Morashá
Tempos difíceis para os judeus da Ucrânia Foto Ilustrativa

Tempos difíceis para os judeus da Ucrânia

Não é a primeira vez, em sua história longa e turbulenta, que a Ucrânia é palco de sangrentas lutas, nem a primeira em que se defronta com uma guerra civil ou que enfrenta a Rússia em questões territoriais. Tampouco é a primeira vez que a população judaica do país se vê em meio a uma feroz disputa de poder entre Kiev e Moscou.

Edição 85 - Setembro de 2014


No passado, as lutas internas foram desastrosas para os judeus, pois, além do antissemitismo estar no DNA da Ucrânia, a violência contra os judeus sempre tende aumentar em épocas conturbadas. Simon Wiesenthal disse, certa vez, que “onde a democracia é forte, é bom para os judeus, e onde é fraca, é mau para os judeus”.

Hoje vivem na Ucrânia cerca de 70 mil judeus praticantes e entre 300 e 400 mil ucranianos têm origem judaica. A pergunta que paira é o que eles vão fazer perante a questão da Ucrânia versus Rússia. O Rabino Chefe de Odessa, Abraham Wolff, diz que os judeus estão divididos sobre essa questão, assim como a comunidade mais ampla.

Conflito interno

Para entender a crise ucraniana, é preciso lembrar que a Ucrânia é um país dividido tanto do ponto de vista étnico quanto cultural. A população da Ucrânia do Sul e Oriental têm maioria russa, fala russo e tende a ser pró-Moscou. Já a da Ucrânia Central e Ocidental é ucraniana, nacionalista, fala ucraniano e, desde que o país se tornou independente, em 1991, com o fim da União Soviética, deseja fazer parte da União Europeia.

A crise que está dilacerando o país e preocupando o Ocidente teve início em 21 de novembro de 2013, quando protestos espontâneos irromperam na capital, Kiev, após Viktor Yanukovych, presidente ucraniano de etnia russa, ter sustado os preparativos para a assinatura de um Acordo de Associação e de um Acordo de Livre Comércio com a União Europeia, em favor de relações econômicas mais estreitas com a Rússia. A violência das forças do governo na repressão das manifestações levou um número crescente de manifestantes às ruas – chegando a 800 mil na primeira semana de dezembro. Os protestos foram alimentados pela crise econômica, a falta de emprego e a corrupção generalizada em todas as esferas do governo.

Inicialmente conduzida por estudantes universitários, a Euromaidan, como passou a ser chamada, acabou reunindo amplos setores da população ucraniana, inclusive elementos de direita, de extrema-direita e simpatizantes do fascismo e do nazismo.

São numerosos os membros do partido ultranacionalista Svoboda1 e da coalizão de grupos neonazistas, denominada Setor Direita. Líderes desses partidos têm expresso abertamente suas ideias antissemitas.

Em fevereiro deste ano de 2014, o presidente Viktor Yanukovich é removido do poder, assumindo um governo de coalizão que inclui grupos pró-Europa e de extrema direita. Nas eleições realizadas em regime de urgência, a população vota a favor do novo governo pró-Ocidente. Petro Poroshenko, um dos pilares dos protestos Euromaidan, assume a presidência do país.

De tendência pró-Ocidente, apoia as ações militares contra o movimento separatista pró-Rússia e adere à UE. Empresário bilionário especialista em relações econômicas internacionais, Poroshenko já ocupou o Ministério da Economia e das Relações Exteriores, bem como a presidência do Banco Central.

Moscou não reconheceu como legítima a troca de governo, enquadrando-a como golpe de Estado. As populações ucranianas da fronteira com a Rússia alinham-se com Putin, e denunciam a legitimidade do novo governo. Ao mesmo tempo, milhares de soldados sem identificação tomam bases militares na Península da Crimeia, dando apoio aos separatistas pró-soviéticos.
As tensões culminaram com a anexação da Crimeia pela Rússia, em março deste ano, quando um referendo realizado – não reconhecido nem pelo governo ucraniano nem internacionalmente – deu a vitória aos separatistas.

Após a anexação da Crimeia pela Rússia, outras regiões e cidades de maioria russa também manifestaram sua intenção de se separar da Ucrânia. Separatistas pró-Rússia acabam criando áreas autoproclamadas como “repúblicas populares independentes”. Em maio, a República Autoproclamada de Donetsk e a de Lugansk unificaram-se sob o nome de Novorossia (Nova Rússia). 

Moscou e Kiev têm trocado sérias acusações. O governo da Ucrânia acusa o presidente russo Vladimir Putin de apoiar e armar os rebeldes separatistas, o que ele nega. Já Moscou diz que as “operações punitivas” do governo ucraniano contra os separatistas são “atos criminosos”.

A crise foi agravada com a queda do Boeing-777 da Malaysia Airlines, e a morte dos 289 ocupantes, na região à leste de Donetsk, palco dos combates separatistas. Após a queda, autoridades de todas as partes envolvidas: o governo russo, o ucraniano, além do representante de Donetsk, negaram ter abatido o avião. Mas, os especialistas dizem que apenas os mísseis terra-ar, guiados por calor, fornecidos pela Rússia aos separatistas, seriam capazes de abater um avião daquele porte.

Contra esse pano de fundo, os conflitos entre tropas oficiais e separatistas pró-russos já deixaram mais de 400 mortos. Por causa dos combates na região leste da Ucrânia, centenas de judeus são hoje refugiados. Eles sobrevivem graças à assistência de grupos judaicos locais e estrangeiros que, nas últimas semanas, iniciaram importantes operações de auxílio e resgate.

A Comunidade Judaica

Apesar de não ser o centro da luta pelo futuro da Ucrânia, a comunidade judaica têm funcionado como um conveniente instrumento político e uma importante peça no xadrez político entre Ucrânia e Rússia. Em discurso realizado no Kremlin, em março, Putin declarou que a derrubada do presidente ucraniano Yanukovych havia sido um golpe armado e executado por nacionalistas, neonazistas, russófobos e antissemitas. Nas semanas iniciais do Euromaidan, a televisão russa e a mídia impressa relataram que o estado ucraniano estava sendo “atacado por neonazistas, fascistas e bandidos”.

A Liga Anti Difamação da B’nai B’rith conclamou todas as partes envolvidas no conflito para se absterem de uma “exploração cínica e politicamente manipulativa do antissemitismo “. No entanto, ninguém pode negar que o espectro do antissemitismo voltou à Ucrânia.

Apesar de a mídia do Ocidente não ter coberto a ameaça neonazista à comunidade judaica na Ucrânia, essa ameaça é real. (O completo blecaute da mídia é confirmado pelo Google News search, pois é virtualmente ausente a cobertura da grande mídia à ameaça à comunidade judaica na Ucrânia).

Caricaturas antissemitas, suásticas e outras imagens nazistas têm aparecido com frequência em manifestações, jornais e revistas, e em muros de várias cidades. Em Donetsk, por exemplo, judeus da comunidade local têm relatado que grafites antissemitas começaram a surgir assim que enfraqueceu o Estado de Direito. “Começamos a ver suásticas pintadas nos bancos das praças e nos edifícios”.

Elementos antissemitas têm aproveitado o caos político para cometer atos de violência contra judeus e instituições judaicas. Segundo o Rabino Chefe do leste da Ucrânia, Shmuel Kaminezki, quando os protestos contra Yanukovych começaram em novembro, embora muitos judeus compartilhassem as aspirações pró-europeias dos manifestantes, havia um grande temor sobre a atuação dos grupos de extrema direita nas manifestações. Alguns deles são neonazistas ou neofascistas, pessoas sem pejo algum de manifestarem abertamente seu ódio aos judeus. O Svoboda causava a maior preocupação por causa das declarações antissemitas feitas por seus líderes no passado e pela importância que atribuem aos “heróis” nacionalistas ucranianos, considerados verdadeiros carrascos pelos judeus.Entre eles, Bohdan Chmielnicki, responsável pelos massacre de 1648- 1649, quando morreram cerca de 100 mil judeus; Symon Petliura, considerado responsável pelos pogroms de 1917-1921; Stepan Bandera, que criou as Waffen SS Ucranianas da Galícia e as Divisões Nichtengall e Roland, que participaram do assassinato de judeus.

Em fevereiro último, dois importantes rabinos ucranianos alertaram a comunidade judaica sobre o perigo que seus membros corriam. O Rabino Moshe Reuven Asman recomendou à sua comunidade que abandonassem a região central de Kiev, ou se mudassem de cidade e, se possível, abandonassem o país! O Rabino Asman disse ao jornal israelense Maariv: “Há alertas constantes sobre planos de atacar as instituições judaicas”.

O Rabi Yaacov Dov Bleich, que, desde 1990, é o Rabino Chefe de Kiev e da Ucrânia, abordou a delicada situação da comunidade judaica durante uma entrevista no programa de rádio de Aaron Klein, da WABC, em Nova York. Ele afirmou ter recomendado à comunidade que fosse vigilante e evitasse locais onde estivessem ocorrendo manifestações.

Desde o início da crise, cresceu o número de ataques contra indivíduos judeus. Em janeiro, um professor de escola judaica foi atacado em Kiev. Em fevereiro, desconhecidos atiraram coquetéis molotov na entrada da sinagoga Chabad Giymat Rosa, em Zaporozhye, localizada a 400 km a sudeste de Kiev – não houve feridos. Essa sinagoga foi inaugurada em 2012 – sinal da retomada do judaísmo na Ucrânia – e foi construída no local onde os judeus da comunidade receberam ordens para se reunir antes da deportação nazista para os campos de extermínio. Em março, os muros da sinagoga em Simferopol, capital da República da Crimeia - anexada nesse ano de 2014 pela Federação Russa, foram pichados com suásticas e as palavras “morte aos judeus”.

Em abril, surgiu um panfleto em Donetsk, à leste da Ucrânia, que trouxe tristes lembranças dos idos de 1941 aos judeus da cidade. Com o selo de “República de Donetsk” – o selo usado pelos separatistas da região – o panfleto pedia aos habitantes judeus que se registrassem junto à Prefeitura para pagar um imposto per capita. Para causar maior impacto, foi pregado em uma árvore bem em frente de uma sinagoga, para garantir que a congregação o visse ao sair dos serviços religiosos. A pequena comunidade de Donetsk ficou aterrorizada. A Liga Anti Difamação mostrou ceticismo quanto à autenticidade do folheto ter sido obra dos separatistas, mas, qualquer que fosse a sua origem, as instruções claramente recordativas da época nazista tiveram o efeito de intimidar a comunidade judaica local. Também em abril a sinagoga de Nikolayev, no sul da Ucrânia, foi atacada com bombas incendiárias. Essa cidade é famosa por ser o local de nascimento do Rabi Menachem M. Schneerson, o Lubavitcher Rebe.

Em junho, Oleksandr Feldman, jurista ucraniano e presidente do Comitê Ucraniano, foi ameaçado em Kiev por homens uniformizados que bradavam insultos antissemitas. Feldman, que usa kipá, é um dos judeus mais conhecidos na Ucrânia. Homens armados e mascarados também ameaçaram incendiar a casa de um dos Rabinos Chefes do país, o Rabino Yaakov Dov Bleich, presidente da Confederação Judaica da Ucrânia, mas foram impedidos a tempo.

Obviamente as instituições judaicas reforçaram sua segurança e alguns eventos públicos foram cancelados. Por sua vez, a Agência Judaica informou que forneceria auxílio na segurança às instituições judaicas.

É importante ressaltar que manifestações de cunho antissemita e atentados contra a comunidade judaica na Ucrânia são perpetrados tanto por nacionalistas ucranianos como pelos separatistas pró-Rússia. Nessa região o antissemitismo é secular, estando impregnado na cultura ucraniana. Os perpetradores dos incidentes relatados nesta matéria e de outros contra judeus ou instituições judaicas são, em sua maioria, membros de grupos antissemitas ou são oponentes políticos. Os motivos diferem; alguns simplesmente odeiam os judeus, outros querem “provar” ao mundo o cunho fascista do novo governo ucraniano ou o antissemitismo russo. As vítimas, porém, são sempre os judeus.

1 União Pan-Ucraniana, “Svoboda” Liberdade, é um partido político ucraniano ultranacionalista de extrema direita considerado por muitos fascista e antissemita. É, atualmente, um dos cinco maiores partidos do país e sua filiação foi restrita apenas aos ucranianos étnicos.Três membros do partido ocupam posições no governo.