Morashá
Universidade Brandeis, uma universidade judaica Foto Ilustrativa

Universidade Brandeis, uma universidade judaica

O Estado de Israel acabara de ser criado quando foi inaugurada nos Estados Unidos a Brandeis University, a primeira e, até hoje, única universidade judaica secular na Diáspora. É raro encontrar, na história da educação do país, um caso de ascensão tão meteórica no mundo acadêmico norte-americano quanto foi o dessa universidade.

Atualmente a Brandeis situa-se entre as 35 melhores universidades dos Estados Unidos, e seu corpo docente ocupa o quinto lugar em número de professores eleitos para sociedades acadêmicas honoríficas.

Edição 80 - Junho de 2013

Tags: Educação


A história da Brandeis

Albert Einstein esteve envolvido no início do projeto da criação de uma universidade secular patrocinada pela comunidade judaica. Em fevereiro de 1946, o cientista concordou com a criação da Fundação Albert Einstein para a Educação de Nível Superior. A fundação adquiriu o campus da Universidade Middlesex, em Waltham, nas proximidades de Boston, que na época funcionava em condições precárias, mas ainda mantinha a Faculdade de Medicina e Veterinária. A licença para o funcionamento dessa pequena e precária organização foi transferido para a Fundação com seu campus – que incluía alguns edifícios antigos, entre os quais um que parece um castelo e ainda pode ser visto no campus da universidade. O laboratório de dissecação da Middlesex Medical School foi transformado em refeitório, o estábulo, em biblioteca, e o hospital veterinário, em uma clinica de fonoaudiologia.

O envolvimento de Einstein com o projeto, no entanto, foi de curta duração e terminou antes mesmo da inauguração da Universidade, pois suas ideias e visão sobre os rumos que devia tomar a nova universidade divergiam das dos fundadores.

Esse grupo compunha-se de judeus norte-americanos bem-sucedidos, todos filhos de imigrantes do Leste Europeu, entre os quais um rabino, um procurador e alguns industriais. Os recursos inicialmente arrecadados pelos criadores da universidade para sua instalação foram de quase US$ 1.500,000.

No verão de 1946, desejosos de homenagear o cientista, os fundadores cogitaram dar seu nome à instituição, mas Einstein recusou a honraria e, em julho daquele mesmo ano, os membros do conselho decidiram que a universidade teria o nome de Louis Brandeis, juiz da Suprema Corte de Justiça dos Estados Unidos e um dos nomes mais respeitados do judaísmo norte-americano. Eles determinaram ainda que, apesar de a nova instituição educacional ser patrocinada por judeus, seria aberta não apenas a judeus mas também, a estudantes e professores de todos os grupos étnicos e religiosos. Na época não havia certeza de que os jovens judeus, e muito menos não judeus, estariam dispostos a frequentar
uma universidade judaica, mas mesmo assim, o projeto foi levado adiante.

Em 1948, no mesmo ano em que o Estado de Israel foi criado, a Universidade Brandeis foi inaugurada e nela estavam inscritos apenas 107 alunos. Seu corpo docente era composto de 13 professores. Abram Sachar, renomado historiador do judaísmo, ocupava o cargo de presidente da universidade, tendo nele permanecido por 20 anos. Segundo Sachar, Brandeis nascera com uma missão: “Não seria apenas mais uma universidade, mas sim um símbolo da contribuição que o Povo Judeu queria dar ao mundo intelectual”. Os fundadores de Brandeis também acreditavam que a universidade era uma forma de os judeus norte-americanos retribuírem a liberdade e as oportunidades econômicas que os EUA haviam lhes oferecido.
Ao longo de sua gestão, Sachar provou que o impossível era possível e conseguiu, em pouco tempo, fazer de Brandeis uma universidade renomada e respeitada no meio acadêmico. Rapidamente a instituição entrou no ranking das melhores instituições acadêmicas particulares dos Estados Unidos, algumas das quais haviam sido fundadas nos séculos 17 e início do 18, antes mesmo de os Estados Unidos obterem sua independência.

Nos primeiros anos, a situação financeira da universidade era bastante precária. Por ser recém-criada, Brandeis não contava, como outras universidades norte-americanas, com polpudos fundos criados ao longo dos anos pelas contribuições de ex-alunos. A universidade podia contar apenas com as doações recebidas de filantropos judeus. A lista de doadores incluía personalidades famosas do judaísmo americano, como o cantor Eddie Fisher – que criou duas bolsas na área de música –, e o produtor da Broadway David Merrick, que cedeu à instituição uma parte da renda de “Gypsy”, uma de suas mais famosas produções teatrais.

O corpo docente da nova universidade foi uma das grandes vitórias de Sachar que conseguiu atrair voluntários com perfil de excelência que proporcionavam aos alunos experiências acadêmicas extraordinárias. Eleanor Roosevelt, ex-primeira dama dos Estados Unidos, é um exemplo. Além de integrar o conselho administrativo, ocupava a cadeira de Relações Internacionais e foi escolhida como principal oradora na primeira cerimônia de formatura realizada na Brandeis.

Entre os nomes famosos que lecionaram na universidade estão: o maestro Leonard Bernstein, que além de dar aulas criou o Departamento de Música; o renomado escritor Arthur Miller, que deu aulas de teatro, enquanto as aulas sobre poesia moderna foram ministradas pelo poeta e escritor W. H. Auden, um dos grandes autores do século 20 e por E.E. Cummings, poeta e dramaturgo americano considerado um dos principais inovadores da linguagem da poesia e da literatura no século 20.

Apenas sete anos após sua inauguração, em 1954, foi criado em Brandeis o primeiro curso de graduação, que logo conseguiu total reconhecimento do sistema educacional norte-americano.

Quinze anos depois de ser inaugurada, a universidade já tinha um campus com mais de 50 edifícios, incluindo biblioteca, a Goldfarb-Farber Library, com 750 mil volumes. Nele haviam sido criados também três locais separados de orações para judeus, católicos e protestantes.

Em 1985, a instituição passou a fazer parte da Associação das Universidades Americanas, órgão dedicado à educação em nível de graduação e pesquisa, que representa 61 universidades líderes de pesquisa nos EUA e no Canadá.

Arrecadação de fundos

Pode-se dizer que a criação da Brandeis foi um verdadeiro ato de fé por parte de seus fundadores. Para o projeto se tornar realidade, era necessário um fluxo constante de generosas contribuições monetárias da comunidade judaica norte-americana, algo que não era tão simples na época. Após a 2ª Guerra, a realidade do Holocausto e a relativa ajuda que a comunidade judaica americana prestara aos judeus da Europa havia pesado na consciência dos judeus americanos. Esse sentimento fez com que se tornasse prioridade absoluta arrecadar recursos a fim de ajudar os sobreviventes da Shoá e apoiar a luta para a criação de um estado judaico na então Palestina. Dentro desse contexto, a criação de uma universidade judaica nos Estados Unidos parecia um requinte caro e, para alguns, dispensável.

Como já vimos, ainda havia a incógnita sobre o número de alunos que a universidade conseguiria atrair. Quantos jovens judeus estariam dispostos a frequentar uma universidade recém-criada? E quantos não judeus estariam dispostos a matricular seus filhos em uma instituição de ensino que, apesar de ser não segregacionista, era patrocinada por judeus, cujos alunos eram em sua esmagadora maioria judeus e cujo dia a dia se baseava na vida e nos valores judaicos?

Até hoje, 65 anos após sua fundação, a Brandeis mantém sua identidade judaica. Trata-se ainda da única universidade judaica secular na Diáspora, patrocinada por judeus, com alunos que são, em sua maior parte judeus, mas com portas que estão aberta a todos.

Apesar das dificuldades os fundadores levaram adiante seus planos. O principal argumento era ser imprescindível criar uma universidade judaica de nível excelente como alternativa para os jovens judeus que eram rejeitados por outras instituições educacionais norte-americanas por causa do antissemitismo. Na época havia, nas mais prestigiadas universidades do país, principalmente entre as da Ivy League1, cotas de admissão para judeus, as quais limitavam o número de aceitos, não importando as qualificações do aluno em questão. Segundo Albert Einstein, “muitos de nossos mais talentosos jovens viam negado seu direito à cultura, à educação e à formação profissional superior que tanto almejavam”.

Em 1948, com a inauguração de Brandeis, o sonho tornou-se realidade. Milhares de jovens judeus passaram a ter acesso à instrução de alto nível, comparável à oferecida por algumas das mais antigas e prestigiadas universidades americanas.

A biblioteca e suas voluntárias

A primeira biblioteca da Brandeis contou com o esforço e o trabalho de um grupo de voluntárias. Oito mulheres organizaram um pequeno exército de colaboradores para arrecadar fundos para o projeto. Este constituiu o núcleo da Associação Nacional de Mulheres da Universidade Brandeis. Mulheres judias de todo os Estados Unidos se uniram à nova entidade, que hoje é uma das maiores associações de amigos de bibliotecas do mundo, com cerca de 50 mil membros.

De costa a costa, mulheres judias se envolveram de corpo e alma para fazer da Brandeis e sua biblioteca o orgulho da comunidade judaica norte-americana. Quando a universidade foi inaugurada, a biblioteca – instalada nos estábulos da antiga Middlesex Medical School –, contava apenas com uma dezena de livros, mas em pouco tempo esse número chegou a mil e, no final do primeiro ano de funcionamento, a dez mil. Em 1997, o número de obras nas estantes da Biblioteca Goldfarb-Farber atingiu um milhão. O milionésimo livro adquirido foi uma obra rara: a primeira edição do livro The Law of God, de Isaac Leeser, de 1845, edição em hebraico e inglês do Pentateuco.

Atualmente, a Biblioteca Goldfarb-Farber possui mais de 1.6 milhão de livros e 300 mil periódicos eletrônicos; além disso, abriga um amplo arquivo do Governo dos EUA. Em 1976 foi criado mais um centro para a manutenção da cultura judaica, The National Center for Jewish Film. O NCJF possui um extraordinário e incomparável arquivo de filmes judaicos. Dá prioridade à organização, preservação e restauração de películas judaicas raras, tendo sido restauradas, até hoje mais de 100 delas, sendo 44 em iídiche.

Estudos Judaicos

Não é de surpreender que, de todas as universidades norte-americanas, nenhuma tenha tido um desempenho tão significativo na área de estudos judaicos quanto a Brandeis. Foi a primeira universidade secular a criar um Programa de Estudos Judaicos, e em seu corpo docente há renomados professores e estudiosos de temas bíblicos, historiadores, filósofos, sociólogos e estudiosos do pensamento judaico.

Inúmeros pensadores judeus importantes fizeram parte do corpo docente da universidade. Entre eles Nahum Glatzer e Alexander Altmann, duas das maiores autoridades mundiais em filosofia judaica. Glatzer foi titular da cadeira de Filosofia e Ética Judaica da Universidade de Frankfurt, até 1933, quando deixou a Alemanha. Essa cadeira fora anteriormente ocupada por Martin Buber. Altmann foi rabino em Berlim e palestrante no Seminário Rabínico Ortodoxo da cidade até 1938, quando fugiu da Alemanha. Os dois integraram-se ao grupo de professores da Brandeis na década de 1950.
Em 1980, a Universidade Brandeis criou o Centro de Estudos Judaicos Modernos Maurice e Marilyn Cohen. Tratava-se do primeiro centro acadêmico dedicado ao estudo da vida judaica nos Estados Unidos, principalmente a contemporânea, do papel de suas instituições e das relações entre a comunidade judaica norte-americana e Israel.

A mulher judia tornou-se objeto de pesquisas quando, em 1997, foi criado o Instituto Hadassah-Brandeis. À frente dessa iniciativa, encontrava-se sua fundadora e uma das diretoras, a socióloga Shulamit Reinharz.
No ano de 2005, foi criado, com a doação de Michael Steinhardt, o Instituto Steinhardt de Pesquisa Social. Tem como objetivo coletar, analisar e divulgar dados sociodemográficos e realizar pesquisas e estudos sobre o perfil do judaísmo e das organizações judaicas norte-americanas.

Vida judaica no campus

Apesar de as portas de Brandeis serem abertas a todos os credos e etnias, o judaísmo está presente no dia a dia da universidade e os valores judaicos servem como guia para muitos dos valores da Universidade.

Entre outros exemplos a serem citados, não há aulas no Shabat e nas principais festas judaicas, incluindo os oito dias de Pessach, e os alunos que quiserem, podem optar por fazer as refeições no refeitório casher. Brandeis tem também um Eruv, dentro do qual judeus são autorizados a carregar objetos no Shabat. Atualmente há algumas centenas de judeus ortodoxos modernos, entre os quase 3.500 alunos na Universidade e há também alunos estritamente ortodoxos.

Até pouco tempo, jovens ultraortodoxos não estudavam em Brandeis, pois a universidade era vista como uma escola secular que não atendia às suas necessidades especificas.

Em termos acadêmicos, Brandeis oferece inúmeras oportunidades para o estudo e pesquisa nas áreas judaicas. Tem um excelente corpo docente tanto para essas áreas de estudos, inclusive a língua e literatura hebraica e mulheres no judaísmo quanto para a área de estudos sobre Israel e o Oriente Médio.

A comunidade judaica de Brandeis é muito ativa e se envolve em inúmeros projetos e atividades, inclusive de cunho social. Há várias sinagogas e organizações, entre elas quatro estudantis: uma ortodoxa, uma conservadora, uma reformista e uma reconstrucionista. Os membros de cada organização se reúnem para as orações diárias, no Shabat, nas festas e em outros eventos comunitários. Quando uma festa judaica cai durante o ano letivo, Brandeis oferece vários serviços religiosos e celebrações. Cada grupo comemora as datas do calendário judaico com o intuito de criar um ambiente acolhedor e familiar para seus afiliados que estão longe da família. Os jantares do Shabat são um exemplo da diversidade e harmonia judaica no campus. Nas noites de sexta-feira, várias centenas de jovens judeus de diferentes linhas religiosas comemoram juntos a entrada do Shabat.

A universidade participa também, anualmente, do Programa Taglit-Birthright Israel, cujo objetivo é dar aos jovens judeus que jamais foram a Israel a oportunidade de conhecer o país. Por ser uma universidade não sectária, inexiste na Brandeis uma “experiência judaica universal”, sendo a medida de judaísmo que terá a vivência de cada pessoa determinada por ela.

Rumo à excelência acadêmica

Os 107 alunos que compuseram a primeira turma de 1948 haviam se matriculado em uma instituição cujo futuro era, no mínimo, nebuloso. Com US$ 33 mil no banco, a situação financeira da Brandeis e seu futuro eram precários. Mas, ao longo de 65 anos, a universidade passou de um simples sonho a uma das melhores instituições de nível superior dos EUA.

Brandeis chegou ao século 21 com uma dotação patrimonial de US$ 400 milhões, mais de 300 professores e assistentes em tempo integral. Com uma média de estudante-docente de 10:1, mais de 60% de suas classes têm menos de 20 alunos.

A ascensão acadêmica de Brandeis foi meteórica, algo raramente visto, para não dizer sem paralelo, na história do sistema educacional norte-americano. Em 2012, a revista norte-americana US News and World Report publicou um ranking sobre as melhores universidades dos EUA e a Brandeis ficou em 310 lugar. Considerando-se seu tamanho, é a quinta do país em professores eleitos para sociedades acadêmicas honoríficas. Integrante da Imprensa Universitária da Nova Inglaterra, a Brandeis publica anualmente inúmeras obras acadêmicas.

A lista de formandos ilustres da universidade inclui celebridades do universo social, cultural, politico e econômico dos Estados Unidos, entre os quais os criadores da série de sucesso Friends, David Crane e Marta Kauffman, o jornalista Thomas Friedman, o congressista e ativista politico Abbie Hoffman, Angela Davis, Stephen J. Solarz, o romancista Ha Jin, o teórico politico Michael Walzer, a atriz Debra Messing, o filósofo Michael Sandel, a teórico social e psicoanalista Nancy Chodorow, e o autor Mitch Albom, autor da obra "Tuesdays With Morrie”.

Atualmente, o campus da Brandeis compõe-se de 100 prédios.
A universidade tem mais de 3.500 alunos em cursos de graduação e mais de 2.000 nos de pós-graduação. Os alunos da graduação podem escolher entre 43 majors (cursos principais) e 45 minors (cursos de importância secundária) e muitos deles preferem se formar em vários cursos de ambas as categorias.  Também são oferecidos diplomas em quase 20 disciplinas em programas de graduação. Além do Instituto de Artes e Ciências, que oferece cursos de graduação e pós-graduação, a Brandeis sedia a Escola Heller para Política e Gerenciamento Social, a Escola Rabb para Estudos Continuados, e mais de 30 institutos e centros de pesquisa que contribuem para a vida acadêmica do campus.

As áreas mais procuradas pelos alunos são biologia, administração, economia, estudos internacionais, ciências políticas, governo e psicologia. O índice de evasão dos cursos é muito pequeno. A Brandeis atrai muitos estudantes estrangeiros – quase 12% dos alunos de graduação são originários de outros países e o mesmo ocorre com 31% dos alunos de pós-graduação. A universidade mantém o mesmo padrão de admissão das principais universidades norte-americanas, e 20% do seu quadro discente provém dos colégios de ensino médio de excelência.