida com pena de morte. Mesmo diante do risco de vida, os judeus não se submeteram a essa proibição.

Após a destruição do Segundo Templo, o imperador romano Adriano também proibiu a circuncisão. Mais uma vez os judeus arriscaram suas vidas pelo direito de continuar a respeitar suas leis. No século V, na Espanha, o rei Sisibut ordenou aos judeus aceitar o batismo no lugar da circuncisão, pois assim teriam seus direitos assegurados. A resposta dos judeus foi taxativa: “A lei da circuncisão é a raiz da nossa religião... Mesmo sob pena de morte não abandonaremos nenhuma de nossas leis, essa em especial”.

O brit milá é feito no oitavo dia mesmo se este cair no Shabat ou em Yom Kipur. A cerimônia só pode ser adiada no caso de a criança estar doente ou abaixo do peso determinado pelas leis da halachá. O ritual começa com uma declaração do pai de sua intenção de cumprir esta mitzvá. O bebê é trazido sobre uma almofada por uma das avós ou pela madrinha, sendo colocado por alguns momentos na cadeira destinada ao profeta Eliahu que, segundo a tradição, está presente durante toda a cerimônia.

Denominado em referências bíblicas de “o anjo do pacto” e o protetor das crianças, Eliahu lutou no século X antes da era comum contra os soberanos do Reino de Israel – o rei Ahab e a rainha Jezebel, que haviam introduzido o culto a Ba’al, abandonando a Aliança com o Eterno, ou seja, a circuncisão. De acordo com a tradição, D’us recompensou o zelo de Eliahu determinando que nenhum brit milá ocorreria sem a sua presença. Sentado, Eliahu Ha-Navi observaria o cumprimento da Aliança.

Em seguida, a criança é colocada sobre os joelhos do sandak, que a segura durante a circuncisão, feita por um mohel – geralmente um rabino que recebeu um treinamento médico e religioso para realizar o procedimento. Nos tempos bíblicos era o próprio pai quem circuncidava o seu filho.

Ser escolhido como sandak é uma grande honra. Em geral, escolhe-se o mais velho ou o mais respeitado membro da família, freqüentemente, o avô paterno ou materno. Como vimos no texto acima, em algumas comunidades o avô paterno é sandak do primeiro filho de um casal e o materno, do segundo. No fim da cerimônia dá-se o nome em hebraico para a criança. Após o brit milá costuma-se realizar uma cerimônia festiva chamada seudat mitzvá.

Nome, a essência da alma

A palavra alma em hebraico, neshamá, é composta de quatro letras. Ao soletrar-se as duas letras do meio, surgirá a palavra shem, que significa “nome”. Diz a tradição judaica que o nome de uma pessoa é a essência de sua alma.

Está escrito que quando os pais escolhem um nome para o seu bebê são abençoados com inspiração divina. O nome não é apenas descritivo, é também profético. “Ele é como seu nome” (Samuel 25:25). O costume de não divulgar o nome da criança até a circuncisão ou a cerimônia de atribuição do nome tem origem em um conceito talmúdico.


Os meninos são nomeados durante a cerimônia de brit milá. As meninas recebem o nome hebraico na sinagoga, durante o primeiro Shabat que segue o seu nascimento. O pai é chamado para uma aliá à Torá e o mesader anuncia o Avi Habá. Em seguida, a congregação canta Pizmonim Lezeved Habat. O rabino lê a berachá, a misheberach e o nome da menina é dado com Bemazal tov ubisheat berachá. É uma reza com votos para que os pais tenham muitas alegrias com essa filha, que a vejam casada e mãe de filhos.

É costume na comunidade judaica ter um nome civil e um hebraico. Somos conhecidos na comunidade pelos nomes hebraicos e os usamos em cerimônias religiosas como barmitzvá, batmitzvá e ao recitar as preces na sinagoga ou sob a chupá, entre outras. Os homens o utilizam também quando são chamados à Torá e durante outros eventos.

Há duas tradições diferentes para guiar os pais em sua decisão de escolher os nomes de seus filhos. Os ashquenazim não costumam dar nome a uma criança em homenagem a um parente vivo. Os sefaradim, por sua vez, honram aqueles que mais respeitam e admiram, dando seu nome em vida ao recém-nascido.

É interessante notar que os judeus nem sempre tiveram sobrenomes. Estes não eram necessários quando viviam em cidades pequenas e quase não tinham contatos fora da comunidade. Uma pessoa poderia ser chamada a vida inteira de Chaim Ben Moshe e nunca precisar de sobrenome. Ou seu nome poderia ser Chaim, o padeiro, se essa fosse sua profissão.

Há aproximadamente 200 anos os países europeus começaram a exigir que os judeus tivessem sobrenomes e os registrassem. Freqüentemente os judeus criavam seus sobrenomes baseados em sua profissão ou no nome da cidade ou país de onde provinham. O nome Weber significa em alemão, tecelão, e o nome Brodsky significa “filho de Brod”, uma cidade polonesa. Alguns nomes se originam em características pessoais, como Gross, Weiss e Schwartz (grande, branco e preto). Estes nomes logo criaram raízes e foram transmitidos de geração em geração.