Morashá
UM NOVO DESPERTAR Foto Ilustrativa

UM NOVO DESPERTAR

Este renovado interesse no judaísmo é parte de uma busca pela espiritualidade que brotou no leste europeu, no vácuo criado pela queda de uma ideologia desacreditada, isto pelo lado político.

Edição 33 - Junho de 2001


O momento europeu é cinzento e duvidoso, a despeito da queda do Muro de Berlim e do comunismo, há mais de uma década, ou justamente por essa razão. Há tensão nas fronteiras da Europa Oriental. A Europa Ocidental sofre com o crescente desemprego e se volta para dentro de si mesma, obcecada com seus problemas internos. Guerras intestinas dizimam populações irmãs; bósnios matam-se entre si, sejam croatas, sérvios ou muçulmanos. Xenofobia, violência dos movimentos de extrema direita, skin heads; ataques aos imigrantes. O medo é quase visível nos semblantes dos europeus, judeus ou não.

Aos judeus, afetam especialmente a mesma e crescente xenofobia, o rápido e contínuo aumento da população muçulmana e um forte desgaste no apoio da União Européia a Israel desde o recrudescimento da violência palestina, no ano passado. Não menos preocupantes são as questões da negação do Holocausto e da disseminação do ódio pela Internet, paralelamente ao sucesso político dos partidos de extrema direita e uma indisfarçável tolerância ao anti-semitismo. Provas tristemente irrefutáveis disto são as ondas de vandalismo contra sinagogas, cemitérios e outros alvos judaicos.

No entanto, contra esse pano de fundo, vemos renascer a vida judaica na Europa. A identidade judaica volta a tomar corpo e a fincar raízes no mesmo solo em que pereceu a grande maioria dos 6 milhões de judeus durante o Holocausto. Fala-se, cada vez mais, em uma identidade judaica. Jovens redescobrem a sua herança, há tanto perdida; sabiam que eram judeus, mas não sabiam o que era ser judeu. Na melhor das hipóteses, tinham uma identidade negativa; ou seja, eram judeus porque não eram alemães ou húngaros ou poloneses.

Antes do Holocausto, o judaísmo era uma cultura com características predominantemente européias e os judeus tinham significativa representatividade nesse continente. No entanto, a Solução Final se encarregaria de mudar este quadro para sempre. Transcorrido meio século após essa tragédia, a população judaica mundial termina o século apenas se igualando a seu número no início do mesmo. Na década de 1930, Hitler prometia que bastaria mais uma única guerra para que não mais houvesse judeus na Europa. Faltou pouco para que lograsse seu intento. Mesmo hoje, no início do século 21, ainda não chegamos aos 18 milhões de judeus, no mundo, que éramos em 1933, quando os nazistas subiram ao poder.

A Europa judaica tinha então 9 milhões de judeus – hoje beira 2 milhões; alguns dizem 3. São imprecisos os números pois nem todos os judeus se cadastram em comunidades e são raros os países em que os documentos trazem esta identificação. E como tratar os filhos de casamentos mistos? A quem considerar judeu?

Tentando chegar a termos com as diferentes estatísticas, fico a me perguntar: por que um judeu haveria de querer voltar à Europa? Como um judeu polonês voltaria a viver na Polônia, de onde meu pai, em 1930, aos 15 anos, ainda imberbe e freqüentando o cheder, fugiria para Paris com outros dois amigos, para não se sujeitar à maldosa perseguição de seus vizinhos e ao notoriamente anti-semita serviço militar polonês? Por que voltar a Cracóvia, Varsóvia, a qualquer canto dessa Polônia onde somente lá mais de 3 milhões dos nossos foram massacrados? E a Berlim, Antuérpia, Budapeste ou Praga? Riga, Minsk, Moscou, por quê? Voltar para estes centros judaicos de onde milhões não conseguiram sair e de onde os poucos que restaram fugiram, escorraçados como animais?

Após a guerra algumas centenas de milhares de sobreviventes partiram imediatamente para Israel, para a Europa Ocidental e para os Estados Unidos. Outras centenas de milhares conseguiram sair da antiga União Soviética nas décadas de 1960 e 1980. E muitos outros milhares, após a queda do comunismo, no final da década. Ficaram para trás cerca de 2 milhões, como uma tênue sombra de uma comunidade que já fora vibrante. Uns por serem idosos e já sem forças de enfrentar uma nova mudança. E a maioria por serem os filhos e netos e bisnetos assimilados de gerações que há muito haviam perdido contato com o seu judaísmo. Mas por que voltar para lá, onde foram massacrados e pisados e descaracterizados do que tinham de mais intrinsecamente seu, o seu judaísmo, por quê?

Enquanto tento encontrar uma resposta, leio, estupefata, que muitos judeus, sim, quiseram retornar à Europa para reconstruir sua vida justamente lá, palco de tanto sofrimento, de tanto horror. E a despeito da dor passada e da incerteza futura os judeus se esforçam para continuar em solo europeu, da Antuérpia à Paris, Berlim, Varsóvia, Praga ou Budapeste, recriando o seu passado lá onde consideram ser a terra de seus antepassados, seu torrão natal.

Nessas cidades e em centenas de outras menores, do Mar Báltico ao Mar Negro, as comunidades judaicas renascem, formando uma espécie de minian continental. Sinagogas e escolas se reerguem, às vezes no mesmo local de antigas instituições judaicas. Os judeus voltam a ter orgulho em portar este nome, revivendo tradições e culturas há muito soterradas sob as cinzas dos fornos crematórios – que matavam o corpo judeu – ou o peso da opressão comunista – que matava a alma judia. Esta ressurreição judaica não é novidade em nossa história. Na Pérsia, sobrevivemos à violência do regime de Ahashverosh; na Península Ibérica medieval, aos horrores da Inquisição. E agora, eisnos ressurgindo na Europa.

Este renovado interesse no judaísmo é parte de uma busca pela espiritualidade que brotou no leste europeu, no vácuo criado pela queda de uma ideologia desacreditada, isto pelo lado político. E pelo lado da religião, explicase a tendência para um judaísmo mais ortodoxo, especialmente na França e na Holanda, como uma conseqüência do Holocausto, que mostrou que não adiantava ser judeu assimilado. Um judeu jamais deixa de ser judeu, tanto para a nossa tradição quanto para nossos inimigos.

Há sinais otimistas desse ressurgimento que podem ser vistos na reabertura de um Seminário Rabínico, de mais de 125 anos, ou de uma Escola Pedagógica Judaica, em Budapeste, onde recebe treinamento uma nova geração de futuros líderes religiosos. Ou de escolas onde se ensinam o hebraico e a história judaica, como parte do currículo escolar nacional. Paris voltou a ser importante centro judaico, enquanto floresce, nos passos da riqueza passada, a vida judaica na Antuérpia. Em Berlim, em Moscou, em Minsk e em várias outras cidades os movimentos juvenis, através de shlichim da Agência Judaica, e os rabinos do movimento Lubavitch, com seu zelo quase missionário, vão atrás, descobrindo e recuperando de volta ao seio de nosso povo e de nossa religião judeus que pela primeira vez na vida tentam aprender algo sobre sua herança. Em Praga, o roteiro judaico tornou-se a grande moda e todos querem estudar e explorar os aspectos da cultura e da religião. As sinagogas já têm serviços diários, abrem-se restaurantes casher e, na Polônia, revive o tão famoso teatro iídiche. Os filhos começam a atrair os pais para este renascimento, fazendo concretizar-se a profecia do livro de Malaquias, quando diz que ‘... D’s converterá o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos a seus pais...’. Vê-se mais claramente esta situação nos países da antiga União Soviética e na Europa Central, onde o comunismo conseguiu impedir que toda uma geração, a dos hoje pais e avós, tivesse qualquer contato com sua origem judaica.

Ao lado deste despertar judaico, há o ceticismo dos sobreviventes, que apesar deste movimento à sua volta não vêem grande futuro para os judeus, a não ser em Israel. Ainda há medo e desconfiança. O crescente anti-semitismo e nacionalismo que os rodeia traz de volta as duras lembranças de seu passado; sabem que a vida judaica jamais alcançará a glória de outrora. O mundo do shtetl está perdido para sempre.

Leio estas notícias e vejo que ainda assim estes judeus não saíram de lá; que apesar de pensarem dessa forma consideram-se holandeses ou alemães ou húngaros; apesar de portarem no antebraço a marca azulada indelével da inconcebível barbárie nazista, única prova racional de tanta irracionalidade. Quem sobreviveu quer que o passado seja contado e lembrado, mas não por sua boca. Para eles, basta fechar os olhos e todo o horror desfila diante de seus olhos. Não querem que o passado se repita. Sabem que algo tem que ser feito na Europa.

E a liderança judaica européia também o sabe e mostra sinais de preocupação. Os líderes dos 18 países europeus onde há comunidades que tentam reorganizar-se se têm reunido com os judeus norte-americanos e suas instituições centrais. Vêem diante de si o grande desafio de reorganizar suas comunidades, para assim responder à motivação dos jovens em continuar a ser judeus. O presidente da minúscula comunidade judaica da Finlândia e o presidente do Conselho Central de Judeus da Alemanha sabem que as instituições judaicas têm que mudar, renovar-se, fortalecer-se para vencer a barreira da assimilação e dar uma base sólida a este renascimento, talvez um pouco desconcertado e que atira em todas as direções. Sabem-no, também, o presidente do Conselho Europeu das Comunidades Judaicas e o Rabino que dirige o Centro Educacional Lauder, em Varsóvia; e o Grão Rabino da França e o Rabino que dirige o Seminário Rabínico de Budapeste. Sabem todos os líderes judeus da Europa que há necessidade de vínculos mais fortes com Israel e com os judeus norte-americanos, para que o judaísmo europeu possa chegar a ter algum significado na vida judaica mundial. Pois querem se tornar nosso terceiro pilar, ao lado de Israel e dos judeus da América do Norte.

Vejo, sim, que esses judeus despertaram para a sua herança adormecida há mais de meio século. Voltaram e quiseram ficar, a despeito das novas ondas anti-semitas e neonazistas, a despeito dos fantasmas do passado e das incertezas do futuro. Voltaram porque não quiseram ver acabar-se a história do judaísmo europeu, a história de cada uma de suas comunidades. Os judeus europeus ficaram para construir uma nova sociedade na terra de onde provinham seus ancestrais – franceses, poloneses, húngaros, finlandeses ou alemães. Quiseram conviver com a memória da pujante vida judaica que outrora floresceu nessas e em outras comunidades. Por isso, no mesmo lugar onde os nazistas criaram e levaram a cabo Auschwitz, jovens judeus alemães tentam resgatar a sua rica herança.

Vejo e começo a entender que, mesmo traumatizados e dizimados, os judeus europeus não quiseram dar a Hitler a glória póstuma de ter alcançado o seu objetivo de varrer todo o nosso povo para fora da Europa. E começo a entender que por causa desses poucos que voltaram, o judaísmo vislumbra um futuro na Europa. Finalmente, derrotamos Hitler.

Lilia Wachsmann

Bibliografia:
Kurlansky, Mark.
A Chosen Few – The Resurrection of European Jewry , N.Y., 1994
Hoffman, Charles: Grey Dawn – The Jews of Eastern Europe in the Post-Communist Era, N.Y.,1992
Lacqueur, Walter. Europe in Our Time: A history, 1945-1992, N.Y., 1992
Material do Congresso Judaico Mundial e da mídia, em geral.