Morashá
Judeus e Prêmio Nobel Foto Ilustrativa

Judeus e Prêmio Nobel

O Prêmio Nobel é o reconhecimento de maior prestígio dado a homens ou mulheres que, com seu trabalho, contribuíram para o bem e o progresso da humanidade.

Edição 74 - Dezembro de 2011


É, sem dúvida o prêmio mais cobiçado; entre seus laureados estão os nomes mais importantes do século 20: Marie Curie, Albert Einstein, Madre Teresa e o Dalai Lama, só para citar alguns. Premia as áreas da Paz, Literatura, Química, Medicina, Física e, desde 1969, Economia.

Neste ano, quando a Real Academia de Ciências da Suécia encerrou a divulgação dos  laureados com o Nobel de 2011, dentre os vencedores, cinco eram judeus: Saul Perlmutter e Adam Riess receberam o Nobel de Física; Ralph Steinman, que morreu três dias antes do anúncio, e Bruce Beutler, o  de Medicina;  e o israelense Daniel Shechtman, o de Química.

Uma rápida análise da lista dos agraciados com o Prêmio Nobel desde sua criação, em 1901, até hoje revela uma destacada participação judaica.  Entre as 850 personalidades , 180 são judeus; e a grande maioria deles, 157, atuam nas áreas científicas.

Não há dúvidas que uma das razões para essa significativa participação judaica é a importância que os judeus sempre atribuíram ao estudo e à erudição. O nível de reflexão e análise necessários para estudar o Talmud, que, em hebraico, significa literalmente “estudo” ou “aprendizado”, acabou afiando a mente judaica. Gerações após gerações inteiramente dedicadas ao estudo dos textos judaicos resultaram em incontáveis êxitos nos estudos laicos, pois é preciso uma mente inquisitiva para fazer descobertas e ter sucesso em novas áreas do conhecimento.

Este é, em parte, o motivo pelo qual os cientistas judeus são tão atraídos pelas ciências exatas, a área do conhecimento humano que Alfred Nobel tanto admirava. Albert Einstein, ganhador do Nobel de Física de 1922, é considerado o sucessor de Newton, Galileu e Copérnico. Ao descobrir a Teoria da Relatividade, Einstein revolucionou a Física do século 20, assim como toda a ciência moderna. Na época, na Alemanha, sua descoberta foi taxada de “Física judaica” e ele, assim como uma geração inteira de cientistas judeus alemães de seu tempo, tiveram que deixar o país.

Nas áreas de literatura e paz, também, o número de judeus vencedores do Nobel é proporcionalmente elevado, com nomes como Boris Pasternak, Shmuel Yossef Agnon, Nelly Sachs, Saul Bellow, Isaac Bashevis Singer, Nadine Gordimer, entre outros. E na categoria da paz, a lista inclui Henry Kissinger, Menachem Begin, Elie Wiesel, Yitzhak Rabin e Shimon Peres. Na área de economia, instituída apenas em 1969, a percentagem de judeus que receberam o prêmio chega a mais de 40% do total, entre eles o renomado Milton Friedman.

Parece insuficiente creditar todas essas realizações à importância dada à educação ou aptidão para o pensamento teórico ou até a um instinto de competitividade forjado durante a luta de dois mil anos para sobreviver e prosperar.Provavelmente, o desejo de compreender o mundo e desvendar seus mistérios e de melhorar a vida dos homens  seja um traço da cultura judaica. Talvez a explicação desse anseio esteja na própria essência do judaísmo e em sua contribuição à cultura ocidental. No pensamento judaico, toda Criação tem um propósito e cabe aos homens  aperfeiçoar o que foi criado por D’us.  Ao contrário de outras culturas e religiões, o judaísmo permite e estimula os homens a investigar, inventar e descobrir, e a curar. Ademais, foi  o judaísmo que introduziu  no pensamento ocidental  a noção dos direitos humanos de que todos os homens são iguais perante a lei divina e humana e que a vida e a dignidade humanas são sagradas.

Química
 
O  Prêmio Nobel de Química de 2011 foi para o cientista israelense Daniel Shechtman, do Technion - Instituto de Tecnologia de Israel. Ele, aliás,  foi o único do ano a receber o prêmio das áreas de ciências, individualmente. Shechtman foi premiado por sua descoberta dos quasicristais. Também chamados de Shechtmanite, são  estruturas da matéria antes consideradas impossíveis; são ordenadas, mas não periódicas. Más condutoras de eletricidade e extremamente duras e resistentes à deformação, essas estruturas podem ser usadas como material de proteção antiaderente.

O químico foi reconhecido por seu trabalho “notável, solitário, tenaz, baseado em sólidos dados empíricos”, destacou o comunicado da Academia. Derrubando paradigmas, sua descoberta alterou fundamentalmente a forma como os químicos concebem a matéria sólida.

A trajetória de Shechtman rumo ao Nobel começou, há 30 anos, na manhã de 8 de abril de 1982, quando uma imagem que contrariava as leis da natureza, até então aceita, apareceu sob as lentes de seu microscópio eletrônico. Os cientistas acreditavam que, na matéria sólida conhecida, todos os átomos eram organizados em cristais, que formavam padrões simétricos, repetidos periodicamente. Essa repetição era necessária para se obter um cristal. A imagem de Shechtman, contudo, mostrava que os átomos no cristal estavam organizados em um padrão que não se repetia. Ou seja, não era formado por unidades menores repetidas, mas por uma espécie de “mosaico árabe”. A descoberta foi controversa e, por divergir totalmente do que se conhecia até aquele momento, Shechtman foi afastado de seu grupo de trabalho e continuou suas pesquisas sozinho, enfrentando duras batalhas até finalmente ter suas descobertas reconhecidas.

Os padrões dos quasicristais são como os mosaicos periódicos encontrados em construções islâmicas medievais, como o Palácio de Alhambra, na Espanha, e o santuário Darb-i Imam, no Irã. Nesses mosaicos, assim como nos quasicristais, os padrões são regulares, seguem regras matemáticas, mas nunca se repetem. Seguindo a descoberta de Shechtman, cientistas produziram outros tipos de quasicristais em laboratório e encontraram formas naturais em amostras minerais de um rio russo. Uma empresa sueca também encontrou quasicristais em um tipo de aço, onde os cristais reforçam o material como uma armadura. Atualmente, os pesquisadores estão experimentando os quasicristais em diferentes produtos, como frigideiras e motores a diesel.

Nascido em Tel Aviv em 1941, Shechtman tornou-se o décimo israelense a receber um Prêmio Nobel. Com doutorado obtido em 1972 no Technion, em Haifa, é professor titular da cadeira Philip Tobias, na instituição. É docente, também, na Universidade Estadual de Iowa e associado do Laboratório Ames do Departamento de Energia dos Estados Unidos, na mesma universidade. Em 1999, Shechtman ganhou o Prêmio Wolf  e, em 1988, o Prêmio Israel, ambos em Física.

Shechtman relembrou, em entrevista ao comitê do Nobel, que fora rejeitado e ridicularizado pela comunidade científica e que o conceituado químico Linus Pauling, duas vezes laureado com o Nobel, chegou a dizer que não havia quase-cristais, apenas quase-cientistas!

Ele venceu por sua tenacidade, persistência e, por que não, teimosia. Com elegância e modéstia, respondeu que “um bom cientista deve ser humilde o suficiente para estar disposto a considerar novidades inesperadas e violações das leis pré-estabelecidas” e, ao jornal Haaretz, disse que desde criança sonhava “ser alguém que consegue o tudo do nada”. Este sonho ele realizou no momento em que tornou possível o que parecia impossível.

Ao cumprimentar o laureado pelo prêmio, o presidente de Israel, Shimon Peres, fez a seguinte declaração: “Sua vitória é uma promessa e uma esperança. Não há muitos países que têm ganhado tantos Prêmios Nobel. Você deu um presente maravilhoso ao Estado de Israel. Hoje é um grande dia para Haifa, para o Technion e para o país.
A lista de israelenses agraciados com o Nobel inclui: em 2009, Ada Yonath, do Instituto Weizmann de Ciências (Química) – a quarta mulher a receber o Nobel de Química; em 2004, Avram Hershko e Aaron Ciechanover, do Technion (Medicina); em 2005, Robert Aumann (Economia), da Universidade Hebraica de Jerusalém; em 2002, Daniel Kahneman (Economia), da Universidade Hebraica de Jerusalém; em 1994, Yitzhak Rabin e Shimon Peres (Paz); em 1978, Menachem Begin (Paz); e em 1966, Shmuel Yosef Agnon (Literatura).

Medicina  

O Nobel de Fisiologia e Medicina de 2011 foi o primeiro anunciado e foi outorgado ao canadense, Ralph M. Steinmann, ao americano Bruce A. Beutler, ambos judeus, e ao luxemburguês Jules A. Hoffmann, por suas pesquisas sobre o sistema imunológico humano. Eles foram responsáveis por desvendar os processos pelos quais o organismo humano reage a agentes infecciosos.

Em 1973 Steinmann descobriu as chamadas células dendríticas e seu papel nos mecanismos de defesa. Estas celulas ativam os linfócitos T, que identificam os antígenos para o sistema imunológico. Mais de 20 anos depois, Beutler e Hoffman desvendaram outra etapa desta cadeia de reações, com a descoberta de proteínas receptoras capazes de reconhecer moléculas de microrganismos agressores e ativar a imunidade inata do corpo humano por meio de inflamações que bloqueiam a atividade desses microrganismos. Segundo o comunicado do Instituto Karolinska , as descobertas dos três cientistas abriram novos caminhos para a prevenção e o tratamento de infecções, câncer e doenças inflamatórias e autoimunes e foram fundamentais para aprimorar vacinas contra doenças infecciosas e o combate a tumores.

Professor da Universidade Rockfeller, de Nova York, desde 1970, Steinmann morreu, vítima de câncer do pâncreas após uma luta de quatro anos, apenas três dias antes que o Comitê do Nobel anunciasse sua vitória. Chegou a aplicar nele mesmo uma imunoterapia à base de células dendríticas que prolongou sua vida, mas não evitou a morte no dia 30 de setembro último, segundo dia de Rosh Hashaná, aos 68 anos, em Nova York. A Academia não dá prêmios póstumos, mas só soube da morte depois de decidir laureá-lo. “Estou certamente muito triste que o Dr. Steinmann não possa receber esta notícia e sentir esta alegria”, disse Hansson à Reuters. “Ele foi um grande cientista”. Suas descobertas são a base da primeira vacina capaz de matar células tumorais, lançada no ano passado, e estão sendo usadas para desenvolver uma vacina contra a hepatite.

O americano Bruce Beutler, de 53 anos, foi o segundo cientista judeu agraciado com o Nobel de Medicina de 2011. É professor de genética e imunologia no The Scripps Research Institute de La Jolla, Califórnia. Jules Hoffman é luxemburguês e foi coordenador de um laboratório de pesquisas em Estrasburgo, entre 1974 e 2009, e presidente da Academia de Ciências da França, entre 2007 e 2008. A família de Steinmann ficou com metade do prêmio e a outra metade foi dividida entre Beutler e Hoffmann.

Física

Saul Perlmutter e Adam Riess, ambos judeus americanos, foram os ganhadores do Nobel de Física junto com Brian Schmidt, por sua descoberta da aceleração da expansão do Universo através da observação de distantes supernovas. Supernovas são explosões ocorridas no fim da vida das estrelas com muita massa.

Diretor do projeto Supernova Cosmology, do Laboratório Nacional Lawrence Berkeley, e professor da Universidade de Berkeley, na Califórnia, Perlmutter receberá metade do valor do prêmio. Schmidt, atualmente na Universidade Nacional Australiana, e Riess, do High-z Supernova Search Team, da Universidade Johns Hopkins e do Space Telescope Science Institute, dividirão a outra metade.

A descoberta foi feita em 1998, através da observação de um determinado tipo de supernovas distantes,  que mostraram que  o universo estava em expansão não lenta, como se pensava desde a década de 1920, mas cada vez mais rápida. Trabalhando separadamente em dois grupos ao longo da década de 1990, um liderado por Perlmutter e o outro por Schmidt e Riess, após observar dezenas de estrelas de grande massa explodindo no  final de sua existência,  constataram, com grande surpresa,  a aceleração da expansão do Universo.

Os estudiosos traçaram o mapa da expansão do universo por meio da análise de um tipo de supernovas, as 1A, consideradas ponto de referência por representarem explosões de estrelas cujas luminosidades são bem conhecidas e servem para medir distâncias. A descoberta mudou radicalmente a cosmologia, pois até então se acreditava que a expansão  fosse mais lenta. De acordo com os jurados do Prêmio Nobel, o estudo dos astrônomos permitiu novo entendimento sobre a evolução do universo.

Assim, dos sete ganhadores do Nobel nas áreas científicas, cinco são judeus. Suas Yidishe Mames devem estar muito orgulhosas!

Bibliografia:
www.haaretz.com
www.israelnationalnews.com 3-10-2011
www.jewishvirtuallibrary.org Jewish Nobel Prize Winners